XXXI| Obedeça-me
— Entendeu o que deve fazer?
Thales, o segundo mais velho, assentiu com a cabeça. Logo depois, o jovem ergueu rapidamente as sobrancelhas ao ver a rainha lhe estender uma adaga banhada em ouro branco com uma pedra púrpura decorando o espaço entre a lâmina e o cabo do objeto. O material era belíssimo demais para ser uma arma, no entanto, ele não disse nada ao pega-lo e esconder entre os bolsos ocultos na lateral da coxa.
— Irei usar isso com precisão, mãe — afirmou, convictamente, ao mesmo tempo em que ajeitava o seu cabelo. Com um elástico, o homem prendeu a parte de cima do seus fios em um coque, deixando as laterais raspadas à mostra.
Graças a isso, o símbolo da balança de pesos em sua testa ficou mais visível, revelando para qualquer um que o mesmo tinha um nível elevado.
A mulher apenas acenou com a cabeça, inspecionando a coxa do filho para garantir que a arma estava bem escondida.
Estava.
Ela assentiu outra vez, como que em aprovação.
— A senhora acha que o papai vai ficar orgulhos... digo, satisfeito, se eu conseguir eliminar o Rey?
A rainha levou os olhos até os do filho perante o questionamento. Essa ação fez o homem engolir em seco, como se tivesse se arrependido de ter feito uma pergunta tão ingênua e tola.
— Desculpe, eu não q...
— Provavelmente sim.
Talvez fosse o tom condescendente da mulher, a compreensão em seus olhos azuis ou a sinceridade dela que acabou fazendo o jovem de dezenove anos suspirar de alívio. Ademais, aquela resposta de sua mãe pareceu lhe dar mais coragem para tornar a falar;
— Eu sei que o Thomas é o filho perfeito porque ele tem os seus poderes e o do papai, mas... bem, você acha que... — o rapaz bufou, zangado consigo mesmo por não conseguir encontrar as palavras. — Eu só quero mostrar pra ele, e para você, que eu sou bom também, mesmo não sendo o que vocês esperavam.
A soberana piscou vagarosamente diante do desabafo do filho, como se, de repente, algo dentro de si tivesse sido despertado. Ela nunca tivera tanto tempo com os outros filhos como teve com o Thiago e o Thomas, mas ali, naquele instante, a mulher se deu conta de que poderia ter cometido um erro.
O Thor havia depositado todas as expectativas no Thomas quando ele nasceu, e, por alguns anos, os demais foram esquecidos por não terem alcançado a “perfeição”. Todavia, após a fuga dele com o Thiago, o Thor voltou a treinar os demais, mas nunca depositou tanta confiança ou fé neles quanto colocava no Thomas.
Theo, o herdeiro, conseguiu se destacar um pouco após treinos intensos e, por conta disso, o Thor acabou dando um leve voto de confiança para o mesmo. Contudo, o Thales, mesmo se tornando um espiritual, nunca conseguiu tanta atenção ou validação, muito menos o Thadeu.
Uma certa culpa ecoou no peito da rainha.
Ela poderia ter feito mais.
— Quando tudo isso acabar... — iniciou ela, encarando o filho com tanta firmeza que o homem chegou a ficar um tanto quanto confuso; — ... venha para a minha sala.
Thales piscou, chocado com o convite.
O Thomas e o Thiago haviam sido os únicos que haviam entrado lá. Ao completar dezoito anos, o Thales se tornou responsável por criar e executar os seus próprios treinamentos e missões, mas, nesse um ano, o mesmo nunca havia pensado em ir atrás de sua mãe.
— Eu não sou inteligente — disparou. — Não como o Thomas ou o Thiago.
A rainha estendeu a mão, e o homem franziu o cenho perante o gesto. Somente quando a sua mãe balançou a mão no ar que o jovem sacou que deveria segura-la, então, ele o fez, ainda que com uma certa hesitação. Thadeu deixou escapar um grunhido de surpresa quando a mulher lhe puxou para perto e, em seguida, segurou o seu queixo com a outra mão, abaixando a sua cabeça para...
