21. Sobre Sentimentos Intocáveis

Sem alteração; que se mantém exatamente igual; sem danos; intacto: natureza intocada.


27
05
2019

— Obrigada por me receber, Lisa.

Entrar na casa de Lisa era uma sensação estranha. Rules só não sabia distinguir o porquê. Thomas explicou a situação a Rules, e sinceramente, ela não teve objeções ou reclamações. Mas teve que admitir estar surpresa. Porque realmente estava.

Mas feliz de certa forma.

— Você quer alguma coisa, uma água, um café? — Lisa questionou, a acompanhando para a sala.

— Não, obrigada. Eu só vim pelo Nolan mesmo. Não quero dar trabalho.

— Trabalho algum e sobre o seu filho...

— Obrigada! — Rules interrompeu. Lisa assentiu, torceu o nariz, mas sorriu. — O que está fazendo por ele, eu realmente agradeço.

— O seu filho é um garoto muito legal, Rules. Quando Thomas o trouxe para mim na primeira noite, eu imaginei que você entraria como um furacão no dia seguinte. Mas...não entrou. Eu fiquei surpresa.

— Eu tinha que resolver a minha vida antes de vir para cá. Tenho uma empresa e não dá para deixar tudo de lado porque uma criança está fazendo birra, Lisa.

— Thomas teria deixado tudo pelo Nolan. Mas você já sabe disso. Eu não quero me meter na sua vida e...

— Então não se mete. — Soou mais grossa do que realmente tinha intenção de dizer. Lisa assentiu, sabia que era um terreno delicado. — Eu agradeço, Lisa. De verdade mesmo. E de certa forma, estou feliz que você e Thomas estão se acertando. 

— É, eu também. Pra ser sincera. Estou surpresa. — Riu, nervosa e lembrou-se de como tinha ocorrido. — Ele confiou em mim para ficar com Nolan, então acho que estamos no caminho certo.

— E estão. Fico feliz. Mas imagino que isso não tenha começado com meu filho.

— Hum.... Não. Não começou. Ele me ligou a uma semana atrás, me chamou pra um café. Eu tinha consulta no veterinário com Stockler, e ele disse que iria também. Fomos ao veterinário, depois tomamos café. O Thomas... — ela hesitou, Rules notou. — Enfim, acho que eu é quem deveria agradecer. Ele me disse que você falou sobre perdão e entender o outro lado. Ele disse que não poderia esquecer, mas que não se apaga uma amizade de anos assim, tão rápido. E ele com certeza já está em outra, então... Eu fico feliz por vocês. Não existe mais um nós, mas ainda somos Thomas e Lisa. Ele é meu amigo.

— Lisa, eu... realmente admiro isso. O que estão fazendo, como estão fazendo. Você é boa demais para não manter por perto.

— Ele tem sorte, Rules. Sorte em ter você.

— Parece que as mulheres que Thomas teve na vida são espetaculares.

— Ôh se! — As duas riram.

No final das contas, ter ido sozinha pode ter sido a melhor escolha. Thomas insistiu para ir junto, mas Rules sabia que o primeiro encontro com Nolan tinha que ser entre os dois. Mais ninguém. O filho devia estar magoado, assim como ela. Com os pensamentos virados do avesso, pensando em tudo ao mesmo tempo. Mal conseguindo encaixar nada. Era como ela se sentia. E devido ao histórico dos dois nos últimos meses, ele devia estar na mesma.

A diferença era que Nolan era uma criança tentando lidar com a ausência da mãe, a presença, a ausência. O efeito sanfona da vida que Rules proporcionava a ele. E ele gostava da adrenalina. Gostava de ser o garoto mascote da torcida do Dortmund, por influência do tio Marco, gostava mais ainda de ser a estrela da base do Schalke 04. Ele amava tudo isso. Amava a vida que tinha em Dortmund. Sua família em primeiro lugar.

Mas Munich lhe proporcionou outra sensação. Uma que em todos os seus anos, ainda não tinha provado ao lado de ninguém. Ele se sentia num sonho. E quando Rules voltou para Dortmund, quando ela simplesmente escolheu voltar, foi difícil. Ele foi arrancado do sonho, às pressas, com raiva. Não entendeu o que se passava na cabeça de sua mãe. Rules conversava com ele. Naquela escolha, ela o ignorou. O tratou como em Dortmund. Já que estavam de volta a vida comum, então o personagem voltaria também.

