XVII| Velhos tempos

      Logo após deixar a sua companheira com o James, Thomas retornou ao quarto em que o mesmo estivera com a Daphne; lá, ele ligou para o Nicholas e passou a direção do local onde o rapaz precisaria ir para encontrar a outra integrante da equipe X. Assim que o parceiro garantiu ter entendido as coordenadas, o Thomas desligou, respirou fundo e olhou fixamente para a porta de seu antigo quarto.
      Ele parecia estar se preparando mentalmente para reencontrar um de seus irmãos novamente – isso é, se não houvesse mais de um por aquele ambiente.
      — Você entendeu todo o plano, não foi, Tell?
      — Sim — afirmou o espírito que estava dentro do garoto. — Tenho uma advertência, jovem. Você está dando prioridade demais à Flora, o que fará a fuga dela ser bem sucedida, mas.. e você?
      — Se ela estiver livre, eu terei a vitória. Não se preocupe comigo.
      — Garoto, eu não vou fingir que não sei o que está acontecendo aqui. É nítido que você tem muito ressentimento dessa família e, desde que chegou aqui, eu percebi quão desequilibradas as suas emoções estão — o rapaz respirou fundo, como se estivesse tentando tomar o controle de seus sentimentos de volta, contudo, essa ação não fez o espírito se calar. — Você é incrível na arte de não demonstrar o que sente para os outros à sua volta. Pelo que notei, ninguém percebeu o estresse, as inseguranças e a ansiedade que está te consumindo devido às memórias que tens desse lugar. Todavia, não tem como enganar a mim — essa frase atingiu o Thomas como um soco, tanto é que o menino chegou a engolir em seco, tenso com o fato de estar sendo lido de forma tão simples pela entidade dentro de si. Agora ele entendia o quão desconfortável um espírito poderia ser, no entanto, o mesmo ainda tinha sorte do Tell ser mais reservado, pois se um espírito falante e curioso como a Aurora fosse seu, ele não duvidaria que perderia a sanidade; a Flora era realmente uma santa por aguentar aquilo. — Responda-me com sinceridade, você pretende ficar aqui?
      — Não!
      — Então isso nos leva a minha segunda suposição. Thomas, você está vendo essa situação como uma chance para destruir a sua família, não é? — o silêncio do garoto serviu como resposta. — Eu sabia.
      — Eu não sou idiota, Tell! — explodiu, mas, ainda assim, conseguiu manter o tom de voz baixo. — Eu sei que não venceria toda a minha família no nível em que estou, mas o Thadeu tem praticamente a minha idade e, dentre todos, ele sempre foi o mais fraco. Eu quero acabar com todos e, se eu puder começar hoje, não seria nada mau; eu sonho com isso há anos.
      — Essa realmente seria uma boa oportunidade para realizar seu “sonho”... isso é, se os seus amigos não estivessem envolvidos no meio de tudo! — Thomas pensou em rebater aquela fala, mas o Tell prosseguiu antes que o menino pudesse tirar a máscara que cobria a sua boca para ter mais liberdade para proferir o que desejava. — Caso as coisas não forem como você planeja, você não estaria condenando somente a si, mas a todos os que vieram contigo. Você é o líder.
      — É justamente por isso que o meu foco é a Flora! — revelou, desistindo de tirar a máscara para falar; a maneira que a mesma abafava sua voz o ajudava a não fazer tanto barulho. — Depois que eu a salvar, irei fazer o Thadeu se arrepender de tê-la pego.
      — Você está somando o fato desse indivíduo ter capturado a Flora à raiva já antiga que você sentia dele?
      — Sim! — ele não teve medo de assumir. — Além do mais, seria benéfico para todo mundo se o Thadeu saísse da linha de frente. Atualmente, apenas o Thiago conseguiria lidar com os meus outros dois irmãos mais velhos, mas contra o Thadeu eu consigo! Eu preciso ser útil em alguma coisa envolvendo os Bry, não quero deixar o Thiago a cargo de tudo.
      — Você está fazendo isso para se provar capaz para o seu irmão Thiago ou por que deseja concluir a sua vingança?
      — Ambos.
      — Foi o que pensei.
      — Agora que sabe disso, diga-me, você ainda vai me ajudar nesse plano ou não?
      — Às vezes a sua inteligência some, não é? — ironizou, fazendo com que as bochechas do garoto ficassem levemente coradas de vergonha. — Mas eu posso lidar com isso. Sim, eu irei te ajudar, até porque, se eu não o fizer, tenho certeza de que você não retrocederia... Ademais, eu preciso manter a vida daquele que escolhi para herdar os meus poderes e me proteger, certo?
      — Se você diz — respondeu, e, mesmo com a máscara cobrindo seus lábios, os olhos do rapaz denunciaram que havia um sorrisinho instalado ali. — Obrigado.
