Prólogo
"Que ataque é capaz de fazê-lo olhar pra trás e querer desistir?"
— Inara, você sabe que o dinheiro que ganha como operadora de caixa é muito pouco para pagar todas as suas dívidas. Quantos meses de aluguel já estão atrasados? — Gal disse jogando uma mecha de cabelo para trás da orelha.
— Me entenda, eu não posso simplesmente ir e deixar que façam comigo o mesmo que fizeram com Ricardo.
— Logo vocês não terão onde ficar, tampouco o que comer.... Eu achei que você fosse mãe.
Aquela frase poderia ter tirado Inara do sério, se não fosse isso mesmo que ela realmente achava. Seu filho era tudo o que tinha, e não restava dúvidas de que daria sua própria vida por ele, então, por que não dá seu corpo também? Aquela ideia fez uma lágrima escorrer por sua face, enquanto seu coração contraiu-se com a dor que sentia. Gal sempre sabia cutucar a ferida no lugar mais profundo.
— Tudo bem, eu passo lá hoje a noite. Não sei como pode me conhecer tão bem ao ponto de falar essas coisas.
Gal sorriu para Inara, não de felicidade mas de cumplicidade. Gal foi uma das primeiras pessoas que Inara conheceu ao chegar nos Estados Unidos em busca de um bom tratamento para seu filho. Gal é uma mulher feita e bastante guerreira. Sempre ganhou a vida desta forma, por isso tamanho medo de sair e não conseguir fazer coisas 'normais', que a maioria das outras pessoas fazem. Mas jamais se queixou, não em voz alta.
— Só não quero que se acabe em um trabalho que vai te tirar o tempo que pode passar com seu filho. Vocês são as únicas pessoas que posso chamar de família.
— Preciso voltar ao trabalho, te vejo mais tarde, Gal.
— Bom trabalho amiga, vou deixar uma roupa lá na sua casa. Tenho certeza que vai precisar.
O que nenhuma delas perceberam foi o grupo de amigas que estavam logo na mesa ao lado.
***
— Mamãe, onde você vai toda arrumada assim?
— Vou encontrar com a Gal, meu amor.
— E eu vou ficar só? — Jack fez bico.
Não resisti a me abaixar e ficar do mesmo tamanho que o garoto.
— E desde quando eu lhe deixo sozinho? — passou o indicador no nariz do seu filho e o apertou logo em seguida. — A senhora Odete virá ficar contigo, eu não vou demorar.
— Ah não, mamãe. Ela é velha, não me conta histórias e nem brinca comigo.
— Meu amor, por favor. É para o seu bem. Eu prometo que não vou demorar.
— Jura que vai me contar uma história quando voltar?
— Prometo.
— Jura juradinho? — ergueu o dedo mindinho, incentivando-a ao mesmo.
— Juro juradinho.
Assim entrelaçaram os dedinhos e Inara voltou a se arrumar. Estava passando o batom quando seus olhos, através do espelho, cravaram no garotinho, que agora se entretinha com seu carrinho de polícia. "É tudo por você meu pequeno" Não demorou para que a campainha tocasse. Caminhou até a porta e olhou através do olho mágico.
— Dona Odete, me desculpe mesmo ter que lhe pedir que fique com o Jack a essa hora.
A velha, antes de tudo, olhou-a da cabeça aos pés. Ela já tinha suas conclusões, estava claro.
— Não se preocupe minha jovem, tenho certeza que sabe o que faz.
Suas palavras tocaram inara, da mesma forma que a envergonhou. "Será que tais palavras eram em um bom sentido? Ou um alerta como os pais geralmente fazem quando já não tem poder sobre os atos dos filhos?" Pensou a jovem, que logo decidiu que não deveria perder muito tempo com isso, não seria a primeira e tampouco a última pessoa a julgá-la.
— Mamãe, leve isto com você.
Jack abriu sua gaveta e tirou de lá sua corrente, a qual Inara comprou e lhe deu, alegando que seu pai mandou de presente no seu último aniversário antes dele virar uma estrela.
