XXIII| Chuva de projéteis
O semblante do Nicholas estava o mais neutro possível, pois o garoto não queria demonstrar nenhum tipo de abalo ou receio perante o seu reencontro com o Rey, entretanto, quando a sua vista seguiu até o José, que estava atrás do general, o mesmo não teve com não arregalar os olhos e erguer as sobrancelhas.
— Vejo que você já conhece o meu mais novo quase aliado — cantarolou Rey, notando a surpresa do rapaz. — Ele está querendo se juntar a mim, mas para conseguir isso, terá que ser bom o suficiente para roubar o lugar de alguém... — revelou, e os seus olhos azuis se demoraram no Nicholas para deixar claro que ele era o alvo, contudo, o integrante da equipe X apenas franziu o cenho.
— E o que eu tenho a ver com isso?
O sorrisinho arrogante do general sumiu.
— Pensei que a sua burrice iria diminuir com o tempo — murmurou o homem, revirando fortemente os olhos e, ao fazer isso, a sua atenção acabou sendo levada até o Alephe, que o encarava com os olhos arregalados de espanto; Rey ergueu uma de suas sobrancelhas, analisando-o. — Você não me é estranho...
Percebendo os olhos do homem sobre o seu irmão, Nicholas colocou o seu braço na frente do menino, fazendo a criança ficar atrás de si; Rey deu uma risadinha irônica perante essa atitude.
— Ah, sim! — exprimiu o general, ainda com os olhos no jovenzinho. — Por Envyr, você é a cara do seu pai — aquele comentário fez com que Alephe segurasse o braço do Nicholas em busca de apoio, fazendo com que o membro da equipe X lançasse um olhar sério e exasperado para o Rey ao sentir o receio de seu irmão. — Aquele soldadinho imbecil tentou fugir quando descobriu que o seu próprio filho tinha poderes, ele tinha medo que machucássemos a criança... Lembro disso até hoje porque aquele miserável era um dos meus homens e eu jamais esqueço uma traição — um riso amargo de escárnio ecoou da garganta dele. — Pensei que a criança tinha morrido quando se perdeu numa floresta ao sul do reino Hope, mas pelo visto isso não aconteceu... Seu rosto te denuncia claramente, você é a cópia do covarde do seu pai! — gargalhou.
— MEU PAI NÃO ERA UM COVARDE! — gritou.
A risada do Rey cessou perante o tom de voz do jovem, e quando os seus olhos seguiram em direção a criança com uma violência gritante, o Nicholas se pôs na frente do campo de visão do homem e o encarou de volta com a mesma brutalidade; isso fez o general abrir um sorrisinho desdenhoso no canto dos lábios.
— Que bela surpresa o destino me trouxe! — declarou o homem. — Para pagar o erro do seu pai... — ele deu um passo pro lado para encarar Alephe nos olhos. — ... você servirá a mim, caso contrário, irei fazer com você a mesma coisa que faço com qualquer outro traidor. Matarei lenta e dolorosamente.
— Você não vai tocar no meu irmão! — exclamou Nicholas; sua voz saiu com tanto ódio que o Rey chegou a erguer uma de suas sobrancelhas antes de levar os seus olhos mortais e frios até ele.
— Já que você está tão determinado, vamos ver se consegue ao menos defender a si mesmo antes de tentar proteger os outros — proferiu, com a voz grossa e cheia de autoridade. — Essa é a hora de provar o seu valor... — alegou, olhando de canto para o José, que sorriu de maneira perversa ao ouvir aquilo. — ... mate-o.
O garoto da A1 deu um passo adiante e uma aura negra cobriu os seus braços num piscar de olhos, demonstrando o quão ansioso o menino estava para iniciar o embate. Com a aproximação do rapaz, Nicholas deu um pequeno empurrão em Alephe, fazendo com que o garoto compreenda o recado e se distancie o bastante para que não se envolvesse na batalha – as pernas da criança tremiam tanto que ele precisou se segurar na parede para conseguir se afastar de seu irmão sem cair.
