XV| A besta

      Logo após serem puxados, por meio do manto preto que usavam, para dentro do quarto que ficava ao lado do que estavam antes, Thomas e Daphne imediatamente se viraram na direção do indivíduo que os havia agarrado e ficaram em posição de ataque. Os punhos da garota brilharam devido à sua aura verde enquanto as mãos do rapaz estavam estiradas na altura de seu peito – prontas para alterarem a gravidade do ambiente se necessário.
      — Opa, opa, opa! — proferiu o homem em frente a eles, erguendo as mãos em sinal de rendição. Seu uniforme era preto e cobria todo o seu corpo, botas reforçadas protegiam os seus pés, luvas pretas ocultavam as suas mãos, uma máscara tapava desde o seu pescoço até o nariz e um capuz era mantido em sua cabeça para esconder seu cabelo, sua testa e, dependendo da posição, até mesmo os seus olhos violetas. — Eu vim em missão de paz!
      — Thiago?! — exclamou Thomas, erguendo as sobrancelhas; metade de seu rosto ainda estava encoberto pela máscara e, graças a isso, a sua voz chegava a ficar mais grossa e abafada assim como a de seu irmão. — O que você está fazendo aqui?
      O mais velho balançou os ombros, como se a resposta para aquele questionamento fosse óbvia, e, em seguida, abaixou a máscara.
      Ao ver o rosto do homem, Daphne finalmente soltou um suspiro aliviado e, automaticamente, levou os olhos até as próprias mãos com um olhar reflexivo. Sem o bracelete, os seus poderes eram mais fáceis de surgirem em grande quantidade – sua força e cura provavelmente haviam se aprimorado bastante –, entretanto, como a mesma não possuía mais um objeto para impedi-la de usar as suas habilidades com toda a potência, Daphne temia a possibilidade de sua energia se esvair no meio de uma batalha.
      Suas capacidades consistiam em usar a sua própria energia vital para transforma-la em cura ou força, e saber que a mesma não tinha mais tanto controle sobre ambas as coisas lhe deixava aflita. Se ficasse desgastada numa luta importante, a garota não saberia o que fazer.
      Ela precisava urgentemente aprender a controlar a energia que habitava dentro de si o mais rápido possível.
      — Eu quem deveria estar perguntando a vocês o por quê de estarem aqui! — alegou Thiago, alternando o olhar entre os dois jovens; a fala dele tirou Daphne de seus pensamentos. — Thommy e Doidaphne, que história é essa de invadir esse castelo e...
      — Oi?! — indagou a moça, ao mesmo tempo em que retirava a máscara para revelar ao homem o seu semblante incrédulo e levemente zangado. — Por que você me chamou dessa forma?
      — Ele costuma dar apelidos pra todo mundo — explicou Thomas, de maneira neutra. O rapaz já estava acostumado a ser chamado daquele jeito. — Se ele decidiu te chamar assim, não há quem mude.
      Ver a garota bufar, para mostrar que estava inconformada com aquilo, fez com que o Thiago abafasse uma risadinha.
      — Ah, Thommy! — declarou o mais velho, erguendo as sobrancelhas como se tivesse acabado de se lembrar de algo. Imediatamente, o mesmo se aproximou de seu irmão mais novo e o puxou para um abraço onde, a princípio, o Thomas até tentou se desvencilhar, porém não teve forças o bastante para concluir tal ação. — Eu nem te dei os parabéns pelo seu aniversário de 14 anos! Dia 05 foi bem tenso, mas, independente disso, saiba que eu te amo muito! — afirmou, apertando-o com mais força.
      Daphne ergueu as sobrancelhas, surpresa com a notícia.
      — Dia 05 de maio? — questionou, alternando o seu olhar entre ambos. — No dia em que estávamos na caverna nos escondendo do ataque que a Divisão fez ao exame de prata?
      Thomas tentou concordar com a cabeça, mas o fato do Thiago o estar pressionando contra si dificultava essa ação.
