XIV| Brytleofber

      — Tenho uma missão para vocês realizarem! — proclamou Tony, com a intenção de fazer com que os jovens reagissem de alguma forma, afinal, se eles continuassem parados pensando no desaparecimento do Kral, da Ária e do Diego ou na possível traição de Arthur, nada iria se resolver.
      A fala do mais velho serviu para despertar o Nicholas, que logo ergueu a postura e o encarou com atenção. Graças a essa atitude do garoto, a Camille e o Alephe fizeram o mesmo, e o Ryan, que já havia se acalmado mais e enxugado as lágrimas, respirou fundo antes de levar a sua atenção ao Tony também.
      Ter algo para fazer iria ajuda-los a ocupar a mente, e isso fazia a sensação de impotência que sentiam diminuir.
      — Preciso que vocês sigam até a prisão pelos dutos de ar — pediu, enquanto pegava um pequeno dispositivo fino com um formato hexagonal que estava preso à manga de seu uniforme, na altura do pulso, e o apoiava na palma da mão. — Mandei a Cássia se esconder e esperar por vocês. Preciso que a encontrem.
      — Mas nós não sabemos como chegar até a prisão — comentou Camille, observando o objeto na mão do homem com uma certa curiosidade. — Quem conhece as coisas por aqui é o Thomas.
      Como resposta à indagação da moça, o Tony clicou duas vezes no pequeno aparelho em sua mão, e esse ato fez com que o aparato brilhasse para, em seguida, criar um holograma que mostrava cada local do castelo onde estavam.
      Os olhos dos jovens brilharam ao ver aquilo.
      Sem demora, Tony ampliou a imagem que se mostrava no ar até chegar aos dutos onde estavam. Uma luz vermelha piscava exatamente no local onde eles se mantinham.
      — Como podem ver, há vários caminhos que vocês podem usar para chegar até a prisão que, diga-se de passagem, não é tão longe daqui; quando estiverem perto, falem com a Cássia para que ela possa lhes dizer o local exato que usou para entrar no duto, assim, vocês poderão ir na direção certa — explicou, e, ao apertar duas vezes no objeto, o holograma se desfez. — Tome! — disse, entregando o comunicador deles de volta, juntamente ao aparelho, para a Camille, que pegou aquilo com uma certa insegurança. — Irei falar com vocês quando resolver esse problema na sala de controle, até lá, continuem se escondendo, entendido?
      — Sim! — Camille, Alephe e Ryan falaram ao mesmo tempo.
      — A sala de controle está cheia de um gás que deve ter sido produzido pelo cristal de ópitys! — revelou Ryan. — Se você respirar aquilo, pode ficar inconsciente, isso sem falar nos efeitos colaterais... — expôs, dando uma olhada de lado para o Nicholas, como se estivesse lembrando do quão estúpido o menino havia ficado; mais que o normal. Ao notar que estava sendo observado, o rapaz abriu um sorriso, fazendo com que o garoto de cabelos brancos balançasse a cabeça de modo negativo.
      — Estou ciente — respondeu Tony. — Todavia, não se preocupem, eu darei um jeito nisso. Agora vão!
      Os adolescentes confirmaram com a cabeça antes de seguirem um atrás do outro na direção em que a Camille indicava. Contudo, só quando os mais novos foram embora que o Tony arregalou os olhos ao lembrar de um fato que, a primeira vista, parecia não ter nada de mais, porém que, no fim, poderia causar uma enorme confusão.
      O Nicholas havia sido o único que não falou nada quando ele pediu para que eles continuassem escondidos até segunda ordem.
      Após treinar o menino por algum tempo, o Tony sabia que o Nicholas poderia ser bem impetuoso às vezes – para não dizer sempre –,  e o fato dele não ter concordado com a sua fala era algo alarmante.
     Que o Ômega o ajudasse caso o rapaz cedesse aos seus impulsos.

      Thomas e Daphne avançavam pelos corredores do castelo como sombras; discretos e silenciosos. O manto e a máscara pretos que cobriam as suas identidades davam um toque macabro a eles, como assassinos agindo na calada da noite. Por instruções do Thomas, ambos se movimentaram por caminhos onde as câmeras do castelo não pegavam muito e, quando tinham que passar pelas áreas movimentadas onde guardas e empregados circulavam a todo instante, o rapaz usava a sua gravidade para que os dois flutuassem e seguissem o seu caminho em oculto.
      Quanto mais eles se aproximavam do quarto do Thadeu, mais pessoas apareciam. Entretanto, quando, ainda pelo ar, ambos conseguiram passar por uma porta dourada como ouro, um corredor largo com seis portas grandes e imponentes se revelou a eles. Aquele lugar era bastante refinado e, diferente das prisões ou da sala de controle, era bastante vigiado.
