20. Alguém tem que ceder
30. 05.2019
"O segundo aniversário. Rules esperava estar ocupada demais para notar quando o segundo aniversário chegasse. E sim, ela estava ocupada. Trancada no quarto, com uma revista em mãos e outras cinco empilhadas em cima da mesa, ela tentava focar nos estudos. A faculdade a todo vapor.
Só que não era possível. Instintivamente, ela olhou para o berço. Nolan dormia serenamente. Estava apagado já algum tempo. O frio e o clima úmido deixavam o garoto exausto. Não só ele. Rules também sentia que seu corpo e sua mente imploravam um descanso, mas ela não conseguia simplesmente sentar e esperar. Toda vez que desocupava a cabeça, seu consciente a levava de volta ao momento em que recebeu a notícia de que tinha perdido Evan.
Seu coração bateu tão depressa que ela pensou que ele explodiria. Na cabeça, tudo foi do rápido ao lento em questão de segundos. Respirar pareceu doloroso. Ela começou a sentir os joelhos querendo ceder. Não soube de onde tirou forças para não cair. Só conseguiu se recuar e desmanchar em lágrimas. Tudo doía. Da consciência ao físico. Evan era tudo. Tudo que ela achava um dia não poder conquistar. Amor e vitória. Ele lhe deu tudo. E no segundo aniversário, ela não queria apenas pensar nisso.
Disposta a deixar o pensamento de lado, Rules largou as revistas e se colocou ao lado do berço. Nolan estava leve, com um sorriso que ia e vinha. Rules sorriu também. Seu bebê era tão lindo. Em breve também completaria seus 2 anos. E esse tempo estava voando feito um passarinho. Agora era tão fácil acompanhá-lo de longe, mesmo que a distância.
Ouviu o som da maçaneta soar, e a porta se abriu revelando um Marco Reus para ela. Reus hesitou ao entrar, vendo Rules ao lado do berço observando o filho. Os olhos que encararam o alemão deixavam nítido sua dor. E ele soube que estar ali era o que deveria fazer por ela pelo resto da vida.
— Pensei que você e Scarlett fossem sair juntos. — Marco fechou a porta, já em negativa. Rules secou uma lágrima e voltou a encarar Nolan.
— Não hoje, Rules. Nunca no dia de hoje.
— Você não precisava ter vindo aqui. Eu estou bem, você sabe.
— O que sei é que eu não queria estar em outro lugar. Nunca ia querer. — Ela respirou fundo, sentiu seu peito doer. — Eu prometi que estaria com vocês.
— Eu não preciso de você agora, Marco. Nunca precisei.
— Mas eu sim, Ru. Eu preciso de você.
Marco a abraçou, Rules ficou parada no lugar. Sentiu quando ele respirou fundo, os braços dela continuaram para baixo, sem tocá-lo. Marco respirou fundo novamente, sentia seu mundo caótico. E num dia como o de hoje, estar longe de Rules o fazia se sentir em débito com Evan. Ele nunca poderia estar em outro lugar, quando tinha que estar ali.
— Marco...
Ela o chamou. Seu coração apertado. Podia ouvir o som dos soluços escapando. Ele estava chorando? Rules então fechou os olhos, e passou os braços ao redor dele. Cedeu ao momento.
— Me dê só um segundo. — Ele implorou.
— Tudo bem, Reus. Eu tô aqui pra sempre.
— Eu prometo que sempre vou estar do seu lado, Rules. Você é o mais próximo que tenho dele agora.
— E você é o meu melhor amigo. Obrigado, Marco."
Naquela época era tão mais fácil para eles. Marco era o melhor amigo, Rules a melhor amiga. Eles eram unidos, se apoiavam e respeitavam. Não tinha cara feia, nem mágoas. Eles ficavam juntos em todos os momentos e faziam dar certo. E dava. Pela amizade, pelo carinho. Não tinha como dar errado. Mas então Marco fez o que fez, do jeito que fez e magoou Rules, uma das pessoas que ele mais sabia: ser leal a ele.
E vê-la ali, quieta e sem trocar uma palavra com ele partiu seu coração. Rules tinha que ir a Munich, buscar Nolan, esclarecer umas coisas. E ele disse que iria também. Ela recusou. Mas é Mark bateu o pé e quem dita as últimas palavras é ele, pelo menos foi o que Rules concluiu para não brigar com o pai, e foi por isso que Reus entrou naquele avião com ela. Por respeito, decidiu que não era o momento certo de tentar conversar com ela. Rules o ignorou no caminho para o aeroporto, o ignorou quando entraram no avião. Acentos separados, a viagem correu bem. Quando desembarcou, pegaram um táxi juntos.
Zero troca de palavras.
Ele se sentia mal. Quando o táxi os deixou no condomínio, Marco sentiu toda a nostalgia vir a tona. Apesar da reforma recente, a arquitetura do prédio e o designer interior continuavam o mesmo. Ele lembrava de cada detalhe.