      — O Nicholas até tentou fazer alarde, mas... — iniciou, enquanto tentava se afastar do irmão; ao perceber que não conseguiria, o menino resolveu desistir de tentar fugir do abraço. — ... mas eu o fiz prometer que iria ficar de boca fechada, afinal, aquela não era uma hora conveniente para comemorações ou algo do tipo.
      Daphne assentiu, com um certa melancolia. Na realidade, ela nem sabia que o seu amigo aniversariava naquele dia.
      — Feliz aniversário atrasado, então — proferiu, abrindo os braços para abraça-lo e para conseguir livrar o menino do aperto de seu irmão mais velho, todavia, ao invés do Thiago soltar o Thomas, o homem simplesmente puxou Daphne e a abraçou também; tal ação acabou fazendo-a rir ao ver que a esperança que o Thomas tinha em se libertar havia se esvaído.
      — É incrível como o tempo passa rápido! Não faz muito tempo que você era um bebê cagão e chorão que...
      — Temos coisas mais importantes para discutir! — exclamou o garoto, interrompendo o discurso do mais velho; não era possível ver o rosto de Thomas por conta da máscara, mas não era difícil concluir que o mesmo havia ficado levemente corado de vergonha. — A Flora precisa de nós, precisamos ir ao quarto do...
      — ... Thadeu — completou Thiago, soltando os mais novos. — Tem algumas coisas que vocês precisam saber. Primeiro, todo mundo já se inteirou que seu grupinho está aqui e, em segundo lugar, eu detectei a presença de Dinks e uma pequena dose de Sub-x no quarto do Thadeu, então, provavelmente, a Flora deve estar com uma pulseira feita dessas duas substâncias — explicou. — Vocês dois não podem entrar lá sem um plano, além disso, haviam vários soldados por aqui e não faz muito tempo que entraram no quarto onde ela está. Então, pra começar, vocês já pegaram o imã para soltar a floco de neve?
      — Floco de neve? — questionou Daphne. — Ué, por que o apelido dela é bonitinho?
      Thiago riu.
      — Não foi necessariamente eu quem escolhi o seu.
      A menina trincou os dentes. Idicholas. Contudo, ela não prosseguiu com aquele assunto, afinal de contas, haviam coisas mais importantes para serem resolvidas naquele momento.
      — Tem uma sala com armas e outros tipos de materiais desse tipo perto daqui para o caso de houver alguma urgência — alegou Thomas, rapidamente. — Lá com certeza deve ter o imã capaz de destruir a pulseira de Flora, além do mais, também podemos pegar algumas ferramentas para nos ajudarem a lutar caso seja preciso!
      — Será que realmente temos tempo pra isso? — indagou Daphne, de maneira hesitante. — Nós já estamos aqui e a Flora precisa da gente! Não sei se devemos pegar isso agora, pois...
      — Vocês não vão ajuda-la se agirem sem pensar — afirmou Thiago, seriamente, para, em seguida, erguer a mão direita. — Tecna, me ajude aqui — pediu, e, em questão de segundos, um holograma surgiu a partir de sua mão; finas faixas acinzentadas de luz cintilavam nas palmas do homem, e, quando o mesmo começou a mexer na imagem digital em sua frente, logo a direcionou até a porta do quarto, fazendo com que todos pudessem ver várias silhuetas avermelhadas de pessoas do outro lado daquele espaço.
      Era como se estivessem vendo as imagens de uma câmera infravermelha.
      — Todas essas pessoas estão no quarto do Thadeu — anunciou para, logo depois, fechar a mão e, juntamente a esse movimento, o holograma também se desfez. — Pelo visto estão armando uma emboscada para quem entrar naquele quarto.
      Os jovens arregalaram os olhos, em choque. Eles não esperavam que já estivessem tão preparados assim.
      — Quem é Tecna? — perguntou Daphne, na intenção de quebrar o silêncio.
      — O espírito da tecnologia que está dentro dele.
      — Ah!
      A garota não sabia que o Thiago também tinha um, porém, como o homem não possuía nenhuma marca na testa, provavelmente o mesmo ainda não havia conseguido dominar os poderes daquele ser – assim como o Thomas e a Flora.