      A gravidade os deixavam colados ao teto, tornando fácil a entrada deles naquele ambiente, e, quando tiveram chance, os dois rapidamente voltaram ao chão onde, num piscar de olhos, o Thomas se moveu para abrir uma das portas, porém, lamentavelmente, a mesma estava trancada.
     — Merda! — xingou, em voz baixa.
      Aquilo era preocupante, afinal de contas, ele e a Daphne não podiam ficar a vista por muito tempo – muito menos naquele corredor –, pois a qualquer momento um empregado ou outro guarda poderia os ver; e essa conjuntura se cumpriu quando o barulho de vários passos começou a ecoar.
      Era a segunda vez que eles ouviam tantos passos assim, mas, agora, a quantidade de pessoas que se aproximavam parecia ser menor.
      Sem pensar duas vezes, a Daphne se segurou no Thomas, preparada para que ele usasse de seus poderes gravitacionais para levanta-los outra vez, mas, ao contrário do que ela pensou, a atitude que o rapaz tomou foi a de levar as mãos até a parede para tateá-la até, enfim, chegar numa rocha oca que, quando o mesmo a puxou para fora, um pequeno buraco se revelou. Ele enfiou a mão ali e tirou uma chave meio enferrujada que usou para abrir a porta que antes estava trancada, permitindo que ambos entrassem naquela área para se esconderem dos olhares dos soldados que se aproximavam rapidamente.
      Assim que se trancaram lá dentro, o Thomas prontamente colocou os ouvidos na porta para tentar ouvir algo do outro lado. Daphne, por sua vez, preferiu observar o ambiente à sua volta; seus olhos verdes passeavam ligeiramente de um lado para o outro por trás da máscara. Aquele local tinha uma cama grande, haviam alguns armários de qualidade e uma janela ampla, mas, como as cortinas estavam fechadas, a escuridão não permitia que ela visse muita coisa, contudo, a coceira que deu no seu nariz a fez perceber que o lugar estava bastante empoeirado. Era como se ninguém entrasse ali há anos, como se tivessem simplesmente abandonado aquele espaço que, um dia, talvez já fora um quarto bastante sofisticado e belo, todavia, agora, não passava de um grande local para que as aranhas e outros tipos de bichos vivessem.
      Daphne se virou para o Thomas; a conversa e o riso dos soldados podia ser ouvida ao fundo, mas nenhum falava algo realmente importante.
      A garota sabia que eles precisariam esperar os guardas saírem dali, pois, caso tentassem ir contra eles, tudo o que conseguiriam com isso era atrair atenções indesejadas, o que acarretaria na perda da chance de acharem a Flora. Sabendo disso, Daphne tirou a máscara, abaixou o capuz e, com os olhos verdes emanando uma intensidade gritante, encarou o seu amigo para perguntar, num tom baixo e profundo;
      — Quem é você, Thomas?
      O garoto demorou um pouco para se virar na direção da amiga; aquela indagação o havia chocado.
      — Você está se referindo a...
      — ... ao seu passado — concluiu ela. — Você é o príncipe desse reino, não é?
      Subitamente, o rapaz se virou para ela e tirou a máscara; a impetuosidade presente em seus olhos violetas a fizeram engolir em seco.
      — Não.
      Aquela resposta a fez franzir o cenho. Já era óbvio para todos que o Thomas morou naquele castelo, então não era difícil constatar que... Daphne inclinou a cabeça para o lado, confusa, quando um pensamento invadiu sua mente. “Será que o Thomas era adotado?’’, a garota balançou a cabeça de um lado para o outro. Impossível, se fosse assim, o Thiago também seria, pois ambos eram praticamente idênticos... A não ser que os dois fossem adotados...
      Os pensamentos proliferativos de Daphne fizeram com que a mesma, inconscientemente, exprimisse uma careta. Aquilo tudo era muito vago.
      Ao notar a confusão dela, o Thomas soltou um longo suspiro, encostou-se na porta e apoiou a mão na testa, como se estivesse tomando coragem para falar sobre aquele tema.
      — Esse era o meu quarto... — iniciou, fazendo com que a careta de Daphne se transformasse numa expressão de surpresa.
      Até que aquilo fazia sentido, afinal de contas, o garoto havia sido rápido em conseguir uma chave para abrir a porta daquele local.
      — Se é assim, então... — ela não conseguiu completar a frase; parecia não ter certeza se deveria ou não insistir naquele assunto.
      Percebendo a insegurança da companheira, o Thomas tirou a mão do rosto e levou os olhos para ela, encarando-a agudamente.
