Capítulo 1
Estados Unidos da América
— PAPAI, EU NAO POSSO ME CASAR. EU NAO CONHECI O MUNDO.
— Minha filha, seu marido poderá te apresentar todos os lugares possíveis. Confie em mim, eu quero o seu melhor.
— Você não sabe o que é melhor para mim — Malika bufou e saiu batendo os pés.
— Malika, volte aqui! Nós já conversamos sobre isso. Você me fez trazê-la para esse mundo das trevas, não voltará atrás na sua decisão!
A voz do velho Birkan soou tão alta e grossa que o pobre logo teve um ataque de tosse.
"Quem ele pensa que é? Eu sobrevivi a tantas coisas, não vai ser um casamento que irá me derrubar" Debruçou-se na varanda e ficou a varrer os dedos pelas plantas que ali haviam. Seu celular vibrou, o que a despertou daquele transe. Malika tinha todo o cuidado do mundo para com aquele aparelho, seu pai jamais poderia sonhar com a existência de um desses em suas mãos.
SMS
Ana: Malika, acho que encontramos a pessoa perfeita para substitui-lá.
Malika: CONTEM TUDO!!!
Luana: Ela está desesperada por dinheiro, mas temos um problema.
Malika: Sempre temos --.
Luana: Ela tem um filho. Não escutamos direito, mas ele parece bem doente. Ela aceitou se prostituir, coitada KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK.
Malika: Isso não me ajuda, o velho perceberia na hora.
Ana: Esperava mais de você Malika!! Simples, diga a seu pai que quer dizer isso e que irá arrumar uma criança, afinal você quer se casar por amor, não é isso mesmo?
Malika: Encontrem o endereço dela e tudo o que for preciso. Preciso estar livre, o quanto antes!
— Pai? — O velho Birkan estava sentado na cadeira velha de balanço que ele insistiu em trazer daquela terra que Malika julgava ser maldita. Mantinha a mão no queixo como quem pensa seriamente em algo. A jovem caminhou até ele e se ajoelhou ao chão, ao seu lado. Apoiou as mãos em sua perna, como ele sempre gostava de dizer que ela fazia quando menor. — Desculpa pai, é que eu me sinto muito sozinha. Sei que é o certo para mim... Mas... Sempre sonhei em me casar por amor.
— Você assistiu muita novela, minha filha. Você tem sorte desse velho aqui não conseguir te vigiar e de confiar tão plenamente em você — suspirou. — E quem lhe disse que ele não pode amá-la?
— Ele nem me conhece — as mãos do velho logo acariciou as madeixas da jovem, a fazendo respirar fundo antes de continuar com seu golpe. — Posso te pedir só mais uma coisinha papai? Como garantia de que será por amor?
— Diga, Malika.
— Diga a ele que eu tenho um filho.
Birkan quase teve um treco. Sua mão deixou de fazer aquela carícia e ele logo se levantou com sua bengala.
— Sobre o que está falando Malika? Você quer me matar do coração menina? De onde tira essas coisas?
— Eu arrumo a criança, uma que precise de ajuda. Assim o dinheiro dele poderá ajudá-lo também.
— Malika, ele vai achar que você já....
— Você mesmo me disse que ele já tem uma filha papai, nós estamos em pleno século XXI.
— Impossível, eu não farei isso. Manchará a honra da nossa família. Já não basta estarmos à beira da falência.
— Tudo bem, vou arrumar nossas coisas já que não haverá mais casamento...
Não. Malika não se considerava uma megera. Ela acreditava ter todas as razões do mundo. Ainda que contra as regras ela conseguiu trocar suas joias por um celular. Sempre dava um jeito de fugir do colégio e encontrar suas amigas mais libertinas. Uma menina que se deixa levar mas que tem sua própria opinião sobre as coisas.
Birkan desconfia das malcriações da filha. Desde que sua mulher se foi Malika foi a única a encher a casa de alegria. Os empregados tinham a obrigação de cuidar da menina, mas de jamais inventar mentiras sobre ela. Ao menos era o que o velho achava que acontecia. Mentiras.
Desde que fez novas amizades e conquistou seu lugar no grupo de garotas do ocidente com um celular, Malika afirmava ter nascido na religião errada. Não passa por sua cabeça se casar com um homem que não conhece. Ainda acredita que deixará seu hijab cair e um belo homem lhe entregará, junto com o seu coração. Malika é uma das jovens mais 'livres' da Turquia em seu bairro. Justamente por seu pai ser deficiente visual e ser completamente cego na confiança que tem na jovem de apenas 19 anos.
Ainda assim ela se considera uma prisioneira, e detestaria não poder sair de casa ao se casar por obrigação.
Ela correu para seu quarto e jogou-se na cama. Precisava de um novo plano, precisava fugir.