Ele arregalou os olhos, atônito.
Beija-lo na testa.
O jovem não se lembrava da última vez que isso havia acontecido consigo. Na verdade, ele nem sabia se algum dia isso havia, de fato, ocorrido.
No entanto, para a monarca de Bry, aquele momento era nostálgico. Por um instante, o Thales era apenas um bebê que havia acabado de sair de seu ventre com um brilho intenso nos pequenos olhos violetas e com um semblante ingênuo e puro.
Ela se afastou, com os olhos queimando, e, mesmo com uma sensação de alegria e culpa brigando em seu interior, ela se forçou a sorrir levemente.
— Você não precisa ser inteligente como o Thiago ou o Thomas, nem poderoso como o Theo, muito menos inclemente como o Thadeu. Você pode ser você, e eu te aceitarei. Não há nada que precise provar para mim, Thales.
O jovem arregalou ainda mais os olhos, e um aperto estranho tomou o seu peito. Ele não sabia dizer o que aquilo era. Seria alegria? Alívio? O rapaz não tinha certeza, todavia, de algo ele sabia.
A sensação era boa.
— Eu vou — um indício de sorriso. — Quando isso terminar, eu vou na sua sala, mãe.
A rainha sorriu ainda mais.
— Estarei esperand...
De uma hora para a outra, a gravidade pesou. A mulher não conseguiu concluir a sua fala, pois usou a sua concentração para manter a postura ereta enquanto o Thales fechou o rosto, estufou o peito e ergueu o queixo para se mostrar inabalável perante o homem que havia adentrado no ambiente.
— Dara!
A voz do rei reverberou pelo local, e o Thales chegou a se arrepiar perante o tom sinistro presente na voz de seu pai.
— Sim, querido? — respondeu a mulher, sólida.
Ao se aproximar, o governante disparou o seu olhar até o filho, que abaixou a cabeça perante a severidade presente ali. O rapaz já sabia o que o seu pai desejava sem que o homem precisasse sequer pronunciar uma única palavra.
Retire-se.
E foi o que Thales fez.
Ele não pensou duas vezes antes de dar as costas e sair andando, porém, no meio do caminho, o homem não soube bem o por quê, mas uma parte de si o obrigou a olhar para trás, para a sua mãe, antes de prosseguir. Ao fazer isso, o jovem viu a rainha piscar para ele, como que dizendo que estava tudo bem, e, ao ver isso, algo no interior do homem se acalmou. Então, sem ousar lançar um olhar para o seu progenitor, Thales virou a cabeça e continuou andando.
E, sem nem saber o motivo, o segundo mais velho se retirou dali com um sorrisinho na face.
— O que você estava fazendo com o meu filho?
A mulher se virou para encarar o marido sem demonstrar o menor incômodo perante o peso da gravidade que a forçava a baixar a cabeça ou a se encurvar.
— Falando sobre o Rey. Se queremos colocar o nosso primogênito no lugar do general, ele precisa estar morto — respondeu, calmamente. — Por que?
O rei estreitou os olhos, incomodado com o fato de sua esposa se manter tão serena enquanto o mesmo ardia em fúria.
— Porque eu vi que os nossos invasores conheciam uma passagem secreta que nem eu sabia que existia.
— O Thomas está envolvido, ele conhece todas as passagens desse castelo...
— ... assim como você! — rebateu, lançando um olhar acusatório para a rainha.
Dara Brytleofber inclinou a cabeça, ainda com aquele semblante inabalável lhe estampando a face.
— O que você quer dizer com isso, Thor?
O rei deu um passo adiante, mas a mulher não recuou.
— O Thomas está preso. Isso é, deveria estar — a forma na qual a respiração da mulher falhou por alguns segundos fez o homem arquear uma das sobrancelhas. A gravidade pesou mais, fazendo com que a soberana emitisse uma leve careta de desconforto perante aquilo. — Se eu entrar na sala em que ele deveria estar e não o encontrar, eu vou...
