10.Orgulho: Luminositá Parte 1

Agradar a si mesmo é orgulho; aos demais, vaidade.
Paul Valéry

20.
04.
2019.
🌼

10 minutos atrás o relógio já havia batucado seu último alerta os notificando que já passara das 19:00. O lançamento já havia começado e pouco a pouco, ela via o ambiente se preencher de pessoas, as quais desejou compartilhar esse momento junto.

— Tô entrando, espero que não esteja nua.

Marco abriu a porta. Sem se mover, ela o viu pelo espelho. Elegante como sempre, com o costumeiro sorriso transbordando no rosto. Ela via Marco como um alicerce, tinha que admitir que tê-lo ao seu lado grande parte da sua vida, tornou tudo mais fácil.

— Como é que está o coração? — Ele parou atrás dela, abraçando-a por trás, mantendo sua cabeça na altura dos ombros.

— Batendo dentro do peito.

— Fico agradecido. — Brincou. Rules riu, se levantando da cadeira. Marco se afastou e a analisou. — Está linda.

— Para quem tem o dom, é fácil.

— Seu senso de humor é maravilhoso, Rules. Até sinto falta dele diariamente em Dortmund. — Confessou, arrancando um sorriso manhoso, e recebendo o abraço em seguida. — Sinto muito sua falta.

—  Sua voz não está 100% Marco Reus. — Reparou no tom triste da confissão do amigo, e levantou a cabeça para olhar em seus olhos. — Está tudo bem?

— Eu sou um homem com um neném recém nascido em casa. — Riu, informando. — A Marcinha chora muito.

— Eu imagino que sim, ela é uma graça. — A pequena tinha traços de Reus e Scarlett gritantes por toda ela. — Tô muito feliz que vocês conseguiram estar aqui.

Batidas da porta foram ouvidas antes que ela fosse aberta, e uma Scarlett passasse por ela com uma miniatura dengosa nos braços.

— Olha quem veio desejar boa sorte para a Dinda antes da noite realmente começar. — Scarlett trouxe a pequena para Rules, que soltou logo de Marco, pegando a pequena no colo.

Intrertida em encher a menina de carícias, Rules nem sequer percebeu o clima entre Marco e Scarlett. Nem como o homem havia ficado tenso com a chegada da mulher.

— Eu vou lá fora, Toni e a esposa já estão por aqui. Vou fazer companhia para ele. — Marco anunciou, olhando Scarlett.

— Dê um Olá por mim.

— Por nós.  — Rules imendou. Marco assentiu, se aproximando da esposa e deixando um beijo em sua testa antes de partir.

Scarlett sentou na cadeira que antes Rules ocupava, e começou a retocar sua maquiagem.

— A Marcinha chora muito? — Brincando com o dedo dela, Rules encarou a amiga.  —  Mal nasceu e já está dando trabalho para os papais, amor.

— Ela mal chora, é um amor. — Scarlett respondeu, indo contra o que Reus havia acabado de contar. — Tem lágrimas para esta noite?

— Duvido muito. Chorei tudo em Dortmund, então não tenho lágrimas para Munich.

— Já viu Dannah? Ela fica chorando a cada passo que dá aqui dentro. Chorou até quando bateu de frente com a torre de taças.

— Se ela vier manhosa para cima de mim, eu prometo que mato e enterro no quintal dos fundos.

Scarlett assentiu, deixando a mesa e se pondo frente a amiga. Tinha orgulho de Rules como se fosse de si mesma, porque parte dela sentia-se assim: em completa união com o felicidade da amiga.

— Passa pra cá esse presente de Deus, e vamos até lá curtir o seu dia.

— Meu aniversário é em três meses.

— Eu sei que está nervosa, mas Você está proibida de fazer piadas ruins hoje. — Inconformada, ela riu e entregou a miniatura para a mãe. — Você é a definição de orgulho atualizada, Rules.