      — Bom, agora vocês sabem que precisam estar preparados para entrarem aí — comentou o homem,  retornando ao assunto principal. — Eu mesmo ia fazer isso, mas, agora que estão aqui, posso ir fazer outra coisa que tem o mesmo grau de importância.
      — Que coisa? — indagou Thomas.
      — Salvar outra pessoa.
      Os jovens assentiram; Daphne colocou a sua máscara de volta.
      — Eu tenho um plano para tirar os soldados dali, assim vai ser m...
      — Espere! — pediu Thomas, antes que o seu irmão pudesse prosseguir. — Deixa que eu resolvo isso, eu também tenho um plano! — declarou, contudo, o Thiago apenas estreitou os olhos como se estivesse a espera de que o menino falasse mais alguma coisa. — Por favor.
      Um sorrisinho satisfeito tomou os lábios do mais velho.
      — Certo. Ah, vocês precisam saber de mais uma coisa! O Tony me avisou sobre os probleminhas que a equipe que foi para a sala de controle tiveram — revelou, fazendo com que a Daphne e o Thomas dessem um passo adiante, como se esperassem alguma notícia desagradável. Era possível ver o receio nos olhos deles. — Não se preocupem, está tudo sob controle. O Tony vai se encarregar disso enquanto eu vou atrás de uma pessoa; vocês cuidam da floco de neve.
      — Pode deixar conosco — afirmou Daphne, com firmeza. — Vamos tira-la dali.
      Thiago sorriu antes de cobrir a sua face com a máscara outra vez.
      — Conto com isso.

      Tony ficou sozinho no duto de ar que se localizava logo acima da sala de controle. O mesmo já havia quebrado o gelo de Ryan há um tempo e, quando a fumaça subiu pela abertura, ele não foi afetado pois, como homem usava o uniforme igual ao do Thiago, a máscara que cobria metade de sua face o protegia de qualquer gás que tentasse atingi-lo – a espada presa à cintura do mesmo era a única coisa que distinguia a roupa de ambos os rapazes.
      — Olha só! Parece que os pirralhos deram um jeito de fugirem.
      Assim que finalmente ouviu uma voz, os olhos de Tony imediatamente mudaram do tom castanho escuro para um vermelho escarlate. Ao fazer isso, a sua visão se ampliou, permitindo que o homem visse as coisas através do duto em que estava.
      Sua vista perpassou com perspicácia por cada soldado que havia entrado naquela área, no entanto, quando os seus olhos foram transportados até uma pessoa específica, ele ficou boquiaberto.
      — Um dos quatro generais está aqui?! — indagou para si mesmo, num sussurro carregado de surpresa.
      Rey.
      O indivíduo estava no meio dos demais, a única diferença era que, ao invés da vestimenta preta e roxa dos soldados de Bry, o homem vestia um uniforme que misturava o verde escuro com preto; as cores da Divisão. Ao longo da roupa do general também haviam vários cintos presos nas suas coxas, cintura e tronco onde, provavelmente, vários tipos diferentes de armas encapsuladas estavam sendo mantidas.
      Como o mesmo não possuía poderes, ele precisava se garantir em acabar com os seus inimigos de outra maneira.
      — Se não houvessem soldados com ele eu até poderia tentar ir no um contra um, mas, mesmo assim, ainda seria um risco! — murmurou, visivelmente tenso e, instintivamente, ele puxou o seu capuz para esconder ainda mais a sua identidade; talvez essa fosse uma forma do homem se sentir mais seguro.
      Os quatro generais eram famosos por terem o mesmo nível de poder da classe S e, mesmo que o Tony não estivesse tão abaixo assim desse nível, ainda era uma situação delicada.
      Ele não o venceria.
      — Quais eram os jovens que estavam por aqui? — questionou o Rey para um dos combatentes que estavam com ele. — Suponho que tínhamos câmeras escondidas por aqui, não?
      Um soldado confirmou com a cabeça e, logo depois, fez sinal para um companheiro que portava um dispositivo arredondado em mãos. Assim que o objeto foi entregue ao general, as imagens das câmeras surgiram no ar, revelando as faces de Nicholas, Ária, Ryan e Alephe.
