XXII| Reencontros

      Flora dormiu.
      Ter colocado a garota para descansar não tinha sido tão difícil, afinal, a mesma já estava bastante exausta tanto física quanto mentalmente; ademais, vê-la com um semblante tranquilo enquanto cochilava fez com que a Aurora abrisse um pequeno sorriso, no entanto, ainda havia apreensão na sua face. Notando a inquietação de sua companheira, Tell se aproximou para tentar passar um pouco de consolo à Mãe Natureza, que suspirou ao sentir a presença do parceiro próxima de si.
      — Ela é muito nova para passar por tanta coisa assim... — comentou, com a voz rouca devido a tristeza que carregava dentro de si; Tell apoiou a mão no pequeno ombro da companheira. — Você... — ela parou, engolindo em seco.
      — Fale — pediu; sua voz saiu tão suave quanto um sussurro.
      — É a primeira vez que você me manda falar, e não calar a boca — confessou, rindo pelo nariz, e o outro ser sorriu. Mais um suspiro saiu da boca de Aurora antes que ela se virasse para observar o Tell; o espírito da telecinese ergueu levemente as sobrancelhas ao ver os olhos abatidos da amiga. — Você acha que eu sou uma péssima cuidadora? — Tell piscou, surpreso com aquela pergunta, mas a Mãe Natureza prosseguiu antes que ele pudesse pensar em responder algo; — O Felipe, pai dela, pediu que eu tomasse conta das filhas quando ele se foi e... — ela engoliu em seco; os olhos já marejados. — ... eu acabei não conseguindo salvar a Fauna, irmã da Flora, e agora acho que não tenho feito o bastante. Eu fiquei muitos anos dentro da Flora sem me revelar a ela por medo, mas, mesmo agora, que apareci, sinto que não esteja sendo boa o suficiente. Eu quero que ela aprenda, cresça, fique forte, evolua, mas... mas não consigo suportar tudo o que a Flora teve de passar. O Felipe amava muito as filhas e deu a vida por ambas, e eu não suporto o peso de pensar que não estou honrando o sacrifício que ele fez. Eu já perdi uma e, agora, sinto que estou fazendo a outra filha dele sofrer mais do que deveria e... — ela baixou a cabeça, permitindo que as lágrimas caíssem; Tell ficou extasiado, sem saber ao certo o que fazer ou falar para a Aurora. — Você acha que eu falhei com a Flora e com o Felipe? Sei que com a Fauna sim, e terei que carregar esse peso pelo resto da minha longa existência, mas... mas eu...
      Ela desmoronou em lágrimas. O coração de Tell se apertou ao ver a Mãe Natureza chorar, afinal de contas, ele nunca a havia visto assim. A Aurora era um espírito falante, curioso, feliz... como se não carregasse fardos ou arrependimentos, mas ali, enquanto a mesma desabava em lágrimas, algo dentro de Tell doeu. Muito. As mãos do ser tremeram quando ele segurou as pequenas bochechas de sua parceira e a fez encara-lo, mas a visão dos olhos amargurados dela o atingiu como um soco; se pudesse, o espírito da telecinese roubaria toda aquela dor e a transferiria para si.
      — Você... — Tell pigarreou, sua voz estava trêmula devido a tristeza da Aurora; vê-la daquele jeito o incomodava mais do que deveria. Ele passou os pequenos polegares pela bochecha dela, com o intuito de secar as lágrimas da mesma antes de continuar; — Você deu o seu melhor, é isso o que importa. Eu tenho certeza de que a Flora te ama muito e é muito grata por tudo o que você fez. Sem você, ela não estaria aqui, você a criou. Não tenho dúvidas de que o Felipe, a Fauna e até a mãe da Flora estariam orgulhosos e muito gratos por tudo o que você fez por ela... E se não estiverem, eu estou. Você foi incrível, Aurora, é o ser mais altruísta que já tive o prazer de conhecer; eu, o espírito da telecinese, sinto mais orgulho de você do que já senti por qualquer outro ser ou pessoa.