      — Meu pai, ou melhor, o Thor, era um morador de rua antes de ser o rei desse reino — expôs, e Daphne assentiu com a cabeça, indicando que estava prestando atenção nas palavras do parceiro. — Ele costumava pedir esmolas para se sustentar, mas depois de um tempo começou a roubar para conseguir mais. A minha mãe era órfã e pobre, no entanto, diferente do Thor, ela consertava coisas para ganhar o seu sustento ao invés de roubar das pessoas... Eu herdei a inteligência dela — proferiu, soltando um suspiro pesaroso. Falar sobre aquilo o deixava desconfortável, porém, quando a Daphne fez menção de proferir algo para acalma-lo ou, talvez, para pedir para que ele parasse de se explicar, o menino levantou a mão, solicitando que a moça não dissesse nada e continuasse ouvindo; ela assentiu. — Meu pai usava a gravitocinese para levitar e trazer as carteiras das pessoas até si e minha mãe usava sua inteligência para consertar as coisas ou resolver alguns assuntos das pessoas. Eles dois se conheceram quando a minha mãe viu o Thor roubar a carteira da mulher que a pagou pelo conserto de uma bolsa.  A princípio, a minha mãe foi falar com ele sobre isso e reclamar do que ele tinha feito; a partir daquele dia, não me lembro bem do porque, ambos começaram a andar juntos. Ela reclamava com ele sobre os furtos, mas, depois, viu que o roubo de algumas carteiras não era tão ruim assim, afinal, a refeição que podiam comprar com aquele dinheiro era bem melhor do que a pouca comida que ela comprava quando recebia alguns míseros trocados por consertos, então, com a ajuda da inteligência da minha mãe, o Thor começou a conseguir roubar pessoas com condições melhores, pois a minha mãe sabia identificar pelas roupas ou pelo modo de andar ou até mesmo pelo penteado quando alguém tinha mais condição financeira ou menos. Graças a esse trabalho em equipe, eles eram invencíveis e, com apenas doze anos, já eram  conhecidos e respeitados por outros nas ruas como os ladrões mais espertos e sorrateiros do reino Klyon.
     Daphne franziu o cenho ao ouvir essa parte da história.
      — Klyon?! Nunca ouvi falar desse reino... Pensei que fosse apenas Valir, Bry, Lovtsi, Nullo e Hope.
     Thomas deu um sorriso fraco.
      — Esqueci que essa parte da história não é muito conhecida pela nossa geração, afinal, tudo isso que estou te contando aconteceu há uns trinta e poucos anos... — mencionou, com um certo desânimo. — Mas enfim, continuando, o Thor e a minha mãe eram uma bela dupla e, com o tempo, acabaram adquirindo sentimentos um pelo outro, porém... — ele se interrompeu por um tempo, como se tivesse tomando determinação para prosseguir. — ... o meu pai enlouqueceu, por assim dizer. De ladrões, ambos passaram a ser assassinos de aluguel. Contanto que pagassem bem, eles aceitavam qualquer trabalho... De início, a minha mãe não se agradou daquela ideia, mas o meu pai a convenceu, afinal, ela não queria que ele fizesse as coisas sozinho pois tinha medo que ele pudesse... enfim, o amor realmente é um sentimento perigoso — declarou, fazendo com que a Daphne mordesse os lábios para demonstrar que estava nervosa com o rumo que as coisas estavam tomando. A mãe do Thomas parecia ser uma boa pessoa mas que, no fim, acabou priorizando mais os sentimentos dos outros do que os próprios valores. Não era raro que coisas assim acontecessem entre casais, e isso a assustava. — Um dia, quando ainda tinham quinze anos, eles tiveram a incumbência de matar um capitão da Divisão, e, para que o governo não descobrisse que foram eles, ambos precisaram fugir do reino de Klyon para se protegerem, até porque, mesmo que fossem fortes juntos, não podiam bater de frente contra todo um exército sozinhos. Eles foram para Hope, pois é o território mais esquecido do país e, como a vigilância lá não é muito boa e vários assassinos e fugitivos se escondem por lá, eles permaneceram ali até que as coisas se acalmassem. Foram cinco anos ao todo e, durante esse tempo, a minha mãe descobriu a K2. Ela não contou da existência da academia ao Thor porque, depois de tudo o que ele já havia feito, ela não sentia segurança em fazer isso. Durante o tempo em que ficaram em Hope, os dois passavam o dia separados em busca de dinheiro e, enquanto meu pai fazia isso indo nos mercados negros ou roubando, a minha mãe ia para a academia e trazia algumas coisas preciosas de lá vez ou outra. Mesmo só frequentando a K2 por cinco anos, a minha mãe conseguiu se destacar devido a sua inteligência e experiência em combates, por isso, não demorou para que ela se desse bem nos exames e, por fim, se tornasse grau diamante, porém, muitos já a consideravam grau titã! — Thomas sorriu, orgulhoso da conquista de sua progenitora; Daphne fez o mesmo. — Infelizmente ela teve que sair da Hope depois desse tempo para voltar ao reino Klyon, todavia, antes de voltarem, o Thor havia planejado uma coisa, o maior plano da vida dele: tomar posse do território para si. Acho que nem preciso dizer que a minha mãe foi contra no início mas que, depois, o meu pai a convenceu, não é? As promessas dele de que ajudaria os pobres e lutaria por um mundo melhor a deixou encantada... Sinceramente? É incrível como o amor dela por ele a fez perder completamente o seu senso lógico... Bem, resumindo a história, o plano deu certo, pois mataram a linhagem real, tomaram o trono e mudaram o nome do reino para Bry.