      Um sorriso se formou no rosto de Rey.
      — Quase nos reencontramos novamente... — resmungou ele, fazendo com que um dos homens que estavam ao seu lado franzisse o cenho.
      — O senhor deseja ver alguém em particular, general?
      O sorriso de Rey aumentou.
      — Sim, Nicholas White. Ele trabalha para mim.
      O indivíduo que havia feito a pergunta assentiu; no duto de ar, os olhos de Tony estavam arregalados perante aquela revelação. O mesmo precisou piscar várias vezes, como se ainda estivesse digerindo o fato.
      — O Nicholas?! — sussurrou, incrédulo. — Deve haver algum engano... — alegou, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça de um lado para o outro; era como se não conseguisse crer na veracidade daquilo. — Thiago... — proferiu, após levar a sua mão ao ouvido onde, provavelmente, portava um pequeno comunicador. — ... parece que temos uma grande e confusa situação acontecendo.

      No momento em que a Ária constatou que estava confinada junto ao Kal naquela área, uma confusão tomou conta de si, afinal de contas, a garota não entendia o motivo do Arthur ter feito aquilo; ademais, quando a mesma notou o semblante aterrorizado na face do companheiro que estava preso com ela, os seus sentimentos de incerteza e dúvidas aumentaram ainda mais.
      — Fuja! — ordenou o rapaz; sua respiração acelerou.
      Ele parecia estar prestes a ter um ataque de pânico.
      — Mas nós estamos presos aqui... — comentou, ao mesmo tempo em que dava um passo adiante. Devido à sua ação, o menino deu uma larga passada para trás, fazendo com que a Ária franzisse o cenho. — O que está acontecendo com você, Kal?
      O jovem não a respondeu, apenas se distanciou ainda mais; o receio em seus olhos e a sua postura caída deixavam claro para qualquer um que o mesmo se encontrava cheio de temor e insegurança. Observá-lo dessa forma deixou a moça apreensiva, até porque, ela nunca havia o visto assim, pois os olhos dele sempre eram tão neutros e... vazios.
      Ela apertou os lábios, inquieta.
      — V-Você precisa sair daqui agora! — bradou, enquanto olhava desesperadamente para os lados à procura de alguma saída. — V-Você tem que fugir! — repetiu, ansioso; gotas de suor já brilhavam em sua testa, demonstrando o quão tenso o mesmo estava.
      — Por quê? — indagou, sem esconder a sua preocupação. — Eu não gosto de te ver assim! Explique-me o que está havendo para que eu possa tentar te ajudar, por favor.
      O garoto soltou um suspiro angustiado, suas narinas dilataram um pouco graças a esse gesto, e, quando ele tentou abrir a boca para responde‐la, o que saiu de sua garganta não foram palavras, mas um grito excruciante de agonia. O objeto que o Yuri havia enfiado na nuca de Kral começara a desferir descargas elétricas pelo seu corpo, fazendo com que o rapaz não aguentasse mais se manter de pé.
      — KAL! — gritou, todavia, quando a mesma fez menção de que iria até o amigo, o jovem rapidamente ergueu uma de suas mãos, pedindo-a para que permanecesse afastada. As contínuas correntes elétricas que eram descarregadas no menino faziam com que o corpo dele tremesse descontroladamente enquanto uma quantidade considerável de sangue saía de sua boca e narinas. Ele parecia prestes a morrer. — PELO ÔMEGA, KAL! — exclamou, ao ver o companheiro bater a sua cabeça contra o piso repetidas vezes como forma de tentar esquecer a eletricidade que o torturava.
      Como ela não conseguia apenas assistir o seu parceiro sofrer, a Ária prontamente decidiu correr na direção dele, porém, quando fez isso, o rapaz se calou; tal atitude a fez diminuir a velocidade, como se, agora, a mesma estivesse verificando se o jovem ainda estava são. O choque ainda percorria pelo corpo dele, pois o mesmo ainda chacoalhava involuntariamente, contudo, não tanto quanto antes.
      Alguma coisa havia mudado.