— Vai o que, Thor? — questionou, dando um passo adiante, fazendo o homem recuar um pouco. — Por um acaso está questionando a minha lealdade?
O rei a encarou em silêncio, e o peso da gravidade diminuiu um pouco, como se o monarca tivesse hesitado.
— Nós estamos juntos por muito tempo, então não comece a tomar decisões impensadas e...
— E... — continuou ele, agarrando os braços da rainha, que prendeu a respiração perante o gesto. — ... eu vi que a fuga do Thomas e do Thiago há nove anos foi muito bem planejada. Eles têm a sua inteligência, mas, na época, eram jovens demais para conseguirem escapar. Claramente ambos tiveram uma ajuda para concluírem aquilo — expôs, demorando o seu olhar na mulher. — Desde aquele dia, a sua lealdade não é tão inquestionável quanto já foi, por isso, se o Thomas não estiver preso naquela maldita sala, você será a maior suspeita da fuga. Fui claro?
Dara o encarou, e, por um instante, uma aura sombria pareceu perpassar pelos olhos da rainha, como se um ódio interior tivesse despertado.
— Eu me lembro muito bem daquele dia — sibilou, passando a mão pela bochecha e, em seguida, levou até o cabelo, disfarçando o gesto. No entanto, acompanhando o movimento de sua esposa com o olhar, o Thor se lembrou do que ele próprio havia feito naquele dia, de como havia perdido a cabeça e a espancado até a inconsciência.
Após esse incidente, ambos haviam concordado de não comentarem mais sobre o tema.
O rei soltou os braços da esposa, porém, segurou o pulso dela com uma firmeza considerável.
— Vamos até o Thomas — alegou, puxando-a.
Sendo levada na direção da sala, Dara Brytleofber buscou dentro de si todo o autocontrole e a sua cabeça começou a maquinar inúmeras desculpas, alternativas ou até mesmo expressões de surpresa para utilizar quando ambos chegassem no destino final.
Porque, se as coisas tivessem dado certo, o Thomas não estaria mais naquela sala.
E a mulher sabia que a sua vida corria um certo risco por conta disso.
Alephe soltou uma risadinha ao olhar para trás e ver que havia despistado o Yuri.
— Moleza! — murmurou, ao mesmo tempo em que parava de correr para recuperar um pouco de ar. Enquanto isso, o mesmo observava o local a sua volta. — Pelo Ômega, esses corredores não tem fim não? Um corredor leva ao outro, que leva a outro, que não leva a lugar nenhum!
A princípio, o rapaz tentava correr para longe dos gritos e dos barulhos de batalha que vinham da prisão, porém, depois que os sons sumiram, o menino começou a ficar confuso, sem saber direito se estava indo para perto da prisão, para longe ou se só estava repetindo o mesmo percurso diversas vezes.
A criança bufou, cansada daquilo, e os seus olhinhos instintivamente foram até o teto, ou melhor, até o duto de ar presente ali.
O sorrisinho dele aumentou.
— Acho que se eu subir em uns oito ou nove clones eu consigo alcançar aquilo — sussurrou, pensativo. — Por favor, meia da sorte, não me deixe cair, se não eu v...
Um chiado atrás de si fez o jovenzinho se calar, ao mesmo tempo em que se virava para ver o que causara aquele som. Ao fazer esse movimento, os olhos de Alephe se encontraram com os de uma menina, provavelmente mais nova que ele, que tinha um semblante de choro na face. Lágrimas caíam pelos olhos da garotinha, e o peito dela subia e descia rapidamente, como se a mesma tivesse corrido sem rumo por aquele lugar há um bom tempo – assim como ele.
Ela deveria ter uns cinco ou seis anos, levando em conta o tamanho.
Alephe deu um passo hesitante na direção dela, que estava a alguns metros de distância, mas logo parou, como se o mesmo estivesse calculando a possibilidade daquela menina não ser real.
O Yuri tinha poderes relacionados a ilusões, não era?