De volta a falta de comunicação, a sensibilidade. De volta a vida agitada e ao trabalho exagerado. De volta aos fins de semana trancados num quarto estudando e menos, mas muito menos tempo para Nolan. E foi por isso que tomou a decisão de fugir.

Fora Lisa quem notou o corpo escondido atrás das persianas. Ela suspirou, sabia que esse era o seu momento. Que tinha que tomar a atitude por ele, já que os dois precisavam conversar. Ela levantou.

— Na esquina tem uma padaria e eles vendem um bolo de chocolate impecável. Eu vou lá comprar pra gente tomar um café.

— Não, Lisa, não precisa.

— Precisa sim. — Insistiu. — E eu acho que o Nolan vai querer sair de trás daquela cortina e vim até aqui conversar com a mãe dele.

Rules então encarou o local indicado e notou os pézinhos de fora. Seu primeiro instinto foi rir. Nolan sempre foi péssimo no esconde esconde. Lisa avisou que estava saindo, Rules agradeceu. De coração estava em dívida com Lisa por fazer tanto por eles.

Levantando-se ela foi até lá, mexeu nas persianas até elas revelarem o garoto. Nolan estava parado com os olhos fechados, não disse uma palavra. Rules o puxou para um abraço. Podia sentir todo seu coração florescer.

— Me desculpe. — Disse num sussurro.

— Você está chateada, mãe?

— Estou, muito. Você não imagina o quanto. — Ela segurou seu rosto, vendo o garoto abrir os olhos e ela sorriu acariciando sua bochecha. — Eu fiquei muito preocupada. Você não pode simplesmente fugir quando as coisas se complicarem.

— Você não ia me ouvir se eu falasse com você.

— Então você resolveu fugir? Não é assim. Devia ter conversado. Se não comigo, então com outra pessoa.

— Tinha que ser você, mãe. Mas você tava diferente. Você não me ouvia. Não ouvia nada que não quisesse ouvir. O tio Marco e a tia Iana fizeram coisas erradas. Tia Scarlett está triste. Você ama eles. Mas isso não é seu problema. Mas parece que é.

— Problemas de adultos, Nolan. Você não entenderia.

— Eu não quero entender, mãe. E também não tenho nada haver com isso. Só sei que está separando a minha família.

— A sua família está em Dortmund, super preocupada com você.

— Minha família é você. É onde você estiver. E se você não tá feliz... então a família não tá. Por isso eu não queria voltar para Dortmund. Em Munich nada atrapalhava a gente. Você estava feliz, eu também. E nós dois tínhamos o Thomas.

Rules negou.

— Em Dortmund ou em Munich, não faz diferença. Se ele gosta da gente, ele fica com a gente. Não importa a distância.

— Você não gosta dele, mãe? Pensei que gostasse. 

— É claro que gosto, Nolan.

— Então não devia se contentar em ter ele distante. — Ele disse, sentindo o olho formigar.

Partia seu coração ver o menino assim. Ela não queria se deixar levar pelo momento, mas pelo caminho que ele estava trilhando, sabia onde chegariam com essa conversa. E tinha a culpa por não conseguir enxergar antes, o que de fato: o estava incomodando. Já que para o mal ou para o bem, ela tinha ajudado a plantar o sentimento dentro dele. E não podia culpá-lo por nutrir agora.

— Eu não consigo ficar mais assim, mãe. Eu tento entender, mas comigo não funciona. Você deixou ele entrar na minha vida. Não pode querer que eu o mande embora agora só porque complicou. Me desculpa, mãe. Eu não quero que você brigue comigo. Nem com ele. O Thomas não tem culpa, ele só abriu a porta pra mim.

— Por mais que eu queira, eu não posso te prometer o que você quer, Nolan. Thomas não é uma propriedade, nem um bem. Ele é uma pessoa e ele tem sentimentos.