      Daphne ergueu as sobrancelhas, surpresa com o ocorrido. Como um fato importante como aquele não estava escrito em nenhum dos livros de história da academia?! Algo tão grande assim deveria ser de conhecimento geral!
      — É claro que o povo não aceitou o reinado deles, afinal, o modo com que entraram no trono não foi muito... honroso; foi aí que a carnificina começou — a garota levou a mão a boca, espantada com a continuação da narrativa. — Todos que eram contra o governo deles eram mortos. Os antigos moradores de rua que antes prestigiavam meus pais como “os melhores ladrões de Klyon’’ se uniram a eles e viraram seus soldados, por isso o exército dos antigos reis não conseguiram conter a rebelião — revelou, em seguida, cruzou os braços, envergonhado de tudo aquilo. — É por isso eu não sou o príncipe daqui. Eu não posso me sentir herdeiro de algo que foi tomado a força de outros!
      Daphne estendeu a sua mão e apertou a de seu amigo, como forma de apoia-lo.
      — A Divisão não fez nada? — questionou ela. — Digo, eles só ficaram de braços cruzados enquanto tudo isso acontecia?
      — O governo não foi de acordo no começo pois eram aliados dos antigos soberanos, porém, depois de vários argumentos plausíveis da minha mãe como: “a família real antiga não existe mais, não há o que se fazer para mudar isso’’, “somos mais fortes, iriamos apenas somar em seu exército’’ e uma grana beeem alta que o meu pai os entregou, eles acabaram ficando calados por um tempo. Como o Thor diz, “o dinheiro controla o mundo’’, e é por isso que, com o passar do tempo, ele acabou fazendo de tudo para conseguir mais. Dinheiro é poder.
      A Daphne apertou a mão de Thomas com mais força quando o mesmo revirou os olhos ao proferir as palavras finais; era possível sentir a raiva que o garoto tinha guardada dentro de si por tanto tempo.
      — O Thor continuou mandando essa boa quantia de dinheiro, que pertencia aos antigos reis, para a Divisão todo mês, além de, é claro, seguirem rigorosamente todas as leis do governo. Éramos o país que mais mandava pessoas com habilidades especiais para eles.
       — Não entendo porque a Divisão captura pessoas como nós sendo que há gente assim lá dentro! Isso é tão confuso...
      Thomas concordou com a cabeça.
      — Também não entendo essa segregação toda — admitiu. — Bom, no fim, após os meus pais fazerem isso, a Divisão acabou se aliando a eles. Depois disso, começou o “projeto perfeição’’.
      O ódio que se instaurou na voz de Thomas assim que ele proferiu aquilo fez a Daphne franzir o cenho.
      — Que projeto é esse?
      — Meu pai queria ter o filho perfeito, ou seja, alguém com os poderes dele e da minha mãe... Todos os meus irmãos mais velhos acabaram tendo uma parte do poder dele ou do poder da minha mãe, mas não atingiram a meta.
      Daphne engoliu em seco antes de trazer a mão de seu companheiro para perto e, então, encara-lo com clemência.
      — Você é o...
      Ele assentiu com a cabeça; uma grande tristeza transparecia pelo seu olhar que logo deu lugar a lágrimas discretas.
      — Ele obrigou a minha mãe a engravidar cinco vezes até que eu, a merda do projeto perfeição, nascesse! — proferiu, fervilhando em fúria, mas, mesmo com essa sensação lhe queimando a alma, o rapaz se controlou para não falar alto e chamar a atenção dos guardas. — Eles se amavam, Daph... Como alguém que ama uma pessoa a força a fazer isso?! O poder e o dinheiro destroem as pessoas, destroem relacionamentos, destroem tudo! — ele respirou fundo, controlando as lágrimas para que elas não descessem. — A minha mãe não merecia alguém como ele... Como ela consegue amar alguém assim?! E pensar que eu poderia ser como ele me dá vontade de me rasgar por dentro! Se ela não convencesse o Thor de que eu e o Thiago também tínhamos que ficar com ela, pois possuíamos o seu poder e precisávamos de seus conselhos, eu não seria a pessoa que sou hoje... Eu poderia ter sido como o meu pai... Como meus irmãos... — ao dizer isso, o garoto soltou a mão de Daphne e apertou os punhos com força na intenção de se auto ferir.