— Como eu saio daqui?! — questionou a jovenzinha; a voz carregada de um desespero incontido.
Alephe olhou para os lados, procurando mais alguém além deles.
Ninguém.
Ele deu outro curto passo para frente.
— Quem é você?
— Lynna — respondeu, esfregando os olhinhos; as mãos tremiam. — Eu só quero ir para casa! — murmurou, com o corpo dando leves espasmos devido ao choro. — Eu quero sair daqui. E-Eu... Eu quero a minha mãe! — confessou; as lágrimas caindo ainda mais.
— Ei, não precisa chorar! — pediu Alephe, finalmente tomando coragem para se aproximar da menina, que o encarou com receio. — Eu te ajudo, ok? Quando sairmos daqui eu peço para o meu irmão te levar até a sua casa.
A garotinha ainda o encarava com uma certa dúvida, então o Alephe estendeu a mão para ela com um sorrisinho orgulhoso se formando em seus lábios.
— O meu irmão consegue se teleportar, ele pode te levar até a sua casa rapidinho! — afirmou, fazendo a moça erguer as sobrancelhas, surpresa e um tanto quanto esperançosa.
— É mesmo?
— Humrum!
A garotinha olhou para a mão dele por um instante antes de segura-la com força.
Muita força.
Pelo Ômega, como uma menininha desse tamanho tinha uma força como essa?
Alephe segurou o gemido de dor que quase escapava pela sua garganta e, quando tornou a ver a Lynna, um sorrisinho estava estampado em seus lábios.
Um sorrisinho maldoso.
— Santo Ômega, minha filha, mas que careta é ess...
O rapaz parou de falar, ficando boquiaberto ao ver a mocinha começar a brilhar. Aos poucos, ela foi aumentando de tamanho, as roupas foram mudando e, de uma menininha jovem e indefesa, a mesma passou a ser um homem esguio com os olhos pretos e fundos como a morte. No entanto, não foi nisso que o Alephe focou, e sim nas roupas que o indivíduo estava usando.
O uniforme da Divisão. E a jaqueta que ele usava era parecida com a do Rey, quase como se os níveis de ambos fossem próximos.
Alephe não sabia dizer quem era o homem de cabelos pretos em sua frente, mas o Nicholas reconheceria. Ah, com certeza o guerreiro safira não iria se esquecer do metamorfo que havia estado junto ao Rey nos últimos momentos de vida do Ruy.
O choque de Alephe ao ver o homem foi tão grande que o mesmo só percebeu que o integrante da Divisão havia colocado uma pulseira de Dinks em seu pulso quando uma certa fraqueza o atingiu.
— Até que você é bom em correr, pirralho, mas tenho pra mim que você não vai ter tanto êxito em fazer isso com essa pulseira de Dinks no seu corpo — o sorriso do homem, o mesmo que estava nos lábios da garotinha momentos antes, alargou-se. — Eu nunca deixei uma presa minha fugir, não com vida. Então, para o seu bem, é melhor não meter o louco. Fui claro?
Antony Signya estava com o ouvido colado a uma porta na qual alguns soldados tinham entrado há pouco tempo. O Luís nem se deu ao trabalho de tentar ouvir nada, alegando que a sua audição não era das melhores – e não era tão difícil saber o por quê disso.
O irmão mais velho de Daphne usou a sua habilidade ocular para ver quantas pessoas haviam do outro lado. Quinze. Entretanto, o jovem estava mais interessado em tentar ouvir algo relacionado a “estoque de imãs” do que a ver a quantidade dos sujeitos. Ademais, a porta era grossa, o que só permitia ao homem que ele visse a silhueta dos indivíduos.
Sem conseguir escutar nada, o treinador de elite desembainhou a sua espada e a jogou para o professor, que estava sem os poderes. Em seguida, o mesmo fez um sinal com a cabeça, indicando ao Luís que ele iria adentrar naquele lugar.