      — K-Kal? — chamou-o, no entanto, algo dentro de si lhe alertava para que não se aproximasse; essa estranha sensação que tomou o seu corpo a fez dar um trêmulo passo para trás. — Kal? — voltou a convoca-lo, e, quando pensou em tentar falar outra coisa, não conseguiu, pois o seu queixo simplesmente caiu ao ver o garoto erguer a cabeça para encara-la.
      Os exuberantes e misteriosos olhos pretos de Kral agora não possuíam mais esse esplêndido tom, porque todo o seu globo ocular, incluindo a sua esclera, havia mudado para uma coloração vermelho sangue. Algumas artérias ao lado dos olhos dele também haviam adquirido essa mesma tonalidade e, em seu corpo, também era possível notar a presença dessa cor em suas veias, contrastando sua pele belíssima e escura como a noite, com várias linhas vermelhas que brilhavam através de seus vasos sanguíneos. Era uma cena apolínea e, ao mesmo tempo, arrepiante de se ver, tanto é que, quando o garoto soltou o seu cabelo – que antes estava preso a um pequeno rabo de cavalo na altura da nuca – e o balançou de um lado para o outro com a intenção de desajeita-lo, o fôlego de Ária se esvaiu por alguns segundos; ela estava tão admirada com a imponência do rapaz que nem sequer piscava direito.
      O Kral parecia outra pessoa. Outro ser.
      Sem pressa, o jovem se levantou do chão, mesmo que sangue ainda escorresse de sua boca e nariz e que o seu corpo ainda estivesse trêmulo devido ao choque – que não havia cessado. Nada daquilo parecia abala-lo, não mais. Embora as correntes elétricas continuassem o atormentando, o garoto não expressou isso quando pegou o pequeno bastão que estava preso ao cinto de seu uniforme e o fez dobrar de tamanho para, em seguida, roda-lo entre os dedos.
      — Kal... — sussurrou, de forma inaudível. A incerteza e o encanto pareceram engolir a sua voz.
      O jovem a encarava fixamente; os olhos completamente vermelhos faziam a moça arrepiar e, quando ele começou a caminhar em direção a Ária, a mesma, instintivamente, fez com que a sua armadura de diamantes cobrisse todo o seu corpo.
      — K...
      Assim que tentou proferir o nome dele outra vez, a garota não conseguiu concluir, pois, de repente, tudo o que ela conseguia ver era um borrão no ar que, em poucos segundos, já havia a empurrado com tudo contra a parede.
      Ao bater suas costas contra o muro, ela gemeu; mas não necessariamente de dor, e sim por causa do susto. Se não estivesse naquela forma defensiva, provavelmente já estaria bastante ferida ou, quem sabe, desacordada.
      As rachaduras que se formaram na parede fizeram a menina engolir em seco. A força e a velocidade do rapaz eram impressionantes, sobre-humanas.
      Num piscar de olhos, uma ponta fina e terrivelmente afiada surgiu no bastão do menino, que não demorou para tentar enfia-lo no peito de Ária, que ergueu as sobrancelhas, de espanto, perante a cena. Como a extremidade mortal daquela arma não conseguiu ultrapassar a defesa da moça, Kal inclinou a cabeça para o lado, como se tivesse achado aquilo bastante interessante. Naquele momento, os olhos de Ária puderam contemplar que o homem em sua frente não era mais o mesmo que conhecera; esse novo ser parecia apenas seguir os seus instintos, e o seu instinto era matar.
      — O que está acontecendo com você? — perguntou, enquanto observava o corpo dele sacudir devido ao choque que, agora, não o incomodava mais; o sangue que antes não parava de jorrar agora já havia secado, indicando que o efeito daquilo não o abalava tanto quanto antes. Sua regeneração corporal estava bem mais rápida.
      Força, velocidade e regeneração aprimoradas... Em que tipo de besta o garoto havia se transformado?
      Outra vez, o Kal tentou enfiar sua arma pungente em Ária, mas, novamente, obteve falha. Então ele tentou fazer isso de novo. De novo. De novo. E de novo.