      Ao terminar, ele soltou um suspiro, mostrando-se aliviado por ter conseguido falar tudo aquilo, e, em seguida, apenas a encarou. Um silêncio recaiu sobre eles, e, de certa forma, aquilo deixou o Tell tenso, afinal de contas, não era comum um cômodo estar tão calmo – não quando a Aurora estava nele. Sinceramente, o espírito do Thomas nunca pensou que desejaria tanto que a garota falasse alguma coisa.
      — Nunca ouvi você falar tanto... — sussurrou, fazendo com que o Tell soltasse as bochechas dela, envergonhado. Quando o mesmo pensou em se justificar, ela prosseguiu; — Obrigada — vê-la sorrir retirou toda a timidez que o ser havia adquirido, trazendo, inclusive, um sorrisinho até os lábios do mesmo. — Até que você sabe falar coisas bonitinhas de vez em quando.
      Quando a Mãe Natureza riu, Tell acompanhou a risada dela, percebendo o quão bom era vê-la sorrir. Contudo, assim que a Aurora começou a limpar as lágrimas, ele ergueu as sobrancelhas, como se tivesse lembrado de algo.
      — Eu preciso ajudar o Thomas, ele está demorando — alegou.
      — Tome cuidado para não ser visto, você sabe o quão perigoso isso é para nós.
      — Eu e o Thomas fizemos o pacto de sangue, não podem mais usar os meus poderes à força — revelou. — Além disso, eu não sou pego tão facilmente.
      Pacto de sangue, um contrato entre os espíritos e seus hospedeiros. Nisto, o ser e o indivíduo concordarão, entre si, requisitos que serão usados enquanto o espírito estiver sob a jurisdição da pessoa; as imposições variam, mas o fato principal dela é fazer com que o poder do ser seja usado apenas pelo hospedeiro do mesmo, impedindo que outros o usem a força, ademais, após o pacto, o espírito pode – ou não – tornar-se incapaz de possuir o corpo do seu hospedeiro, isso, claro, dependendo do que for combinado entre eles. Para o ser, isso é benéfico para que os seus poderes não sejam abusados, ou seja, isso valoriza a sua proteção; para o hospedeiro também é vantajoso, já que ele terá o direito de adquirir o poder do espírito para si. Quando o indivíduo se torna um espiritual, ele e o espírito decidem se querem conviver um com o outro, ajudando-se, ou se irão cancelar o contrato. O pacto de sangue poderá ser quebrado a qualquer momento, desde que tanto o espírito quanto o hospedeiro concordem com isso; outra forma de desfaze-lo é se um deles morrer. É impossível fazer mais que um pacto e, ao se tornar um espiritual, também é proibido ter outro espírito, pois a quantidade de poder seria exorbitante para uma pessoa só, acarretando a morte – na maioria dos casos.
       — Eu fiz o pacto com a Flora dias depois de ter aparecido para ela... O Felipe desfez o nosso contrato quando se sacrificou para salva-la — confessou Aurora, expirando, como que para afastar o assunto relacionado ao seu antigo hospedeiro. — Ah, Tell, eu queria ajudá-lo, mas não vou deixar a Flora sozinha aqui — ele concordou, compreendendo-a. — Volte logo, está bem? Eu não quero ficar preocupada.
      — Vou tentar — respondeu. — Até mais — despediu-se, e se virou para ir até a porta, porém, antes que ele pudesse ir, Aurora o abraçou por trás, fazendo-o corar.
      — Cuide-se, Tellzinho — ronronou.

      Depois de muito tempo se teleportando aleatoriamente pelo castelo com a intenção de escaparem dos guardas, Nicholas e Alephe pararam quando chegaram a um corredor vazio; quando percebeu que estavam a sós, Nicholas se encostou na parede e escorregou nela até se sentar no chão, demonstrando estar bastante cansado e, ao perceber isso, Alephe se aproximou do irmão com preocupação.
      — Tudo bem?
      — Tirando o fato de que falta pouco para o meu estômago colar nas costas de tanta fome?
      Alephe riu, aliviado por não ser nada tão sério.
      — Está difícil mesmo acharmos o refeitório desse lugar, parece até que não comem! — comentou, observando a área ao redor de si para ter certeza de que estavam seguros. — Não quer usar a minha meia da sorte? Talvez assim você consiga se teleportar direto para o refeitório ou para a Daphne.