— Mas isso é seu meu amor.
— Mas quero que fique. Você sempre diz que é perigoso sair à noite. Essa correntinha sempre me deixou perto do meu pai, mas ele nunca veio me ver. Então quero que você fique perto de mim.
Era tudo o que Inara precisava para não voltar atrás agora mesmo naquela ideia, seu filho precisava de ajuda e só tinha a ela a quem recorrer. Ela pegou a correntinha e encheu o filho de beijos.
— Eu te amo.
***
Inara ainda não acreditava que estava ali, em um ambiente como aquele. Passou toda a parte de sua vida acreditando em príncipes encantados, mesmo com a dura e triste realidade da favela. Seu pai a obrigou a casar-se com seu namorado logo após saber sobre sua gestação, não lhe dando, sequer, tempo de falar que ele a abusou. Com o tempo, percebeu que nenhum homem acredita naquilo. Para eles a mulher sempre quis, e ainda que não quisesse, se estavam namorando era muito provável de acontecer. Aquele lugar a lembrou bastante os lugares em que era obrigada a andar atrás do marido para buscar dinheiro e comprar as coisas que a criança precisava, tal como: leite e fraldas.
Ela não percebeu, estava enfeitiçada pelo lugar e por todas as lembranças que a atravessam, mas um homem mantinha o olhar sobre ela. A música não era muito alta, os comentários maldosos e nojentos vinham de todos os lados. Mulheres dançavam e se esfregavam em qualquer um ali em busca de chamar atenção. Inara estava vulnerável, ela sabia disso e quase deu meia volta.
O pensamento de ter outro homem sob seu corpo lhe deu ânsia. Lembrou-se das diversas vezes que fora obrigada a ter relações com o marido. Estava incomodada por estar ali, e não era pouco. Era como se tudo fosse começar, mais uma vez. Seria estuprada e não poderia reclamar, afinal estaria recebendo. A mesma hesitou e balançou a cabeça de forma negativa, afastando aqueles pensamentos. Caminhou até a porta de saída quando Gal a alcançou.
— Amigaaa, você veio!! — Gal a puxou para um abraço e se afastou com a mesma força, olhando Inara dos pés a cabeça. Quando percebeu que a amiga não estava bem. — Você não estava pensando em desistir, não é?
— Eu disse que viria — sua voz saiu mais baixa do que esperava.
— Esta tão maravilhosa, venha, preciso lhe apresentar ao senhor Washington.
— Não vamos incomodá-lo Gal..
— Você vem comigo!!
Assim elas caminham juntas, lado a lado. Por onde quer que passavam os homens a acariciam e a convidam para "uma horinha". Infelizmente Inara precisava se acostumar com aquele tipo de tratamento. Controlou-se e apenas seguiu Gal. Passaram por um corredor e logo subiram a escada, já nos fundos. Havia uma porta, onde Gal bateu e esperou.
— Entre.
E assim fizeram, Gal sempre na frente.
— Senhor Washington, essa é Inara, a garota de quem te falei.
O senhor a frente tinha cerca de cinquenta anos, abaixou seus óculos de grau até a ponta do nariz e observou a mulher como um pedaço de carne. Relaxou as costas em sua poltrona de couro e respirou fundo, como quem pensa.
— Ela é muito magra... — respirou mais uma vez. — Mas carne nova é sempre vista com bons olhos.
Simplesmente não havia palavras para aquilo. Para Inara aquilo era como um pesadelo. Daqueles em que você tenta gritar e não consegue. Nem a saliva ela conseguiu engolir.
— Isso significa que irá contratá-la?
— Ela ao menos sabe gemer? Ainda não abriu a boca. Assim vai ficar muito difícil.
Gal pisou no pé da amiga com vontade, a fazendo dizer um "ai" antes de se ligar que precisava dizer algo. Aquele era o emprego mais fácil que já conseguiu em toda sua vida.
— Me desculpe senhor, eu apenas...