Era uma decisão arriscada. Cinco soldados haviam entrado ali, e nenhum dos dois sabia o nível dos guardas que já estavam lá dentro. Todavia, um desses cinco guardas possuía um imã anexado à sua perna, e isso foi motivo o bastante para que o Tony e o Luís os seguissem.
O treinador de elite só torcia para que o general, o rei ou o herdeiro de Bry não estivessem do outro lado. Do restante ele conseguiria dar conta.
Ou era o que ele esperava.
Após um aceno firme de cabeça para o seu atual parceiro, Antony arrombou a porta com o pé, fazendo a mesma bater com força contra a parede. Os seus olhos escarlate brilharam ainda mais, adaptando-se à nova vista dos...
O Tony quase fez a sua visão voltar ao normal perante a cena.
Os soldados... seminus. Alguns tinham apenas roupas íntimas, outros se cobriam com toalhas, outros tiravam ou botavam as vestimentas, contudo, com os olhos que tinha, o Tony conseguia ver... além.
Então aquilo era um vestuário. É, poderia ser bem pior.
Não dava para saber o motivo dos soldados estarem se trocando, mas os uniformes mais reforçados e as armas adicionais não eram um bom sinal, muito menos as máscaras de gás que estavam jogadas por ali.
Por segundos, que pareceram horas, o Tony apenas se concentrou em manter a sua vista na parte superior do corpo deles, ignorando veementemente a ampla visão que os seus olhos lhe conferiam. Sinceramente, ele quase saiu da sala para dar privacidade aos homens; e também para poder se recuperar de toda aquela... visão.
No entanto, o Luís não se deixou abalar. Enquanto todos se encaravam em um silêncio constrangedor, o professor correu pelo local em direção as vestimentas que estavam jogadas em um banco – ou melhor, ao imã que estava junto a elas.
A espada do homem saiu cortando os soldados que tentavam impedi-lo, e, quando os guardas berraram e começaram a ir rumo as armas, o Tony voltou a si.
E então, ele agiu.
Com uma velocidade assustadora, o treinador de elite seguiu até os inimigos que estavam mais próximos às armas para impedi-los de encostarem nelas ou em qualquer aparelho que pudesse alertar a outras pessoas que eles estavam sendo atacados.
Durante a rápida luta, o Luís usou a espada com maestria, enquanto que o Tony derrubou a maioria dos homens apenas com o olhar, usando a hipnose para apaga-los.
Assim que os quinze oponentes estavam no chão, Luís soltou um assobio de contentamento e jogou a espada para o Tony, que a agarrou veementemente.
O professor seguiu até o imã e soltou as próprias algemas, liberando um suspiro de alívio ao se ver livre. Logo depois, o mesmo começou a tirar a roupa listrada de prisioneiro, preferindo usar o uniforme dos soldados do reino Bry ao invés daquilo.
Enquanto o Luís se trocava, Tony passou a sua vista pelo ambiente, à procura de mais imãs. Dos quinze homens que estavam ali, apenas três possuíam aquele material. Talvez a maioria estivesse proibida de portar isso devido a situação do castelo.
Aqueles três imãs não eram o suficiente.
Um imã poderia abrir cinco, no máximo seis, algemas antes de ser inutilizado. Dos três que tinham, eles não sabiam quantas vezes ainda podiam usa-los, isso sem contar que o Luís havia acabado de gastar um deles para se soltar.
Libertar catorze pessoas, de toda aquela multidão de prisioneiros, ajudaria, mas não seria o bastante. Eles precisavam de mais.
O jovem xingou baixo antes de seguir até um dos soldados que estava inconsciente. Ao erguer a cabeça do homem, Tony forçou as pálpebras dele a se abrirem para que os seus olhos pudessem se encontrar com os do seu inimigo.
— Acorde.
Através da hipnose, o guarda piscou, com os olhos, antes marrons, agora indo para um vermelho levemente mais claro que o do treinador de elite.
— Onde posso encontrar mais imãs?
— Eu não sei.
Tony trincou os dentes.
— Onde você achou o imã que estava com você?