      Como o espírito não se pronunciou mais, o Thomas respirou fundo, ajeitou o capuz que cobria sua cabeça para, em seguida, abrir vagarosamente a porta, com o intuito de checar se não havia ninguém no corredor, e, assim que umas duas mulheres que circulavam por ali com um carrinho de roupas sujas saíram, o menino aproveitou a oportunidade para atravessar o passadiço e seguir até o quarto de seu irmão.
      A porta estava aberta – fácil demais. Assim que o menino adentrou no cômodo e fechou a abertura atrás de si, a primeira coisa para qual os seus olhos seguiram foi até a cela onde a Flora estava presa e, para a sua angústia, desacordada. De imediato, sua visão é desviada para frente onde seu irmão mais velho, Thadeu, encarava-o fixamente com uma certa extravagância; o uniforme de batalha preto com finas linhas roxas que o mesmo usava deixava claro que ele estava preparado para uma batalha, caso fosse necessário.
      Inconscientemente, Thomas engoliu em seco.
      Rever o seu irmão era ruim; todas as sensações e lembranças do passado que tanto lhe causavam dano surgiam como um turbilhão e davam um tapa forte em seu rosto, como se estivesse o acordando para a vida e deixando claro que tudo o que havia sentido quando mais novo era real, não apenas um pesadelo que o assombrava toda noite. O seu pior pesadelo não era um sonho, era o seu próprio passado que, agora, revelava-se em sua frente no tempo presente. As mãos de Thomas começaram a suar de nervoso, contudo, ele fechou os punhos com força e se forçou a manter o olhar no seu irmão para que se focasse nele, não no que estava sentindo, caso contrário, o medo o paralisaria e ele não iria conseguir fazer o que queria.
      Salvar a Flora.
      — O que você fez com ela? — disparou, severamente.
      Uma risada cheia de ironia e sarcasmo emanou dos lábios de Thadeu.
      — Achou mesmo que seria útil usar máscaras ou mantos? Todos nós já sabemos da identidade dos invasores, maninho — desconversou, com um tom tranquilo e cheio de escárnio; ele não fazia questão de esconder sua aversão à presença de Thomas que, para se acalmar, apertou ainda mais os punhos.
      “Mantenha o controle”. Era isso que o rapaz gritava para si em sua mente; ele não podia desviar a sua atenção do que necessitava fazer, ainda que todo o seu ser desejasse mandar as consequências para o espaço e ir para cima do Thadeu. Contudo, saber que o resultado de suas ações determinavam o sucesso do salvamento de Flora o deixava com uma postura racional, pois se suas emoções tomassem o controle de suas decisões seria o seu fim; e o da garota também.
      — Vim acertar as contas com você — alegou, ajeitando a postura; para a surpresa dele, focar em Flora tirava um pouco das sensações estressantes que o atingiam. Ver que a garota estava bem o deixava mais sereno; fortalecia-o.
      Outra risada ecoou perante o comentário de Thomas e, assim que terminou de rir, Thadeu apertou um botão do relógio que estava em seu pulso, fazendo com que uns vinte guardas surgissem repentinamente naquele local; pelo visto, eles estavam apenas esperando serem teleportados para lá através dos relógios de Dinks que possuíam nos pulsos – os mesmos relógios que os professores das academias também utilizavam.
      Diante daquilo, Thomas ergueu a cabeça, mostrando-se pronto. Se aqueles soldados haviam chegado até ali daquela forma, o mesmo não se surpreenderia se houvessem mais seguranças esperando serem chamados. Era hora de pôr o plano em prática antes que as coisas se complicassem ainda mais.
      Thadeu deu um passo adiante.
      — Hora de relembrarmos os velhos tempos, maninho.

      Daphne e James estavam sozinhos. Depois que o garoto se aproximou e tocou no rosto da menina, ela sorriu levemente com uma certa de nostalgia; era bom sentir que o James em sua frente não era um estranho, e sim o mesmo garoto que conhecera nas preliminares do exame de prata que esteve disposto a se sacrificar pelos demais e que a salvou de um afogamento. O rapaz estava bem ali, vivo em alguma parte daquele corpo – ela só precisava traze-lo para fora.
      Após um tempo em silêncio, o jovem elevou o rosto da garota para cima com a intenção de faze-la o observar nos olhos e, posteriormente, aproximou-se da mesma, que ergueu rapidamente as sobrancelhas perante o achegamento repentino dele.
      — Sinto a sua falta — declarou; o olhar alternando entre os lábios e os olhos esverdeados dela. — Lembra que nós quase nos beijamos? — indagou, com um sorriso suave, enquanto diminuía ainda mais a distância; os olhos dela seguiram até a boca do menino também. Algo dentro dela queria reviver àquele mesmo sentimento que houvera sentido nas preliminares. — Agora não é mais uma ilusão.
