19


Meus ouvidos detectam a reverberação ampla e contínua de um gotejar, passos que ecoam a uma grande distância, um burburinho intermitente e impreciso. Abro os olhos e o teto rochoso curvado, desnivelado, entrecortado por correntes de água, se estende por todo o meu campo de visão.

Claramente estou em uma caverna. Não!

Com um salto me coloco de pé, arfando. O cenário familiar não me é consolo algum. Quando eu era criança, uma caverna era um presente. Um abrigo para o sono, um esconderijo, um refúgio.

Mas agora é um pesadelo. Não acredito que estou aqui.

Depois de tudo, eles simplesmente me mandaram de volta para Arabah?

Por trás de mim, uma voz gutural e rouca me saúda:

— Bom dia, flor.

Eu me volto e vejo um velho, sentado numa rocha, ao lado de pilhas e pilhas de pratos descartáveis, feitos de folhagem de Figueiras-de-Bengala. Uma miríade que se amontoa ao redor dele. Ele tem um prato inacabado numa das mãos e uma agulha na outra. Um raio de luz escapa de uma fenda no alto e o ilumina, conferindo a toda a cena um ar sinistro.

Quando ele ergue o rosto para mim, uma imagem mental surge como um sonho antigo ou um deja vu.

— Você! — brado, alarmada, sondando e tentando descobrir mais sobre o ambiente e sobre essa criatura diante de mim. — Quem é você?

— Oh... — ele responde com um tom, simultaneamente, cansado e espirituoso. — Ninguém. Só mais um imperdoável. Como você. — Com as mãos ocupadas e com o rosto, acentua o você, ao apontar para mim.

— Não, não como ela — a voz de Sander vem de trás de mim pouco antes de sua figura surgir no meu campo de visão. Seu nariz está coberto por uma espécie de pasta negra. — Ninguém é imperdoável como ela.

Ainda não me acostumei com a amargura e a acidez na voz do menino que achava tudo divertido. Afunilo meus olhos e contenho o instinto de fazer uma careta ou estirar a língua ou algo do tipo.

— Bem. — O velho dá de ombros e desvia a atenção para mim. — Ao menos, acho que isso faz de você especial. — Ele sorri e, por algum motivo completamente irracional, sinto vontade de sorrir de volta.

Quer dizer, as circunstâncias são totalmente impróprias. E acabei literalmente de conhecer o homem há trinta segundos, mas há algo nele tão familiar e reconfortante. Algo que me transmite a sensação de chegar em casa. Por outro lado, quantas vezes mais vou confiar em alguém que acabei de conhecer para depois quebrar a cara?

— Ah, sim. Definitivamente especial — Sander completa, caminhando lentamente até o senhor e apoiando suas mãos sobre os ombros do homem. — Mas não de uma forma positiva.

— Dá para você se calar? — esbravejo, a risco de parecer rude diante do novo amigo em potencial.

— Oh, e sabe se defender. Mais um ponto para ela — o homem diz com olhos azuis sorridentes e ergue a agulha no ar, como se fosse a marcação do ponto.

— Seria perfeita se apenas soubesse diferenciar contra quem ela precisa realmente se defender — Sander resmunga mais uma vez, me encarando com olhos gélidos, e preciso me controlar para não ir quebrar algo mais além do nariz. O crânio, de preferência.

— Tenha paciência, menino. — O velho ralha, voltando ao trabalho de costurar folhas. — Vocês, Kravz, não são sempre fáceis de amar. Especialmente, logo de cara. E digo isso por experiência!

— É, nem todos têm o charme que corre na sua família — Sander estuda meu rosto enquanto pronuncia cada palavra. — Não é mesmo, Doutor Salz?

Quê?

— Doutor... — gaguejo, incerta, dando alguns passos à frente para analisar melhor o homem diante de mim. — Doutor Salz? — pergunto, atordoada. — Eu... você... o senhor não está morto?

Ele abre um enorme sorriso, que só agora percebo que é tão obviamente o sorriso da Tinker que me pergunto como não pude perceber antes. E, ao mesmo tempo, me dou conta de que preciso sair daqui se quero tentar salvá-la.

— Morto não, só imperdoável.

— O que é basicamente a mesma coisa — Sander completa, ainda sem retirar os olhos de mim.