— Hora do acerto de contas, ovelha negra.
— Olá, majestade — respondeu Kal para a rainha de Bry, com uma dose de indolência e sarcasmo tão nítida em seu tom de voz que a espinha de Ária se arrepiou de receio. Se a menina não estivesse tão amedrontada com a presença imponente da soberana, ela definitivamente teria repreendido o companheiro pelo deboche e ousadia tola.
A moça engoliu em seco quando os olhos azulados da mulher recaíram sobre o rapaz; Ária olhou para o amigo pelo canto dos olhos, e a expressão séria e relaxada de sempre estava estampada no rosto dele, deixando-a surpresa. Em momentos atrás, Kal até tinha demonstrado espanto com a presença da governanta, porém, após aquele curto período de tempo, o seu rosto voltou a ser o neutro de sempre. Não havia nenhuma expressão em sua face, nenhum resquício de medo, respeito ou qualquer coisa que não fosse... indiferença, quase como se a mulher em frente a eles não representasse ameaça alguma. A Ária teve que admitir, aquele tipo de atitude era algo que ela definitivamente gostaria de ter, no entanto, a sensação de pavor que percorria dentro de si era tanta que, mesmo com a armadura de diamantes lhe protegendo o físico, ainda assim ela acabou dando um passo para trás.
O silêncio que havia se instalado no ambiente a estava matando de ansiedade por dentro, e isso ficou pior quando os olhos da rainha, que antes pareciam até terem um traço de gentileza, mudaram. Um sorriso imponente e assustador, digno de alguém poderoso, surgiu nos lábios da mulher, aumentando a tensão daquela área. Por dentro da armadura de cristais, as palmas das mãos de Ária suaram.
— Vocês serão torturados, como o Thomas está sendo agora, e logo em seguida serão mortos — a voz da majestade saiu num tom tão firme e intimidador que chegou a fazer os joelhos de Ária tremerem; o barulho de diamante batendo contra diamante ecoou mais alto do que realmente deveria ser devido a ausência de som do lugar. Pelo Ômega, a garota nunca tinha pensado que seria torturada e...
Por um instante, o mundo de Ária parou. Torturado? Um nó se formou na garganta dela, que segurou no braço de Kal para que conseguisse se manter de pé, o jovem permaneceu firme. Estavam torturando o Thomas?
— O-O q-qu-qu... — a moça tentou falar, mas o pavor a dominava tanto por dentro que até falar estava sendo difícil. Percebendo o gaguejar e o terror que estavam presentes na voz da menina, Kral tirou os olhos da mulher em sua frente para observar a sua parceira com a intenção de ter certeza de que ela ainda estava... sã. Os olhos castanhos de Ária encararam os azuis escuros da rainha quando a soberana a encarou; dentro da garota, o medo daquela mulher e a repulsa que sentia pelo que estavam fazendo com o Thomas combatiam entre si. — O-O q-que disse?
Uma sombra pareceu se instalar nos olhos da soberana, conferindo-lhe um olhar macabro e tenebroso o bastante para fazer o estômago de Ária se revirar.
— Por acaso gaguejei?
A resposta atingiu os ouvidos da moça como um tapa seco. Naquele instante, mesmo sem precisar respirar por conta de sua armadura, o peito da integrante da K2 começou a subir e descer, revelando a sensação desesperadora que estava sentindo. Se pudesse, a menina pararia o mundo apenas para conseguir colocar as ideias em seu devido lugar e recuperar o autocontrole, mas...
— P-Para on-onde v-vocês le-levaram o Th...
Quando a mesma se obrigou a falar, tentando ao máximo deixar a frase o mais clara possível, a rainha deu um passo adiante – e esse ato foi o suficiente para que o receio engolisse a voz da menina e a fizesse segurar o braço de seu companheiro com mais força. Imediatamente, Kral deu um passo para o lado, ficando entre a menina e a soberana de Bry. Quando os olhos da mulher foram guiados até o garoto, ele a encarou de volta com uma calma de outro mundo. Por Envyr, Ária mataria para ter aquele domínio próprio.