      Ao revelar aquilo, o jovem deslizou a sua mão até a nuca dela, onde logo a acariciou com os dedos, fazendo-a suspirar com uma certa surpresa perante seu toque. Daphne encarou intensamente os olhos dele; um tom castanho médio penetrante... pelo que ela se recordava, eles não costumavam ter essa cor. Na verdade, deveriam ser mais claros, quase como um dourado brilhante, um âmbar hipnotizante que a fazia querer observa-lo para sempre e...
      Ela arregalou os olhos. Aquele tom na qual estava pensando pertencia a outra pessoa. Idicholas.
      — D-Desculpe! — exclamou, subitamente, e o empurrou para longe sem muita delicadeza; ato que o fez erguer as sobrancelhas, mostrando-se espantado com a reação dela. — Eu estou preocupada com outras coisas agora, não tenho cabeça pra... isso.
      Ela estava em choque. Os olhos que estavam em sua memória não eram do James, como pensara, e sim do Nicholas. Aquela descoberta a deixou bastante surpresa com si mesma, afinal de contas, como ele havia conseguido bagunçar a sua mente a esse ponto?
      O James notou a hesitação da menina, até porque, o semblante pensativo e pasmo que ela carregava denunciava isso. De imediato, ele fechou o rosto, irritado. Outro estava tentando tomar o seu lugar. Como não estava nem um pouco feliz com essa situação, o jovem deu um passo adiante, aproximando-se novamente da garota o que, consequentemente, trouxe a atenção dela de volta para si.
      — Fique comigo.
      O pedido pareceu tira-la do transe, pois os seus olhos arregalaram e as sobrancelhas se arquearam.
      — O quê?
      — Fique comigo — repetiu, fervorosamente. — Eu cuidarei de você e prometo que darei tudo de mim para te fazer se sentir tão bem quanto nas preliminares do exame de prata, ou ainda melhor!
      A garota abriu a boca para falar, contudo, como estava muito atordoada com a fala dele, ela apenas engoliu em seco e piscou algumas vezes como se quisesse ter certeza de que aquilo estava acontecendo.
      — Daphne...
      — Por que você não vem comigo? — retrucou.
      — Eu não posso.
      — Então eu também não p...
      Antes que ela pudesse concluir, a parte avermelhada do anel que a Eva havia lhe dado, no qual usava como colar, brilhou. O dragão prata que estava desenhado por cima do tom carmim aumentou de tamanho, ganhando mais uma escama. Esse fato chamou a atenção de Daphne, que franziu o cenho perante aquilo; quando se reencontrasse com Eva, a mesma precisava conversar sobre o ocorrido, afinal, era nítido que alguma coisa havia mudado – ela só não sabia se era algo bom ou não.
      Como a menina estava distraída e focada no anel brilhante em seu pescoço, o James suspirou e levou a mão até o bolso. Se aquela luz não a tivesse interrompido, a garota iria negar ficar com ele. Tendo noção disso, o rosto do rapaz se manteve sério quando, em questão de segundos, puxou uma seringa e a enfiou no braço de Daphne, que expirou ao sentir o líquido entrar em sua corrente sanguínea.
      No mesmo instante, as suas pernas enfraqueceram, e o James logo a apoiou para que ela não se estatelasse no chão. Sub-x. Os olhos da moça, arregalados de surpresa e abalo, seguiram até o garoto, que apenas a observava com um semblante neutro enquanto ela perdia cada vez mais as suas forças e a noção. Mesmo com a visão escurecendo, a mesma não desviou os olhos de James; ela procurava os resquícios do antigo jovem, mas já não o achava mais.
      Ele havia sumido outra vez no meio do homem desconhecido que agora se encontrava em sua frente, encarando-a como se nunca a houvesse visto antes.
      Nesse momento, Daphne percebera que tudo o que sentia não havia passado de uma mera esperança vã da sua cabeça, pois ela ansiava tanto a volta do antigo James que esquecia que ele nunca fora daquele jeito; era uma ilusão, uma mentira. No entanto, se essa era a verdade, por que diabos o rapaz havia pedido para ela ficar com ele?!
      Confusa, amedrontada e enraivada, Daphne rangeu os dentes quando ele alisou seu cabelo, como se realmente se preocupasse; talvez ele gostasse de sua aparência, mas dela, de quem ela era, não.
      Isso a atingiu como um soco.
      — Eu sou uma idiota.

E aí gente, tudo bem?
Estou passando no final do capítulo pra lembrar vocês de deixarem uma estrela ☆ e um comentário dizendo o que vocês acharam ♡
Galera, vcs acham que o Thomas vence essa briga contra o irmão? E será que o Nicholas chega até a Daphne antes que James a leve? Vamos torcer ✊
Por hoje foi isso, um graaande abraço e até breve! 💖

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