      — Que?! — questionou, ao mesmo tempo em que arregalava os olhos em admiração. — Você vai confiar suas meias da sorte super maneiras a mim?
      Diante da nítida estupefação de seu irmão, Alephe estufou o peito e deu uma risadinha convencida; naquele instante, para a criança, as suas meias pareciam ser as coisas mais poderosas e incríveis da Terra.
      — Sinta-se honrado mesmo, não é todo dia que essas meias verdes de bolinhas amarelas saem do meu pé, irmãozão. 
      — Quando foi a última vez que você lavou elas?
      — Mês passado, eu acho.
      — Hum, acho que ainda está usável! Vamos ver se elas cabem no meu p...
      Ele se interrompeu, arregalando os olhos quando uma pessoa surgiu ao seu lado. A princípio, parecia que o indivíduo apenas ia continuar indo em frente, todavia, quando os olhos âmbar do Nicholas se encontraram com aqueles olhos azuis excessivamente claros, uma tensão pesada foi imposta no ambiente; até Alephe, que tinha se sentado para começar a tirar a meia, levantou-se e engoliu em seco quando o seu irmão se ergueu do chão com um olhar envolto em ódio e... saudade?
      — White — proferiu o homem, e um sorriso hediondo surgiu em seus lábios grossos quando seus olhos perpassaram o corpo do garoto de cima a baixo como se estivesse avaliando-o.
      Nicholas engoliu em seco uma vez. E mais uma. E outra vez. Vislumbrar aquele homem era muito difícil para o rapaz, pois a aparência dele era idêntica a do... Ele se forçou a engolir em seco uma última vez e piscou os olhos com força para que as lágrimas que já haviam se acumulado voltassem para o lugar de onde vieram, em seguida, ele ergueu o queixo e ajeitou a postura, tentando fingir que não havia se abalado perante aquela face familiar.
      Familiar demais.
      — Rey.


      — AAAAAAAARGH!
      As gargalhadas de Thales e Thadeu ecoaram por toda a pequena sala quadrangular, as paredes metálicas reverberaram diante das risadas e a eletricidade percorreu todo o corpo do menino até sumirem nos círculos de Dinks e Sub-x que atavam as mãos e os pés do jovem, prendendo-o no formato de um X.
      — Bom dia, maninho — cantarolou Thadeu, enquanto o Thomas piscava de forma atônita, como se ainda não tivesse conseguido raciocinar o que havia acontecido. — Parece que alguém está desacostumado, não é? Isso torna as coisas bem mais divertidas — comentou, ao mesmo tempo em que brincava com o bastão de choque que tinha em mãos, o mesmo objeto que havia usado para acordar o seu irmão aos berros.
      O Sub-x que enclausurava as mãos e os pés de Thomas faziam com que ele se sentisse fraco, tanto é que, após se “recuperar” do choque, sua respiração permaneceu irregular e pesada, demonstrando que a sua energia estava sendo drenada com muita rapidez. O jovem nunca pensou que respirar fosse se tornar uma tarefa tão árdua; se passasse muito tempo ali, o corpo do mesmo poderia não suportar. Os seus pulsos gritavam de dor, forçando-o a tentar ficar de pé enquanto o Thadeu apenas andava de um lado para o outro da mesma forma que um predador faz com a sua presa. Quando os olhos do Brytleofber mais novo perpassaram pelo ambiente, a visão das ferramentas presentes naquele espaço lhe despertaram um medo familiar; tortura.
      — AAARF... — Thomas gritou outra vez, mas se esforçou ao máximo para contê-lo; se ele passasse muito tempo ali, não teria de se preocupar com os gritos, afinal de contas, acabaria ficando rouco. — AAAAARG! — o bastão de choque foi colocado na lateral de seu corpo, fazendo-o se debater involuntariamente; quando sangue jorrou de seu nariz e seus joelhos ameaçaram falhar, trazendo uma dor alucinante aos seus pulsos, Theo, o mais velho, puxou o braço de Thadeu para fazer com que o garoto afastasse a arma do físico de Thomas.
      O corpo do jovem ainda estremecia quando o Theo se aproximou.