      A sua raiva precisava ser extravasada de alguma forma.
      — Como os outros não tinham o poder da sua esposa, o Thor não deixou que eles ficassem tanto tempo com ela... Apenas o Thiago e eu nos salvamos dessa linhagem podre! — exclamou. — Se não fosse pela minha mãe, eu e o Thiago não teríamos conseguido fugir até a K2. Ela arquitetou um plano para que saíssemos do castelo e nos deixou numa vila... na vila dos guerreiros que passamos antes de chegar aqui. Na época, ela era bem movimentada e um dos homens de lá iria nos levar de barco até o reino Hope clandestinamente, mas, poucas semanas depois que fomos deixados ali, houve um boato entre os aldeões de que a minha mãe estava morta... Disseram que o meu pai a havia batido até que perdesse a consciência quando descobriu que ela não impediu a nossa fuga... Um soldado provavelmente deve ter contado ao Thor que ela não fez nada, porém isso não importa! Ele a bateu, Daph... — o menino rosnou; o ódio lhe conferia uma aparência assombrosa. — E é por isso que eu juro pela minha vida que quando reencontra-lo vou mat...
      Imediatamente, a garota segurou a mão do companheiro, tirando o foco dele de sua raiva. A aura esverdeada da mesma brilhou, curando as pequenas feridas que a unha do mesmo havia feito nas suas palmas e, ao sentir o poder curativo de sua amiga agir em seu corpo, Thomas respirou profunda e calmamente.
      — Eu te apoiarei no que for preciso — exprimiu Daphne, que agora finalmente compreendia o por que de seu amigo querer exterminar a sua família. Quando o conhecera, ela o havia julgado por isso, contudo, naquele instante, a menina não conseguia se imaginar tomando uma atitude diferente da dele.
      Thomas soltou um suspiro antes de olhar para a sua companheira com uma certa tristeza.
      — Os Bry são apenas a “família real’’, os Brytleofber são assassinos. Todos que sabem o real significado do nosso sobrenome morrem, porque foi com esse nome que os meus pais ganharam a fama deles — explicou, um tanto hesitante em prosseguir. — E eu também me incluo nisso porque... porque... — ele engoliu em seco. — ... porque eu também já matei muita gente.
      Daphne arregalou os olhos. Era assustador pensar que o seu parceiro já fizera isso, todavia, depois de tudo o que ele já lhe contara, a mesma deveria ter constatado que algo assim ocorrera – mas, mesmo assim, isso a chocou. Para não demonstrar tanto o seu espanto, ela desviou o seu olhar; como o ambiente estava escuro, não dava para ver muito bem as suas feições.
      — Então... — proferiu, fingindo não notar o assombro de sua colega. — ... em relação a vila dos guerreiros, eu e o Thiago ficamos por lá durante um ano. Quando chegamos à K2, eu tinha cinco anos e o meu irmão, nove — instantaneamente, a garota voltou a encara-lo. Se ele havia chegado com cinco anos na academia, então, pela lógica, o menino já tinha matado várias pessoas quando tinha menos de quatro anos. Ela cobriu a boca com as mãos, em choque. — No início, eu e o Thiago ficamos no mesmo quarto porque ninguém queria ficar comigo, afinal, depois de tudo o que passei, eu havia virado uma criança intimidadora na visão dos outros. Eles não sabiam do meu passado, mas, até sem querer, eu acabava afugentando eles com um olhar duro, uma palavra bruta ou uma atitude grosseira. Eu não era acostumado a tentar ou a ter... amigos — confessou; Daphne o olhou com brandura, demonstrando que o entendia. — O Thiago ficou no mesmo quarto que eu por três anos, porém, aos doze, ele já havia virado grau bronze e, por isso, precisou se mudar para ficar com outros do mesmo nível; o Tony, no caso. A partir daí eu fiquei sozinho até o dia em que o Nicholas ingressou à K2.
      Um sorriso se formou nos lábios do rapaz.
      — Ele foi a primeira pessoa, além do meu irmão, a aceitar dividir quarto comigo; isso porque, depois tanto tempo tentando fazer amizade e não conseguindo, eu meio que comecei a fazer o contrário. Afastar propositalmente as pessoas para evitar que elas mesmas me afastassem era menos dolorido.
      Daphne assentiu. Era inédito ver que o Thomas de hoje em dia, que protegia os seus companheiros e agia com calma e seriedade, era tão destoante do Thomas antigo, que fazia praticamente o contrário disso.
      — O Nicholas insistiu tanto em ser meu amigo que chegava a ser irritante... Mesmo que eu o xingasse, menosprezasse, empurrasse, batesse ou usasse os meus poderes para afastá-lo, ele sempre voltava como se nada tivesse acontecido. Sempre.