      A menina arregalou os olhos, assustada com o fato de que o seu companheiro realmente desejava mata-la. Portanto, rapidamente, ela agarrou os pulsos dele, com a intenção de obrigar o jovem a parar de tentar feri-la. Com a sua armadura diamantina, a garota tinha a sua força e resistência aumentadas; era hora de ver quem era o mais forte.
      — KAL, SOU EU! — gritou, ao mesmo tempo em que fazia uma careta devido as tentativas de seu parceiro em querer livrar os braços. Era difícil conter a força dele, mas a sua parecia ser um pouco superior. — Kal, por favor!
      O garoto não a respondeu, no entanto, quando as veias avermelhadas que ficavam ao lado de seus olhos brilharam com mais nitidez, um sorriso macabro surgiu em seus lábios.
      Era como se ele tivesse descoberto algo.
      Sem perder tempo, o garoto se jogou para trás, e, como a menina o estava segurando, ela acabou caindo no chão junto a ele. A princípio, a mesma estranhou aquela atitude do rapaz, todavia, a moça pôde compreende-la quando o mesmo usou os pés para chuta-la na região da barriga, fazendo-a voar para longe. Assim que bateu com as costas no solo, a Ária não teve tempo de fazer qualquer outro movimento, pois o Kal já a havia alcançado e, imediatamente, virou-a, fazendo com que a mesma ficasse com a sua barriga virada para o chão.
      Enquanto a moça ainda tentava raciocinar tudo o que estava ocorrendo, o garoto já havia erguido o seu bastão, que logo se transformou numa espada, dando a entender que se encontrava pronto para enfiar aquilo nela.
      A garota arregalou os olhos, em choque e, de imediato, cobriu a sua nuca com as mãos, sendo esse o momento exato em que o Kral desceu a sua espada contra aquela região. O barulho da colisão entre o metal e o diamante ecoou, e, junto a isso, o coração da garota acelerou. Na mesma hora, ela se virou para encarar o rapaz, que possuía um semblante assustadoramente vazio.
      Ela ofegou, assustada, e apertou a sua nuca. Aquele era o seu ponto fraco. A sua armadura demandava energia para se manter em seu corpo, e aquela era uma região onde a resistência do diamante não conseguia ter um bom êxito como no restante de seu físico. Amedrontada, a Ária se levantou e correu para longe do garoto, que só a observava enquanto a espada em suas mãos dobrava de tamanho.
      Como ele havia descoberto aquilo?, pensou, quando encostou as costas na parede. As veias próximas aos olhos do Kal brilharam antes dele sorrir, então, talvez, ele pudesse ver as fraquezas das pessoas após um certo tempo – assim como o Tony. Será que ambos tinham algum tipo de conexão?! Bom, a única diferença ali era que os olhos do irmão de Daphne ainda mantinham a esclera branca.
      — Kal — proclamou, com a voz embargada. O medo a consumia, afinal, se ela não tivesse conseguido proteger a sua nuca a tempo, estaria morta. Como o seu companheiro não a respondeu e começou a caminhar até ela, a mesma decidiu empurrar o corpo contra a parede com ainda mais força, como se estivesse tentando virar uma só com o muro; ela não podia permitir que a sua fraqueza ficasse tão exposta novamente.
      Sua vida dependia disso.
      Assim que a alcançou, o garoto a observou por alguns segundos para, depois, transformar a espada de volta em um bastão e guarda-lo na lateral do cinto. Essa ação fez a menina franzir o cenho com uma certa expectativa, pois parecia que o Kal estava conseguindo retomar o controle novamente, contudo, ao contrário do que pensava, o jovem usou as mãos livres para agarrarem o pescoço dela.
      Imediatamente, Ária segurou os pulsos dele. Ela não sentia o estrangulamento em si, porém, saber que o menino estava com os dedos sobre o seu ponto fraco a desesperava – ela não sabia que outro tipo truque o rapaz carregava. Com o intuito de afasta-lo, a mesma tentou empurra-lo usando a perna, entretanto, seu chute não pareceu ter efeito.
      Ele havia ficado mais forte.