— E ele me ama. — Rules quis chorar. Nolan puxou a imenda para fora da camiseta, revelando a medalha de ouro do campeonato alemão. Thomas Müller era o nome gravado em ouro puro. — Thomas me deu isso e eu não duvidei que eu era importante pra ele. Desde que eu cheguei aqui, Thomas tem feito coisas que Marco sempre fez. Ir aos meus treinos, jogar videogame, pizza nos fins de semana. Mas eu nunca senti que Marco era meu pai. Mas eu...sinto com Thomas. Porque você gosta dele e porque ele gosta de você. Porque gostamos um do outro. Por que estamos separados? Família tem que ficar junta.

— Nolan, meu amor... — Ela pegou em sua mão e o trouxe para o sofá. As lágrimas no rosto do menino, Rules fez questão de limpar. — As coisas não são assim.

— Mas mãe...

— Não, Nolan. — Ela ergueu seu queixo. — Eu gosto muito do Thomas, gosto mesmo. De verdade, eu sou uma mulher muito feliz quando estou com ele. De alguma forma, ele me fez mais feliz nesses últimos meses do que eu podia sequer imaginar. Eu, Rules Maniza amo Thomas Müller. E sabe de um segredo? Ainda não contei isso pra ele.

— Ele sabe. — Nolan abriu um sorriso em meio ao sentimento de dor. — Eu conheço o Thomas e sei que ele sabe.

— Eu não duvido nada disso, meu filho. E eu sei que ele me ama. E não tenho dúvidas de que ele ama você. — O sorriso foi inevitável. — Mas não é assim. Não podemos ficar juntos só porque você quer um pai. Você tem um pai. Evan amava muito você e ficaria muito triste se o visse agora.

— Mas ele não vai ver, mãe. Ele não pode. Ele morreu.

— E quanto a Marco? — O questionou. — Ele é seu tio e tudo que fez por nós esse tempo todo não pode ser ignorado porque você não o considera. Ele estava lá quando você fez seu primeiro gol, quando chutou sua primeira bola, quando ganhou seu primeiro campeonato. Ele te apoiou em todos os momentos da sua vida. Thomas pode ser importante, mas...

— Mas ele me conheceu agora. — Nolan suspirou. — Não tem como eu amar ele mais do que eu amo Marco.

— Amor não é tempo, Nolan. Nunca foi. Amor é amar. É o sentimento de sentir de mais, não de menos. Não tem linha do tempo nos confins do amor. Você pode amar quem quiser e da forma que quiser. Mas não pode ignorar os sentimentos das pessoas que estão ao seu redor e que amam você.

— Eu não tô ignorando o tio Marco. Mas ele não pode te fazer mais feliz. Ele te magoou, mãe. Ele fez você chorar e a tia Scarlett também. Ele brincou com a tia Iana. Ele não é mais o meu exemplo de respeito na família.

— Seu tio pode ter cometido muitos erros, mas ele nunca te daria um mal exemplo. Ele errou muito, meu filho, mas você nunca o ouvirá dizer para você que o que ele fez é certo. — Não sabia porquê o estava defendendo, mas Marco era o exemplo de Nolan. Ela não podia permitir que isso se estragasse agora. — Seu tio te ama, Nolan. Você pode gostar dos dois. Marco vai entender.

— Mas e você, mãe? Ele era a pessoa que você mais gostava no mundo e do nada... Vocês nem se falam. Você não ama o tio Marco mais?

Não amava?

É claro que sim. Por mais que estivesse chateada, ainda amava Marco. Amava tanto que sentia sua falta. Nos últimos tempos tudo estava um caos, e ele era a pessoa que ela queria ter ao lado. Infelizmente, estava sendo difícil sem ele. Mas ainda amava ele.

— Eu amo seu tio também, Nolan. Só estamos passando por uma fase difícil.

— Você perdoou ele? Eu sinto falta de nós também...

Ela também sentia.

— Eu vou conversar com ele, tá legal? Eu prometo. Só não se preocupe com esses problemas de adulto. Você é criança, então tem que ser criança. Quando nossos problemas começarem a mexer com você, então perderá parte da sua infância. E eu não quero isso. Eu falo com Marco, você não se preocupe com nossos problemas, ok?