      Ouvir isso fez a Daphne sorrir; pelo visto, desde aquela época, o Nicholas era o garoto que ela conhecia hoje. De certa forma, isso a deixou confortável.
      — Eu nunca quis me aproximar dele pois o achava irritante, idiota, lerdo, burro e, bem, você o conhece, não é? — a garota riu. — No entanto, ele não desistia e estava sempre ao meu lado mesmo em meio a toda essa maneira rude na qual eu o tratava, porém, um dia, eu passei dos limites... — expôs, suspirando. — Estávamos comendo e, como todo mundo já sabe, ele tem um grande apetite... Naquele dia ele já tinha insistido muito para que assaltássemos a geladeira durante a noite e aquilo havia me deixado bastante estressado, porque ele só iria se eu fosse, então, como eu neguei, ele veio tentar roubar o sanduíche que eu tinha guardado do lanche da tarde. Acho que foi o estresse, a insistência, a aproximação do mesmo ou, quem sabe, o medo dele também se afastar de mim como os outros, então, sem nem pensar, acabei usando a gravidade para empurra-lo para longe, contudo, eu acabei usando força demais e, quando ele bateu contra a parede, o ombro dele deslocou. Foi a primeira vez que o vi chorar... — ele parou de falar por um instante, como se estivesse relembrando a cena. — No fim, Kaleb o levou a enfermaria e me levou à sua sala para conversarmos; nesse dia, eu soube do passado do Nicholas...
      Sem perceber, Daphne acabou se aproximando mais do Thomas, curiosa para saber mais sobre o Idicholas, todavia, quando ela notou essa sua ação, a mesma rapidamente balançou a cabeça de um lado para o outro e ajeitou a postura. Mesmo que estivesse ansiosa para saber o que havia acontecido com o garoto, ela, de certa forma, preferia que ele a contasse, não o Thomas.
       — Quando eu soube de uma parte das coisas que ele havia passado, um sentimento de culpa me tomou. Assim como eu, o Nicholas também havia sofrido e passado por situações difíceis, então, arrependido, eu peguei o mesmo sanduíche que ele estava tentando roubar e segui em direção a enfermaria com a intenção de me desculpar... Eu nunca tinha feito isso antes e, sinceramente, nem sabia como o fazer. Ainda lembro que, durante o caminho, cheguei a pensar em desistir várias vezes pois, na minha cabeça, o Nicholas não iria mais querer saber da minha existência. Pensar que eu poderia perder a única pessoa que se esforçou para ficar comigo me deixou em pânico, afinal, se até ele desistisse de mim, qualquer outro também desistiria por muito menos.
      Relembrar esse acontecimento fez os olhos do garoto ficarem marejados, todavia, graças a falta de luz daquele ambiente, a sua companheira não notou seu estado.
      — Porém, quando eu cheguei na enfermaria, ele sorriu ao me ver, pegou o lanche, e disse: “obrigado, amigo’’.
      Thomas sorriu e, imediatamente, balançou a cabeça de um lado para o outro como se ainda não pudesse acreditar que aquilo havia ocorrido.
      — O Nicholas me salvou; tenho certeza de que a minha mãe adoraria conhecê-lo, principalmente agora que eu sei que ela está... — um sorriso largo tomou conta de seus lábios, afastando a sensação amargurada que o rapaz possuía antes. — ... viva! Daph, se ele tivesse desistido de mim, talvez eu estivesse alheio aos outros até hoje... Seria, querendo ou não, parecido com a pessoa que mais odeio — declarou, contudo, o menino logo soltou um forte suspiro e balançou a cabeça de modo negativo, como se estivesse afastando aquele assunto. — Bem, depois de tudo isso, eu e o Nicholas conversamos abertamente sobre os nossos passados e nos aproximamos muito. Ele me ensinou, ao seu modo, muitas coisas e, querendo ou não, me ajudou a ser quem eu sou hoje... — admitiu, fazendo com que a Daphne sorrisse; orgulhosa. — ... ou seja, se eu tomar alguma atitude ruim, pode colocar uma parte da culpa nele!
      A moça não conseguiu conter uma risada – na qual precisou lutar para que não fosse alta o bastante, afinal de contas, ela e o Thomas ainda estavam escondidos dos soldados.
      Para a garota, havia sido fantástico saber como a amizade do Thomas e do Nicholas se formou. Antes, eles só faltavam se matar, mas, agora, um não desgrudava do outro; pareciam até irmãos! Então essa era a real definição de uma amizade verdadeira e transformadora – para ambos os lados.
      Ela sorriu, orgulhosa deles.
      — Que bom que você é o você de hoje.