— Dois em cada dez soldados receberam um desse. Vossa majestade sabia que seríamos invadidos, pois descobriu que alguns jovens e dois homens estavam se direcionando para cá pela floresta. Ele escondeu a maioria dos imãs por precaução.
O irmão de Daphne franziu o cenho. Ele sabia que havia um traidor entre as crianças, mas como o governante daquele reino havia descoberto sobre ele e o Thiago antes mesmo de ambos chegarem ali? Antony Signya sabia que ninguém os havia visto enquanto estavam na floresta, então... Que tipo de “olhos” o rei de Bry teria por lá?
— Como o rei descobriu que o castelo dele seria invadido?
— Não sei.
O Signya estalou a língua, irritado.
— Os imãs que estão com vocês já foram usados antes ou estão novos?
— Não sei.
O integrante da K2 bufou, soltando a cabeça do soldado que caiu no chão outra vez, desacordado. Pelo visto, o governante daquele reino realmente não gostava de compartilhar absolutamente nada com os seus aliados.
— Sabemos que temos três imãs — disparou Luís, já vestido com as roupas dos guardas de Bry, ao mesmo tempo em que jogava o terceiro imã para o Tony, que o agarrou no ar e o guardou junto aos outros dois. — Seja bastante seletivo na hora de libertar as pessoas. Escolha as com poderes mais fortes e fim. Ficar correndo atrás de mais imãs será perda de tempo, vamos nos concentrar em sair logo daqui para, depois, resolvermos esse impasse. Agora vá atrás dos jovens, eu tenho algo a fazer.
Tony arqueou uma sobrancelha, interessado.
— Aonde você vai?
— Não se preocupe comigo — comentou, dando uma longa olhada no seu punho enfaixado. — Apenas se prepare para fugir daqui e... Ah! Eu tenho um pedido.
O treinador de elite assentiu, atento.
— Se eu não sair daqui, cuide da minha equipe. Eduardo, Samuel, Daiane e Laura. Eles são bons meninos — confessou, com a voz um pouco falha perante a lembrança de seus pupilos.
O rapaz observou o Luís por um tempo, como que refletindo que tipo de coisa o homem pensava em fazer.
— Não se preocupe.
O professor do time III abriu um leve sorriso agradecido; em seguida, um olhar destemido e uma expressão séria tomou conta de sua face. O homem caminhou até a porta, checando os cintos que prendiam as suas coxas com armas e compartimentos anexados a eles, e, antes de partir, o mesmo parou por um momento, virando a cabeça para encarar o Tony uma última vez;
— Obrigado.
Ryan encarou aqueles olhos azuis turquesa que cintilavam na escuridão.
De pé, o jovem sentiu o gelo emanar de seu interior. Uma camada gélida tomou forma em sua pele, protegendo-o, e o ar ao redor esfriou quando o animal começou a se aproximar. A luz fraca da tocha permitiu que os olhos de Ryan encarassem a besta, no entanto, a fera não estava sozinha.
Montada nele, uma mulher com uma assombrosa e – bastante – realista máscara de lobo o encarava.
Ao vê-la, o frio imediatamente saiu de seu corpo, mas não na direção de sua oponente, e sim para trás. Para o Diego, protegendo-o. Ryan prometera que o ruivo não seria pego novamente, ele não poderia quebrar aquele juramento.
O integrante da equipe IX observou a mulher descer o lobo, que era um pouco mais baixo que a Lydia – a que haviam encontrado no caminho até o castelo –, e, quando o jovem percebeu que a sua inimiga não pretendia falar nada, ele disparou, sem conter a raiva e o repúdio presente em seu tom de voz;
— Você o torturou.
A mulher mexeu a cabeça, levando a sua atenção até o Diego. Com aquela máscara, o Ryan não conseguia ver para onde ela estava olhando, mas o mesmo tinha certeza de que, com aquele movimento, a atenção da mulher havia ido até o seu companheiro. Ele fechou os punhos, preparando-se para atacar.