— "O que você acha? — Evan perguntou eufórico, Reus tinha entrado junto com o melhor amigo pela primeira vez, no que ele julgaria ser o receptáculo da família dele.
— Mano, Rules vai amar. Vai ser ótimo pra criar o Nolan.
— Você acha mesmo que ela vai gostar?
— Convenhamos, Evan, Rules Maniza mal quer saber se você tem um teto pra morar. Ela só quer você.
E o sorriso de Evan deixou explícito o quanto estava feliz. O quanto estava radiando de curiosidade e ansiedade de iniciar essa nova fase da sua vida. Sua namorada estava grávida, seu filho em alguns meses viria ao mundo, o casamento estava pra bater já nas próximas semanas. Tudo ia bem. Tudo. Tudo. Exatamente tudo. Nada podia estragar."
Nada.
Era o que pensava.
Marco viu Rules acionar o botão indicando o andar para onde queria ir. Notou logo que era um andar antes do que antes morava.
— Andar errado.
Mas ela não respondeu. Sequer fez esforço para olhá-lo. E doía tê-lo ali tão próximo e se sentir tão longe do amigo que conhecia. O elevador parou, Rules arrastou sua mala para fora. Marco resolveu seguí-la, já que se via em solo desconhecido.
— Marco, não. — Rules o pediu para parar. — Eu vou falar com Nolan no apartamento de Thomas e você pode ir subindo.
Argh.
— Agora você fala comigo? — Questionou, se sentido deixado para escanteio. E não era para esperar de menos.
Mas ela nem se deu ao trabalho de responder. Apenas virou as costas e deixou Marco lá. Reus nem lembrava os xingamentos que passaram em sua mente. Ele só voltou para o elevador e seguiu caminho.
ווו×
O cheiro do ovo queimando fez Thomas voltar correndo da sala, indo direto para o fogão constatar que tinha queimado seu terceiro omelete da semana. Se odiou, enquanto despejava o estrago na sacola para jogar no lixo. Mal conseguia fazer uma coisa simples, sem estragar tudo. Estava uma pilha de nervos e sabia que a tendência era só piorar. E pra facilitar — ou não — sua vida, ainda tinha tido a brilhante idéia de dispensar sua cozinheira que vinha uma vez por semana.
Mas era por uma boa causa. Ele estava pronto para se mudar. Prontissimo, na verdade. A casa inteira estaria em um caminhão para fora já na próxima semana. E era por isso, que ainda não tinha ido ver Rules em Dortmund. Queria deixar essa parte de sua vida organizada, antes de ir vê-la novamente.
Mas se tinha um certeza: era que o prédio nunca foi tão sem graça, quanto estava agora. Desde que se mudará no ano passado, não tinha sentindo falta de nada, nem tomado pelo sentimento de vazio. Mas aí Rules chega, acostuma ele a tê-la por perto, e então ela vai embora. E agora estava morrendo de saudades de estar perto de Rules e Nolan. E não estranhou que o sentimento fosse recíproco quando Nolan Maniza bateu na sua porta duas noites atrás.
O menino chegou quando a sol caiu. Thomas tinha acabado de voltar do Allianz, estava se reunindo com seus empresários e os do Bayern para conversarem sobre seu futuro no clube. Ele amava o Bayern, tinha uma dívida de gratidão eterna com os Reds alemães. E estava feliz que tinha renovado seu contrato, passou no mercado, enviou algumas mensagens para Rules e foi para casa. Deu de cara com o menino no saguão do prédio. "Ele estava a sua espera", foi o que o porteiro disse. Thomas o levou para dentro e após dois minutos de conversa, constatou que ele não tinha permissão de estar ali.
E foi assim, que ali agora, dois dias após o ocorrido, ele abriu a porta para Rules Maniza. Deixou um beijo nos seus lábios, deu passagem para ela. Não sabia descrever, mas o clima estava diferente entre eles. Rules observou as caixas no canto, os móveis cobertos com plástico.
— Onde ele está?
— Você devia reconsiderar a força bruta e a ignorância. — Müller alertou. — Ele é só um garoto e está chamando sua atenção.
— Ele não devia ter feito isso. Não se resolve assim.
— E como se resolve? — "Thomas o defenderia", foi o primeiro pensamento da mulher. — Ele me disse que as coisas estão diferentes em Dortmund. Que vocês, que você não se empenha.
— Eu me empenho muito, Thomas e você saberia se estivesse lá!