      — Que gritinho foi esse? — zombou Thales, enquanto observava o Thadeu se aproximar de si. Era a hora do mais velho se comunicar com o Thomas. — Parece até que nunca foi torturado dessa forma antes — riu.
      A voz do irmão do meio era vaga, pois a audição de Thomas apitava. O menino piscou os olhos várias vezes para tentar encarar o Theo, que estava logo a sua frente, mas a sua vista não focava; nenhuma parte de seu corpo estava sob seu controle. O sabor metálico do sangue que escorria pelo nariz chegou a sua boca, fazendo com que o Thomas cuspisse, na intenção de afastar aquele gosto de si.
      — Oi, irmãozinho.
      A voz do Theo foi bastante clara, chegando a fazer o corpo do mais novo arrepiar; espasmos ainda o consumiam, e, quando ele fez força pra levantar a cabeça e encarar o irmão mais velho, seu corpo inteiro rugiu de dor, fazendo-o ceder. Seus pulsos estralaram quando o peso de seu físico foi depositado neles, mas o Thomas só pode gemer perante isso, incapaz fazer alguma coisa.
      — Nós chamamos o papai e a mamãe para darem um “olá” para o caçula — Theo prosseguiu, e Thomas emitiu um som inexprimível que saiu do fundo de sua garganta, provavelmente, se tivesse forças para falar, aquele não seria um comentário agradável aos ouvidos. O mais velho se aproximou mais do jovem, o suficiente para que os outros dois não ouvissem nada e para que o Thomas escutasse claramente cada palavra; — Você sempre foi o irmãozinho que eu mais tinha prazer em torturar. O seu vigor é maior que o dos outros — riu. — Antes o papai não deixava que eu me demorasse com você por ser o “perfeito”, mas agora tenho certeza de que teremos muito tempo juntos, não acha?
      Os olhos de Thomas arregalaram rapidamente, revelando o pavor que cresceu dentro de si e a urgência que tinha de querer que tudo aquilo não passasse de mais um de seus pesadelos. Mas era real. Tanto é que, quando ele tentou engolir em seco, acabou se engasgando e tossiu, fazendo com que alguns resquícios de sangue espirrassem de sua boca. Isso foi o suficiente para fazer com que Thales e Thadeu gargalhassem enquanto o Theo se distanciava do irmão mais novo com um sorriso macabro e sádico nos lábios.
      — O papai disse para não pegarmos pesado ainda porque queria falar com você — comentou Theo, aproximando-se dos outros dois irmãos. — Armas de choque são sem graça, mano... — comentou, apontando para o objeto nas mãos de Thadeu, que apenas deu de ombros e jogou o instrumento elétrico sobre a mesa ao lado dele. — ... usar as mãos é bem mais interessante — finalizou, voltando os olhos para o Thomas, que, no momento, esforçava-se ao máximo para puxar o ar.
      Os pulsos doíam tanto que pareciam que iam ser arrancados de seu corpo, as pernas tremiam e não tinham força, os pulmões queimavam em busca de ar e o corpo inteiro estava exausto graças aos efeitos do Sub-x. Thomas não sabia até quando suportaria aquilo, mas o medo que sentia dentro de si só crescia quando ele se lembrava quem iria tortura-lo. Theo costumava demorar meses com as suas vítimas.
      — Depois que o papai me der permissão... — o mais velho voltou a falar, como se tivesse lido os pensamentos de Thomas. — ... vou demorar anos me divertindo com você, irmãozinho.

      — E-Eu d-dig... — James tentou falar, mas era difícil proferir qualquer palavra quando Daphne mantinha a algema contra o pescoço exposto do mesmo.
      — Eu confiei em você! — vociferou ela, mas foi possível perceber a pontada de tristeza que ainda existia em sua voz; um suspiro abalado saiu da boca da mesma. — Não vou repetir esse erro pela terceira vez.
      James a encarou com um olhar compreensivo.
      — D-Daph, e-eu... Ah! — arfou. Percebendo que o jovem mal conseguia respirar, Daphne diminuiu o peso sobre o pescoço dele, apenas o suficiente para que ele conseguisse se expressar, afinal de contas, ela ainda precisava que o rapaz lhe contasse onde estava o imã que a libertaria. — Eu acho que você é incrível! Juro que não queria ter te traído, mas eu não tive escolha... Se você se juntar a mim, eu prometo que isso nunca mais irá acontecer. Irei cuidar de você, te proteger e poderemos ficar juntos — proferiu, num tom tão terno que a garota engoliu em seco. — Eu salvei a sua vida, Daph. Eu não faria isso se você não fosse importante para mim.
