Betina: Parte II


O encontro novamente no meu segundo evento de socialização. Não sei se é porque essa é uma cidade pequena, e as pessoas estão sempre se esbarrando, ou porque sou um tipo de farol que o atrai. Só sei que cá estou, sozinha, uma vez que meus pais viajaram, ainda não fiz nenhum amigo, e a Micaela não está falando comigo. Estou numa feira ao ar livre, num sábado à tardinha, quando o avisto de longe, com o irmão, na barraca de cachorro quente.

Me aproximo, como quem não quer nada.

— Oi. — Digo.

— Oi. — Ele diz.

Nicolas passa o braço ao redor de mim, como se fosse a coisa mais normal do mundo, e me guia para um canto mais reservado.

— Senti saudade. — Ele diz, e eu acho engraçado, porque só nos vimos aquela única vez. Não tem muito do que sentir saudade, se é que me entende.

— Você não há de ver que os meus pais viajaram... — Sugiro.

Ele corre lentamente a mão pelo meu braço, e entrelaça os dedos nos meus, então me puxa. Saímos andando, de volta pra barraca de cachorro quente.

— Ei, cara! — Ele chama o irmão. — Vou dar uma volta. Não passo das dez.

— Não quer comer? — O irmão dele pergunta.

— Eu vou — ele lança um olhar sugestivo, quase imperceptível, para mim. Pouco mais que um rolar de olhos. Seguro a risada. — Mais tarde.

— Você quem sabe — o irmão concorda, e entrega algumas notas amassadas, que ele pega com a mão livre e enfia no bolso. Continuamos andando, ainda de mãos dadas.

Ao chegar em casa, deixo Nicolas na garagem enquanto faço uma breve vistoria, só para garantir que não tem mesmo ninguém. Passo direto para o meu quarto, onde fecho as cortinas. Ele entra em seguida, e tranca a porta atrás de si. Atravesso o cômodo e o beijo. Sem conversa, assim, do nada. Como da primeira vez.

O resto vai decorrendo como o esperado. As coisas ficam mais intensas. Mãos passeiam aqui e ali. Andamos, eu de costas, em direção à cama, e deitamos. Fico por baixo. Tiro a camiseta dele, e ele tira a minha. Meus dedos trabalham no botão da bermuda dele, quando Nicolas se afasta um pouco, e pergunta:

— Você tem uma camisinha?

— Tenho — respondo, de pronto.

Ele me beija mais um pouco, mas começa a falar de novo segundos depois:

— Eu nunca... Você sabe. Nunca transei com ninguém antes.

Uma gargalhada explode da minha garganta, antes que eu consiga me controlar.

— Não achei que isso seria um problema pra você. — Ele diz, magoado, se afastando. Me esforço muito pra ficar séria, mas quanto mais penso que não posso rir, mais quero rir.

— Eu também não. — Conto, arfando, tentando não engasgar. — Também nunca transei, quero dizer.

— Sério? Eu achei que você...

— Eu também achei que você.

A risada acaba tomando conta dele também, quando compreende que a graça é justamente duas pessoas virgens terem tanta má fama. Continuamos rindo mais um pouco, mas lentamente a expressão dele volta a ficar séria. Continuo olhando para o seu rosto, e em segundo plano vejo seus dedos abrindo o botão e o zíper da calça.

Gosto dessa expectativa, que não tivemos da última vez. Ele puxa a calça pelos pés, e eu recomeço o beijo, apalpando-o em todo lugar que consigo alcançar. Me sinto como um foguete prestes a decolar, o que, metaforicamente, imagino que seja mesmo o que está prestes a acontecer.

Honestamente, não sei o que eu esperava desse momento, mas pelo alarde que todos faziam a respeito do assunto, achei que algo muito extraordinário fosse acontecer, e no fim das contas foi bem comum.

A coisa toda foi como um cafuné muito gostoso mesmo, e bastante interessante, e pronto. Nada de show de fogos de artifício, ou sei lá. Nada de renascimento espiritual. Me senti exatamente a mesma pessoa que antes, só um pouquinho mais contente. Uma amiga, certa vez, me contou que sentiu uma pontinha de culpa. Nem isso eu senti.

Estamos agora deitados, em silêncio, um do lado do outro. Não tenho ideia de quais são os protocolos pós-sexo, se você tem permissão para fazer carinho na outra pessoa ou não, e, caso tenha, em quanto tempo essa permissão expira. Por isso, decido me arriscar e começo a enrolar mechas do cabelo dele com o dedo.

Ele ergue o braço e acaricia minha mão, e entendo que esse é o meu passe livre. Por enquanto. Percebo que as unhas da sua mão direita são bem curtas, e as da mão esquerda são longas. Então ele toca mesmo um instrumento, de corda. E é canhoto.

— Você vai dormir sozinha hoje? — Nicolas quer saber. Sua voz soa lenta e arrastada.

— Sim. Ia dormir na Micaela, mas, sabe como é...

— O incidente do vestiário. — Lembra ele.

— É.

— O que foi tudo aquilo?

— Eu tinha fama de piranha, na cidade onde morávamos antes. A Micaela queria garantir que isso não ia se repetir.

— Vocês duas são muito próximas, né?

— Crescemos como irmãs. Aquilo lá... Não foi nada pessoal. Ela só está preocupada comigo.

— Como foi que você pegou essa fama? Quer dizer, não precisa responder se não quiser. Não é da minha conta.

— Do mesmo jeito que você. — Respondo.

— Então você ouviu falar de mim... — Ele abre um meio sorriso.

— É. Como foi que você pegou essa fama? Olhando as meninas no vestiário?

— Ei! Não sou um pervertido. Aquele dia foi por acaso. Te vi na piscina e te achei interessante. Bonita. Fui pro chuveiro, e segundos depois você entrou. Não queria te alarmar, por isso meio que tentei ficar na minha. Mas não resisti à tentação de uma espiada.

Percebo que ele ignorou a primeira pergunta, omitindo os detalhes que eu realmente queria saber. Então, falo eu:

— Sobre a minha fama... Eu só... Não perco uma oportunidade quando ela aparece. Faço umas loucuras, às vezes, como a que você presenciou. Mas nada demais.

— Olha, eu tenho que te dar algum crédito. Aquela foi a coisa mais sexy que eu já vi na vida. Acho que nunca tinha visto uma pessoa tão segura do próprio corpo antes. Estou impressionado, de verdade.

— Valeu. Só pra deixar claro, eu nunca procurei por sexo. Mas também nunca me escondi dele. Só... Sei lá. Achava que uma hora iríamos nos encontrar, de uma forma ou de outra.

— Betina, você é uma pecinha rara. Sabia?

— Você também, Nic. Você também. 

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