XXX| Juntos

      Após algumas batidas soarem, James se ergueu com uma certa impaciência da cadeira em que estava sentado e seguiu até a porta. Ao abri-la, Arthur, em sua forma angelical, adentrou no espaço com o Nicholas desacordado sobre os seus ombros.
      — Que demora! Pensei que não ia chegar hoje.
      Arthur ignorou a queixa, tendo total noção daquilo. De fato, nessa forma, o garoto poderia ter chegado muito mais rápido se quisesse.
      Sem fazer questão de proferir algo, o jovem caminhou despreocupadamente até a cama que havia naquela área e colocou o Nicholas sobre ela. O menino de cabelos cacheados não conseguiu evitar lançar um olhar para a Daphne, notando que a mesma estava com os olhos fechados, mas, pela respiração lenta e constante, parecia que a garota estava apenas descansando.
      O rapaz não ousou suspirar de alívio diante da cena.
      Então, após se livrar do peso do Nicholas, o menino transmutado em anjo voltou a sua atenção ao James que, pelo olhar intimidador, parecia estar contando os segundos para o mesmo dar o fora dali.
      O jovem sentiu vontade de dar um sorrisinho irônico perante a face do seu parceiro, mas conseguiu manter uma expressão séria em seu rosto, que só se intensificou quando ele proferiu, num tom firme e inabalado;
      — O Rey me pediu para informar algo importante a você — quando o James fez um sinal com a cabeça, mandando o menino de cabelos loiros falar de uma vez, o Arthur deu uma rápida olhada para os dois indivíduos atrás de si. — O Rey foi bem claro quando me mandou te falar sobre isso a sós. Mesmo com esses dois desacordados, não podemos arriscar. Foi uma ordem bastante específica do general Rey, não pretendo descumpri-la.
      James bufou e rolou os olhos antes de abrir a porta e se retirar do ambiente.
      Arthur não conseguiu esconder um sorrisinho perante isso. O menino havia feito questão de enfatizar o nome do Rey durante a sua fala, e, pelo visto, isso havia dado resultado.
      Ele fechou a cara outra vez antes de sair do local, não ousando virar o rosto para observar o quarto atrás de si.
      Xingando, em um tom baixo, coisas que o Arthur não se incomodou em tentar ouvir ou responder, James fechou a porta com uma certa força.
      Clic.
      O barulhinho da porta sendo trancada foi o sinal que fez o Nicholas não só abrir os olhos, mas estampar um sorrisinho ardiloso que ele só usava quando estava prestes a fazer alguma coisa realmente impactante – seja ela boa ou não.
      — Barra limpa.

      Thomas chegou em frente a porta de seu antigo quarto.
      Ele hesitou em tocar a maçaneta por um instante, preferindo observar o ambiente ao seu redor por um tempo ao invés disso. A porta do quarto de Thadeu estava fechada, e o corredor estava mais silencioso que nunca, como se aquele fosse um dia comum.
      O olhar de Thomas se fixou à porta de Thadeu de maneira pensativa. Será que o rapaz deveria ter prendido o irmão, ao invés de apenas deixa-lo desacordado no chão? Ele apertou a maçaneta da porta, inquieto com aquele questionamento, porém, como o mesmo não iria voltar para fazer isso, ele respirou fundo, sabendo que cada segundo parado ali era um risco, e, enfim, abriu a porta, trancando-a atrás de si logo em seguida.
      A primeira coisa que o jovem viu ao adentrar no cômodo foi a Aurora, que esboçou um largo sorriso e voou com tudo em sua direção. Aquele espírito, minúsculo e com os cabelos brancos oscilando como ondas do mar, abraçou-o – ou melhor, tentou, já que, pela falta de tamanho, esse gesto era praticamente impossível, por isso, o ser apenas se agarrou à sua bochecha.
      Aquela ação da Aurora fez o Thomas sorrir, ademais, o garoto tinha em mente que, se a Mãe Natureza estava ali, a portadora daquele espírito também estava. O seu sorriso se alargou um pouco mais devido a esse pensamento.
      Quando o espírito da Flora se afastou, o Tell saiu de dentro de si, fazendo com que a Aurora voasse até o mesmo para abraça-lo também, dando ao Thomas a chance de caminhar até a sua antiga cama.
      O menino observou o ambiente a cada passo, relembrando de tudo o que já havia passado naquele espaço. Ainda que o quarto estivesse um pouco escuro, o jovem ainda conseguia identificar cada canto daquela área, como se, desde que ele tivesse ido, aquele ambiente não tivesse sido tocado por mais ninguém. Pelo visto, não haviam se incomodado em entrar ali – isso explicava a poeira acumulada. Será que tinham esperança de que ele retornasse algum dia? Thomas balançou a cabeça, afastando aquele pensamento ao alcançar a cama onde estava uma garota de fios brancos como a neve, a pele levemente mais escura que os cabelos, sardas perfeitamente alinhadas pelas bochechas, nariz e uma parte da testa, com um cobertor a cobrindo até o queixo.
      Ele nem percebeu que havia prendido a respiração quando se sentou vagarosamente na ponta da cama, admirando-a. O Thomas nunca havia parado para prestar tanta atenção na moça diante de si, mas, assim soube que ela fora sequestrada, a face da mesma não saía de sua mente. Todavia, agora que a encarava outra vez, o jovem se deu conta de que nunca havia a observado bem. As sardas, que davam um toque marcante no rosto dela, não eram algo que o mesmo tinha prestado muita atenção antes, e, ainda que o cabelo dela estivesse sempre à mostra, o garoto não tinha notado o quão brilhantes e brancos eles eram. Aqueles fios pareciam uma pintura de tão belos, as sardas pareciam terem sido colocadas uma a uma de um modo impecável, os lábios pareciam ser do formato de um delicado coração e... Thomas engoliu em seco, espantado por estar tão intrigado na aparência da companheira.
      Balançando rapidamente a cabeça, o garoto desviou o foco do rosto dela, e o seu olhar acabou indo direto para uma das mãos da menina, que estava fora do lençol.
      Antes que o menino se desse conta, o seu punho já estava sobre o dela.
      Perante o toque, os olhos de Flora se abriram, dando ao Thomas a oportunidade de observa-los por um tempo. Aquele tom acinzentado, como um dia nublado, tirou o fôlego de seus pulmões, no entanto, assim que a garota puxou a sua mão para longe e se ergueu com a respiração acelerada, o olhar de Thomas seguiu até o pescoço dela, ou melhor, até a marca avermelhada que estava estampada naquela área.