❇❇❇

O Bayern de Munique estava em peso pelos arredores. Já tinha esbarrado com Rafinha, Neuer, Robert e Xavi. Inclusive, Thiago tinha perdido 10 segundos do seu tempo fazendo uma piada sobre as pagodinhos que tocavam pelo lugar, com as batidas eletrônicas no fundo. E funk. Bem representado, ele mencionou.

Era impossível negar que o gosto musical brasileiro podia não agradar os brasileiros em geral, mas os de fora sabiam bem valorizar. E até mesmo a anfitriã da noite, já havia arriscado ir até o chão com as amigas.

— Só acredito porque estou vendo com meus próprios olhos. — Lessye comentou rindo, enquanto via Rules e Dannah a disputar o quadradinho mais bizarro que já havia visto na vida.

— Já vi piores. — Toni acrescentou. — O Vinícius bêbado da uma surra nas duas. Vai até lá, coisa linda. Você tomba elas.

— Grávida?

A americana agora comprometida com o alemão, acabara de completar seus intermináveis 8 meses de gestação, e como em sua primeira vez: a barrigona já marcava presença.

— Não é você que vive dizendo que a gravidez te deixa mais flexível?

— Conclusão final: eu odeio os brasileiros e seu pique sem final. — Rules se juntou ao casal, ocupando uma cadeira vazia ao lado de Lessye.

— Se o meu marido perguntar, eu fui fortemente influenciada por Rules. — Dannah ocupou a outra cadeira.

Reus e Scarlett conversavam entre si, dando risadinhas que não deixavam escapar o olhar de Rules sobre o casal, fortemente conectados. Eles estão bem, a final. Pensar que não estariam é coisa da cabeça dela.

Finalmente extasiado, ela olhou ao seu redor. Um grupo ou outro espelhados pelo ambiente, conversando, dançando, risadas que o som cobria. Sorrindo sozinha, Rules teve a certeza que na manhã seguinte seria a pessoa mais feliz do mundo. Nolan já havia se perdido por aí. Com Page em seu encalço, True tentada a brincar de igual para igual com as crianças maiores, os pais podia pensar em se divertir.

Tudo parecia muito bom.

Mas já passara das 21:00 e nada de Thomas aparecer. Após o desentendimento mais cedo durante a organização, Rules teve a certeza que ele viria. Mas não veio. E tudo bem, não estava sentindo sua falta. Nem tivera tempo de realmente se preocupar com a ausência dele.

Até mesmo sua mais novas aquisições de amiga já cambaleavam pelo lugar, explorando, fotografando, mostrando-se curiosas pela coleção inteira que se encontrava espalhada por cada canto, e mais ainda em um ambiente reservado para as blogueiras convidadas.

Não tinha noção do sucesso que a filial em Munich faria, mas duas horas após o lançamento, o evento já estava nos Trend Topics mundiais do twitter. É claro que a lista de convidados ajudava com sua influência.

— A anfitriã não tinha que está dando uma volta? — Toni questionou olhando para Rules, que estava mais perdida em pensamentos do que nunca.

Ela apenas sorriu, passando o olhar pela mesa e os amigos.

— Eu já rodopiei pelo lugar inteiro, posso dançar mal até o chão com o bonde todo?

— Foram apenas 2 horas de convivência com Brahim, Toni e Asensio e já está falando bonde. — Reus implicou, recebendo a língua em resposta.

— Eu nem foi responder o comentário porque acho que já estou bêbado. — Asensio confessou, e passou o braço ao redor de Claire que apenas concordou.

— Eu poderia nos defender, mas não quero dar mal exemplo e mentir para a minha filha. — Foi a vez de Brahim entrar na conversa.

— Falando em filha, alguém viu a minha? — Toni olhou ao redor, nem vestígios da pequena True.

— Deixa que eu vou procurar ela, já que eu sou a anfitriã e você tá ocupado demais com a sua neném no colo. — Rules se levantou.

Lessye agradeceu, mantendo-se sentado no colo de Toni, com os braços ao redor de seu pescoço. Toni mantinha aos mãos na barriga da esposa, vez ou outra fazendo um carinho.