— Não precisa falar nada comigo, apenas com os clientes — ele voltou a sua posição inicial e recolocou os óculos. — Pode começar hoje mesmo.
— HOJE? — desta vez a voz foi mais alta do que deveria.
— Algum problema??
— Claro que não senhor Washin...
— É porque... — tentou argumentar, mas ambos interromperam-na, como quem decreta que sua opinião não era importante.
— Ela já sabe como funciona, Gal? — primeiro ele olhou para sua funcionária mais velha, e em seguida para Inara. — 50% do lucro é meu.
— Claro, já esclareci tudo a ela. Ela irá começar agora mesmo, levarei para que se arrumar. — assim Gal fez uma reverência, como se saudasse alguém muito importante e saiu arrastando Inara junto.
— Gal, eu não posso deixar dona Odete toda a madrugada com o Jack.
— Prefere ir visitá-lo todos os dias no...
Ela não continuou, nem precisava. Suas palavras eram duras e muito eficiente. Deixava sempre claro para a pobre Inara que ela não tinha escolhas. Ou era isso ou era visitar o filho no cemitério. Só quem é mãe sabe como é difícil colocar um filho no mundo e não ter o apoio de ninguém, familia, amigos. Inara sabia que não era certo deixar dona Odete em sua casa até tarde. Mas já tinha decidido que no dia seguinte procuraria alguém para ficar com seu filho enquanto trabalhava na madrugada. Jack jamais fora um menino de dá trabalho, mas ele poderia ter uma crise a qualquer momento.
Inara caminhou atrás de Gal escadas abaixo até um cômodo onde as mulheres se arrumavam. Respirou fundo ao imaginar o que estava para fazer. Seu corpo começou a suar, suas mãos a tremerem.
— Melhor adiantar ou vai ficar com os piores, novata — falou uma delas e riu.
— Você vai se acostumar amiga, é pelo seu filho. Lembre-se disso — Gal segurou a mão da amiga, lhe desejando forças.
— Eu não sei fazer isso, Gal.
— E o Jack veio da cegonha... — tentou fazê-la rir. — Apenas dance, sensualize, olhe nos olhos. Mas por favor, não com essa cara de morta, vamos colocar uma maquiagenzinha mais forte.
Antes de entrar naqueles palcos a jovem fez uma breve oração e julgou-se por isso, Deus com certeza não estava satisfeito pelo caminho que ela estava seguindo. Trajava agora uma lingerie - ao menos era o que indicava - com uma mini saia por cima.
Em lugares distintos havia o pole dance, onde ela se aproximou para ter no que se apoiar e simplesmente não cair pela tremedeira do seu corpo. Suas mãos continuavam suadas, seus pés quase não tinham ritmo. Ela não estava acostumada a se manter em pé em um salto de 15 cm, que dirá dançar. Por um breve momento ela tentou mexer o corpo como as garotas dos bailes de onde morava. Havia muito barulho, grito e cédulas de dinheiro jogadas para as garotas. Isso não permitia que inara se concentrasse no que quer que tentasse fazer, não conseguia dançar, se sentia em um próprio circo e um nó em sua garganta já estava se formando quando um homem alcançou seu braço e a puxou até debruçar seu corpo contra seu ombro.
Por um momento Inara pensou em se debater, em lutar contra. Mas sua correntinha a despertou e ela deixou-se levar.
***
O homem chamava-se Brendon, e pagou por 4 horas de tortura. Se Inara achava crueldade o que passava na mão de felipe, seu marido, agora ela conheceu o inferno. Foi uma marionete nas mãos daquele homem. Brendon transou com seu corpo, cheirou seu giz em seu corpo e agrediu-lhe, o que o fez apagar. Ele tinha planos maiores, mas a quantidade da droga não o permitiu colocar em ação. Já estava beirando às quatro da manhã quando Inara decidiu sair do quarto. Assim que fechou a porta sua mão alcançou o peito e as pernas não sustentaram o próprio peso, a fazendo escorregar até o chão. Ela ainda não tinha visto seu estado, mas nem por isso deixava de sentir-se imunda. Estava prestes a soluçar quando senhor Washington apareceu no corredor.