      Toda sensação de felicidade ou alívio se esvaiu de seu ser. Sem nem perceber, o Thomas já abria e fechava os punhos, mostrando que qualquer autocontrole que ele possuía estava diminuindo numa velocidade perigosa.
      O que diabos o Thadeu havia feito com ela?
      De imediato, uma culpa pareceu tomar conta do rapaz. Ele tinha certeza de que aquele machucado havia sido causado pelo seu irmão. Sem conseguir conter a fúria que queimou em seus olhos, Thomas buscou focar na sua respiração, pois o seu corpo inteiro formigava, indicando que os seus poderes estavam sedentos para serem liberados.
      O menino se afastou mais da garota, com o corpo tremendo devido ao descontrole de suas habilidades, e se forçou a tirar a sua visão do pescoço da jovem para fixar a sua atenção nos olhos dela. O rapaz temia que a gravidade dentro de si explodisse em resposta ao que ele estava sentindo.
      — Desculpe.
      Ao ouvir a sua voz, aqueles olhos cinzas piscaram vagarosamente, como se ainda estivessem tentando reconhecer a pessoa que estava em sua frente.
     Naquele momento, o mundo de Thomas simplesmente parou.
      Pelo Ômega. A respiração dele acelerou. Pelo Ômega.
      Será que a Flora o havia confundido com o Thadeu?
      O Thomas sabiam que ele era bem parecido com o irmão em vários aspectos e que isso poderia acabar confundindo a Flora, que havia tido uma péssima experiência recentemente, mas... mas... mas ele não suportaria se a garota não conseguisse encara-lo.
      Não.
      Não suportaria.
      O rapaz sentiu os olhos queimarem diante dessa perspectiva, e a dor em seu peito só se elevou quando o mesmo percebeu que a Flora ainda tinha um semblante receoso no rosto.
      Aquilo o acertou como um tiro, e o garoto se odiou.
      Odiou-se por fazer parte daquela família; odiou-se por ter os olhos dos Brytleofber; odiou-se por ser daquele reino; porém, odiou-se, acima de tudo, por ser parecido com as pessoas que ele mais abominava no mundo.
      Se a Flora não conseguisse mais vê-lo, se ela enxergasse o Thadeu em si, o menino destruiria o seu rosto, o seu olho, o seu cabelo...
      Tudo.
      Tudo o que lembrasse a sua maldita família.
      Quando o Thomas viu lágrimas caírem dos olhos de sua companheira, ele sentiu o mundo inteiro pesar sobre si.
      O garoto queria se aproximar dela, consola-la ou fazer qualquer coisa que não a fizesse enxergar o Thadeu nele, que não o confundisse com aquela escória, todavia, mesmo que todo o seu corpo tremesse para que ele se movimentasse até ela, o Thomas se forçou a ficar imóvel. Ele não iria invadir o espaço dela, não com o rosto que tinha, com os olhos que tinha – idênticos aos do rapaz que a ferira de maneiras que o mesmo não queria nem imaginar.
      A garganta de Thomas secou quando ele abriu a boca para falar, por conta disso, foi preciso muito esforço para o rapaz conseguir pôr a sua voz para fora;
      — Flora.
      Ele queria se desculpar, queria dizer que sentia muito, queria implorar para que ela não o confundisse com o irmão, queria dizer que, se fosse preciso, daria um jeito de mudar a sua aparência para ela se sentir bem; mas, no fim, o nome dela foi tudo o que o mesmo conseguiu proferir.
      No entanto, foi o suficiente.
      Como se ouvir o rapaz proferir o seu nome – e não souvenir – fosse a confirmação que a menina precisava para ter certeza de que o garoto em sua frente era real, Flora deixou um gemido doloroso escapar de sua garganta ao desabar em lágrimas e agarrar o braço do rapaz, puxando-o bruscamente até si.
      O Thomas ficou anestesiado, e ele não sabia se era por conta do choro da garota, da maneira que ela o puxou para perto ou da força que usava para mantê-lo junto a si, como se não quisesse que ele se distanciasse outra vez. Talvez fosse uma mistura de ambas.
      O rapaz não deu atenção a dor que percorreu o seu corpo perante aquele abraço, já que o seu físico ainda estava dolorido devido aos choques que havia tomado anteriormente, porém, isso não o impediu de passar os braços ao redor da menina e segura-la contra si. Assim como ela, ele também não queria se afastar.
      Não mais. Nunca mais.
      — Thomas...
      Ouvir o seu próprio nome ser proferido pelos lábios dela fez o corpo do menino se arrepiar por inteiro; lágrimas logo se acumularam em seus olhos.
      — Thomas — repetiu, como se ainda não acreditasse que o garoto estava ali.
      A mente do jovem pareceu parar de funcionar. Naquele momento, o corpo dele tomou o controle de suas ações; o rapaz passou a mão pelos cabelos brancos soltos dela, indo até a parte de baixo de sua cabeça, e a puxou ainda mais para junto, inspirando-a como se aquilo fosse uma necessidade básica de seu ser.
      Então, com a voz falha por conta das lágrimas que já caíam de seus olhos, Thomas aproximou os lábios do ouvido dela, e a sua voz saiu com uma rouquidão e apreço tão grandes que ele mesmo chegou a se arrepiar com o nível de urgência presente em seu tom;
      — Estou aqui, floco de neve.

      Nicholas abriu os olhos após a tranca da porta soar.
      Imediatamente, a sua vista seguiu até a garota que estava ao seu lado, deitada com a barriga virada para a cama e com o rosto voltado para o outro lado. Ele não precisou ver a face dela para saber quem era, aqueles cabelos castanhos escuros volumosos e lisos denunciavam a identidade de sua dona.
      — Doidaphne!
      Um sorriso se instalou nos seus lábios, e só aumentou a medida em que ele se levantava até se sentar.
      O menino não havia proferido o nome dela em um tom alto, porém, mesmo assim, a menina o ouviu. Lentamente, a moça virou a cabeça na direção da voz familiar, e os olhos arregalados dela indicaram o quão surpresa a Daphne estava com a presença do menino ali.
      Ao contemplá-la, o sorriso do garoto sumiu.
      Os olhos dele observaram o tom esverdeado das pupilas dela, e a forma na qual aquela cor se encontrava mais fosca no olhar da garota o deixou paralisado. Ela parecia exausta, como se algo ruim tivesse acontecido durante a sua estadia naquele quarto. Inquieto, a visão do Nicholas passou pelo resto do rosto dela, notando a palidez e pequenas olheiras abaixo dos olhos; o jovem tentou analisar o resto do corpo da moça, em busca de algum sinal de agressão, mas o uniforme a cobria por inteiro. Por fim, ele levou os olhos até o cabelo dela, finalmente se dando conta de que antes eles estavam presos em uma trança, mas, agora, estavam soltos.