Naquela mesma tarde Malika escutou o pai falar ao telefone, coisa que ele odiava, com os pais do do seu futuro marido. A jovem perguntou diversas vezes o que teria acontecido se sua mãe estivesse viva. Ela permitiria esse casamento mesmo contra a vontade da filha? Ao pensar um pouco mais nisso decidiu que era melhor tudo como está.
Não pensou muito e tampouco esperou. Assim que anoiteceu ela deu um jeito de pular os muros da casa em que estavam. Tinha que se encontrar com aquela mulher, a faria aceitar a proposta, mesmo se tivesse que ameaçar seu filho. Birkan já estava deitado em seus aposentos, não era um homem de ficar andando pelos cantos, principalmente se nao conhecia o lugar em que estava. Os empregados que o acompanhavam eram como eles, cego para o que Malika fazia ali dentro.
Malika alcançou o carro em que as meninas estavam e partiram.
Para a jovem sonhadora, o cabaré não era melhor do que aqueles que ela costumava ver em filmes de televisão. As garotas estavam na subordina. A essa altura ela já não usava o hijab, e estava com os olhos fixos a procura de Inara. Dançava para disfarçar, apenas não bebeu. Para ela aquilo ainda era novo, os flertes mais agressivos e as apalpadas. Tudo acontecia apenas pelo acesso ao celular. Conheceu Ana e Luana no intercâmbio que ambas fizeram a Síria. E ali estava pela primeira vez, nos EUA. Seus olhos brilhavam ao ver as garotas no pole dance, e desejou estar lá, junto a elas. Ao menos até Inara aparecer.
As três não contiveram o riso.
— Ela precisa ter sérias aulas de dança.
— Meu Deus, e quando o marido pedir a dança do ventre? — brincou Luana.
— Estar aqui é tão... Só quero que saibam que dando certo ou não, vocês são as melhores amigas do mundo! — Malika abraçou as garotas, uma com cada braço.
— Vai da certo, não podemos perdê-la — retribuiu Luana.
— Já sabe o que precisa fazer, não é mesmo?
Malika afirmou com a cabeça e seguiu o olhar para onde o homem carregava Inara até sumir de vista. Contava com a sorte e a encenação das meninas que vivia assistindo pela televisão pelo seu celular.
***
Quando Inara saiu correndo as garotas a seguiram de carro, até onde ela caiu. Estacionaram o carro longe e apenas Malika desceu, já com o hijab sobre a cabeça.
— Está tudo bem? — Questionou com os olhos cheios de lágrima a medida em que ajudava a jovem a se levantar.
— Por favor, se afaste. Eu estou... — Ela não completou a frase, não sabia o que dizer, sentia-se suja.
— Você está toda machucada, venha, eu te ajudo.
— Eu estou bem, só preciso chegar em casa.
— Como vai chegar assim? — desta vez eram as lágrimas de Malika que rolavam. — Acabada por dentro e por fora. Com todos esses machucados...
Suas palavras pareciam tocar na alma de Inara, era como se elas se identificassem. Por um momento Inara pensou que a mulher a sua frente sabia de toda a sua vida apenas por vê-la ali, naquele estado.
— Você também faz programa? — voltou o olhar para a rua deserta e o sol que logo nasceria.
— Não! Não. Estou fugindo, de um futuro que não me pertence.
— E seus pais?
— Meu pai é cego, não sabe o que é melhor para mim... — E assim começava seu jogo.
— Os pais sempre sabem o melhor para os filhos. Não diga isso.
— Eu tinha um plano, mas acho que não dará certo...
— Que plano?
— Você se casaria sem amor? — Lançou a pergunta sem pensar ou enrolar.
— Como?
— Você aceita se casar com um homem que não conhece? Para salvar seu filho de uma vez por todas? Aceitaria se passar por mim?
Inara tombou para o lado e deu um urro de dor ao bater com a mão machucada contra a parede do muro.
— Isso é impossível. Nós somos de classes diferentes. Religiões diferentes.
— Posso te ensinar tudo, você só precisa dizer que sim.
— Me deixa em paz!
E assim Inara correu mais uma vez, desta vez sem pressa. Como quem não sabe para onde ir, olhando para trás algumas vezes. Deixando Malika impaciente, ela tinha apenas 2 dias para fazê-la aceitar a proposta.
***
Luana e Ana já haviam bolado o plano B caso Inara não aceitasse aquela proposta. Como Malika ficava presa em casa com Birkan suas amigas ficaram encarregadas de infernizar a vida de Inara, ao menos até à noite. Ela dava um passeio pelo jardim com seu pai enquanto maquinava em sua mente como fugiria sem deixar pistas caso o plano não desse certo.
Inara começou a passar as compras de Ana enquanto ela conversava com Luana.
— Boa noite senhoras — desejou Inara.
— Boa noite — responderam em uníssono.
— Amiga, fiquei sabendo que tem uma nova mulher naquela espelunca onde meu marido vai. Ele disse que ela é muito bonita, mas que não sabe fazer o... — ela fez uma careta, como quem evita falar palavras como aquela, para então prosseguir. — O único da noite saiu espalhando logo depois.