      Ela ergueu as sobrancelhas. Por um momento, a moça apenas o observou atentamente e... Caramba! Como a menina desejava que ele fosse o mesmo cara das preliminares. Era tão doloroso vê-lo e saber que aquele jovem de antes nunca existiu... Ou existia? Pensar sobre isso lhe gerava uma dúvida enorme em relação a verdade e a mentira; será que o garoto teria sido aquele antigo James se não fosse da Divisão? Será que aquela personalidade dele estava viva em algum lugar? Será que... Não! A agonia das algemas que lhe enfraqueciam aumentou, como que lembrando-a do que ele havia feito. Uma firmeza surgiu nos olhos dela e, ao perceber isso, James começou a mover lentamente a mão até o seu bolso sem que a menina se desse conta.
      — A Divisão capturou a minha melhor amiga — proferiu; sua voz saiu grave e séria. — Capturaram ela, meus amigos, mataram meus pais, obrigando a mim e ao meu irmão a vivermos sem eles. A Divisão me fez morar na rua, me fez passar fome por semanas, me tiraram o sono, me deram pesadelos, traumas, tiraram a minha infância de mim, a minha segurança, as coisas que eu gostava, o lugar em que eu morava e também me obrigaram a aprender a lutar para sobreviver... — os olhos dela ardiam. — ... me enganaram... — seu olhar seguiu para o James, que a observou com condescendência por saber que fora o responsável por esta parte. — ... eles me tiraram praticamente tudo, de todas as formas possíveis, e agora você vem me pedir para que eu me junte a você? Que eu me junte a eles?! — a sua voz enrouqueceu de ódio, e a mesma fechou com força os olhos para impedir as lágrimas. — Não, James. Eu prefiro ser escravizada, presa e morta a ajudar a Divisão, e eu não voltarei atrás nessa decisão. Nunca. Enquanto eu puder respirar, irei fazer tudo o que posso para destruí-la e poder evitar que mais pessoas passem pelo que passei. Enquanto eu viver, a Divisão terá uma inimiga que irá caça-los até a morte.
      As palavras de Daphne geraram um peso no ambiente, deixando-o silencioso por alguns segundos.
      — Eu... sinto muito — confessou o jovem, num tom tão brando e afetuoso que a Daphne precisou apertar o pescoço do mesmo para que não acabasse sendo influenciada por ele... de novo. Querendo ou não, o rapaz ainda conseguia exercer um certo poder sobre ela.
      — Apenas me diga onde está o imã e eu t...
      Ela arregalou os olhos. Mais rápido que pudesse notar, algo se fixou em seu braço, um pouco abaixo do ombro; fraqueza e dor irradiaram pelo seu corpo rapidamente. Um bracelete de Sub-x. Ao entrar em contato com o material, o seu braço queimou e perdeu totalmente a força, assim como o seu corpo, que pendeu para o lado. Daphne abriu a boca para puxar o ar, pois respirar havia se tornado um completo desafio; a junção daquele novo bracelete às suas algemas causaram uma sensação de enfraquecimento e agonia por todo o seu corpo, principalmente nos locais onde os objetos estavam. Parecia que a garota havia corrido por vários dias e, agora, o seu físico estava dolorido demais para obedecer qualquer comando seu. Mas isso não foi o pior. A jovem não conseguiu conter um gemido alto de dor quando o James agarrou seus braços e a forçou a se levantar do chão; como a mesma não conseguia ficar de pé, o menino teve que segura-la com força para que não caísse, todavia, isso a machucava muito. Era quase como se o garoto tivesse super força e estivesse usando-a para esmagar os ossos da moça.
      — S-Solte! — implorou, sem se importar no tom de súplica que saiu de sua voz; a dor que sentia era pior e mais agonizante que qualquer demonstração de fraqueza. — James, por favor... — pediu, com lágrimas nos olhos.