      O rapaz sentiu um frio desconfortável na barriga ao começar a pensar no que poderia ter acontecido com a sua parceira; inconscientemente, o semblante do Nicholas se fechou ao ponto de se tornar enigmático. Milhões de coisas poderiam estar passando pela mente dele, mas, com toda certeza, os seus pensamentos sempre o levavam até a mesma pessoa: Daphne.
      A garota notou a mudança de expressão de seu companheiro. Aquilo a deixou tensa, afinal, ela não sabia que estaria tão acabada ao ponto do Idicholas – que não era conhecido por ser muito atento – perceber isso. Ela deu graças ao Ômega por estar vestindo um uniforme que a cobria por inteiro, pois, se o seu semblante havia ficado tão abatido, os seus braços, onde o James havia agarrado com força quando estavam sensíveis, deveriam estar com um aspecto ainda mais desagradável. Isso sem contar que ela não sabia se conseguiria mexer o corpo ainda, não depois de tanto tempo lutando contra a quantidade insuportável de Dinks e Sub-x que entraram em contato com a sua pele.
      A Daphne não queria que o Nicholas visse ou sequer pensasse que ela havia passado por isso. A mesma não queria que ele se preocupasse, afinal, estavam ali pela Flora. Ela não podia trazer problemas, não quando tinham algo tão importante para fazer.
      — Eu estou bem — sussurrou, e a mesma achou frustrante o fato da sua voz sair mais arrastada e rouca do que gostaria.
      Todos aqueles gritos e horas aguentando a agonia dos braceletes tinham o seu preço.
      Mesmo com a tentativa da garota em parecer bem, a expressão de Nicholas não mudou. Na cabeça do jovem, vários pensamentos colidiam entre si. Se ele tivesse chegado mais cedo, se tivesse se teleportado mais rápido, talvez tivesse conseguido impedir que a garota chegasse ali, que passasse pelo que quer que tivesse passado. O menino fechou os punhos com força, frustrado.
      — O Arthur nos traiu.
      Aquele comentário o fez piscar, arrancando-o de seus pensamentos.
      A Daphne havia falado aquilo de propósito. Ela não queria que o seu companheiro pensasse mais nela, não quando a mesma não ligava para si. Flora era o foco, e a traição de Arthur poderia atrapalhar as coisas.
      — Ele... — a sua garganta queimou, e a menina fechou os olhos com força para segurar a vontade de grunhir de dor.
      — Não.
      A menina piscou perante a resposta. Ou melhor, pelo tom do garoto. A voz dele estava tão carregada de carinho e paciência que os olhos dela queimaram, fazendo-a até esquecer da dor em sua garganta.
      O Nicholas tirou um imã que estava escondido na parte de trás da sua calça, e, quando a garota ergueu as sobrancelhas perante o objeto, o jovem o usou em suas algemas, mostrando para a amiga que o material realmente funcionava.
      — O Arthur que me deu — declarou, fixando o seu olhar no dela. — Antes de chegarmos aqui, ele colocou um negócio fedido no meu nariz para eu acordar e depois me deu um soro que ajudava a tirar mais rápido o efeito do Sub-x da corrente sanguínea. Depois ele me deu isso e disse que era pra eu usar tanto na minha quanto na sua algema enquanto ele ia deixar o James ocupado para que nós pudéssemos fugir.
      As sobrancelhas de Daphne ainda estavam erguidas quando ele terminou a explicação e, após absorver cada palavra, ela sorriu de leve; foi difícil segurar as lágrimas que se acumularam nos seus olhos.
      O peito de Nicholas se aqueceu ao ver o sorriso da parceira, e o mesmo não quis esperar mais nem um segundo para liberta-la das algemas. No entanto, quando o rapaz segurou no braço da companheira, apertando-o para que pudesse virar o corpo dela e conseguir mexer na algema, a menina soltou um grito contido de dor, que fez com que o menino a largasse imediatamente.
      Surpresa e medo se fixaram ao semblante do jovem.
      Daphne arfou, e o seu corpo inteiro tremeu diante da agonia que irradiou. O seu físico parecia gritar com ela, deixando claro que não aceitaria mais nem um segundo de dor.
      Ela já havia alcançado o limite.
      — Daphne?! — proferiu o menino, com a respiração acelerada de receio ao vê-la morder os lábios feridos para suportar a agonia. O garoto pensou que algo dentro de si estava quebrando por vê-la naquele estado. — Pelo Ômega, o que aconteceu com você?
      Ela mordeu os lábios com mais força, tentando afastar o tormento de seu corpo com a dor em sua boca, mas a mesma logo parou com isso, soltando outro grunhido. Nenhuma parte de si aguentava mais aquela sensação. Se fosse possível, a Daphne teria saído de seu próprio corpo só para afastar aquele sofrimento de si.
      Ela não sentiu as lágrimas escorrerem pelo seu rosto até sentir o sabor delas na boca, e, quando a mesma abriu os olhos para tentar afastar aquilo, o seu olhar foi de encontro com o tom âmbar dos olhos do Nicholas.
      De uma hora pra outra, a sua dor pareceu diminuir.
      Ela não havia notado que o rapaz havia ficado tão perto. O dourado dos olhos dele eram intensos, vivos. Eles brilhavam, como se estivessem conectados aos seus próprios olhos, e, quando a mesma sentiu o Nicholas limpar as lágrimas de sua bochecha, ela percebeu que o menino tremia.
      Aquele brilho no olhar dele se devia também as lágrimas que queimavam ali. Ele estava quase chorando... por sua causa. A menina engoliu em seco, perdendo-se dentro daquele lar dourado como ouro que, de alguma forma, trazia-lhe uma paz e conforto impressionantes.
      Ela não ousou se mexer, não ousou mexer nem um músculo. Seu corpo pareceu adormecer, e a sua mente, ao invés de focar em uma dor para esquecer a outra, preferiu focar nos olhos do rapaz. E ela não teve forças – nem quis – protestar contra isso.
      Ela não fez menção para que ele afastasse o dedo de sua bochecha, e também não achou ruim quando o mesmo colocou os seus cabelos atrás da orelha; porém, só quando o garoto começou a acariciar a parte de trás da sua cabeça, próximo a sua nuca, que uma sensação de relaxamento e deleite infestaram o seu interior, fazendo com que a Daphne não quisesse que ele parasse com aquilo por um bom tempo.