Não adiantava conversar com ela. Thomas deu de ombros, Rules suspirou. O que estava acontecendo com ela? Por que estava tão perdida? O plástico do sofá chiou ranhoso e barulhento quando Rules sentou nele, e Thomas resolveu fazer o mesmo, descansando o peso no acolchoado barulhento ao seu lado. Já nem sabia mais descrever o momento exato em que se viu toda perdida assim. Tinha deixado as coisas escaparem por entre seus dedos. Os problemas dos outros estavam a consumindo. Deixou Marco, Scarlett, Iana a engolirem e fazer ceder. E ela não podia deixar isso acontecer.
Tinha prioridades na vida.
Nolan era prioridade.
E foi pensando nisso que derramou a primeira lágrima. Sentiu a mão de Thomas massagear seu ombro. O alemão a puxou contra seu peito. Rules Maniza desabou, como ela sabia que já devia ter feito a tempos. Desmoronado. Se permitir chorar. Se permitir ser alguém que não é forte o tempo todo.
— Tudo bem, Ru, tudo bem.
— Não, não está, Thomas. Se nem meu filho quer estar ao lado, acho que tem algo bem errado que estou fazendo.
— Eu não sou especialista, Rules, mas acho que você só tá correndo mais que as próprias pernas. Olha pra mim, meu amor... — Ela segurou o choro, se mantendo fixada nele. — Não tá errada, só foi um erro. Eu diria que... uma série deles, mas tudo bem. Nolan vai entender. Só você chegar com diálogo e não com raiva. Ele quer sua atenção por um motivo. Você nem imagina qual seja?
Como que engolindo o orgulho, ela sussurrou:
— Eu tô me afastando.
— É o que quer?
Thomas a queimava com o olhar. Se sentia nua tão exposta, tão vulnerável. Foi por isso que se afastou. Thomas notou a ação bruta, mas nada disse a respeito. Sabia que a pilha de nervos dele, nem se comprava a pilha dela.
— Eu sei que está difícil, Ru.
— Você não sabe nada, Thomas. Só porque presenciou alguns dos meus momentos de fraqueza, não significa que sabe tanto quanto pensa.
— Eu sei o que preciso saber.
— Não sabe. Você sabe o que quer saber, mas não enxerga nada além disso. Não me vê, não entende. — As lâminas escorrendo pelo rosto doíam no interior de Thomas, isso Rules podia notar. Mas não importava. Não quando ela estava magoada. Não quando tudo parecia querer ferir a ela.
— Tá enganada. — Ele se levantou, Rules se afastou quando ele tentou se aproximar. — Posso não saber o que você quer que eu saiba, mas eu conheço você, Rules. Conheço o suficiente para saber que você precisa de mim e que me quer por perto. Pode estar confusa em relação a sua vida atual, em relação a sua família neste momento, mas não sobre mim. Não tem confusão sobre mim. E eu sei como você é forte. Aliás, ninguém é mais forte do que você. Você é única. Passou tudo que passou com Evan, Nolan, Iana e sua família toda. Você passou tudo e continua aqui. Tá de pé, firme e pronta para guerrear pelos seus. Eu sei, Rules. Mas até o guerreiro maior tem direito de errar as vezes. E a sua decisão tá errada. Então, se eu confio nos meus instintos eu abro eles pra você. Goste ou não. Sinceridade é o meu dom maior. Então acredite em mim quando eu disser que eu sei, Rules. Eu sei. Sei mais do que deveria e menos do que gostaria. Eu sei. Não me arrependo de saber, mas não vou deixar que diga que não sei. Que não me importo. Eu me importo. Eu sei. Não pode me afastar.
Ficou frio de repente. Rules engoliu as palavras de raiva, engoliu toda sua mágoa. E riu. Thomas não soube dizer o que foi mais estranho: a risada ou o fato dela ter feito isso logo após seu discurso, que ele julgou por si só, ter sido muito bom. Não motivo de risadas.
— Rules?
— Tudo bem. — Ela disse, limpou as lágrimas com a manga do casaco e estendeu os braços para Thomas, sendo abraçada. — Me desculpa. Eles fizeram Marco viajar comigo e eu estou tão irritada.
— É por isso que não pode falar com Nolan agora.
— Eu sei, eu sei. — Os pés de Rules saíram do chão. — Não quero descontar nele.
— Tudo bem, ele não está aqui agora.
— E onde está? — Perguntou, assim que ela a pôs no chão.
— Com a Lisa.
— Eu espero que você tenha uma explicação das boas, Thomas Müller.
✨ É hora de morfar!
Gente, voltei das cinzas. Antes que me matem pelo quase mês inteiro sem capítulo, eu queria dizer que: não tem justificativa não, podem me matar.
Enfim, estamos voltando.
A partir de agora faltam 5 capítulos para a gente finalizar. E eu já quero agradecer muito quem chegou até aqui. Esses momentos são realmente bons, porque a gente vê quem foi corajoso o suficiente pra chegar até o final. Começar algo é fácil, chegar ao fim com ele; nem tanto.
Então meus parabéns!
✨
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Nos vemos - prometo - brevemente.
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