Capítulo 10: Preto
O homem abriu as portas daquela sala depois de anos sem entrar ali, era um dos poucos lugares da mansão que nem ele e nem Phillip gostavam de entrar. Porque ali estava a lembrança viva de tudo que Katherine deixou para trás, de tudo que um dia ela foi. Ao olhar as pilhas de telas em branco, que um dia poderiam ter sido pintadas por ela, agora repousando cobertas pelo lençol branco, lembravam a leveza da alma criativa que ela um dia carregou, que talvez não estivesse mais ali.
Podia ouvir a risada juvenil dela enquanto dançava de qualquer forma ao som de alguma música, ou jogar uma bola de papel nele, só para provocá-lo, atrapalhando a leitura ou estudos, em um convite para uma escapada ou por pura rebeldia mesmo.
As vezes eles se deitavam em algum lugar da mansão e ele lia para ela, enquanto a cabeça da jovem repousava em seu colo ou no ombro do amigo, ouvindo atentamente o que ele lia. Shakespeare era seu preferido e o rapaz dava o melhor de si ao ler as rimas do complexo autor inglês. O livro preferido dela era "Muito Barulho Por Nada", quem diria que ela seria como Beatrice, hoje carregaria a mesma fé que ela tinha, de que os homens não estavam a sua altura.
O homem abriu as pesadas cortinas deixando o sol entrar, sendo filtrado pela poeira do passado que pairava no ar, um ar por onde um certo dia pairou Beethoven, cujos acordes tocavam no som enquanto ela pintava e ele estudava, cada um preso em sua tarefa, mas conectados por aquela energia que eles compartilhavam.
Ele foi ao som e colocou o velho toca discos para funcionar e agulha percorreu a superfície negra trazendo à vida as notas de Beethoven, que começava com a peça "Rage over a lost penny", que era por sinal, na época, a preferida de Katherine devido a energia empreendida nas notas, ela dizia que lembrava uma trilha sonora perfeita para algum livro da Jane Austen. A lembrança trouxe um sorriso ao rosto dele.
Que logo foi guiado a um velho baú onde ficavam guardado os livros, era uma pequena biblioteca, que ela decretava ser seu pequeno tesouro. Eram presentes do pai, Phillip, que sempre se empenhou em dar a melhor educação para sua filha adotiva, ele alegava ser o único patrimônio que poderia deixar para a sua única herdeira. Ao revirar os livros, encontrou o velho diário dela. Passou as mãos pela velha encadernação, foi para as últimas páginas, curioso em saber quais seriam as últimas anotações, antes da série de páginas em branco. Sabia que cometia um ato de indiscrição, mas maior do que a intimidade compartilhada na noite anterior, não seria. Talvez assim, Thomas pudesse espiar a mente da jovem Katherine.
"As palavras ainda ecoam na minha mente: 'Como assim ele sumiu?'.
A indignação do meu pai, era o eco da minha, mas no fundo eu sabia que aquilo acabaria acontecendo, que a fuga da Le Rosey era apenas o principio do seu ato de rebeldia, mas no fundo eu fui boba, ingênua em acreditar que um beijo era sinal de algo mais forte que compartilhávamos, na verdade o que interpretei como um pedido silencioso para espera-lo, uma promessa de que voltaria, era realmente uma despedida, uma egoísta despedida, pois como dar esperanças a alguém quando na verdade está indo embora? É o ato mais cruel que alguém poderia cometer.
Estou aqui, trancada em meu quarto, apegada a lembranças bobas, idiotas, na esperança de que essas lembranças o tragam de volta. Fico lembrando desde a primeira vez que me surpreendeu na biblioteca na calada da noite, quando furtivamente procurava um livro, o mesmo que nos uniria, seria a nossa ponte, você seria meu guia, já que tinha lido mais do que eu, que tive anos congelados sem educação, vivendo nas ruas.
Só você mesmo para volta e meia repreender meus maus hábitos adquiridos na rua, minha boca malditamente respondona e porca, com um tempo até falava palavrões só para ouvi-lo me repreender. Uma bobagem, eu sei. Assim como escrever esse desabafo achando que um dia vai ler. Mas é tudo que me resta agora, além de chorar e acreditar que é um pesadelo, que irei acordar com você sentado na mesa da cozinha tomando café da manhã sem me esperar, reclamando que eu durmo demais. Mas não tenho culpa se tenho uma cama tão macia. A maior riqueza neste mundo, sabia?
Assim como preciosos momentos que guardo no meu peito, como uma noite, que dançamos sob uma árvore, a luz das estrelas, a beira do lago, depois de Derek me dar um bolo e não me levar ao baile. Até hoje não entendo por que ele fez isso, foi uma tremenda falta de consideração, me deixar esperando sem dar satisfações, mas você salvou a minha noite. Acabei indo ao baile com o menino que eu tinha uma quedinha, mas não podia dizer nada, parecia ouvir meu pai dizendo: 'Deus, vocês são irmãos, que pecado!'. Pelo jeito você achou uma forma de não escandalizar meu pai, não que ache sumir a atitude mais inteligente da sua parte.