      Ela suspirou, com um certo alívio.
      Aqueles olhos dourados como o nascer do sol brilharam ainda mais quando o Nicholas notou que havia conseguido acalma-la. O jovem se aproximou mais, como se tivesse a mesma necessidade de ver os olhos dela assim como ela tinha de ver os dele, e, com um tom sério, mas ao mesmo tempo acolhedor, ele perguntou;
      — Quem fez isso com você, Daph?
      A menina paralisou, e não soube se foi por conta da indagação ou pela maneira carinhosa e terna na qual ela a havia chamado. Ademais, a garota viu que os olhos dele queimaram como brasas perante o questionamento, e isso a fez sentir um frio na barriga.
      — Foi o James? — prosseguiu, e era possível notar a repulsa do rapaz ao proferir o nome do integrante da Divisão. Antes que pudesse pensar se deveria ou não revelar aquilo, Daphne percebeu que a sua cabeça já tinha assentido em resposta. — O que ele fez?
      Daphne notou aquele olhar dourado ir rapidamente em direção ao seu braço, e também percebeu a raiva contida dentro deles. Isso a deixou em choque. Ela nunca havia visto algo parecido no Nicholas, aqueles olhos cheios de um fulgor sério, intimidador.
      — E com que mão ele fez isso?
      Ela piscou diante da pergunta.
      — Qual mão ele usou para te ferir?
      Daphne abriu a boca, surpresa. Nenhuma palavra saiu diante do espanto que a mesma sentiu perante a pergunta, perante o que o garoto estava disposto a fazer.
      Aqueles olhos incandescentes ainda a encaravam em busca de uma resposta, e, como se isso tivesse lhe passado forças, Daphne grunhiu ao jogar o seu corpo para o lado, ficando de barriga para cima.
      Sem nem pensar duas vezes, o Nicholas aproximou o imã das algemas, libertando a garota e fazendo-a suspirar de alívio, porém, para a infelicidade dela, os seus poderes ainda não tinham retornado – e depois do que passara, a menina não fazia ideia de quanto tempo poderia demorar até ter as suas habilidades de volta.
      — Ele não vai mais chegar perto de você. E eu não vou fugir antes de acertar as contas com esse morto vivo.
      Os olhos do garoto seguiram até a entrada, fixando-se ali com um ódio nítido, como se o mesmo conseguisse enxergar o James através da porta. Uma aura densa e azul escura começou a tomar conta de seu físico, mostrando que os seus poderes estavam ansiosos para serem usados.
      Daphne observou a forma na qual a habilidade azulada percorria o jovem. Ela não conseguiu desviar os olhos dele, que estava tão obstinado como na vez em que...
      Ela ergueu as sobrancelhas perante a lembrança.  
      Como na vez em que ele jurou que traria o Yuri a salvo nas preliminares do exame de prata. Faziam poucos meses que aquilo havia acontecido, mas tudo parecia ter ocorrido há muito mais tempo. A garota nunca pensou que sentiria saudades daquela época, afinal, caso fosse comparar, aqueles testes lhe pareciam ser infinitamente mais seguros do que o que estavam fazendo agora.
      A menina afastou isso da mente, voltando a focar no garoto que estava consigo. Da última vez que ela vira aquele olhar nele, o jovem havia feito uma promessa, mas agora não havia juramentos, o Nicholas estava fazendo aquilo por vontade própria, estava planejando fazer aquilo por causa... dela.
      O coração de Daphne saltou, e a mesma forçou a sua mão a ir até o joelho do menino, que se assustou levemente perante o toque e, quando a observou, dessa vez foi o rapaz quem pareceu se perder na profundidade de seus olhos verdes.
      — Nicholas... — ele prendeu a respiração, ficando nervoso apenas por ouvir o seu nome. — ... eu...
      Clic.
      Ao ouvir o barulho da tranca, a voz de Daphne sumiu. Uma dose de desespero tomou o seu corpo, e a garota segurou o seu parceiro com mais força em busca de apoio.
      Sentindo o medo de sua companheira, a raiva do Nicholas triplicou. Imediatamente, o menino apoiou a sua mão sobre a dela, percebendo o tremor que se instalara na garota.
      — Não se preocupe, Daph. Eu vou faze-lo provar do próprio veneno.

*

      O Nicholas se teleportou no mesmo instante em que o James abriu a porta do quarto.
      O rapaz da Divisão ergueu as sobrancelhas ao entrar no ambiente e ver a Daphne sem as algemas. O mesmo nem sequer notou o sumiço do Idicholas quando partiu em direção a garota, que arregalou os olhos diante da aproximação irrefreável do jovem. Todavia, antes que o menino pudesse alcança-la, o punho do integrante da equipe X foi de encontro a face do membro da Divisão.
      O golpe inesperado levou o James ao chão, e, para não dar chances ao rapaz de se levantar ou revidar, o Nicholas prontamente foi para cima do rival, desferindo socos no rosto, nos ombros, nos braços ou em qualquer parte desprotegida com a intenção de impedir que aquele traidor o olhasse nos olhos. Se o membro da K2 fosse possuído, aquela luta estaria perdida, então ele não deu a menor chance de seu inimigo ousar encara-lo.
      — Nunca. Mais. Toque. Nela. De. Novo. Seu. Morto. Vivo. Traidor. Idiota. Imbecil. Pudim sem açúcar. Louco. Estúpido.
      Cada palavra era acompanhada de um soco. O Nicholas fazia questão de priorizar acertar a face do rapaz abaixo de si – e de falar a maior quantidade de ofensas que ele se lembrasse.
      A princípio, o James até tentou proteger o rosto com os braços, mas como os socos vinham em sequência e de vários locais diferentes, o menino chegou ao ponto de não conseguir mais se defender. Por conta disso, o mesmo optou por tentar golpear o garoto que estava sobre si enquanto buscava a chance de usar as suas habilidades. Os seus olhos já estavam completamente brancos, à espera de conseguir observar rapidamente os olhos de seu oponente.
      Uma mera olhada e tudo terminaria.
      O Arthur ficou em choque diante da luta que se desencadeou, afinal de contas, ele esperava que os seus companheiros já tivessem se teleportado para longe dali. No entanto, ao ver os grunhidos que tanto o James quanto o Nicholas davam em meio a briga, o garoto finalmente “voltou a si” e fechou a porta do quarto. Por conseguinte, Arthur correu em direção a cama onde a Daphne estava e pegou as algemas que antes prendiam a menina. Ao fazer isso, o rapaz respirou fundo antes de correr para o meio da briga entre os garotos.