      Angustiada com aquela situação, a menina fechou os olhos antes de soca-lo na face. Ela não desejava ter que fazer aquilo, mas as circunstâncias pediam medidas extremas. Porém, quando o seu parceiro voltou a encara-la, ele a empurrou ainda mais contra a parede, fazendo-a arregalar os olhos, surpresa com a recém descoberta.
      Além de força, velocidade, resistência e aprimoramentos visuais, a dor fortalecia todos esses atributos do rapaz. Era por isso que, agora, ele estava mais forte que antes – a descarga elétrica contínua o estava transformando numa besta indomável e... Ela ergueu as sobrancelhas ao relembrar desse aparato.
      Será que se tirasse aquele aparelho elétrico, o Kal voltaria ao normal?
      Como não tinha outras alternativas, a Ária fez menção de aproximar as mãos da nuca dele, no entanto, antes mesmo que pudesse fazer isso, seu queixo caiu de assombro. Algo pontiagudo estava tentando penetrar em sua nuca. Sem demora, ela levou as mãos até os braços dele, com a intenção de força-lo a solta-la, mas não adiantou; a força dele já havia se tornado superior à sua.
      Além do mais, as unhas do mesmo estavam crescendo com uma velocidade e resistência impressionantes; tanto é que, nesse pouco tempo, as garras do homem já lhe causavam um desconforto enorme, indicando que, se aquilo continuasse, hora ou outra a sua habilidade iria...
      — Ah! — exprimiu, ao sentir sua armadura diamantina trincar. Ela já podia sentir que o material que revestia o seu corpo não iria aguentar mais.
      Se aquilo não parasse, ele ia mata-la; pensar nisso fez com que algumas lágrimas caíssem de seus olhos.
      — KRAL! — gritou, ofegante. Agora, a menina já estava começando a sentir necessidade de respirar, coisa que, com os seus poderes ativados perfeitamente, não era relevante. — KRAL! — bradou, pela segunda vez, num tom de súplica. O pavor que a tomou fez com que seus joelhos falhassem, fazendo-a cair no chão.
      O garoto acompanhou o movimento da companheira, para que ainda pudesse se manter no controle da situação, e, assim que a moça deitou no chão, o mesmo logo subiu em cima dela e prendeu a sua cintura entre as pernas, impedindo-a de fugir.
      — KRAL! — clamou, ao ouvir a sua armadura se partir ainda mais; as pontas das unhas do rapaz já encostavam em sua nuca, acarretando numa dor imprescindível para a menina, que mordeu os lábios para aguentar a agonia. — Por fav...
      Antes que pudesse concluir sua fala, a Ária sentiu as rachaduras do diamante alcançarem o seu rosto; sangue já escorria do local onde as garras do jovem estavam fincadas. Nesse momento de desespero, a garota não pensou duas vezes antes de levar as mãos até os fascinantes fios de cabelos de Kral para, imediatamente, os puxar até si brutalmente, trazendo a cabeça do parceiro mais para perto; ambos face a face.
      Graças a esse ato, a mesma pôde alcançar a nuca dele e, ao conseguir fazer isso, a garota não tardou em arrancar o dispositivo que eletrocutava o seu amigo para, posteriormente, destrui-lo entre os dedos.
      — Ah... — expirou, sem forças; sua armadura sumiu, deixando-a totalmente indefesa e à espera de seu fim.
      Ela fechou os olhos. Não havia mais nada que pudesse fazer.


      — Você tem certeza disso, Tony? — indagou Thiago, atônito, após ouvir o seu amigo lhe contar o que havia escutado a respeito do Nicholas através do Rey.
      Naquele átimo, o irmão de Thomas caminhava por um corredor – atrás dele, alguns corpos de soldados e empregados estavam caídos sobre o solo. Enquanto ouvia as palavras de seu companheiro através do comunicador que possuía no ouvido, o homem prosseguiu andando até alcançar uma porta de aço espessa e imponente; a mesma que o Thadeu e a Flora já haviam ultrapassado anteriormente quando estavam se dirigindo a um local que a garota ansiava muito nunca mais entrar.