— Não fiz nada de mais, ele teve apenas uma leve demonstração do que estava por vir. Vim pega-lo de volta.
Ryan trincou os dentes.
— Só por cima do meu cadáver.
— Ora, melhor ainda.
A resposta da adversária foi como um sinal para que a loba avançasse. Para se defender da besta, Ryan ergueu um dos braços e libertou o seu poder, congelando as patas do animal para que ele não o alcançasse.
Como não conhecia os poderes de sua oponente, o rapaz não ousou desviar o seu olhar dela um momento sequer. Por isso que, quando ela estalou os dedos, Ryan permitiu que o seu gelo lhe cobrisse mais com o intuito de protege-lo de um possível ataque, contudo, um brilho advindo do lobo após aquele barulho atraiu a sua atenção.
O queixo do menino caiu de espanto.
Aonde o animal representante do reino Bry deveria estar, uma mulher, que provavelmente deveria ter a mesma idade do Tony e do Thiago, surgiu. A princípio, surpresa e alívio foram expressões que passaram pelo rosto dela, porém, aquilo rapidamente foi substituído por um grito doloroso.
As pernas congeladas a deixou em desespero e, agora que conseguia expressar a sua agonia, a mulher não perdeu tempo.
— Tire isso! — implorou, entre gritos e lágrimas! — Por favor — a súplica no tom de voz dela atingiu Ryan em cheio.
Por um momento, ele havia sido levado ao seu passado. À tortura que sofrera para obrigar o seu pai a soltar informações importantes. Inconscientemente, a sua mão foi até a cicatriz horizontal abaixo de seu olho.
Aquele havia sido o último golpe que desferiram nele antes de seu pai decidir abrir a boca. Caso não tivesse feito isso, o Ryan não teria mais um dos olhos.
— Tire! Tire! Tire!
Os gritos da mulher trouxeram o jovem de volta. As suas mãos suavam diante daquele desespero bastante familiar, e, sem conseguir raciocinar direito perante aquela situação, o jovem desfez o seu gelo na mesma velocidade que os criou.
Livre, a mulher caiu de joelhos, ainda em prantos, e, mesmo com as pernas latejando, ela lutou para se arrastar pelo chão para longe.
Para longe da mulher com máscara de lobo.
Ryan viu o terror nos olhos da mulher, olhando para algum lugar atrás de si, no entanto, o menino não conseguiu se virar antes de receber o toque de sua inimiga no rosto.
Um formigamento estranho percorreu o seu físico perante aquele toque, impedindo-o de mover o seu corpo.
— Aqui vai o seu comando, corujinha, obedeça-me.
A voz da mulher com máscara de lobo ecoou atrás de si num tom firme, autoritário. Imediatamente, Ryan sentiu o seu corpo formigar ainda mais, chegando ao ponto dele doer por inteiro como uma câimbra latente.
Sem conseguir ignorar a agonia, o rapaz caiu de joelhos no chão, arfante. Cada parte de si parecia estar sendo sufocada, moldada, de uma maneira que o mesmo jamais havia sentido antes. Todavia, quando a aflição diminuiu, o mesmo ficou em choque.
— Oh, não sabia que haviam tantas cicatrizes pelo seu corpo, corujinha. Interessante.
Coruja.
O Ryan havia sido transformado em uma coruja.
O jovem sentiu um certo pânico ao olhar para si mesmo. Uma coruja branca, mas as suas cicatrizes marcavam as asas claras do animal, como se, mesmo em outra forma, aquilo não pudesse ser tirado de si. E, como de costume, a cicatriz abaixo de seu olho era a mais nítida.
— No meu ombro.
Uma câimbra, ainda mais forte que a anterior, tomou o seu novo corpo quando o Ryan tentou ignorar a ordem de sua inimiga. A dor o fez chiar de agonia, soltando um guincho totalmente bizarro para um ser humano, mas bastante característico de uma coruja ameaçada. Incapaz de desobedecer, Ryan voou até ombro da mulher, pousando ali como um troféu de vitória.