       Aquela frase fez o Thomas sorrir; Daphne retribuiu o gesto para, em seguida, respirar fundo e encara-lo com firmeza.
      — Eu deixei a minha mãe para trás para que ela lutasse com a Divisão,  ouvi os gritos do meu irmão quando o meu pai morreu, vivi nas ruas por um tempo e fui caçada até dentro de um orfanato, mas... — ela exprimiu um sorriso fino. — ... valeu a pena. Eu... eu estou feliz porque as coisas foram assim. Claro que a perda dos meus pais e o fato de ser caçada dia e noite me criou um trauma no qual ainda tenho pesadelos até hoje, porém, sou grata por isso ter me trazido à K2, a vocês. Eu os amo como se fossem da minha família e sei bem que cada um teve a sua própria dificuldade e trauma para enfrentar, então, obrigada por não ter desistido.
      O impacto que atingiu o interior de Thomas ao ouvir as palavras de sua amiga fizeram com que o garoto tremesse, surpreso. Sem pensar muito, o rapaz a puxou para perto, com o intuito de abraça-la fortemente; algumas lágrimas discretas escorriam pelo rosto de ambos.
      — Eu que agradeço.
      O silêncio que se instalou ali foi forte, mas acolhedor. O carinho que a equipe X tinha entre si havia aumentado muito com o passar do tempo, tornando-os tão próximos quanto uma família – ou até mais. E esse sentimento só se estendia a medida em que novos integrantes chegavam, como era o caso do Diego, Ryan, Eduardo e dos outros que se acercavam.
      — Acho que os guardas já foram — sussurrou ela, quebrando o clima emotivo.
      Ainda tinham um objetivo para cumprir: o resgate de Flora.
      Thomas se afastou da amiga para encostar o ouvido na porta, com o intuito de ter certeza de que a barra estava limpa.
      — Tudo ok! — afirmou, ao mesmo tempo em que abria a porta vagarosamente; o corredor estava vazio. — O quarto dele é esse! — disse, apontando para a porta em frente a sua; Daphne assentiu.
      Os dois só tiveram tempo de saírem daquele cômodo quando, repentinamente, foram puxados para dentro do quarto que ficava ao lado do de Thomas; o ataque havia sido tão repentino que eles não tiveram tempo para reagir.

      — Já estamos chegando? — questionou Alephe, cansado de engatinhar por aqueles dutos de ar. — Por favor, não me diga que pegamos o caminho errado de novo!
      — C-Claro que não... — exclamou Camille, tocando duas vezes no pequeno hexágono, que Tony lhe dera, para ver o mapa do castelo outra vez. — ... eu acho — sussurrou, num tom praticamente inaudível. — Ah, pessoal, vocês viram que eu falei com a Cássia não tem nem cinco minutos e ela me disse que estava no andar de cima da prisão, porém, de acordo com esse negócio, a parede que o time dela usou para chegar naquele local fica bem longe do andar superior da prisão... Das duas uma, ou ela não sabe que as prisões desse castelo são enormes e contém quatro andares ou eu que sou terrível em ler mapas!
      Ryan, que estava logo atrás da garota – já que os dutos eram estreitos demais para que ficassem um ao lado do outro – soltou um suspiro cansado; Alephe, que estava logo atrás do garoto de cabelos brancos e na frente do Nicholas, resmungou alguma coisa sobre não aguentar mais ficar engatinhando por aquele espaço apertado e escuro.
      — Você tem certeza de que não quer que eu dê uma olhada nisso?
      — Tenho! — respondeu Camille. — Você ainda está abalado pelo que houve com o Diego, então não quero que tenha outra preocupação na cabeça. Além do mais, eu não estou dando ouvidos à Cássia mais, e sim a lógica. Eu sei que a passagem que o time dela usou está por aqui... — alegou, mostrando alguns dutos próximos a eles. — ... sendo assim, a mesma deve estar nos dutos acima disso, afinal, como ela disse que subiu, provavelmente está num desses aq...
      — Ai, cansei! — exprimiu Nicholas, e, antes que os seus amigos pudessem olhar para ele com uma certa confusão, visando entender o motivo dele ter dito aquilo, o rapaz gritou; — Ô CÁSSIAAA!
      Como o som era ampliado naqueles dutos, todos foram obrigados a taparem os ouvidos perante aquele berro inesperado.
      — Eu vou te matar! — vociferou Ryan, assim que o menino se calou, todavia, quando tentou ir para cima do Nicholas, Alephe abriu os braços para impedir que o mesmo conseguisse. — Eu não acredito que você fez isso!
      — Tu deixa de descontrole, homem! — exclamou o mais novo, ainda impedindo a passagem de Ryan; Nicholas não pode conter o riso.
      — Qual o problema, hein?