      — Não, não creio. Nós treinamos o Idicholas por um tempo e, pelo que analisei, ele não tem cara de quem faria isso. Em relação a esse Arthur, eu não posso ter certeza de nada, afinal, não o conheço muito bem — mencionou, ao mesmo tempo em que descia as escadas giratórias que o levaria para algum lugar subterrâneo. — Sim, não se preocupe, eu já estou a caminho de resolver esse outro problema. Exato, exato. Qualquer coisa falo com você, adeus.
      O jovem cortou a sua comunicação com o Tony no momento exato em que terminou de descer as escadas; os degraus levaram o mesmo à um espaço arredondado onde as paredes tinham um tom preto fosco e as onze portas que ali existiam eram pintadas com uma cor púrpura bem brilhante, exceto uma, que possuía um roxo mais opaco, além de ter uma insígnia do reino Bry estampada no topo – essa era a sala que a mulher com máscara de lobo havia usado para adentrar nos pensamentos de Flora. Aquela senhora não estava presente no local, e os guardas que estavam fiscalizando a área já haviam sido derrotados no andar de cima.
      — Tecna! — chamou-a, erguendo os punhos. Em questão de segundos, um holograma saiu de cada mão sua; sem perder tempo, o jovem moveu as telas flutuantes para as laterais de seu corpo e mais duas surgiram através de suas palmas quando ele abriu os dedos, como se tivesse expandindo uma imagem.
      Antes de começar a teclar aquilo, ele estralou os dedos e, quando o homem os encostou nos hologramas, uma aura que misturava o tom azul e o cinza começou a perambular pelo seu corpo. Ele mexia em cada tela com grande maestria, e os seus olhos violetas se moviam de uma para a outra com uma velocidade impressionante até que, como o som de uma orquestra afinada, vários cliques soaram de todas as portas ao mesmo tempo; estavam destrancadas.
      Esse barulho fez o Thiago sorrir antes de fechar os dedos e, graças a esse movimento, os hologramas diminuíram até sumir; exceto um. O jovem guiou essa tela digital flutuante que restara de porta em porta em busca da presença de alguém e, assim que a câmera infravermelha conseguiu captar a silhueta de uma pessoa dentro de uma daquelas salas, ele desfez o holograma e seguiu até aquele espaço.
      Ao empurrar a porta, as sobrancelhas do mesmo se ergueram ao ver um garoto ruivo desacordado e preso à uma cadeira que agarrava os pulsos e os tornozelos do rapaz com moldes grandes e resistentes feitos de Dinks.
      Diego.
      Não havia feridas pelo corpo do menino, contudo, aquilo não acalmava o Thiago, afinal de contas, aquele lugar não era usado para fazer torturas físicas; e sim mentais.
      — Maldito governo, maldito reino, malditos Bry! — resmungou, todavia, quando fez menção de adentrar naquela sala para ajudar o mais novo, o barulho de passos vindo da escada o fez parar e se virar para ver quem estava ali com ele.
      Yuri e Arthur.
      — Bem que o Rey disse que não podíamos confiar nos guardas desse reino... Eles são uns inúteis! — declarou o rapaz de olhos puxados, encarando o Thiago com desdém; Arthur permaneceu calado. — Vamos tirar esse estorvo daqui logo, não podemos deixar que ele tire o ruivo daqui; esse garoto é importante para a conclusão de um dos planos da Divisão.
      Thiago riu de uma forma irônica perante o comentário do mais novo e fechou a porta da cela do Diego para que o menino não acabasse sendo envolvido na batalha que estava prestes a explodir.
      — São vocês quem vão me impedir? — debochou, enquanto balançava os ombros como se estivesse se aquecendo. — Que pena, deveriam ter trazido um exército.

E aí gente, tudo bem?
Estou passando no final do capítulo pra lembrar vocês de deixarem uma estrela ☆ e um comentário dizendo o que vocês acharam ♡
Gente, o que vcs acham que aconteceu c a Ária? Será que ela está bem? Será que o Thiago vai conseguir ajudar o Diego?! E essa história do Rey e do Nicholas? Aí tem coisa, né? Contem tudo o que vocês estão pensando pra mim! ;)
Por hoje é só, pessoal, um abração e até breve! 🖤

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