Betina: Parte III
Nos dias que se seguem, passamos bastante tempo juntos. Andamos por aí, conversando sobre as coisas mais bestas. Transamos. Comemos sanduíche e tomamos sorvete. Nada fora do normal. Nic tem essa mania de ficar encarando o nada, viajando sozinho.
— Nic, você fuma?
— O quê? Tipo, maconha? — Ele pergunta, saindo de seu devaneio para me encarar.
— Cigarro, mesmo. — Esclareço.
— Não. Nem maconha, por sinal. Por quê?
— Não sei. Acho que um cigarro iria completar seu visual existencialista. Mas esse é um pensamento ridículo, é claro. Não estamos mais nos anos 80.
— Talvez eu devesse chupar pirulitos, então. Que nem naquele desenho.
— É o quê?
— É. Tem esse desenho, em que um dos personagens fumava o tempo todo, mas quando foi passar na TV aberta, trocaram o cigarro por palitinhos de pirulito. Pra não dar mal exemplo pras crianças, e tudo.
— Que loucura. — Digo.
— É. — Ele concorda.
Sugo pelo canudo o resto do meu milk-shake, ruidosamente.
— Quer ir lá pra casa? — Nic pergunta.
— E o seu irmão?
— Não vamos fazer nada, só passar o tempo.
— Tá bom. — Concordo.
Cada um paga pela sua comida, e saímos andando. Às vezes damos as mãos, às vezes caminhamos sem nos tocar. Nesse dia específico, o Nic passa o braço em torno de mim, e saímos meio tropeçando, tendo que sincronizar nossos passos como se fôssemos um monstro com quatro pernas. Nunca fui pra casa dele antes, essa vai ser a primeira vez. Na verdade, fiquei um pouco chocada quando ele sugeriu isso, mas estou seguindo a onda.
Ricardo, o irmão dele, está na sala vendo uma série. Consigo vê-lo pela janela. Quando Nic faz barulho no portão, enfiando a chave, ele levanta os olhos da TV e nos encara.
— Chegou cedo — ele fala, para o irmão.
Entramos. Já vi o Ricardo várias vezes antes, mas, ainda assim, estou nervosa e não sei bem o que fazer com as mãos.
— Oi, Betina. — Ele me cumprimenta. Respondo. Em seguida, lança um olhar para o irmão, que interpreto como "vê lá o que você vai fazer, hein".
Seguimos para o quarto. Sempre achei que a casa dos dois seria um caos, afinal, eles são homens, jovens e não têm ninguém para, literalmente, botar ordem na casa. Mas me enganei. Não digo que a casa deles parecia saída de um catálogo, nem nada. Mas era muito mais razoável do que imaginei. No quarto do Nicolas a cama estava feita, não haviam roupas no chão, nem nada espalhado por aí. Somente a mochila dele estava jogada num canto.
— Fique confortável. — Ele diz.
— Não é isso que as pessoas dizem quando querem que as outras tirem a roupa? — Eu digo.
— Se você quiser tirar... Eu é que não vou falar nada. Já conheço sua tendência naturalista.
— Ei, com licença! — Tento me defender.
Li em algum lugar que sentar em uma cama feita é uma tremenda falta de educação, então, me bandeio para o lado da cadeira do computador, mas ele me puxa pelo braço e me coloca sentada na cama. Talvez ele não conheça essa regra. Ou talvez não se importe com ela. Não contente, pega o travesseiro e coloca atrás das minhas costas.
Então, pega um violão que repousava tranquilo em seu suporte, e senta do meu lado. Nesse meio tempo, não fala nada. Nem sequer olha para mim. Seu rosto se transforma em uma máscara, e ele começa a dedilhar uma música que não conheço. O ritmo é bem suave, bastante hipnótico. Sinto vontade de deitar e tirar um cochilo revigorante. Mas não faço isso, é claro.
Apenas observo sua expressão mudando ao longo da música, em caretas das quais ele nem se dá conta. Fico observando os dedos dele voarem pelas cordas, de um jeito tão preciso, ensaiado e milimétrico. É bem bonito de ver. Acabo reparando que as unhas da mão direita dele não são cortadas curtas. Elas são roídas. Roídas até o talo, e em volta também.
Quero segurar sua mão, beijar seus dedos, cuidar de suas feridas. Me ocorre que talvez, pela primeira vez, eu esteja me apaixonando. Seguro o impulso e não mexo um músculo sequer. Continuo no mesmo lugar, deixando que ele toque para mim o quanto quiser. Depois de um longo tempo, ele recoloca o violão no suporte, volta a sentar do meu lado, e me puxa para o seu peito.