      Como o Nicholas estava na vantagem, Arthur conseguiu agarrar o James pelos cabelos e jogar a cabeça do menino contra o chão, mas tomando total cuidado para não encarar aqueles olhos esbranquiçados arrepiantes. Após fazer isso, o jovem soltou o cabelo do inimigo e tapou os olhos dele com uma das mãos, em seguida, jogou as algemas para o Nicholas, que a prendeu nos pulsos do menino – como o membro da Divisão já estava grogue devido aos ataques, ele não teve forças para impedir aquilo.
      — Você é um homem morto, Arthur! — rosnou James.
      O garoto de cabelos cacheados se encolheu um pouco perante a ameaça, no entanto, ao ouvir isso, o Nicholas trincou os dentes e voltou a socar o James que, dessa vez, não teve êxito em proteger a sua face, recebendo então, os ataques diretamente.
      Espantado com o sangue que começava a encher os lábios do integrante da Divisão, o Arthur rapidamente se ergueu e agarrou o Nicholas por trás, afastando-o do outro rapaz, que balançava a cabeça de um lado para o outro e piscava vagarosamente, como se estivesse lutando contra a escuridão da inconsciência.
      — Se eu descobrir que você sequer pensou em encostar na Daphne ou em algum dos meus amigos de novo a próxima surra vai ser pior! — esbravejou Nicholas, enquanto era puxado para trás até que a parede do quarto impedisse que o distanciamento continuasse.
      Da cama, a menina da equipe X encarou a cena com os olhos arregalados, mas ficou em silêncio. Ela gostaria de ter dado aquela surra no James, no entanto, a mesma não pôde negar que uma parte de si achou bastante aprazível ver o Nicholas fazer aquilo em seu lugar.
      Quando notou que o seu amigo estava menos arisco, Arthur o soltou e seguiu até a cama, onde pegou um lençol. O garoto torceu o pano e se dirigiu até o James, tapando a boca do jovem com o cobertor, para, logo em seguida, colocar a mão dentro do ouvido do rival, retirando um comunicador dali que imediatamente foi destruído entre os seus dedos.
      Mesmo com os olhos meio embaçados, o sangue que escorria pelo nariz e todas as pancadas que manchavam o seu rosto, o James ainda conseguiu rosnar, encarando o Arthur entre as pálpebras inchadas. Havia uma ameaça naquele olhar sombrio, um juramento.
      Um juramento que com certeza envolvia a morte do indivíduo de cabelos cacheados.
      Arthur tentou não se abalar com aquilo quando ergueu o corpo do James, que gemeu de dor perante o ato, para, por conseguinte, jogar o rapaz dentro do guarda roupa, que foi selado improvisadamente por uma cadeira.
      Ao se virar para o Nicholas e a Daphne, o menino desfez a sua forma angelical e engoliu em seco. Mesmo tendo os ajudado agora, isso não apagaria o fato de que ele havia entregado o Kal e a Ária para o general, uma das peças mais perigosas daquele jogo. O garoto passou as mãos suadas pela calça, buscando se acalmar, e engoliu em seco de novo quando deu alguns passos para se aproximar dos dois e entrar no campo de visão de Daphne, que ainda estava deitada na cama.
      — E-Eu... — iniciou, sem conter a gagueira que o atingiu por conta do nervosismo. Aqueles olhos, dourados e verdes, encararam-no de uma maneira penetrante ao ponto do rapaz sentir o seu estômago se revirar. — Sou um traidor! — concluiu, falando de uma forma mais rápida e tensa do que gostaria. — O Kral e a Ária foram capturados por minha causa. Além disso, todo mundo sabe que vocês vieram para cá porque eu falei — admitiu. As palavras saindo antes que o rapaz pudesse pensar nelas. — Se não fosse por mim, talvez vocês já teriam conseguido tirar a Flora daqui e fugido. É... tudo culpa minha.
      Arthur sentiu um peso sair de si perante a confusão, porém, quando ele viu o rosto do Nicholas sair da seriedade para o atordoamento, o seu corpo tremeu. Ele havia acabado com a confiança do rapaz. Ao olhar para a Daphne, o mesmo notou que a menina o analisava de um modo introspectivo. Ela era uma incógnita, e não saber o que a garota estava pensando sobre si o deixou ainda mais abalado.
      — E-Eu...
      O jovem tentou começar a se explicar, todavia, quando o Nicholas abaixou um pouco a cabeça, ficando com uma postura mais assombrosa, a sua voz sumiu. Os joelhos de Arthur quase cederam quando o garoto da K2, num piscar de olhos, apareceu em sua frente, e, por conta disso, o menino fechou as pálpebras com força, à espera de receber um golpe parecido com os que James havia recebido.
      O rapaz não culpava o Nicholas por estar se sentindo daquela forma, afinal, tudo poderia ter sido melhor se ele simplesmente... não estivesse ali. Não tinha como apagar isso. Então, engolindo o arrependimento e a vontade de chorar, o mesmo segurou o ar, aguardando o primeiro soco.
      Entretanto, ao invés de um ataque, tudo o que o Arthur sentiu foi uma mão segurar o seu ombro com uma força reconfortante. Ele abriu os olhos, em choque.
      — Você se arrependeu do que fez, não foi?
      As sobrancelhas de Arthur se ergueram, e o mesmo não soube se foi pelo tom compreensivo da pergunta ou pelos olhos dourados do Nicholas, que brilhavam com uma intensidade sobrenatural.
      Aquilo não era normal, aquele olhar. O fulgor naquele tom âmbar emanava poder, como se pertencessem a alguém... marcante. Poderoso e marcante. Dentro de si, Arthur sentiu como se já tivesse visto ou ouvido falar daqueles olhos em algum lugar, mas, no momento, ele então conseguia se lembrar onde.
      O menino engoliu em seco antes de responder ao questionamento.
      — Sim. Eu me arrependo muito.
      O rapaz não soube dizer que tipo de sensação tomou conta de si ao ver um sorriso se formar no rosto do garoto em sua frente; aqueles olhos brilharam um pouco mais, como que satisfeitos com a sua resposta.
      — Que bom. Eu também já fui da Divisão e do setor do Rey.
      Dessa vez, tanto o Arthur quanto a Daphne arregalaram os olhos.
      — Como você conseguiu escapar?
      O sorriso do Nicholas diminuiu um pouco, tornando-se um tanto quanto nostálgico perante a indagação.
