Capítulo 11 - Wendigo - Parte II

- Olha guarda, não sei por que me faz essas perguntas, está tudo nos registros, eu era uma criança. - Fala a mulher sobrevivente em sua cadeira de rodas. - Acampávamos, quando meus pais foram atacados por...- Continua ela, sendo interrompida por Thraja.

- Um urso? Foi o que lhes atacou? - Questiona ela.

- Isso, um urso. - Responde a mulher.

- E as outras pessoas que também sumiram naquele ano, também foram atacadas por esse urso? - Pergunta Thraja. - E as pessoas que sumir este ano, foi também esse tal urso? - Continua ela.

- Senhora Adams, sei que não é fácil relembrar daquele dia fatídico, mas se eu souber, qual é a verdadeira ameaça, posso fazer algo a respeito. - Incentiva Thraja.

- Duvido muito, mas de qualquer jeito, não faz diferença, você não vai acreditar em mim. - Responde a mulher. - Nunca ninguém acreditou. - Continua ela, levando sua cadeira para perto da janela.

- Senhora Adams, o que viu aquela noite? - Pergunta Thraja se aproximando.

A mulher permanece calada por alguns minutos antes de responder.

- Nada, ele se movia rápido de mais. Se escondia muito bem, mas eu ouvi um urro. - Fala ela então.

- Um urro? - Questiona Thraja.

- Sim, completamente diferente de tudo que já ouvi. Não era de homem, nem de um animal. - Explica.

- Ele veio de noite? - Continua Thraja com as perguntas.

- Sim, ele entrou direto na cabana onde estávamos, eu dormia próximo a meu irmão, em frente à lareira, quando ele nos atacou. - Fala a mulher enxugando as lágrimas. - Mas ele não quebrou a janela ou a porta para entrar, ele a destrancou, e entrou silenciosamente. Me diga guarda, a senhora conhece algum urso que faça isso? - Pergunta a mulher agora séria.

Thraja a observa calada.

- Eu não acordei, até ouvir meus pais gritarem, meu irmão já não estava mais a meu lado, havia apenas uma poça de sangue. - Fala a mulher voltando a choramingar. - Ele os arrastou para fora, mas não entendo por que me deixou viva. - Pausando a fala. - Mas ele me deixou sua marca, uma enorme cicatriz para nunca mais esquecê-lo. - Fala mostrando em suas costas marcas como aranhões feitos por garras, quatro enormes marcas, que atravessavam de um lado a outro.

- Sinto muito, por fazê-la reviver esses acontecimentos, mas há três jovens desaparecidos que podem ainda estar vivos, mas eu preciso entender com o que estou lidando. - Explica Thraja afagando a senhora.

- Há algo ruim naquela floresta, tome muito cuidado. - Pede Joana Adams.

- Simon, eu te digo, eu nunca vi nada assim na minha vida, e olha que eu já vi muita coisa esquisita. - Fala Thraja andando de um lado para outro em seu quarto de motel.

- Você disse que a senhora Adams, relatou, que ele destrancou a porta e entrou silenciosamente? - Pergunta Simon, do outro lado da linha.

- Isso, e que matou o irmão dela, deitado ao seu lado e ela nem ao menos acordou. - Responde Thraja.

- Talvez um espírito ou um demônio? - Pergunta Simon.

- Eu nunca vi um espírito ou demônio destrancando portas para entrar Simon. - Questiona ela.

- Então é alguma outra coisa. - Sugere o garoto.

- Oh! Você desvendou o caso, é claro que só pode ser outra coisa, e é aí que está o problema, que outra coisa?! - Thraja fala em tom irônico, mas preocupada.

- Pelas garras e a velocidade imaginei que poderia ser um Xamã ou Cão Preto. Mas não poderia ser, esses não tem o raciocínio de destrancar portas ou fazer silêncio. - Continua ela.

- Thraja, você não pode deixar essa garota a Kayle, entrar naquela floresta. - Fala Simon, mudando completamente o assunto ao ver a gravidade daquilo em que estavam se metendo.

- E vou falar o que para ela? Para não entrar porque tem um ser veloz e desconhecido, que mata pessoas a cada 27 anos? - Pergunta Thraja.

- Não exatamente assim, mas pode falar que é perigoso por causa do suposto Urso. - Responde ele.

- Me poupe Simon, ela já sabe sobre esse suposto urso e ainda pretende ir, por que deixaria de ir se eu falasse? Prefiro ir com ela, a proteger e tentar matar aquilo, seja lá o que for. - Fala Thraja, contando seu plano.