Passou pela mesa de Robert e Ana, parando apenas um segundo para cumprimentar o grupo composto pelo casal, Lisa e a família de alguns companheiros do Bayern.

Lisa era gentil demais para se odiar, nem mesmo com esforço Rules tinha conseguido. O sorriso doce, a postura de gentileza. Até mesmo agora, enquanto recebia os elogios pelo seu trabalho, Rules só sabia agradecer a cada um deles pelo apreço. Até mais ainda por Lisa.

Era uma maturidade surreal.

❇❇❇

Thomas entrou no salão, concluindo que flores e luzes faziam parte de toda a decoração, e que já era uma década enjoativa de decorações. Mas ele sorriu ao ver algumas lanternas de papel penduradas pelo lugar. Era com certeza uma coisa de Rules, pois era bem a cara dela. E ele logo a viu. Num vestido preto que se estendia até chão, demarcando pouco as curvas. Deixava-a sexy de tal forma que Thomas não conseguia explicar. Ele coçou o queixo, caminhando até ela.

Rules cumprimentou o casal de amigos que passava por ela, e direcionou a mulher sobre como chegar ao banheiro. Eles agradeceram, elogiaram a decoração e saíram. Rules respirou fundo sentindo orgulho de uma noite que mal havia começado, quando correu os olhos pelo lugar e encontrou o peso azul ambulante que estava ao seu lado.

Seu sorriso aumentou.

— Preto de cai bem. — Disse ele. — Você está...

— Linda?

— Linda é um pouco de menos. — Corrigiu: — Eu ia dizer deslumbrante.

— Obrigada. E você... — Ela o analisou, deslizando o olhar por todo seu corpo, focando desnecessariamente onde não deveria e sorriu, logo olhando para ele. — Pensei que o uniforme do Bayern fosse a roupa em que você mais ficasse gostoso, mas parece que traje social também lhe cai muito bem.

— Tem que ver pelado. — Rindo, ela pressionou a língua entre os dentes e olhou ao redor para garantir que ninguém tivesse ouvido aquilo. — Algumas pessoas dizem que a visão é melhor.

— Eu não sou tão confiante assim, quanto você pensa. Não acredito nas outras pessoas.

— É mesmo? Poxa, então eu vou ser obrigado a mostrar pra você.

— Será mesmo que eu tenho essa curiosidade? — Brincou, rezando para que sua maquiagem cobrisse o rubor.

— Vamos descobrir. — Ela o observou se abaixar, como se estivesse amarrando os cadarços. — Meu sapato desamarrou.

— Seus sapatos não tem cadarços. — Avisou, e ele sorriu segurando a barra do seu vestido. — O que está fazendo, Müller?

— Leve, né? Parece fácil de tirar. — Ele se levantou tranquilamente. Rules o encarou sem entender nada. — É o seguinte, Rules. Tem um banheiro no andar de cima que raramente alguém usa.

Aí meu Deus!

— Onde você...

— Não interrompe, Rules. É feio. — Ele sussurrou, Rules riu. Não era possível. — Estou subindo e vou esperar por você.

— E o que você quer fazer comigo no banheiro do evento, Thomas Müller?

— Venha e descubra.

Ele piscou, e de virou tranquilo caminhando até a escadaria. Rules o observou enquanto subia degrau por degrau. Na sua mente estava rindo: Ele era louco. Definitivamente. Mas por fora estava indignada, abobada. Tão distraída que nem notou a presença que se instalou ao seu lado.

— Escolhe um.

— Aí meu Deus, Zara! — Se virou para a mulher com a mão no peito. — Carregue um sininho no pescoço quando chegar sorrateiramente assim.

— Se eu carregar um sininho vai ser impossível chegar sorrateiramente, Rules. Pensa um pouco. — Apenas negou, enquanto a garota estendeu para ela os dois modelos de lançamentos da Sarkany*. — Escolhe 1.