— Quero ver a sua cara... — iniciou o jovem, com aquele tom casual e um leve sorriso no canto dos lábios, sorriso este, percebeu Ária, que apenas servia para elevar a sua indolência e desdém frente a maioral de Bry. — ... quando destruirmos o seu reino até virar cinzas, assim como foi feito com Hope. Em relação ao Thomas, devo dizer que foi muita generosidade sua nos avisar isso, é sempre bom quando o inimigo solta os planos dele ao acaso, porém, agora que temos essa informação, irei te dar duas opções: ou você nos conta onde estão mantendo o nosso amigo... — aquela palavra fez o rapaz se arrepiar; ele sabia o peso dela. — ... ou iremos tortura-la também até que nos revele o que queremos saber — os olhos de Ária se arregalaram perante a ameaça, mas a governanta permaneceu impassível. — Sua oportunidade de falar é essa, caso contrário... — a mão do jovem seguiu até o bastão acoplado ao seu cinto; — ... resolveremos as coisas à moda do seu reino, majestade.
O queixo de Ária caiu. Torturados até a morte, era isso o que aconteceria com eles se fossem pegos... e a garota tinha certeza de que também dariam um jeito de reviverem o Kal só para tortura-lo outra vez pela ousadia. Pelo Ômega, Por Valir, Por Bry, Por Lovtsi, Por Nullo, Por Hope, Por Envyr, Por qualquer coisa! O Kal estava louco, louco! Naquele momento desesperador e fatal, Ária já não ligava mais para o barulho dos cristais de sua armadura tilintando devido ao tremor em seu corpo, pelo menos aquele som aliviava o silêncio que se seguiu à ameaça. O estômago da garota se revirava, não aguentando mais toda a ansiedade e tensão que borbulhavam dentro da mesma... Se ela não fosse tão má atriz, poderia ter dado uma de Diego e fingido um desmaio só para acabar com aquela aflição.
Kal e a soberana de Bry se encaravam intensamente, quase como se fosse uma disputa para ver quem desviava o olhar primeiro. Contudo, quando o garoto inclinou a sua cabeça para o lado, como se, por meio disso, demonstrasse para a rainha que o tempo dela escolher uma das opções propostas por ele estava chegando ao fim, a mulher simplesmente...
Sorriu. Não um sorriso assustador ou ameaçador, um sorriso carinho, de aprovação. Ária piscou os olhos, como que para se certificar de que o medo não a havia deixado maluca.
— Bom saber disso, criança — respondeu a mulher, fazendo com que a Ária franzisse o cenho. Então a governanta havia... gostado de ser ameaçada? A moça levou seus olhos confusos até seu parceiro que, se ficou surpreso com o comentário, não demonstrou. — Eu queria saber de que lado vocês realmente estavam. Fico muito feliz em saber que querem o bem do meu filho caçula — ao proferir aquilo, um brilho de esperança passou pelos olhos da soberana.
— Ca-Caçula?! — questionou Ária, com tanto espanto que até esqueceu com quem estava falando; assim que os olhos da majestade repousaram sobre si de novo, ela se encolheu atrás de Kal, que a observou por cima do ombro com um olhar atrevido, quase como se tivesse gostado de ter servido como uma proteção para a mesma. As bochechas da moça queimaram por dentro da armadura.
— Deixaremos as explicações para depois, nossa prioridade agora é outra — proclamou, ao mesmo tempo em que retirou um candeeiro, que estava fixo em um apoio do muro, e o acendeu; logo em seguida, a senhora empurrou um dos cascalhos da parede com o pé, fazendo-a ranger e abrir um pouco, dando espaço para que apenas uma pessoa por vez pudesse adentrar no estreito e escuro corredor adiante. — Vamos! — ordenou, entrando naquela área; a pouca luz do lampião iluminou o ambiente, mas como ele era feito de rochas basálticas também, a visão não era das melhores.