- E você fica aí e procura descobrir o que essa coisa é para que eu o mate- Continua ela.

- Okay chefe, até mais. - Responde ironicamente Simon desligando no final.

Thraja colocou seu despertador para as 06:00am, precisava ir à cidade e comprar um celular a satélite para poder se comunicar com Simon, se acaso as coisas saíssem do controle ou se ele acabasse descobrindo algo sobre aquilo que ela iria caçar.

Organizou tudo que achou necessário em uma mochila de acampamento, calçou suas botas, entrou em seu velho companheiro SKY, e seguiu as compras.

Havia marcado com Kayle as 09:00am, a cidade abriria as 07:00 então teria tempo para tudo.

Quando chegou a cabana de guias da Floresta Blackwater, Kayle e o guia já a aguardavam.

- Você tem lugar para mais uma? - Pergunta Thraja a dupla que lhe aguardava.

- Quem é ela? - Pergunta o guia enquanto verifica as balas de sua espingarda.

- É tudo que o parque pode mandar para ajudar na busca e resgate dos garotos. - Responde Kayle.

- Ela vai entrar no mato de bota e jeans? - Pergunta o guia um pouco confuso.

- É, não sou muito fã de short. - Responde Thraja ironicamente dando de ombros.

- Você acha engraçado, a trilha é perigosa, o namorado dela pode estar ferido ou morto. - Lhe adverte o guia.

- E acredite em mim, eu sei bem que é perigoso. - Responde ela seria e determinada.

- Ela só quer nos ajudar Ray, a encontrar o Michael. - Fala Kayle tentando ameninar o clima.

Caminharam por algum tempo em silêncio pela floreta até que alguém o quebrasse.

- Ray, é esse seu nome né? Você disse que caça? - Pergunta Thraja quebrando o clima e se aproximando do guia.

- Isso, Ray, gosto de caçar. - Responde secamente o guia.

- Que tipo de animais curte caçar? - Continua ela com o assunto.

- Depende, veados, ursos, alces. - Lhe responde ele.

Neste instante, Thraja pisa em falso em um pequeno morro de terra que a faz deslizar por alguns centímetros, sendo segurada pelo braço.

- Cuidado com onde pisa, guarda. - Fala ironicamente o guia assumindo novamente a liderança do grupo.

Mais alguns minutos em silêncio até novamente o quebrarem.

- Você não trouxe comida, apenas uma mochila, e você é muito desastrada andando em uma trilha, você não é guarda, quem é você? - Kayle pergunta a Thraja a segurando pelo braço e as afastando um pouco do guia.

- Eu menti, eu não sou guarda como você já pode perceber, eu estou aqui atrás de um amigo que sumiu a uma semana. - Mente Thraja.

- E, porque não falou desde o começo? - Kayle pergunta enquanto toca em seu ombro.

- Não sei, talvez por medo, mas estou dizendo agora. - Conta Thraja, tentando ser convincente.

- Está tudo bem? - Continua ela.

- Sim, está sim, vamos encontrar o Michael e seu amigo desaparecido, juntas. - Fala Kayle com um belo sorriso.

- Sim, iremos. - Thraja finaliza o assunto.

- Chegamos, a partir daqui, estaremos entrando nos limites da Floresta Blackwater, muita atenção daqui em frente. - Lhes avisa o guia.

Thraja observou em volta, o verde e o musgo, o cheiro de mato e a neblina ao longe, se sentia livre, seu lobo interior lutava para se soltar.

Mas, bastaram alguns minutos para que seu lobo interior também detectasse que algo não estava normal, não se ouvia sequer um barulho, nem de grilos, pássaros ou de qualquer outro animal silvestre.

- Vou dar uma olhada por aí, sigam a trilha, logo encontro vocês. - O guia avisa.

- Não acredito que seria uma boa ideia andar sozinho por aí. - Comenta Thraja atenta.

- É muita gentileza, mas não se preocupe comigo, guarda. - Responde o guia irônico, pegando sua arma e se afastando.

Continuaram seguindo a trilha e adentrando cada vez mais a floresta, passando por pedras e arbustos com formatos estranhos.

- Kayle, Thraja, aqui. - Ouve-se o guia chamar ao longe. - Kayle, Thraja? - Novamente ele repetiu.