— Promessa em troca de promessa? — Ele estendeu o mindinho.

— Promessa por promessa. — Rules engatou o mindinho no dele.

— E tem que me prometer outra coisa também. — Rules ergueu a sobrancelha. — Que vai dizer para o Thomas que você ama ele.

— Ah, Nolan. Isso é golpe baixo.

— Promessa por promessa. — Ele insistiu ainda segurando o dedo dela.

Rules torceu o nariz fazendo careta. Seu filho era tão empreendedor quanto ela. A final, estava no sangue. Por fim ela sorriu e o puxou para outro abraço. Nolan era esperto demais em muitos quesitos, mas tinha errado em uma coisa. Não era Marco sua pessoa favorito. Era Nolan. Nolan Maniza era sua pessoa favorita.

• × • × •

Thomas já estava inquieto sentado naquele sofá. Já faziam uns 40 minutos que Rules tinha saído. Ele queria ir atrás dela, mas ela bateu o pé. Recusou sua presença. E ele entendeu a final de contas. Ele precisava dar espaço a ela. As vezes pensava que espaço demais a faria escapar. Droga. Por que estava demorando tanto? Era só pegar Nolan e voltar. Mas não, que demora. Ouviu as batidas na porta e saltou do sofá, indo receber Rules. Mas para a sua surpresa não era Rules, apenas Marco. 

Seu primeiro instinto foi fechar a cara, mas Thomas sabia que não importa o quanto tentasse parecer ignorante, a curiosidade era maior.

— O que você está fazendo aqui?

— Eu tinha que falar com a Rules. Ela não atende minhas ligações, então vim pessoalmente perguntar o que está havendo. Ela só veio pegar Nolan. Que droga de demora é essa?

Sutil.

— Você sabe que isso não vai fazer ela falar com você, se ela não quiser, certo? — Thomas quis gargalhar na cara dele. Mas sentiu pena da situação, então após debochar da cena, deu espaço para Marco entrar. — Mas entra aí.

— Eu não sei o que você acha que eu tenho a perder com isso, mas não tenho. Então além da passagem do avião, se ela não quiser falar comigo, eu não perdi mais nada.

— Tristeza pra mim ouvir você dizendo isso.

Marco viu a mala preta com os chaveiros de Aladim presos nela. Foi impossível não dar um sorriso mediante a cena, embora não estivesse surpreso com aquilo.

— São as malas da Rules. — Apontou, Thomas confirmou. — Ainda não entendo porque ela veio para cá.

— Ela veio me ver, por que ela iria para a casa?

— Ela veio buscar o filho dela.

— E isso impede ela de vim pra cá? — Riu. — Quem é você mesmo para falar sobre regras e impedimentos?

— Eu devia muito ter quebrado toda a sua cara lá em Dortmund.

— Acho que perdeu sua chance.

Thomas sabia que vontade não faltou e provocação também não. Thomas debochou de Reus e se sentou no sofá, e Marco resolveu fazer o mesmo, descansando o peso no acolchoado chato e coberto de plástico. Ambos suspiraram e olharam um para a cara do outro, Reus deu risada. Thomas negou, acompanhando o amigo.

— Eu não contei para Rules sobe você e Iana. Apesar de ter ficado muito tentado, eu não fiz isso. Pelos nossos anos de seleção e pelo respeito que tinha adquirido por você. Eu posso ter ficado com muita raiva e admito que fiquei, mas eu não contei.

E Marco sabia disso.

— O James contou. — Thomas assentiu. — Ele era o cara que eu imaginei que faria nosso relacionamento desandar, mas não foi ele. Fui eu, desde o início. Quando menti para Rules, quando falhei com Iana, quando trai Scarlett. Desde o início eu estava fracassando e não conseguia ver isso.

— Porque você é um babaca.

— E porquê eu sempre tinha a Rules para puxar minha orelha quando estava fazendo merda, e daquela única vez, eu não podia contar com ela. Eu não podia envolvê-la nisso. E sinceramente, mentir para ela me quebrou. Eu nunca tinha feito isso.

— Vocês são muito próximos.