      A respiração de Daphne acelerou; o sofrimento idêntico ao de ter os ossos esmagados pelas mãos do rapaz, que não fazia menção de larga-la, a deixou perturbada. Um segundo. Só queria que ele a soltasse por um mísero segundo.
      — AAAH! — gritou, quando o garoto começou a puxa-la na direção do quarto. Daphne mordeu os lábios com tanta força que eles sangraram, como que para tirar a sua atenção da dor do toque do jovem, mas não adiantou, então, quando outro passo foi dado, mais um grito ecoou de sua garganta.
      — Você me obrigou a fazer isso — admitiu o homem, tentando andar mais depressa para chegar ao quarto logo e, consequentemente, acabar com o sofrimento da integrante da equipe X.
      — Maldito... — murmurou, entre gemidos. — Maldito o dia em que gostei de você.
      Ao escutar aquilo, James arregalou os olhos e a soltou; Daphne caiu de joelhos no solo, urrando de dor, e, como o seu corpo não teve forças para se manter nessa posição, ela caiu para o lado, batendo o rosto no chão frio; uma vez caída, a mesma gemeu num misto de dor e alívio.
      A agonia que sentia agora não era nada comparada a que estava sentindo quando as mãos de James lhe agarravam.
      — Jamais diga isso outra vez! — exclamou o menino; quando Daphne abriu a boca para rebate-lo, as mãos do rapaz voltaram a agarrar os seus braços, fazendo com que a garota soltasse um gemido fino e angustiante. Lágrimas quentes desceram por suas bochechas quando ela foi obrigada a se levantar de novo, porém, dessa vez, o garoto usou toda a força que tinha para aperta-la. Agora, parecia que os seus ossos haviam, de fato, quebrado, fazendo com que seu corpo tremesse como se tentasse, involuntariamente, livrar-se daquela dor, mas o James não diminuiu a sua força, pelo contrário. — Eu salvei a sua vida, nada mais justo que você a viva comigo! — comentou, no entanto, quando notou que a menina apenas balançava a cabeça de um lado para o outro e chiava, sem conseguir prestar atenção em nada que não fosse o sofrimento que percorria seu físico, os olhos do rapaz mudaram. Uma seriedade nunca vista antes se instalou na face dele, e a sua voz saiu grave quando ameaçou; — Eu sei como fazer você ceder as minhas vontades, então, por favor, não me obrigue a fazer isso. 
      O tormento tinha obstruído os sentidos e o raciocínio de Daphne. Naquele momento, tudo o que ansiava era que ele a largasse, que a deixasse em paz, que não a tocasse. Nunca mais. Contudo, a sua raiva transpassou a dor quando ela escutou o tom intimidador do jovem em sua frente. Ela gostava quando ele falava assim, quando se revelava e não tentava ser o James que ele não era – que jamais foi.
      — A vida é minha.
      Foi tudo o que a garota conseguiu falar sem se lastimar de dor, entretanto, durou menos de dois segundos para ela se arrepender de ter proferido isso. Um grito alto, mais alto do que pensava ser capaz de dar, ecoou de sua garganta quando o James apertou seus braços com força e a balançou bruscamente diversas vezes. Ela não soube dizer quantas vezes ele a empurrou para frente e para trás, mas os seus gritos eram emitidos com cada vez menos volume a medida em que o tempo passava, chegando ao ponto de fazer a sua garganta arder e se fechar; em certo momento, as lágrimas, os soluços e um grito silencioso eram tudo o que a menina conseguia fazer.
      Quando o corpo dela começou a tremer, James parou de balança-la e a trouxe para perto de si com a intenção de que suas palavras fossem ouvidas pela garota que, no momento, parecia ter entrado num estado de choque. Os seus olhos estavam abertos, mas ela não parecia estar presente ali; os gemidos que ecoavam de sua garganta eram o único indicativo de que a mesma ainda estava consciente.
      — A vida é sua? Isso é o que nós vamos ver — sibilou, quando a menina pendeu o corpo para trás, sem forças para lutar contra a gravidade que a impulsionava para baixo.
      Percebendo que ela não iria – ou melhor, não conseguia – falar nada, James voltou a leva-la de volta para o quarto, fazendo questão de dar passos curtos para alongar o sofrimento da menina, que apenas soltava uns gemidos finos e baixos que antecediam os soluços e as lágrimas.