      — Pra falar a verdade, eu não cheguei a ingressar cem por cento na Divisão, porque o Ruy... — a voz dele falhou devido a lembrança de seu antigo amigo e mentor; o homem que revolucionara a sua vida. — Ele era muito, muito importante pra mim... — ele parou outra vez, respirando fundo, e, de onde estava, a Daphne o encarou com um certo afeto, demonstrando que entendia aquele sentimento; Arthur fez o mesmo. — Graças a ele, eu não entrei. Agora eu estou aqui para te salvar também, assim como ele fez comigo.
      Naquele instante, o jovem de cabelos cacheados sentiu os ombros ficarem mais leves, como se o Nicholas tivesse tirado uma parte do medo e das amarras que o puxavam, e, ao se dar conta dessa leveza tranquilizadora, os seus olhos arderam perante algo que ele ansiava há bastante tempo. Liberdade. A benção que os seus pais morreram tentando fazer com que ele a tivesse, nem que fosse por um curto período de tempo. Liberdade, que fora tirada de si no dia em que havia virado subordinado do Rey e escravo do medo, porém, agora, uma luz brilhava em sua frente, uma luz dourada, advinda dos olhos de um garoto que não aparentava ser tão grandioso e nobre quanto realmente era.
      Liberdade.
      E ali, naquele precioso momento, o Arthur jurou que um homem de cabelos cacheados e pretos estava de um lado e uma mulher de cabelos loiros estava do outro lado do ombro do Nicholas, como se tivessem movido céu e terra para fazer com que o seu caminho se encontrasse não só com o do rapaz em sua frente, mas com o da garota deitada na cama e com o dos outros onze indivíduos que estavam espalhados por aquele castelo.
      Nicholas. Thomas. Daphne. Flora. Ária. Ryan. Diego. Camille. Eduardo. Kral. Cássia. Todos eles, todos unidos, virando uma força capaz de destruir não só aquele castelo, mas o reino inteiro e até mesmo a própria Divisão.
      Os doze.
      Juntos.
      Lágrimas escorreram pelos olhos do menino, e, sem se conter, Arthur agarrou o Nicholas, abraçando-o com toda a força que tinha, como se, assim, o mesmo conseguisse incluir as duas figuras invisíveis – os seus pais – naquele gesto.
      — Obrigado — sussurrou, já soluçando. — Obrigado.
      O ambiente ficou silencioso por um tempo, e, quando o Arthur sentiu aquelas duas presenças invisíveis sumirem, deixando um calor reconfortante em seu interior, ele sorriu em meio as lágrimas, sem se importar por estar colocando todo o peso de seu corpo no Nicholas, pois as suas pernas não funcionavam mais.
      — Ora, não precisa agradecer — respondeu o integrante da equipe X, segurando o Arthur com força para que o menino não despencasse. — Mas, se quiser, pode me dar um pudim depois que eu aceito.
      O comentário arrancou uma risada do jovem, e, quando o menino estabilizou o seu corpo e se distanciou do Nicholas, ele notou que a Daphne enxugava as lágrimas, como se também tivesse sentido o que o mesmo havia sentido. Quando aqueles olhos verdes, densos como uma floresta gloriosa, encontram os seus, ambos sorriram um para o outro, extasiados com a situação.
      De todos ali, o Nicholas pareceu ser o que menos se deu conta do que havia se passado.
      Fungando o nariz, o Arthur levou os olhos até os punhos do companheiro, que deveriam estar latejando de dor depois de tantos socos e...
      — Invulnerabilidade — explicou o rapaz, como se tivesse lido a mente do amigo. — Eu poderia ter socado aquele morto vivo o dia todo se quisesse.
      O Arthur assobiou com uma certa surpresa ao ver o jovem abrir e fechar os dedos despreocupadamente e, logo em seguida, a sua atenção seguiu até a Daphne. O mesmo não demorou a se aproximar da garota enquanto mexia nos compartimentos que haviam em seu cinto.
      — Achei que fosse precisar — alegou, mostrando algumas CEM. — Eu as peguei especialmente para você porque há uma droga dentro delas. Eu vi que você estava cansada, então decidir pegar essas aqui, que vão te dar muita energia temporariamente, mas...
      — ... mas depois eu vou sentir o dobro do cansaço — concluiu a menina, sabendo exatamente que tipo de medicamento era aquele. — Vai ser útil. Obrigada.
      A moça pegou as CEM, levando-as a boca. Com elas, o seu corpo iria receber uma grande dose de vigor e toda a sua dor iria diminuir, mas isso não a deixou contente. Tudo iria vir pior depois, e a moça torceu para que ela e os amigos já tivessem saído do castelo quando isso acontecesse.
      O efeito da droga foi praticamente instantâneo, e a mesma soltou um suspiro de alívio quando as agonias que perpassavam pelo seu físico aliviaram; graças a isso, ela se sentou na cama, e, quando o Arthur estendeu uma garrafa d'água até ela, os olhos da integrante da equipe X brilharam, e todo aquele líquido foi colocado para dentro em questão de segundos. A sua garganta ansiava por aquele tipo de alívio.
      — Obrigada.
      Arthur sorriu e assentiu com a cabeça. Posteriormente, o Nicholas se aproximou mais de ambos, sentando-se ao lado de Daphne, que levou os olhos até ele.
      — O que você queria me dizer? — indagou, ao mesmo tempo em que colocava uma parte do cabelo dela atrás da orelha. — Destrancaram a porta antes que você pudesse terminar de falar.
      Daphne apenas o observou por um tempo, mas, dessa vez, a sua visão não focou apenas nos olhos dourados do garoto, mas também nas sobrancelhas, na testa, bochechas... Em cada parte de sua face, como se buscasse decorar cada detalhe, e, no fim, a mesma nem se deu conta que analisava os lábios dele com tanto afinco até o menino passar a língua entre eles.
      Inconscientemente, Daphne também umedeceu os seus, sentindo o rosto queimar quando guiou a vista até os olhos de seu parceiro.
      Notando aquela situação, o Arthur percebeu que os fios do lençol de cama estavam bastante interessantes, então logo focou o olhar ali e, disfarçadamente, deu um passo para o lado, como se estivesse procurando um lugar para se enfiar.
      — Eu queria dizer... — ela pigarreou, sentindo um frio na barriga. — ... eu... — a mesma parou, como se não conseguisse proferir as palavras. — Obrigada.