— Pelo visto ela não vai durar muito lá, ou vai servir apenas de saco de pancada.
— Eu queria ver a cara dela... O que leva uma mulher a isso?
As garotas se acabaram de rir, deixando Inara ainda mais sem graça, não restava dúvidas de que era sobre ela que estavam falando. Seu rosto adquiriu um vermelho rubi e ela evitou por tudo olhar para as garotas a sua frente. O que não lhe permitiu questionar como uma menina tão nova já seria casada? Ou ainda pior, como ela sabe que o marido anda por aquele tipo de lugar e não se importa? Talvez, se ela olhasse bem, poderia lembrar delas rindo enquanto dançava naquele palco.
— Deu 50 dólares, senhoras.
Ana pagou a conta, ambas pegaram as compras e saíram debochando.
Inara apertou o botão de solicitação de um superior.
— Desculpa, eu não estou muito bem. Pode ficar aqui apenas para que eu possa ir ao banheiro?
— Não demore.
Ela assentiu e saiu do caixa. Sua vida estava de cabeça para baixo desde que aceitou conhecer o lugar onde Gal trabalha. Ela caminhou até o banheiro e as pessoas que passavam por ela simplesmente pareciam vulto. Sua mente estava em um mundo só seu. "O que eu estou fazendo da minha vida?" Inara, ao chegar no banheiro, molhou o rosto e o pescoço com água da pia.
— Meu senhor, não me abandona nesse momento. Cuida de mim e do meu filho senhor. Ilumina o meu caminho...
***
Naquela mesma noite Inara foi a igreja. Antes de ir para casa se arrumar para o próximo turno. Ao pisar na igreja fez o sinal da cruz e caminhou até a terceira fileira, onde deixou a bolsa no banco e ajoelhou-se.
— Senhor, mais uma vez estou aqui ajoelhada diante de ti, implorando para que me dê uma luz. Eu não posso viver sem o meu filho. Sim, eu sei que não devemos ser egoísta, que tudo tem seu tempo. Mas ele é meu filho, o meu menino...
Neste mesmo momento Malika adentra a igreja, estava a seguir Inara. Ela sentou-se ao lado de Inara e esperou que sua oração chegasse ao fim para que a mulher notasse sua presença.
A igreja estava vazia e era incrivelmente chamativa. Repleta de imagens, anjos e símbolos.
— O que você faz aqui? — Sobressaltou-se Inara ao levantar-se.
— Silêncio! — alguém gritou logo atrás.
— Olhe para você, toda machucada... — Inara tentou esconder os hematomas da noite passada, mas eles estavam ainda mais vivos. — Eu não conheço seu Deus, mas acho que sua chance está mais próxima de você do que pode imaginar. Será que não foi Ele quem me enviou?
— O que você quer que eu faça dá cadeia! Não é uma escolha!
— Podemos fazer da certo. Ou prefere que seu filho fique vendo-a dia após dia acabar-se dessa forma? Daqui a alguns dias você não será mais a garota nova naquele lugar... O dinheiro vai acabar.
— Não me tente, eu não posso aceitar. Não pelo homem, mas pela cadeia. Se eu for presa meu filho não terá ninguém!
— Você não confia em mim — disse incrédula.
— O que você sabe sobre o mundo? O que você sabe sobre desespero, medo, fome, frio... O que sabe sobre ter que molhar farinha para dar a seu filho para comer, sendo que ele precisa se manter forte para aguentar uma doença...
Inara já estava banhada em lágrimas, ela sentou ao lado de Malika e segurou sua mão.
— Eu não sei como você me achou, de onde me conhece ou como eu realmente poderia te ajudar. Mas converse com o seu pai, ele é o único que pode te ajudar.
— Não seja ridícula! Se você estivesse no meu lugar estaria fazendo a mesma coisa. Isso vai ajudar o seu filho.
— Eu não posso enganar um homem e ferir a minha honra.
— Você deve ser mesmo uma vagabunda. Prefere deitar-se com vários homens a ter um só ao seu lado. Seu filho vai ter nojo de saber o que você faz, ele vai ter desejado a própria morte! — suas palavras demonstraram não apenas seu desespero, mas desequilíbrio.
Todos da igreja pediam por silêncio, ao menos até aquelas últimas frases. O padre da paróquia apareceu com seu terço.
— Nós estamos na casa de Deus, vocês não podem brigar ou dizer palavras tão feitas. Por favor, comportem-se ou resolvam as coisas lá fora.
Ele foi calmo, paciente e educado. Inara fez o sinal da cruz novamente e saiu, Malika a seguiu até a saída.
— Pense bem, é sua última chance. Se eu estivesse no seu lugar não pensaria duas vezes.
Inara saiu sem nada dizer, não era preciso.
De um lado Malika juntava suas joias e algumas peças de roupa, para onde pretendia ir logo elas não seriam necessárias. De outro lado Inara toma um importante decisão, não irá mais se prostituir.
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