— Eu estou do lado dela desde que Evan morreu, eu nunca achei que ela se tornaria tão importante. Só que do nada ela era e eu não podia perder essa pessoa. Mas eu sabia que se ela soubesse sobre Iana, então era o fim. Eu ia perder a Rules, como acabei perdendo agora.

Thomas concordou com tudo porque sabia que era o que podia fazer. Mas no fundo queria dizer a Marco o quanto era estúpido e burro, o quanto tinha conseguido em um joguinho masoquista: perder 3 mulheres importantes na sua vida. Não tinha dúvidas que Iana amava Marco, pela forma que Rules contou a ele. E vendo Marco agora: sequer pensou na possibilidade de Marco não amar Iana. E tinha Scarlett, que apesar de ser a mais prejudicada ali, ainda conseguia ser a mais neutra também. E Rules tentando se opor a ambos os lados, criando uma guerra consigo mesma. Proteja irmã = Proteja melhor amiga.

— Então você acha que vindo até aqui, fará ela mudar de opinião a seu respeito?

— Eu sei lá. Só tinha que tentar.

— Legal. Te desejo sorte. — Marco levantou a cabeça, vendo o sorriso contrário de Muller. — Só que eu conheço aquela mulher, e ela vai chutar você daqui a pontapés. Vou carregar a câmera porque vai ser um daqueles momentos: Sem provas, sem acontecimentos.

— O seu apoio é essencial.

— Então, parceiro fica a vontade. Ela disse que não ia demorar, mas já se passou muito tempo. Não sei exatamente quando ela vai voltar. Fica aí e espera.

— Eu farei isso, Thomas. Valeu.

Só não contavam que no próximo segundo Rules já estivesse ali, atrás daquela porta, com a mão colada na maçaneta. Ela ouviu a voz de Marco e seu primeiro instinto foi sair correndo. Ela sabia que cedo ou tarde teria que enfrentar Marco. Já tinha tido aquela conversa com Iana, com Scarlett. Agora só faltava ele. E mais do que ninguém, Marco tinha o direito de contar o seu lado da história. Por mais babaca que ele tenha sido. Ele merece a chance de explicação, já que até mesmo Iana tinha sido ouvida.

Nolan observou calado quando a mãe parou de frente para a porta e demorou para tomar uma atitude. Marco Reus, logo concluiu. Ela disse que amava Marco, mas não disse que o tinha perdoado. Só que conversariam. Era um começo para ele, mas não era o suficiente. Ele queria vê-la sorrindo, brincando, brigando com Marco por futilidades. Era o costume. Era o que via sempre no seu dia-a-dia. Menos que isso não era comum. O assustava até. 

— Eu sei que ele veio pra me ver. Eu abro. — Nolan segurou a mão dela, e girou a maçaneta com a outra.

Marco estava sentado no sofá, Thomas ia para a cozinha, mas parou o caminho na metade. Marco se agitou no sofá, Nolan soltou a mão da mãe e abraçou o tio. Thomas não tirou os olhos da mulher, meio aérea no ambiente. Ele viu como Rules ficou desconfortável ao ver Marco ali. Thomas, Nolan e Rules eram um trio. Marco não se encaixava ali. Era o mundinho deles onde não havia problemas.

Marco estava invadindo.

— Você nos deixou preocupados. — Marco bagunçou o cabelo do garoto.

Nolan começou uma meia explicação sobre como isso aconteceu. Rules mal tinha se movido até então. Thomas notou a mudança.

— Eu vou na cozinha beber água enquanto vocês.. conversam.

E então ela partiu. Marco a ficou vendo se afastar. Quando ela sumiu, ele respirou fundo. Nolan balançou a cabeça. Por que os adultos são tão complicados? Marco tinha o que falar e Rules tinha motivos para ouvir. Mas os adultos faziam parecer um filme de terror. Thomas foi atrás dela. Rules tinha acabado de abrir a geladeira. Müller observou calado ela encher o copo e esvaziar rapidamente. Um sorriso de canto e ele concluiu:

— Eu não o convidei.

— Certamente que não.

— Então por que está assim?

— Quer mesmo conversar sobre isso? — Ela ignorou sua pergunta. Thomas deu a volta no balcão, parando ao lado dela. — Nolan me pediu para ficar com você para ele ter um pai.