— Ah, que gracinha, vamos seguir o nosso inimigo, que nos ameaçou de morte há poucos segundos, por um caminho totalmente sombrio e duvidoso... Que mal há nisso, não é? — ironizou Kral, com o pessimismo de sempre se mesclando ao sarcasmo. Se Ária não estivesse tão confusa em relação as suas emoções, que mudavam de medo para dúvida e da dúvida para a raiva de uma forma tão rápida, ela com certeza teria arrancado a boca do garoto fora para que ele parasse de comentar coisas daquele tipo; a moça também não deixou de agradecer ao Ômega pelo Nicholas, Cássia, Daphne, Diego ou Eduardo não estarem ali para apoiarem ou, pior, incentivarem as falas do menino.
A rainha sorriu perante a ponderação do rapaz, fazendo com que a atenção de Ária se voltasse para a mulher outra vez.
— Eu precisava saber se vocês se importavam mesmo com o Thomas ou se eram... Enfim, como a resposta foi positiva, quero que me sigam, pois os levarei até o local onde ele está sendo mantido.
— E p-por que vo-você nos levaria até lá?
A mulher inclinou a cabeça um pouco para o lado, dando a entender que a resposta para aquilo já estava bastante clara, porém, mesmo assim, falou;
— Para salva-lo.
Ária observou atentamente a soberana de Bry antes de olhar para o Kal, como que para saber qual era a opinião dele em relação àquilo, e o sorrisinho sarcástico, o único tipo de sorriso que ela o via emitir desde que o conhecera, surgiu nos lábios do rapaz.
— Quer mesmo que a gente confie em você tão fácil assim? Nós somo jovens, mas não somos burros.
A senhora daquele território riu levemente pelo nariz.
— Se quiserem que o Thomas continue vivo, sigam-me. A parede fechará em alguns segundos e eu não posso parar pra ficar respondendo perguntas, até porque cada segundo aqui é um tempo valioso que estamos perdendo. A decisão de confiar em mim ou não é totalmente de vocês, mas a escolha errada trará consequências que vocês não poderão concertar no futuro — foi tudo o que ela disse, antes de dar as costas e começar a andar pelo corredor apertado.
Kal não se moveu, não acreditou na mulher.
Não dava para culpa-lo, pensou Ária, afinal, o Arthur tinha armado uma para eles há pouco, então o seu parceiro estava bem mais desconfiado que o normal, principalmente quando se tratava de confiar ou não na governanta de um reino aliado ao governo. Ária analisou o seu amigo com atenção antes de voltar o olhar para a rainha, que caminhava vagarosamente, quase como se os estivesse esperando – se a senhora se afastasse demais, a luz de seu candeeiro sumiria naquela escuridão. O coração da moça pesou. Se a majestade estava falando a verdade, a menina não podia perder a chance de salvar o seu companheiro de algo tão... terrível. Ária sabia que tinha errado quando decidiu seguir o seu lado emocional e ir com o Arthur procurar o Kal, mas... não se arrependia daquilo. Se não o tivesse feito, ela não teria conseguido ver um fio da essência do Arthur que queimava no fundo de seus olhos, uma chama oculta, quase como se ainda houvesse esperança dentro do jovem... A moça vira essa mesma chama nos olhos da rainha quando ela havia falado de seu filho caçula, do Thomas.
A sua armadura de diamantes saiu de seu físico.
— Espere! — pela primeira vez, ela não gaguejou; a senhora do reino Bry, do território que havia jurado lealdade a Divisão, parou, mas não olhou para trás. — Eu vou com você.
Quando a menina ousou dar um passo a frente, Kral segurou o seu braço e a encarou com um olhar sério. “Tem certeza?”, ele pareceu falar através dos olhos. Ária respirou fundo, mas afirmou com a cabeça – ela preferia confiar em sua intuição do que se arrepender depois.