— Eu não acredito — exclamo, ainda perplexa, ignorando os comentários atravessados. — Você é...

— Não é todo dia que se conhece o sogro, não é mesmo? — Sander prossegue.

Sério. O que fariam se eu matasse esse infeliz? Quer dizer, já estou presa mesmo.

— Sogro? — Doutor Salz gira o pescoço a fim de olhar para Sander, que dá de ombros, ao mesmo tempo que balança o pescoço confirmando. Em seguida, o senhor olha para mim com um novo senso de curiosidade e admiração nos olhos. — Você e o... meu menino... você...

Ele engole em seco, olha para o prato caído em seu colo, silenciando, incapaz de prosseguir.

Não consigo dar qualquer resposta. O que poderia falar numa hora assim? Palavras de consolo? Tentar explicar o relacionamento que não-existe/mais-ou-menos-existe entre eu e o Raah? "Oi, desculpa, mas nós só nos beijamos uma vez"?

— Desculpe — ele diz com voz embargada, após alguns segundos de silêncio, e pigarreia. — É que... olhe para você. — Ele ergue os ombros e balança a cabeça, com os olhos brilhando de admiração. — Você é... uma adulta. E... meu menino... suponho que deve ser também — diz no tom de uma interrogação.

Continuo incapaz de me pronunciar. Primeiro, tento arriscar um sorriso, mas depois penso que é muito triste tudo isso e retraio os lábios de volta para uma posição neutra. Então, são minhas sobrancelhas que se encarregam involuntariamente de se erguerem de forma a expressar o "sinto muito" que sou inapta a dizer.

— Sempre penso neles. Em que tipo de pessoas se tornaram. Raah e a minha bebê.

Quando ele pronuncia "minha bebê" meu coração se estremece. Piscando lágrimas repentinas, olho para o alto em busca de consolo e dou de cara com o jovem Kravz. Então, lembro quem ele é e o que fez e o ódio retorna ao meu peito com uma força mais brutal do que nunca. Ali está o responsável por tudo isso, debruçado sobre o pai da vítima e, como se não bastasse, lançando gracejos para me provocar o tempo todo.

— Você vai contar para ele ou está esperando que eu conte? — rosno.

— Contar-me o quê? — O senhor enxuga as lágrimas do rosto com as costas das mãos e gira o pescoço para enxergar o Sander.

— O motivo pelo qual somos imperdoáveis — o rapaz resmunga, perfurando-me com os olhos.

Acho que se tivesse uma opção agora me mataria também. E o sentimento é totalmente recíproco.

— Ah, isso. — Ele dá de ombros e se volta novamente para mim. — Só existe um motivo para ser lançado na cela dos imperdoáveis, minha querida.

Afunilo os olhos, encarando Sander, e contraio os punhos, debatendo internamente o que é pior: trazer ainda mais notícias ruins para a vida do senhor ou permitir que o psicopata continue se fazendo de amigo.

— Se pronunciar contra a ideologia regente — Doutor Salz conclui, antes que eu chegue a uma decisão definitiva. — É como se garante o exílio.

— É por isso que o senhor está aqui? — questiono, expirando a fim de tentar me acalmar.

— Ahm... — o homem contrai os lábios e suspira, deixando os ombros caírem. — Não exatamente.

— É uma longa história — o imbecil interrompe mais uma vez. — Além do quê, precisamos trabalhar.

— Não sou um filósofo. — Felizmente, Doutor Salz ignora totalmente a perturbação e começa a narrativa. — Muito menos um pregador religioso, defensor de valores morais. Sou um cientista, entende?

Balanço a cabeça, convidando-o a prosseguir. Então, sento no chão e aguardo.

— Foi com base em informações antiquíssimas, pesquisas verificáveis, reproduzíveis em laboratório, analisadas e reestudadas a exaustão por milhares de anos que desenvolvi uma tese.

Ele contrai os olhos e me observa, talvez para ver se estou prestando atenção, mas em parte para ver minha reação.

— A tese de que uma pessoa pode ser considerada um indivíduo quando possui um genoma humano numa variação única e individual em todo o universo.

— São singulares — complemento.

— Exato. Biologicamente, são considerados entidades próprias. Ou seja, a biologia em si determina a humanidade.