— Uau.

— Pois é. Acho que a nossa guerrinha interna de ficar ou não juntos provocou sentimentos confusos nele. A culpa é minha.

— A culpa é nossa.

— Não importa de quem seja. Ele é só uma criança com esses sentimentos bagunçados explodindo dentro da cabeça. Você não é o pai dele. — Thomas a virou de frente para ele.

Será que Rules se ouvia ou simplesmente soltava as palavras para fora, sem se importar se elas afetariam ou não quem estivesse ouvindo? Porque por mais boba e   sem graça que aquela frase foi chegando ao fim, Thomas sentia que era mais deixado de lado. E sim, ele não era o pai dele. Thomas sabia. Não precisava ficar repetindo.

Rules fechou os olhos.

— Talvez ele tenha razão e você deva mesmo ficar comigo para eu te ajudar a criar ele. — Müller sugeriu, como se sugerisse um filme para a sessão da tarde. Rules abriu a boca, mas infelizmente nada conseguiu formular. — Eu gosto dele, Rules. E consequentemente de você também. E não venha pensando que eu gostei de você primeiro não. Meus sentimentos por você são apenas um bônus.

— Isso não é hora para as suas brincadeirinhas, Thomas. — Rules tentou afastar as mãos dele, mas Thomas a segurou firme.

— Em alguns momentos brincar não é meu forte, Rules. Estou sendo sincero.

— Sobre o quê?!

— Sobre querer ficar com você. Ficar com Nolan. Ficar juntos. — Como um alarme soando, ela quis se afastar. Thomas a deixou sair de perto dele, vendo como estava implorando com o olhar. — O que mais você quer de mim, Rules?

— Eu não sei, Thomas. Eu não sei.

Disposta a encerrar o diálogo, Rules escorou no balcão, apoiando os cotovelos na pedra de granito. Thomas a viu hesitar. Ela a viu fechar os olhos, a viu suspirar, respirar fundo. Nervosa, incerta, inquieta, fujona.

— Por que quando se trata de nós você nunca enxerga lá na frente? — Ela levantou a cabeça vendo a exaustão no olhar perdido dele. — Você nunca quer ver nada além do agora. Eu quero mais. Eu vejo mais pra nós. E pelo jeito, o Nolan também. Por que você não?

— Porque eu tenho medo.

— De mim?

— Disso aqui. — Thomas a olhou incrédulo apontar o dedo para um depois para outro. — Não tem mais só a ver com nós, Müller. Antes fosse. Agora eu tô lidando com os sentimentos do meu filho e a última coisa que eu quero é magoar ele.

— Eu amo o Nolan! O que mais você quer que eu diga?

— Nada, Thomas. Nada. Eu não quero que diga mais nada. Eu tô tentando lidar com já muitas informações que recebi. Não precisa me dizer mais nada.

Um suspiro.

Como queria estar irritado com ela agora. Queria muito. Queria estar irritado num nível que obrigaria ela a retirar quaisquer dúvidas que ainda restasse em relação aos sentimentos dele. Em relação as intenções dele. Mas não conseguia. Por mais irritado que quisesse estar, ele não conseguia.

Ela era uma pessoa vulnerável usando uma capa de super força, tentando aguentar tudo e proteger todos. Não estava ao seu alcance, mas ela continuava lá: Querendo proteger quem amava. Querendo dar certezas. O que Thomas poderia lhe prometer? Amor eterno? Ele podia dá-lo a ela agora e podia prometer que se ela quisesse, cuidariam dele juntos para que não os sufocasse depois. Era o que ele podia fazer.

E foi com esse intuito, que se aproximou dela novamente, mesmo sabendo que ela queria distância. Que estava com a cabeça cheia. Rules sentiu a mão dele repousar na sua cintura, Thomas a virou de frente e segurou seu pescoço com a mão livre. Beijou sua testa. Tentou segurar, mas não conseguiu evitar a lágrima que escorreu.

— Está pensando demais novamente, Rules.

— Se eu não pensar, quem é que... — Ele a calou com um selinho. Rules se surpreendeu. — Eu... — E novamente. — Thomas, pode por favor...