— Ah, então seu plano de hoje era me impressionar? — Pergunto.
— Nem todos temos peitos. Alguns de nós precisam improvisar.
— Tenho que te dar algum crédito — eu digo, sorrindo — aquela foi a coisa mais sexy que eu já vi na vida.
Ele planta um beijo na raiz do meu cabelo.
No fim de semana seguinte, meus pais viajam outra vez. A essa altura, Micaela e eu já voltamos a nos falar, depois que ela percebeu que eu realmente gostava do Nicolas, como havia dito, e não era apenas "um lance de piranhagem". Mas não a convido para vir dormir aqui. Tenho outros planos.
Na quinta à tarde corro para encontrar Nic na saída da escola. Quando estamos longe das outras pessoas, falo:
— Meus pais vão viajar de novo no sábado.
— Tá a fim de sarrar? — Ele pergunta, divertido.
— É, talvez. Mas eu estava pensando mais em... Sei lá. Você podia passar a noite comigo.
— Então você quer sarrar muito mesmo?!
Dou um soco de leve no braço dele.
— Larga de palhaçada! É sério.
— Tá bom. — Ele concorda. Foi mais fácil do que pensei. — Quer dizer... — Eu sabia! — Tenho que ver com o Ricardo primeiro. Mas provavelmente vai ser de boa.
— Tá. Me avisa.
Na sexta ele confirma que a nossa pequena festa do pijama está de pé. Essa é uma coisa meio que importante, mas, por incrível que pareça, não planejo nada de especial. Apenas compro algumas das comidas que sei que ele gosta. Mas, no mais, tento não criar expectativas.
Assim que a noite cai, no sábado, ele chega, com sua mochila nas costas. Está de banho tomado, e muito mais perfumado que o usual. Talvez ele tenha criado expectativas. Nic deixa a mochila num canto do meu quarto, da forma como faz em seu próprio, e ficamos conversando à toa, como sempre.
— Sabe de uma coisa? — Digo, porque uma ideia me ocorre. — Tem uma pracinha na rua de baixo. Quer ir pra lá olhar o céu?
Ele concorda, e vamos. Essa é uma das coisas que mais gosto em Nicolas. Tudo para ele parece perfeitamente aceitável. Deitamos na grama, um de frente para o outro. Ele coloca uma sequência de músicas no celular, das quais não conheço a maioria, e ficamos ali, olhando um para o outro. Sei que era para a gente ver o céu, mas em algum momento, mapear os traços um do outro parece mais interessante.
Me sinto no mesmo tipo de transe hipnótico, embalado pela música, que estive no quarto dele no outro dia. Como se estivéssemos em um lugar diferente, em uma realidade diferente. Não sei se é a vibe melancólica da playlist do Nic que causa esse efeito em mim, mas olho para ele por tanto tempo, que quase consigo ver através da sua pele, através do seu corpo, para dentro da sua alma. Nunca experimentei nada parecido, e nem sei ao certo como descrever o momento.
Só sei que... De repente não tem mais uma Betina e um Nicolas se encarando, mas sim duas criaturas totalmente novas. Que nem em Avatar, quando eles conectam os rabos e firmam um compromisso eterno, e tudo o mais. Acho que a sensação deve ser parecida ou igual a essa.
Ficamos congelados naquele momento, até minhas costelas doerem e os olhos dele começarem a pesar. Então voltamos para casa e vamos direto dormir. A última coisa que lembro de pensar, antes de cair na inconsciência, é de quantas formas diferentes me conectei com aquele menino.
No meio de uma conversa pós-sexo, que só rola na manhã de domingo, Nicolas me pergunta:
— Naquele primeiro dia... Você era mesmo virgem?
— Mas é claro! Por que eu iria mentir?
— É que, sei lá, você parecia bastante experiente.
— Já tinha feito outras coisas, ué. Mas o ato, de fato, nunca. — Explico.
— Eu não ligo. Mesmo. Só estou curioso.
— Inclusive, você também não parecia nenhum amador.
Ele fica calado por um tempo, pensando consigo mesmo. Por fim, diz:
— Quando você fala, Betina, eu te entendo tanto! Fico até meio assustado, porque você fala exatamente o que estou sentindo. Não sei como você processa e entende as coisas tão adiantada do resto das pessoas.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top