Na verdade, você nunca foi muito inteligente Thomas, não para o lado afetivo, você sempre escolhia umas meninas meio bobinhas ou aquelas só para mostrar, nunca entendi muito a lógica de ir de 8 a 80. Ao mesmo tempo tendo ataque de ciúmes dos garotos que eu conhecia, e só agora entendo o motivo de tudo aquilo, antes achava que só estava bancando o irmão mais velho e chato.
Quantas vezes nós brigamos por besteiras?
Eu queria estar brigando com você agora.
Eu sinto falta de tudo, até a forma como ficava provocando você, atormentando, falando o quanto era um certinho, brincando com a sua consciência, por sinal foi assim que nosso único beijo aconteceu, eu estava provocando sobre como ia ser o cara que pegaria todas as mulheres de Oxford, que ia fazer sucesso entre as inglesas bancando o James Dean, o rebelde americano, até que me beijou dizendo que não poderia fazer aquilo por que eu sempre estaria na sua mente.
Droga! Como você pôde dizer isso e sumir Thomas?
Como pôde deixar tudo para trás?
Eu nem sei mais o que fazer, é como se tudo escurecesse à minha volta, como se tudo se tornasse preto e branco, coberto de sombra sem graças. Eu nem sei se terei força para escrever algo depois deste desabafo. Como pôde fazer isso?
Eu não merecia pelo menos uma carta de despedida? Um pedido de desculpas? Uma ligação? Como pode deixar essa escuridão para mim?
Já estava sendo difícil lidar com sua partida, mas pensei que em 5 anos estaria de volta, ou que ano que vem poderia estudar em Oxford também, me mudar para mais perto de você, qualquer outro plano. Mas todos meus planos incluíam você, nós dois, fruto das promessas que imaginei estarem contidas naquele beijo.
Agora me sinto traída, sem planos, sem saber que caminho seguir, apenas calada, sentada, contemplando uma realidade que não estou preparada. Desde os meus 7 anos compartilhamos uma vida, são 10 anos de amizade, de momentos nossos, desde as brincadeiras infantis até as descobertas da adolescência, como primeiro porre que fui amparada por você, que segurava meu cabelo enquanto sentia tudo dentro de mim vir para fora.
Ou quando eu peguei um castigo porque você cometeu a besteira de contar ao meu pai que me pegou fumando, eu o odiei naquele momento, mas depois soube que era para o meu bem. Como alguém que preserva tanto meu bem foi capaz de agora me deixar tão mal?
Você quebrou uma promessa, dizia que sempre cuidaria de mim, como vai cuidar sumindo desta forma. Que merda de anjo da guarda some desta forma?
Sei que isso tem alguma relação com seu trauma sobre a perda dos seus pais, eu tenho meus traumas também, mas isso não me tornaria uma covarde que fugiria pelo mundo.
Eu te amo muito, mas odeio a forma como você me ama de volta. Se é que me ama?
Penso assim agora, tenho essas dúvidas. Não posso aceitar nada disso, não consigo aceitar que sumiu, porque isso não é justo, nem um pouco justo. Foi uma grande covardia sumir me deixando com todas as lembranças para trás em cada parede e canto desta mansão, desta cidade. Você vai por lugares novos, eu ficarei com as velhas lembranças impressas em vários lugares zombando de mim.
Te odeio por isso. Odeio seu ato de fraqueza. Odeio por ter me machucado. Odeio por cada lágrima que derramo. Simplesmente odeio você e odeio a mim, por permitir que parta meu coração, que me machuque. Eu te amei uma vida toda, agora percebo que não era amada como pensava. Que burra eu fui."
Ele fechou a encadernação, chocado, apenas o ruído da agulha arranhando o final do disco, a noite tinha engolido a sala, deixando-o perplexo diante de tudo que ele leu e a percepção da repercussão de todas suas decisões. Quando se foi, jamais imaginou a proporção do estrago que deixou quando abandonou tudo, o que deixou quebrado no caminho.
Suspirou profundamente, assimilando, agora se sentiu pior com os atos da noite anterior. O ódio dela destilado desde o retorno dele a 6 anos atrás, agora era mais que evidente. Ela teve mais de uma década para remoer dores que tinham começado profundamente desde o primeiro dia, desde quando ele sumiu para buscar seu lugar no mundo, mal sabendo que o mundo de outras pessoas era destruído no processo.
Ele só conseguia vislumbrar, o que agora era mais do que concreto na frente dele e o que ele pensou nem chegava perto da sua imaginação. O alicerce daquele ódio era bem mais forte, bem mais concreto do que pensava, e tinham toda lógica e razão. Ele apenas teve que baixar a cabeça e aceitar, pois era o mínimo diante de tantas dividas que sua arrogância impediu que visse, que a perdeu pra sempre, a perdeu no dia que colocou a mochila nas costas e sumiu no mundo, sem deixar rastros ou uma despedida.
Phillip o aceitou como um bom pai aceitaria. Mas não tinha o direito de esperar a mesma compreensão da parte dela.
***
Essa e outras músicas estão na playlist da Trilha Sonora no Spotify: https://open.spotify.com/playlist/2l7XQw3oh4uZidoumVL96a?si=G5fRfy3uSMimeWcN9OFNmQ
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