Vendo a resposta positiva da garota, Kal soltou um suspiro e a soltou, em seguida, ele foi o primeiro a adentrar no corredor através da parede para que a sua parceira não ficasse próxima a soberana, afinal, ainda havia o risco da mulher ataca-los a qualquer momento. Segundos após os dois entrarem, a passagem atrás de ambos se fechou.
Agora não tinha mais volta.
Após salvar o Diego, Thiago apenas saiu da área onde estava e se dirigiu rapidamente a uma parede que continha uma das várias passagens secretas que haviam no castelo – as quais o homem conhecia muito bem graças a sua mãe que, quando pequeno, o fez estudar toda a estrutura do lugar. Não havia nenhum espaço que o mesmo não conhecesse.
O Brytleofber carregava o garoto da equipe IX nas costas enquanto caminhava pela passagem por dentro da parede. O local era escuro, pois as tochas que estavam pregadas em algumas partes do muro não estavam acessas, porém a falta de luz não foi um problema já que, ao erguer a mão esquerda, um pequeno objeto saiu da luva de Thiago e começou a flutuar em sua frente como um pequeno vagalume que o ajudava a enxergar qual caminho terroso e estreito ele teria de seguir para chegar aonde queria.
— Então quer dizer que você conseguiu abrir as celas das prisões, mas depois disso um soldado acionou um estado de emergência que só a família real sabe como desativar?
— Sim — respondeu Tony, através do comunicador.
— Eu darei um jeito nisso! — garantiu. — Ah, encontrei o garoto que estávamos atrás, mas eu preciso deixar ele em algum lugar para poder resolver esse problema do estado de emergência, pois o menino está desacordado e poderia acabar atrapalhando.
— Entendo, eu vou falar com as crianças que estão no duto e... — subitamente, Tony se calou, e o silêncio acabou fazendo com que o Thiago franzisse o cenho.
— Tony? — questionou, levemente receoso.
— Eles não estão mais no lugar que mandei que ficassem! — exclamou, de repente. — Ah, cara, eu deveria ter esperado por isso!
Ao ouvir a voz do companheiro, Thiago soltou um suspiro aliviado e parou de andar, afinal, o mesmo não sabia para onde deveria seguir. As várias passagens, escadas e locais que conhecia não valeriam de nada se ele não soubesse para qual destino ir.
— Não temos tempo para procura-los, Tony, eles devem estar longe e...
— Achei! — declarou, fazendo com que o Thiago assobie de surpresa, porém, quando o barulho da tampa do duto soou, o homem quase conseguiu ouvir o amigo engolir em seco, isso é, se o barulho de gritos, tiros e outras coisas nada agradáveis não soassem mais alto. Independente de onde as crianças estavam, o Brytleofber sabia de uma coisa: não era um lugar seguro ou calmo. — Escute, os jovens estão lutando contra os soldados junto aos prisioneiros, mas as coisas não estão favoráveis... Thiago, vá até o primeiro andar das prisões que darei um jeito de mandar alguém para lá, depois irei procurar imãs para soltar os prisioneiros e aumentar a nossa chance de vitória. Temos pessoas o bastante para virar o jogo.
— Entendido.
*
O que o Tony havia visto através do duto de ar era uma cena angustiante, principalmente para as crianças que estavam bem no meio dela. Ryan, Camille e Cássia haviam ficado confiantes quando viram os prisioneiros libertos e se uniram a eles visando fazerem uma rebelião capaz de liberta-los daquele castelo, no entanto, quando os soldados apareceram com várias armas, equipamentos especiais e em grande número, a desvantagem entre eles ficou bastante nítida.
A princípio, Cássia ergueu uma barreira para proteger a todos dos tiros, porém, quando os guardas notaram o campo de força criado pela mesma, as pequenas balas foram trocadas por explosivos de Dinks, que absorviam parte da barreira conforme estouravam contra a habilidade da menina, que se esforçava ao máximo para cobrir as aberturas que eram criadas. A quantidade de explosivos era imensa, e quanto mais a capitã da equipe I usava tudo o que tinha para defender a todos, mais cansada ela parecia; em poucos minutos, a garota já arfava e um pouco de suor descia pela sua testa. Se a mesma pudesse, usaria o campo de força para atacar, mas como as explosões não cessavam, a menina temia que, ao tentar fazer isso, acabasse colocando em risco a vida de todos – principalmente a dela mesma.