      Nicholas piscou quando a moça disse aquilo. O rosto dela queimava, e o menino entendeu que tinha algo mais ali, porém, não insistiu, não quando o pobre do Arthur também estava corado como se estivesse sentindo na pele o nervosismo da garota. O integrante da K2 abriu um sorrisinho no canto dos lábios e se inclinou para frente, em direção à moça.
      — Eu me importo com você.
      Os olhos de Daphne se arregalaram um pouco diante da confissão, e a mesma se forçou a engolir a timidez para responde-lo;
      — Eu também me importo com você.
      O sorriso que o rapaz abriu instigou a garota a fazer o mesmo, e a menina sentiu um certo alívio por ter conseguido falar aquilo – e por ter ouvido as palavras saírem da boca dele também. Um contentamento novo se instalou em seu peito, e, quando a menina pensou em inclinar o corpo até o rapaz, ela se lembrou que havia mais uma pessoa naquele quarto.
      Ao levar os olhos até o Arthur e ver que o menino encarava fixamente o lençol, tentando não deixar na cara que estava ouvindo tudo, a menina sentiu o rosto queimar por inteiro. Talvez ela tivesse conseguido adquirir a colocação de um tomate, pois o sorriso de Nicholas se alargou ainda mais perante a sua reação.
      A menina se afastou, abanando-se para tentar disfarçar o seu estado.
      Tendo piedade da garota, o Nicholas se levantou para ir até o Arthur.
      A garota agradeceu ao Ômega pelo parceiro não soltar nenhuma gracinha ou se aproximar mais, pois, da maneira em que estava, ela não duvidaria de que o seu coração explodiria de tão rápido que estava batendo.
      — Você viu ou ouviu falarem sobre o Alephe?
      Daphne escutou o seu companheiro indagar isso ao jovem de cabelos cacheados, e a menina suspirou de alívio perante a mudança de assunto. Contudo, ela não conseguiu deixar de encarar o Nicholas de vez em quando pelo canto dos olhos.
      A cor âmbar nas pupilas dele. Ela havia se lembrado daquele tom.
      Daphne não sabia que gostava tanto da cor dourada até aquele dia.

      Flora sorriu ao ser chamada daquele jeito.
      Floco de neve.
      A menina se afastou um pouco do Thomas, apenas o suficiente para encarar os olhos dele e não sair dos braços do rapaz, porém, a moça percebeu que a visão de seu companheiro abaixou, indo em direção ao seu pescoço – até as marcas que estavam ali.
      Apenas pelo olhar do Thomas, a garota notou o quanto as suas feridas afetavam o jovem. Ela também se deu conta de que, se o mesmo pudesse, ele arrancaria aquilo de si, nem que para isso tivesse que colocar aquelas marcas terríveis em seu próprio pescoço.
      Flora sentiu borboletas no estômago diante disso.
      — O que fizeram com você? — sussurrou o garoto, forçando-se a erguer o seu olhar até o dela.
      A moça engoliu em seco.
      — Mexeram na minha cabeça. Eu vi o meu passado tantas vezes, e de maneiras tão diferentes e ruins que... — a mesma parou, com o coração acelerando diante da lembrança, e, inconscientemente, levou a mão até o pescoço. — E o Thadeu... Ele... — ela fechou os olhos, tentando conter o tremor que se apoderou de si.
      O Thomas não percebeu que estava tão tenso e nervoso até sentir a dor que irradiou de sua mão, na qual ele apertava com força para tentar manter a calma. Mesmo com a dor, o rapaz não parou, não quando as lágrimas voltaram a descer pelos olhos de Flora.
      — Ele tentou... Ele... — a garota se afastou dos braços de Thomas, abraçando a si mesma como se tentasse proteger o seu físico. — Ele quase... Eu...
      — Tudo bem, tudo bem — sussurrou, esticando a mão para tentar consola-la, porém, o mesmo logo se forçou a parar antes que pudesse encostar nela.
      Os olhos do jovem se arregalaram mais do que ele gostaria quando a ficha caiu; quando o mesmo finalmente entendeu o que o Thadeu havia pensado em fazer.
      O Thomas nunca precisou de tanto autocontrole para segurar os poderes dentro de si quanto naquele instante. A sua gravidade queria explodir para fora, queria esmagar coisas, ou melhor, o Thadeu. Ele rangeu os dentes, sentindo uma fúria anormal tomar conta do seu interior.
      Ele não se lembrava da última vez que havia se sentido assim.
      — E-Eu... — iniciou, mas o menino não sabia o que falar.
      Aqueles olhos acinzentados o encararam. Uma tempestade se formava ali, e o Thomas pôde ver claramente o desespero e o medo que haviam no fundo deles. O rapaz estremeceu, sentindo-se impotente e incapaz de um modo que nunca havia experimentado.
      A Flora pareceu ver isso nele, pois voltou a se aproximar e o abraçou outra vez.
      Receoso, e com as mãos trêmulas, Thomas contornou os braços pelo corpo dela como se fossem uma espécie de escudo contra qualquer coisa que tentasse atingi-la.
      — Não é culpa sua — murmurou, e as suas palavras fizeram a garota segura-lo com mais força.
      Essa atitude da moça acabou causando uma câimbra nas suas costelas, que ainda estavam sensíveis devido aos choques que havia tomado, e, por conta disso, o menino não conseguiu segurar um grunhido de dor, que, infelizmente, fez com que a sua parceira se afastasse.
      Aqueles olhos cinzas como uma manhã nublada o encararam, arregalados de assombro.
      — Eu...? — a mesma olhou para as próprias mãos, para os raios que passaram rapidamente pelos seus dedos. — Por Envyr! Desculpe... — sussurrou, com as palmas começando a tremer, e a sua respiração acelerou. — Eu não queria... Eu nem senti que...
      — Não! — disparou, sem dar a ela a chance de se sentir culpada. — Isso foi as boas vindas que os meus irmãos me deram — a mesma levou os olhos até ele, confusa. — Eu... — engoliu em seco. — ... levei alguns choques, mas isso não é nada demais e...
      — Eles te machucaram? — questionou, e o garoto perdeu o ar ao vê-la com um semblante preocupado.
      Não era justo. Ele não podia aceitar que ela ficasse assim, não quando a mesma havia passado por coisas muito piores.
      — Estou bem — respondeu, firmemente, mas uma parte de si se abateu perante a culpa que perpassou pela face dela; o jovem segurou as mãos da companheira e se aproximou mais, encarando-a nos olhos. — Eu passaria por isso de novo, de novo e de novo. Milhões de vezes se fosse preciso, contanto que eu pudesse te ver. Trazer-te de volta. Eu não quero te perder de novo, Flora, não assim. Quando eu soube que você tinha sido capturada eu senti um vazio em meu peito, como se uma parte de mim tivesse morrido. Então por favor, não se culpe por qualquer coisa que tenha acontecido comigo, porque eu poderia ter enfrentado os meus irmãos, o meu pai, os generais da Divisão ou até mesmo o próprio representante do governo se fosse preciso, mas eu viria te salvar.