As garotas saíram em disparada por entre as árvores no sentido em que o chamado vinha.

Ao chegarem ao local onde se encontrava o guia, podem ver o suposto acampamento de Michael e os amigos em completa desordem.

Barracas destroçadas, roupas e objetos pessoais espalhados e com sangue.

- Parece que foi mesmo um urso. - Comenta Ray.

- Meu Deus, Michael. - Fala Kayle se aproximando de algumas peças de roupas ao chão.

Caminham por entre as barracas, mas tudo que encontraram ali, não mostrava onde Michael e os amigos poderiam estar.

- Michael, Michael. - Kayle começa a gritar para a floresta.

- Shii, Shii. - Pede Thraja.

- O que foi? - A garota pergunta.

- O que pegou eles, pode estar por aqui ainda, só vamos tomar cuidado. - Thraja responde.

Enquanto Ray e Kayle procuram por evidências no acampamento, Thraja vê algo que lhe chama a tenção, há mato e arbustos amassados e quebrados como se corpos houvessem sidos arrastados por ali, mas em apenas alguns passos, a trilha acaba.

Então ouve-se ao longe alguém gritar.

- Socorro, Socorro.

Ray e Thraja saem em direção ao chamado, sendo seguidos por Kayle.

- Socorro. - A voz continua a gritar. - Por favor alguém me ajude. - Grita desesperado.

Correm até uma clareira e ao chegarem, aquilo que gritava e pedia por socorro ficou em silêncio.

- O som parecia vir daqui não aprecia. - Fala Kayle olhando em volta.

- Acho melhor voltarmos ao acampamento. - Pede Thraja sentido que algo estava prestes a acontecer.

Ao voltarem, a surpresa, todas as mochilas e sacolas levadas por eles e depositadas ao chão haviam sumido.

- O que está havendo. - Kayle apavorada pergunta.

- Não sei, mas seja o que for, esta por perto, nos vigiando. - Fala Thraja.

- Chega de bobagem, ursos não roubam mochilas, foi algum desses marginais que vem fazer rituais ou se drogarem pela floresta. - Lhes responde o guia.

Então, o celular ao bolso de Thraja, aquele que havia comprado horas antes de seguir para a floresta, começa a tocar.

- Alô, Simon, você não imagina o quanto estou feliz em ver sua ligação. - Começa a garota se afastando dos outros.

- Está tudo bem? Você, feliz com uma ligação minha? - Simon pergunta debochado.

- Não força Simon. - Thraja lhe adverte.

- O que encontrou? - Pergunta ela.

- Wendigo. - Simon fala.

- Wendigo? O que isso significa? - A garota pergunta sem entender.

- Acredito que, o que você está caçando é um Wendigo. - Finalmente Simon explica.

- Explica melhor. - Pede ela.

- Wendigo é um mito do povo Cree*, o mal que devora, foram uma vez seres humanos, mas depois de serem forçado a comer carne humana para sobreviver, eles se tornam monstros sobrenaturais. Depois de sua transformação, eles começam a almejar carne humana como alimento. - Explica Simon.

- Estou caçando um ser canibal, que sequestra e armazena pessoas para seu consumo? - Thraja simplifica.

- Basicamente isso, são personificações da gula, ganância em excesso, nunca satisfeito após matar e consumir uma pessoa, eles estão constantemente à procura de novas vítimas. Também é comum que wendigos apenas capture humanos para acumular sua comida, e depois comer quando estiver com fome. - Continua Simon.

- Tem certeza? - Pergunta ela em dúvida.

- Sim, as garras, a forma que imita a voz humana somente um Wendigo conseguiria destrancar uma porta e fazer silêncio. - Conta Simon.

- E como mato esse filho da puta, comedor de gente? - Pergunta a garota.

- Fogo, a única forma conhecida para matar um Wendigo é queimá-lo, mas você pode os manter afastados também, desenhe um círculo de proteção com os Símbolos Anasazi, vai mantê-lo a distância assim como o sal faz com os fantasmas. - Explica Simon.

- Obrigada Simon, acho que agora tenho um Wendigo para fazer churrasco. - Fala a garota desligando o telefone e voltando para perto dos outros.

*Cree - Cree ou Cri é um povo indígena da América do Norte, que habitava desde as montanhas Rochosas até o oceano Atlântico, tanto nos Estados Unidos da América quanto no Canadá. Hoje constitui o maior grupo indígena do Canadá, com uma população superior a 200 mil membros.

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