      Ter o corpo jogado na cama foi um alívio para a Daphne, mas as dores ainda reverberavam por todo o seu corpo, deixando-a incapaz de se mexer. Ela estava completamente a mercê do James, que, quando trancou a porta, deitou-se ao lado da moça e passou a mão pela bochecha dela até alcançar a sua nuca, fazendo um arrepio e um leve espasmo percorrer o corpo da garota; ele sorriu ao notar que havia encontrado um dos pontos sensíveis ao toque no corpo dela.
      — Não vou tirar o seu bracelete agora, vamos ver até onde você aguenta.

      Kral e Ária conseguiram escapar da sala em que haviam sido presos.
      Quando a cela das prisões se abriram, a porta do local onde ambos estavam também se abriram; sem titubear, eles correram para fora daquele espaço antes que o alarme de emergência soasse e a porta se fechasse outra vez.
      Uma vez livres, os dois colocaram as máscaras e os capuzes antes de começarem a vagar pelo castelo sem terem a menor ideia de para onde deveriam ir. Quando escutaram o barulho dos guardas, que se dirigiam às prisões, eles resolveram subir numa escada que ficava logo na frente da área que haviam saído. Ambos subiram até o topo, e o caminho os levou até um refeitório. Depois do incêndio e do caos que se instalara na prisão, aquele espaço estava vazio, nem soldados nem empregados ousavam perambular por ali, contudo, do outro lado de uma porta branca com uma pequena janela arredondada, barulho de panelas, chiados e algumas conversas ecoavam devido ao silêncio presente no ambiente; os cozinheiros ainda estavam ali.
      Kal e Ária não sabiam qual era o nível de força que aquelas pessoas poderiam ter – e nem esperaram para descobrir. Ambos se tornaram apenas dois vultos pretos quando percorreram aquele local; ao saírem, deram de cara com um corredor amplo no qual caminharam por um tempo antes de pararem num cruzamento de três caminhos diferentes. À esquerda, haviam escadas imponentes com uma pedra preta lisa e polida, os dois logo constataram de que deveria haver algum local importante acima; fumaça saía do caminho a frente deles, e o barulho que emanava dali foi chamativo o bastante para fazer com que eles escolhessem a passagem a direita, que era a mais “normal” dentre as três, isso é, caso desconsiderassem a pouca luz daquele corredor.
      Como não tinham muita escolha, o caminho à direita foi o decidido, porém, quando Kal e Ária adentraram no corredor às pressas, o garoto precisou agarrar o braço da companheira para que ela não acabasse esbarando numa mulher que andava, sozinha, por ali. A senhora era alta e bastante bela, aparentando, inclusive, ter menos idade do que realmente tinha, mas quando ela baixou o olhar para encara-los, o brilho da coroa em sua cabeça fez com que os jovens dessem um passo para trás.
      — A rainha — sussurrou Kal, com os olhos arregalados. — A rainha desse reino — repetiu, como se ainda não acreditasse que aquilo estava acontecendo.
      — Pelo Ômega! — exprimiu Ária, engolindo em seco.
      — Tanta gente para esbarrar e acabamos nos encontrando logo com um dos grandões — murmurou o rapaz, que recebeu uma cotovelada na costela devido ao comentário.
      Quando o olhar da soberana repousou sobre eles, Kal e Ária estremeceram e, instintivamente, a armadura de diamantes da garota protegeu todo o seu corpo. A mulher apenas ajeitou a postura e olhou rapidamente o lugar ao redor de si, como que para conferir se estavam a sós, antes de dar um passo a frente, fazendo os jovens ficarem alertas a qualquer ataque que pudesse ser emitido.
      — Olá, crianças.

E aí gente, tudo bem?
Estou passando no final do capítulo pra lembrar vocês de deixarem uma estrela ☆ e um comentário dizendo o que vocês acharam ♡
A equipe X está indo de mal a pior, rsrs. Será que as coisas vão melhorar ou vai ser daqui pra pior? Bem, vamos torcer para que não hajam mortes... ☠
Por hoje é só, um grande abraço e até breve! 🤍

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