Ele a segurou pela cintura, a apertando contra o balcão e colou seus lábios nos dela.  Não era o caminho para o diálogo que estavam formando antes, mas ele sequer pensou nisso quando intensificou o beijo. Rules o sentiu apertar sua coxa, ela passou os braços ao redor do seu pescoço. Não esperava que ele tomasse aquela atitude agora, a colocando sentada sobre o balcão.

Ela arfou quando ele puxou levemente seu cabelo para trás, a obrigando deitar a cabeça e beijou seu pescoço. Ela gemeu. Thomas a mordeu, ela quis gritar. Não podia. Ele então correu os dentes pelo local marcado pela sua mordida. O alemão enfiou a mão por debaixo de sua camiseta, algo caiu na sala. Rules segurou sua mão.

— Thomas! — Ele então parou. Enfiou o rosto no pescoço dela e desatou a rir. Droga. Não podia se deixar descontrolar assim.

— Quer saber de uma coisa? Senti a sua falta, Rules. Como senti... — Ele tentou se afastar, Rules o impediu com as pernas ao redor da cintura.

— Quer saber de outra? Senti tanto a sua falta que meu filho vai ganhar remuneração por ter me arrastado até aqui. — Ela segurou seu rosto. — Você não faz idéia do quanto — E o beijou novamente. — E sobre o que você disse...

— Não precisa falar nada. Eu entendo que você teve uma história com Evan. Uma que começou e terminou a muito tempo, mas que foi intensa pra você. Você cresceu com ele, se apaixonar não foi difícil, mas você cedeu porque era ele. Porque era o Evan. E agora eu cheguei e quero amor? — Ele riu de si próprio. — Não se preocupe. Eu não tenho pressa, eu não quero que corra. Eu estou aqui e quero que saiba sim, que penso num futuro pra nós. Eu, você e Nolan. Eu penso em nós, Rules. Quero que passe a pensar assim também. Mesmo que leve o tempo que for.

— Tenho medo de acordar e descobrir que você foi só um sonho.

Thomas a beijou, e logo então a abraçou. Com essa mulher sentia que poderia ir ao fim do mundo e voltar. Rules brincou com os dedos no cabelo dele. Até serem flagrados:

— Mãeeeeee, o tio Marco vai me levar... — Nolan se calou vendo a mãe sentada na bancada abraçada a Thomas. — Credo. Você não deixa eu sentar na bancada lá em casa.

— A do Thomas é mais resistente.

— Não justifica. Olha o mal exemplo, Rules. Credo.  — Thomas entrou na pilha do garoto. Rules o fuzilou.

— Nossa senhora, que cena. — Marco bateu na cabeça, rindo dos dois. — Eu e Nolan vamos comer pizza. Vocês querem vim?

— Não.

— É, na verdade não. — Rules concordou.

— Foi o que pensei. — Marco concluiu. — Vamos chegar tarde, então vou levá-lo pra dormir comigo. — Coçou o pescoço descaradamente. — Por precaução.

— Até amanhã.

Os dois se despediram e saíram juntos. Thomas caiu na gargalhada ao ver a cara de vergonha de Rules.

— Não tem graça. — Ela o repreendeu.

— Você está com uma mordia enorme no pescoço.

Imaginem que um dos acontecimentos mais dolorosos e impertinentes do seu passado esteja prestes a ser revelado ao mundo. Ao seu mundo. Ao mundo que você não sabe se está preparado (a) para viver.

É como Rules se sente com os sentimentos que Thomas desperta em si. Por muito tempo, só teve espaço para Evan em seu coração. E de repente, ela cai de amores por outro alguém. O que parece só mais uma história de superação e amor, se resume em fatos.

Não crê? Apaixone-se!

Não tem espaço para dúvidas no amor. E é por isso que nesses últimos momentos de Indestructible nós vamos conhecer o amor Rules em fases. Seja por ela mesma, por Thomas ou pelas pessoas que estão em sua vida.

Pegue a pipoca, se enrole em um cobertor, garanta a caixa de lenços e comentem bastante. Vamos finalizar com estilo como eu sei que vocês podem nos proporcionar.

Até o próximo, meus amores.

@rulesmaniza
@ianamaniza
@storeluminosita

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