— Recomponha-se menina. Onde acha que está?
Levantou rapidamente, como um soldado e não se permitiu chorar.
— Vá lá para fora, ainda faltam alguns minutos para fechar. Alguém pode gostar do que ver e já marcar para amanhã — Washington apertou meu queixo e cuspiu as palavras. — E não derrame uma lágrima. Você vai gostar daqui.
Assim ela o fez. Engoliu a humilhação, a dor e seguiu para o salão que já estava praticamente vazio. Homens estavam jogados em alguns sofás completamente bêbados. Carteiras abertas eram encontradas com facilidade.
— É ela! É essa prostituta que eu quero na minha cama — Um homem gritou. O mesmo homem que a admirava logo que Inara entrou no cômodo.
— Calma ai amigo, amanhã nós voltamos. Hoje você não vai conseguir se controlar e nem fazer nada do que mais gosta — o amigo zombava do mesmo, como se Inara realmente não importasse. — Amanhã nós voltamos.
Um de seus amigos o puxava pelo braço e logo passou por seu ombro. O homem continuou a gritar. Suas palavras eram de baixo calão. Inara o encarava assustada, era óbvio que ele estava bêbado. Mas suas palavras a levaram a imaginar que ele a conhecia de algum lugar. Inara aproveitou o momento para correr de volta ao cômodo para trocar de roupa.
— Amiga, sua boceta só pode ser de ouro! Aquele cara deixou quase 9 mil pelas 4 horas.
— Como??? Mas... Eu não achei... Isso tudo?
— Novatas sempre são mais caras — sua voz não transmitiu tristeza ou inveja, ela realmente estava feliz pela amiga ter conseguido esse dinheiro. Sua voz só tornou-se mais baixa e cautelosa quando percebeu os hematomas em algumas partes do corpo da garota a frente. — Eu sinto muito Inara...
— Não se preocupe. É pelo meu filho.
A cabeça de Inara estava em um profundo debate... Mas uma certeza não podia ser negada: Ela não conseguiria outro trabalho para ganhar todo esse dinheiro no dia.
— Será que eu já posso ir por hoje?
— Claro, eu passo na sua casa mais tarde.
Elas se despediram e Inara partiu.
Era inevitável não sentir o pesar daquela situação. A ficha de Inara seo caiu após saber do valor que havia recebido por tal homem. Era oficial, agora ela era uma garota de programa. Ia ser humilhada, violada, estuprada, mas seu filho teria sua saúde em dia.
Ao sair do prostíbulo o homem bêbado a agarrou pelo braço. Ele estava possuído. Acreditava que Inara era uma ex ficante que o deixou após não aceitar dividi-lo com outras. Jogou a mulher contra parede e forçou seu corpo contra o dela.
— Você é uma vagabunda. Nunca imaginei que se prestaria a isso. Eu vou te foder e vou acabar com a sua vida.
— Você nunca vai me foder! — juntou todas as suas forças e o empurrou, saindo às pressas.
— Uma piranha dessa que só quer dinheiro. Só pensa em dinheiro e sexo! — gritou as palavras. — Não é dinheiro que você quer? Eu te dou!! Eu te dou um milhão de dólares! — sua voz ecoou forte e grave o suficiente para um bêbado.
O corpo de Inara congelou na mesma hora. E pela segunda vez naquele dia sentiu-se completamente ofendida por ser uma garota de programa. Tudo o que ele disse era real, mas não pelo motivo que ele achava ser.
— Enfie no seu cú!
Os amigos do homem, que estavam encostados no carro admirando a cena, apenas riam. Tanto de Inara quanto do amigo. A jovem correu, não queria ficar ali e ter que escutar mais daqueles comentários. Correu sem saber o caminho certo a seguir, queria apenas afastar-se daquele ambiente e daquelas pessoas. Suas lágrimas a cegaram, ao ponto de fazê-la tropeçar na calçada e ir de encontro ao asfalto.
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