— Leva os dois.

— Eu ia, mas o zigri na bancada de presentes não permitiu. — Lamentou. — Ah, inclusive, eu queria agradecer por essa idéia maravilhosa de trazer os lançamentos da Sarkany* para presentear as convidadas de hoje.

— É tudo marketing. Sarkany é sucesso na Espanha, Luminositá é sucesso na Alemanha. A gente junta os dois e expande o mercado.

Aturdida, ela encarou as escadas por onde Thomas acabado de passar. Não tinha como negar a si mesmo que o convite tinha sido tentador, mas também tinha sido desaforado demais da parte dele. E Rules já tinha negado negado qualquer possibilidade de sequer pensar a respei...

— Se disser que não quer ir atrás, vai estar mentindo para si mesma. — Acusatória demais, Zara debochou da amiga.

— Não sei do que você está falando. — Se fez de doida. — Eu só vim procurar a filha do Toni e da Lessye.

— Cínica

— Estou sendo uma boa amiga, apenas. — E novamente a escadaria roubou sua atenção.

— Olha, eu sou mulher como você, querida e conheço um olhar desses quando vejo um. — Rules cobriu os olhos, arrancando risadas de Zara. — Não vai me convencer, Rules. Aceite.

— Não preciso te convencer. Foi um convite desaforado da parte dele. Me recuso entrar naquele banheiro com ele.

Tá legal. Era mais informação do que a alemã linha. E a curiosidade falou mais alto que a vontade de rir do desespero de Rules em fingir desinteresse.

— Não é crime, Rules. E é seu momento. Todos estão entretidos, ninguém vai notar.

— Não acredito que você tá com ele.

— Com ele não, querida. Eu tô com você. Tá pagando de desinteressada, mas não tira o olho daquela escada. — Fatality! — Eu levo a filha da Lessye e do Toni, e digo que você teve um imprevisto. E eu nem vou querer detalhes depois, porque eu tenho senso.

Há quem estava tentando enganar? Sua perna estava tremendo de vontade de ir atrás dele.

— Sinceramente, não acredito que vou fazer isso.

Viel Glück!*

Rules ignorou o comentário da amiga, ouvindo a risada se Zara se tornar distante, conforme subia aqueles degraus.  Sabia que Thomas estaria lá, pois era um homem de palavra, e no momento: palavras má intencionadas. Ela subiu aquelas escadas, contando cada degrau, internamente rezando para que ninguém á encontrasse pelo caminho. As pernas tremend antes mesmo de alcançar a porta. Colou os cinco dedos da mão na porta, se perguntando se haveria arrependimentos no momento seguinte, e foi quando a porta se abriu diante dela. 

Thomas a encarou surpreso, sinceramente: não esperava que ela viesse. Torceu para que sim, mas não esperava. Ele ficou olhando seu nervosismo estampado na cara, enquanto Rules decidia quais palavras usaria para iniciar aquela diálogo sem parecer... Dependente ou desesperada por ele. Então ele apenas deu aquele sorriso gostoso, que além de forças, incendiou.

— Você vive me surpreendendo. — Ele deu passos, deixando seus poros em alerta.

— Estou de vestido como você mesmo de o favor de notar,  e esperando você me convidar para entrar nesse banheiro.

Ele segurou sua mão, e olhou para os lados a fim de procurar alguém que os visse, e então a puxou para dentro, fechando a porta em seguida.


Zara Landau é personagem do livro Meticulous, escrito por dixxcat. Se você não conhece, pega a pipoca e cai de boca nessa novela.

Sarkany é uma marca de sapatos espanhola, que tem como fundadoras Antonella Roccuzzo e Sofía Balbi, que por um acaso: são as esposas de Leonel Messi e Luís Suárez, jogadores do Barcelona.

Atualmente a Sarkany não tem loja física, mas continua atendendo seus clientes online.

Viel Glück é o famoso Boa sorte em alemão.

Até o próximo, coisinhas lindas

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