O rapaz tentou se mexer ou usar os seus poderes, mas nada o obedecia, era como se o seu corpo não fosse mais seu e.... Bem, na verdade, aquele não era mais o seu físico, mas... Pelo Ômega, era como se o garoto estivesse à espera de uma ordem até mesmo para fazer as suas necessidades básicas!
Ele engoliu em seco.
Como os seus companheiros iriam descobrir que ele havia virado uma coruja? Mas o mais importante, e o Diego?
Um desespero encheu o seu peito.
Pelo Ômega. Pelo Ômega. Pelo Ômega.
Ryan tentou olhar para trás, mas o seu novo corpo não o obedeceu, forçando-o a ficar parado como uma maldita estátua.
— Não! — implorou a jovem ferida perante a aproximação da mulher com máscara de lobo. — Eu não quero mais ser um lobo ou um macaco ou um esquilo! Deixe-me ir para casa, por favor. Eu estou implorando! Por favor, por favor, por favor.
Macaco? Esquilo? Lobo?
Ryan e os seus companheiros haviam passado por esses três tipos de animais no caminho até o castelo. O menino sentiu o coração acelerar.
Pelo Ômega.
Todos aqueles bichos eram pessoas sob o domínio dessa mulher? Se sim, por quantos anos deveriam estar naquela forma? Uns dez, mais ou menos. Talvez até mais.
Pela primeira vez, Ryan agradeceu pelo seu corpo não estar sob o seu controle, caso contrário, o mesmo com certeza teria perdido o equilíbrio e ido ao chão.
— Logo todos os macacos e esquilos estarão ao redor do castelo para garantir que ninguém escape daqui — sibilou a mulher; a voz abafada devido a máscara. — Não se preocupe... — continuou, diminuindo vagarosamente o espaço entre a mais jovem, que virou a cabeça para vomitar o pouco que havia no estômago. — ... quando toda essa confusão terminar, transformarei você em uma pulga.
Como que se deliciando com o tremor e o desespero de sua presa, a mulher com máscara de lobo demorou propositalmente para tocar em sua vítima, que observava a aproximação sem poder correr devido às pernas inúteis que o Ryan havia congelado.
O garoto fechou os olhos para não ver a menina se transformando em animal outra vez – os gritos de dor emitidos por ela já eram o suficiente. Quando o ambiente ficou em silêncio, a mulher com máscara de lobo declarou a sua única ordem:
“Obedeça-me”.
— Pegue-o — falou em seguida, apontando para o Diego, e, mesmo com as patas machucadas, a loba foi forçada a se levantar e fazer o que lhe havia sido ordenado.
A mulher transformada em besta seria obrigada a andar, e pior, a carrega-los, mesmo com as pernas feridas.
Ryan sentiu o peito apertar tanto que o ar pareceu sumir de seus pulmões.
Ele tinha que fazer alguma coisa. Qualquer coisa.
— Ninguém nunca soube como os macacos e os esquilos surgiram, mas se acostumaram com a presença deles com o tempo. Uns diziam que vieram do norte das florestas de Bry, onde vários animais não nominados existem, outros acreditam que são os protetores da floresta, mas o que importa é que, no fim, acostumaram-se com a existência deles. Você acha que os seus companheiros se acostumarão com a sua ausência também, corujinha?
Ryan não soube se foi porque estava no corpo de uma coruja, por conta do choro contido da loba, pelo fato de o Diego estar sendo pego ou pelas palavras da mulher, mas lágrimas desceram pelos seus olhos.
Ele havia falhado.
E aí gente, tudo bem?
Estou passando no final do capítulo pra lembrar vocês de deixarem uma estrela ☆ e um comentário dizendo o que vocês acharam ♡
Será que a Dara e o Alephe ficarão bem? O que será que o Luís vai fazer? E, meu santo Ômega, como é que vão ajudar o Ryan?
Só saberemos nos próximos capítulos, rs
Por hoje é só, um abraço e até breve! 😉
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