Essa é a tese revolucionária, digna de exílio? De que biologicamente uma pessoa é... uma pessoa?

— Mas a Cúpula não queria ouvir isso. A Cúpula defende que a própria sociedade determina a humanidade. E os termos deles atuais para isso são: independência, desenvolvimento e consciência.

— Isso significa que...

— Qualquer um que seja dependente, não esteja completamente desenvolvido e esteja inconsciente está plenamente extirpado do direito de ser Humano. E que todo o resto é considerado apenas "um conjunto de células".

— Mas... — Contraio as sobrancelhas, confusa. — Um conjunto de células? Quer dizer, se formos parar para pensar, todos nós somos um conjunto de células, não somos? Nesse sentido, o que diferenciaria um conjunto de células de... — Olho ao meu redor e então arranco um fio de cabelo. — Bem, disso... — Exibo o fio. — ...de uma vida humana?

— O problema não é distinguir o que é uma vida humana, mas o que é um ser humano. Toda célula humana contém vida humana. Por exemplo, um pâncreas humano ou um espermatozoide ou uma célula epitelial humana possuem vida humana, mas não são seres humanos. Apenas parte de um ser humano.

— Não é tão difícil de entender, né? — retruco. — Um braço não é um ser humano, é parte dele.

— Exato. Porque um ser humano tem a capacidade de produzir proteínas e enzimas próprias, é capaz de estimular o próprio crescimento e desenvolvimento, como um indivíduo geneticamente exclusivo, novo e vivo.

— Certo. — Balanço a cabeça e coloco a mão na cintura. — É uma bela teoria. Mas no que isso implica?

— Significa que se o jovem aqui... — Ele aponta com o polegar para o rapaz atrás dele. — Resolve cortar o próprio braço fora ou mandar que extraiam seu próprio rim, ele pode ser considerado louco, mas ainda está em seu "direito". — O doutor faz um sinal de aspas com dois dedos livres de cada mão. — Afinal, são parte dele. Mas, minha tese defendia que os assim considerados não-humanos não deveriam ser tratados como propriedade ou extensão de seus parentes, como a nação de Tibbutz o faz.

— Então, basicamente, se eu elimino todasas células que possuem esse genoma exclusivo... — começo e permito que minha voz esmoreça para que o especialista conclua o pensamento.

— E impeço o desenvolvimento natural a todo ser vivente, estou assassinando uma pessoa — ele completa. — Não um conjunto de células. Uma pessoa.

Um humano.

Ele assente.

— Tendo isso em vista, eu não poderia, por exemplo... — Desvio meu olhar para Sander e ele responde emitindo o mesmo sentimento de desprezo que tento transmitir, só que o dele vem temperado com doses cavalares de arrogância. — Quebrar a perna de outra pessoa, certo? Seria algo totalmente errado? Doentio, até mesmo?

— Eu não aconselharia. — A expressão do senhor reluz com humor, como se minha pergunta fosse uma piada. — Sim, fazer algo a outra pessoa, sem sua autorização expressa, é errado.

— Essa é uma tese revolucionária mesmo. Alguns cidadãos de Tibbutz realmente deveriam ouví-la — concluo, acidamente, observando o remexer incômodo do acusado em vista.

O senhor dá de ombros e retorna ao trabalho sem dar qualquer resposta. De repente, um sentimento pesado de culpa me invade. Estou interrompendo sua história com comentários agressivos que não dizem respeito a ele.

— Então... o que o senhor fez quando a Cúpula se recusou a aceitar sua tese? — questiono, num tom acanhado de desculpas.

— Questionei, é claro — ele prossegue, como se nada tivesse acontecido. — Esses fatores determinantes são incoerentes porque a humanidade não deveria ser algo que você liga ou desliga. Ou você é humano ou não é, correto?

— E foi por isso que o senhor tentou lutar contra o sistema e veio parar aqui! — concluo, cheia de admiração.

— Ahm... — Doutor Salz suspira, dessa vez parecendo envergonhado. — Não exatamente.

— Nós realmente deveríamos trabalhar — Sander se manifesta.

— Shhhh — eu e Doutor Salz ralhamos simultaneamente.

Então, compartilhamos um olhar risonho de apoio um ao outro.