Percebendo o cansaço da garota, Ryan tentou usar o seu gelo contra os soldados, contudo, os seus golpes não pareciam ser efetivos contra os homens, pois as grossas armaduras de Dinks que eles trajavam sugavam o seu poder gélido de uma maneira tão rápida que mais parecia que as vestimentas eram feitas de pura brasa. Um frio nada agradável percorreu a espinha do rapaz. Se ele quisesse atingir os soldados, as suas habilidades precisariam ser mais potentes para que pudesse sobrecarregar aqueles Dinks, ou seja, o jovem precisava da ajuda de um espírito que potencializaria as suas habilidades – outra opção para acabar com aquilo era que ele fosse um espiritual, pois as reservas de energia que alguém desse nível adquiria era alta o bastante para sobrecarregar aquela quantidade de Dinks com facilidade. No entanto, como ninguém ali era um espiritual nem pareciam ter um espírito para poder bater de frente contra aquele exército, as chances deles conseguirem revidar eram mínimas – para não dizer zero. O rapaz sentiu um nó se formar em sua garganta.
Se eles não pensassem numa estratégia logo, todos aqueles presos seriam, de fato, libertos – de suas próprias vidas.
Ryan não foi o único a notar esse fato. Com o campo de força de Cássia ficando cada vez mais precário, alguns dos presidiários mais velhos começaram a ficar impacientes com aquela situação e, alegando que preferiam morrer lutando do que voltarem pras prisões, pras torturas e pras opressões, alguns saíram da área segura, adquirida pela barreira de Cássia, para irem em direção aos guardas num ato de desespero, raiva, esperança e coragem.
Um verdadeiro massacre ocorreu.
A maioria dos homens não conseguiram dar nem três passos do lado de fora do campo de força antes de serem bombardeados por uma chuva de tiros ou acertados por um dos explosivos de Dinks, causando-lhes feridas grotescas e queimações horrorosas a vista. Aquela cena deixou todos em choque; as pernas dos prisioneiros que haviam ficado do lado seguro começaram a tremer e toda aquela determinação que sentiram minutos atrás parecia nunca ter acontecido. As faces de todos se resumia em puro desespero, medo e espanto, como se tivessem tido toda a esperança roubada; esses sentimentos atingiram os corpos de Ryan e Camille, que tremeram bruscamente. Foi uma verdadeira vitória os jovens terem continuado de pé perante aquela situação. Se olhassem para frente, o corpo dos homens e a forma medonha na qual haviam morrido os assombrava, caso olhassem para trás, a desesperança e o temor dos demais os sufocaria. Não havia mais nenhuma expectativa de vida, muito menos de liberdade.
— Façam algo! — gritou Cássia, tentando não parecer tão desesperada quanto realmente estava. — Meu campo de força não vai durar muito!
As palavras da moça fizeram o coração de Camille acelerar de medo, e a garota segurou o objeto cortante que tinha em mãos com mais força antes de tentar observar os soldados que eram ofuscados pela fumaça das explosões. Uma sensação de impotência a atingiu; ela precisava fazer alguma coisa. A adaga em sua mão tremeu quando a mesma levou os olhos até a arma, e a sua garganta se fechou diante da confusão mental e dos pensamentos contraditórios que a corroía pouco a pouco. Da última vez que a menina bebeu o sangue de uma pessoa sem ter esperado dez minutos entre uma luta e outra, os machucados que havia feito em seu próprio corpo até que haviam sido passado para a vítima, mas eles lhe causaram dor e se recuperaram com lentidão... Então, o que será que aconteceria se a mesma usasse o seu poder três vezes seguidas, sem descanso? A menina engoliu em seco com dificuldade e apertou a adaga com força. Era hora de descobrir. Além do mais, diante das circunstâncias, talvez a menina precisasse usar as suas habilidades mais do que três vezes se quisesse continuar respirando. Camille inspirou o ar, buscando coragem, todavia, quando ergueu a sua cabeça, a moça deu tudo de si para manter um semblante firme e, assim que ameaçou dar um passo adiante para sair da proteção das habilidades de Cássia, o berro de Eduardo atrás de si a fez parar.