      A menina abriu a boca, surpresa. Ela não pareceu saber o que falar perante tudo o que havia ouvido, e o Thomas também parecia chocado com as próprias confissões, então, um silêncio se instalou entre eles.
      Por um tempo, um apenas encarou o outro, como se uma conversa mental estivesse ocorrendo entre ambos.
      — Os seus olhos são mais bonitos — sussurrou. E, perante aquele comentário, o Thomas até começou a demorar mais tempo entre uma piscada e outra. — Mesmo que seja parecido, o seu olho não é igual — ela deu um sorriso hesitante. — O seu me traz uma sensação de paz, de... lar.
      O garoto engoliu em seco.
      — Eu... — tentou dizer, com voz falha. — Você me traz isso também. Um sentimento de lar, de propósito, e eu me sinto um idiota por só ter percebido isso quando te tiraram de perto de mim.
      Flora piscou, espantada com aquilo, mas logo sorriu. Ela pôs a mão na bochecha do rapaz, limpando uma lágrima que havia escapado dos olhos dele, e o encarou com uma ternura tão grande que o coração do jovem acelerou.
      — Thomas, eu... — iniciou, sem desviar os olhos. — Eu... — repetiu, sentindo o coração bater mais forte também.
      O menino segurou uma das bochechas dela delicadamente, como se já tivesse lido a mente de sua parceira e soubesse exatamente o que a mesma queria dizer.
      — Eu também, Flora — respondeu. — Eu achava que não, mas... Sim. Sim.
      A menina sorriu, inclinando-se para perto dele com o intuito de mergulhar naquele oceano violeta que existia nos olhos do rapaz; Thomas fez o mesmo, buscando se perder na tempestade nublada das pupilas dela. E então, ambos se encararam de uma maneira diferente, com os corações prestes a saírem do peito e uma sensação de acolhimento que apenas um conseguia proporcionar ao outro.
      Lar.
      — Sem querer atrapalhar, mas precisamos ir para o... 
      Tell tentou proferir, mas, antes que o espírito pudesse concluir a frase, o mesmo foi interrompido por Aurora, que acertou um golpe em cheio no braço do ser, que arregalou os olhos perante o ataque surpresa.
      A confusão entre os seres fez com que o Thomas e a Flora saíssem do transe, levando os seus olhares até os dois espíritos que ainda estavam naquele ambiente.
      — Você destruiu o momento, seu insensível! Sem coração! — vociferou, abrindo e fechando as mãozinhas como se imaginasse o pescoço do Tell entre elas. — Eu vou acabar com a sua espécie!
      — Mas você é da minha espécie, sua desequilibrada! — resmungou de volta, mas o ser logo se arrependeu da resposta ao ver os olhos da Mãe Natureza se encherem de raios que logo perpassaram por todo o minúsculo corpo da mesma. — Espera! Eu não...
      — Ele tem razão — declarou Thomas, a favor de seu espírito, que não demorou a voar até o seu portador para se proteger de outro possível ataque.
      — Aurora! — exclamou Flora, fazendo com que o ser fizesse os raios sumirem, porém, o olhar ameaçador não saiu da face da mesma, que encarava o Tell enquanto se aproximava de sua portadora.
      O espírito da telecinese tentou não manter contato visual com a companheira.
      — Temos que sair daqui e nos encontrarmos com... Flora? — o mesmo se interrompeu ao ver a expressão da garota mudar. O corpo dela tremeu, e puro desespero podia ser visto em sua face. — Flora? — chamou-a novamente, com um certo receio, e, perante isso, ambos os espíritos levaram os olhos até a menina.
      — E-Eu tenho medo — confessou, levando a mão ao pescoço outra vez. — Se o Thadeu me ver, ele vai... A minha mente e... Eu não... — a medida em que falava, a garota tentava abraçar a si mesma, como se tentasse cobrir o corpo que estava exposto demais devido ao vestido curto com alças finas. — Eu não quero passar por aquilo de novo — o físico da mesma tremia, como se, de repente, o ambiente tivesse numa temperatura abaixo de zero; a respiração dela acelerou, e lágrimas começaram a brotar em seus olhos. — A minha mente... Eu não consigo! Eu não quero aquilo de novo, eu não...
      Thomas rapidamente levou as mãos até as bochechas dela, fazendo-a observa-lo.
      — Eu não vou sair do seu lado — afirmou, com um tom tão carinhoso que a Aurora suspirou, fazendo com que o Tell a encarasse pelo canto dos olhos, mas, dessa vez, o mesmo não ousou comentar nada. — Eu prometo.
      Flora encarou os olhos dele e se permitiu sentir a segurança e o conforto que eles emanavam. Ainda trêmula, a garota assentiu. Os espíritos usaram isso como deixa para entrarem nos corpos de cada um, e, após fazerem isso, os integrantes da equipe X se levantaram da cama ao mesmo tempo.
      De pé, Thomas retirou o manto preto de si e o colocou sobre a Flora, cobrindo aquele vestido que a deixava tão desconfortável. O rapaz também cobriu a cabeça dela com o capuz, e, após fazer isso, ele segurou as bochechas dela com a mão em concha para observa-la atentamente.
      — Vamos sair daqui juntos — sussurrou, antes de beijar a testa da menina, que fechou os olhos ao sentir os lábios dele contra si.
      A garota sentiu um frio incomum quando o jovem afastou as mãos e os lábios de seu rosto, porém, o mesmo logo estendeu o punho, e os olhos dela brilharam quando a sua mão segurou a dele.
      Uma eletricidade intensa – e agradável – inundou o corpo de ambos devido ao toque, levando um sorriso ao rosto dos dois quando se encararam, extasiados com aquela sensação que se iniciou com um simples segurar de mãos.
      — Juntos.

E aí gente, tudo bem?
Estou passando no final do capítulo pra lembrar vocês de deixarem uma estrela ☆ e um comentário dizendo o que vocês acharam ♡
O que acharam do capítulo de hoje? Um pouco de calmaria é sempre bom, não é? rsrs, no entanto, não se animem não, no capítulo seguinte vai ter coisas fortes 🔥
Por hoje é só, um abraço e até breve! ❤

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