— Eu me acovardei. Concordei em não publicar a tese e a prosseguir minha vida. Eu tinha filhos em quem precisava pensar, uma vida confortável, uma carreira de sucesso. Eu podia perder tudo. Não era algo a se cogitar.

— Isso tudo não faz sentido — contesto, mesmo sem querer desagradar meu novo amigo. — É que em todas as palestras, o tempo todo, falavam do valor da democracia. Que a Cúpula é representante do povo. Como Tibbutz pode ser conhecida no mundo inteiro como um lugar perfeito se vive sob uma ditadura?

— A Cúpula, de fato, não é ditadora — o homem explica. — Ela é apenas uma guardiã do sistema, dos ideais e valores de uma sociedade. Perpetuadora de uma cultura. Uniformizadora. Silenciadora. Unificadora. Sob uma ideologia comum.

— A ditadura da maioria?

— Não é necessariamente a forma de pensar da maioria. Esta é a questão. É um ciclo dotado de um sistema de auto-alimentação. A partir do momento que uma ideologia é propagandeada o suficiente, ao ponto de se tornar intocável, inquestionável, de silenciar divergências, ela se transforma num monstro. E aí os que temem o monstro se recolhem, temendo a bocarra da besta. E, assim, o mundo inteiro, sem contestadores, transmite a informação de que a distorção é uma verdade absoluta. Só aí que, lentamente, as coisas mais ultrajantes vão se transformando no consenso geral, no... senso comum.

— No caso, o senhor foi um daqueles que temeram o monstro — pronuncio em voz alta a conclusão inevitável.

— A besta pode ser bem assustadora — replica, com olhos cheios de arrependimento.

— E, mesmo assim, as pessoas continuam a servi-la.

— Não só servi-la. Irão defendê-la. Ninguém gosta de se enxergar como um escravo.

— Foi isso que aconteceu com o senhor? — Insisto. — Passou a se enxergar como um escravo?

Preciso saber o motivo de um senhorzinho tão gentil estar numa prisão.

— Não — ele responde ao mesmo tempo em que gira o pescoço para olhar para Sander mais uma vez.

— Bem, se ninguém vai fazer nada de útil, eu vou — o rapaz resmunga e já sai chutando o ar, se afastando até uma curva na caverna que ainda não sei aonde leva.

— Cara. — Reviro os olhos. — Qual é o problema dele?

— Doutor Kravz foi um grande amigo.

— Quê? — Arregalo os olhos e abro a boca, mas rapidamente tento consertar minha expressão de choque a fim de não ofender. Mas, quê? — O pai dos Kravz era... um cientista também? — E não um produtor de fertilizante?, completo mentalmente.

— Uma das mentes mais brilhantes que já tive o prazer de conhecer — Doutor Salz sorri, com lembranças antigas reluzindo por seus olhos. Eles me lembram tanto os de Raah agora que me causam um misto de sentimentos confusos. — Estudamos juntos na universidade. Sua doce esposa, Libna, morreu ainda muito jovem. Sieger era ainda um bebê. Uma história muito trágica.

— O que aconteceu? — pergunto, mais uma vez, sem ser capaz de conter minha curiosidade.

— Kravz... Começou a esquecer de coisas.

— Que tipo de coisas?

— No começo, coisas simples. Descontávamos como distração ou algo do tipo. Onde deixara algum objeto. Nomes de algumas pessoas. Mas, logo, mais rápido do que algum dia já tínhamos visto, se tornou claro de que era algo além.

— Oh, não — exclamo, angustiada por uma história que já se passou e que não posso fazer nada a respeito.

— Kravz ainda era jovem. Estava no auge de sua vida. Tinha um vigor incomum. Como poderíamos imaginar que alguém como ele poderia ser atingido por algo... assim? Ela não escolhe suas vítimas através de critérios lógicos e coerentes. A senilidade precoce.

— Isso é terrível, mas... — gaguejo, incerta. — Não quero ser insensível, mas... o que isso tem a ver com você se tornar um imperdoável? Seu amigo morreu e você se revoltou, é isso?

— Não, minha querida, meu amigo não morreu. Meu amigo foi cancelado.

NÃO esqueçam de falar aí o que estão pensando e achando a respeito da história. <3 

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