— EU QUERO UMA ARMA! — diante daquele pedido, Camille se virou para encara-lo, confusa, e o Ryan, juntamente com os outros que ouviram o grito do rapaz, tiveram a mesma atitude. — Se não podemos usar os nossos poderes, vamos usar as armas deles contra eles! — revelou, e seus olhos escuros se fixaram nos olhos claros do garoto com habilidades de gelo. — Use os seus poderes para roubar as armas, não para atacar!
Ryan ergueu as sobrancelhas perante a fala do garoto, surpreso com aquela alternativa, e os integrantes da equipe de Edu sorriram, orgulhosos de seu capitão, enquanto o pessoal do time de Cássia tentou esconder o quão aliviados e esperançosos haviam ficado por conta daquela ideia.
— Rápido! — vociferou a capitã da equipe I, já com os braços tremendo devido ao esforço. — Faça isso logo!
Sem pensar duas vezes, Ryan voltou os olhos para os guardas e cristais álgidos rapidamente tomaram conta dos seus braços e torso; a típica fumaça esbranquiçada saiu pela sua boca quando um sorrisinho apareceu em seus lábios. Num movimento diligente, o menino jogou as mãos da direita para a esquerda, criando, por meio deste gesto, uma estaca de gelo que, dessa vez, não foi direcionada aos homens, mas as armas que eles empunhavam. O frio cobriu os armamentos por completo ao atingi-los, fazendo com que os guardas, instintivamente, largassem os objetos congelados; com os materiais presos em seu gelo, Ryan trouxe as armas até si e, quando as jogou no chão, um movimento de mãos para cima fez com que uma muralha de gelo se erguesse bem na hora em que a barreira de Cássia, que expirou de esgotamento e caiu de joelhos no chão, sumiu.
— PROTEJAM-SE! — gritou o garoto de cabelos brancos, após a maioria das pessoas pegarem as armas que o mesmo, prontamente, descongelou.
Graças ao seu comando, os prisioneiros correram até as antigas prisões, usando a parede de Dinks entre uma cela e outra para se defenderem; Cássia foi levantada do solo pelos seus companheiros para que pudesse acompanhar os outros. Com a proteção presente nas paredes dos cárceres e armas efetivas em punho, o povo agora tinha a esperança de uma luta um pouco mais equilibrada.
O som dos enormes blocos de gelo caindo contra o chão foi estopim para que os prisioneiros colocassem as armas para fora da proteção das prisões e atirassem; o grito de alguns guardas que foram atingidos bastou para que os presos bradassem em esperança, dor, ódio e vingança. Homens com escudos tomaram a linha de frente para protegerem os aliados, já que as armaduras de Dinks eram quebradas pelas balas desse mesmo material, então, quando o estalo das armas dos soldados de Bry ecoou para que revidassem os tiros, eles também deram um grito de guerra.
E uma chuva de projéteis se iniciou.
E aí gente, tudo bem?
Estou passando no final do capítulo pra lembrar vocês de deixarem uma estrela ☆ e um comentário dizendo o que vocês acharam ♡
Essa briga aí dos prisioneiros contra os soldados de Bry está bem complicada... Quem vocês acham que leva a melhor? Falando nisso, será que o José terá a sua vingança contra o Nicholas? Saberemos a resposta para esse questionamento no cap seguinte! A hora de conhecermos o passado do nosso querido Idicholas está chegandooo ;)
Bem, por hoje é só, um grande abraço e até breve! 🤍
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