      — Você ainda pergunta?! — mencionou Ryan, espantado com a ingenuidade do rapaz. — Estamos aqui para não sermos vistos e, do nada, você simplesmente grita! Fala sério, quer acabar com o plano todo?!
      — Relaxa, isso não vai acontecer.
      — E como você sabe, Niquinho?
      — Ah, as meias de Alephe dão sorte... — respondeu, fazendo com que o pequeno forçasse um sorriso como se demonstrasse que não tinha tanta confiança assim nas suas meias quanto o Idicholas; Ryan e Camille, por outro lado, ergueram as sobrancelhas, chocados com a ingenuidade do rapaz. — ... além do mais, eu n...
      — Chega! — pediu o menino de cabelos platinados, agitado. — Eu não sei o que é pior, você tentando se explicar ou ficando calado! Será que não está vendo a gravidade da s...
      — Oh, Cássia! — proferiu Camille, ao mesmo tempo em que levava a mão até o comunicador; os garotos imediatamente se calaram. — O quê?! — indagou, e, como os meninos não conseguiam ouvir nada, apenas a encaram com as faces repletas de curiosidade e, no caso do Ryan, apreensão também. Provavelmente ele já estava pensando no pior. — Ah, sim, sim, foi o Nicholas — alegou, soltando um riso sem graça.  — Ei! Olha lá como você fala, ouviu?! — repreendeu-a. Essa parte o Nicholas não pareceu tão ansioso assim para ouvir, enquanto o Ryan assentia com a cabeça como se concordasse com cada palavra, mesmo que não soubesse quais eram elas. — Ok, então. Fique aí que já estamos chegando, adeus!
      Ao desligar, a moça soltou um longo suspiro antes de encarar os companheiros.
      — E...? — questionou Ryan, gesticulando com as mãos para que ela falasse logo.
      — A Cássia ouviu o grito do Nicholas, então quer dizer que estamos no caminho certo. Se ela escutou, quer dizer que... — prosseguiu, clicando no pequeno objeto hexagonal que carregava consigo. — ... ela deve estar por aqui. Pela raiva da Cássia, ela com certeza deve ter ouvido muito bem o berro, o que nos mostra que ela não está tão longe.
      O Nicholas deu uma risadinha.
      — Viram?
      — É melhor você continuar calado! — exclamou Ryan, num tom de ameaça. — Pelo Ômega, com você por perto nós podemos esperar qualquer coisa! — murmurou, fazendo com que o rapaz sorrisse, sentindo-se honrado com aquela fala. — Não foi um elogio.
      Mesmo após esse pronunciamento, o sorrisinho do menino não sumiu, e isso fez o Ryan estreitar os olhos, irritado. Cansada daquilo, Camille rolou os olhos e voltou a engatinhar pelo lugar, obrigando os garotos a se ignorarem para segui-la.
      Enquanto se deslocava, Camille logo constatou que o Nicholas havia tentado irritar a todos com aquele grito de forma proposital. Ao observar as coisas bem, até que aquilo não havia sido tão ruim quanto ela pensava... Minutos atrás, o Ryan ainda estava cabisbaixo e emanava apreensão e preocupação por conta do que havia descoberto sobre o Diego, todavia, após o Nicholas fazer o que fez, o rapaz de cabelos esbranquiçados agora mantinha a sua atenção no menino, coisa que, sem que o mesmo percebesse, mudava o seu foco. Parecia que as sensações intensas e ruins que ele sentia anteriormente haviam sido retiradas de si.
      A garota sorriu, grata por ter ficado na mesma equipe do Idicholas, porque, caso ele não tivesse feito aquilo, provavelmente toda a tensão de Ryan, hora ou outra, iria se instalar nos demais.

*

      Cássia os encarava com uma grande cólera quando eles chegaram ao local em que a mesma estava; a luz da passagem que ela havia usado para entrar no duto batia em sua face, iluminando-a de uma forma assombrosa – quase como se a moça tivesse saído de um filme de terror.
      — Ai, tem uma carinha de psicopata, hein... — murmurou Nicholas, que ergueu as mãos em sinal de rendição quando o Ryan o encarou duramente como forma de advertência.
      — Grite mais alto, idiota, acho que eles ainda não sabem com exatidão onde nós estamos! — resmungou, assim que a proximidade entre eles diminuiu.
      — Ei, sua bocó! — exclamou Alephe para a Cássia, que ergueu as sobrancelhas perante o xingamento que a criança direcionou para si. — Tá vendo como não é legal ser chamada assim? Então não faça isso com ele! — mandou, porém, quando a moça estreitou os olhos de maneira mortal, Alephe se encolheu e se segurou no Nicholas, que sorriu.
      — Está tudo bem, eu já estou acostumado com esses “elogios’’ — proferiu para o mais novo, que encheu as bochechas de ar, revelando que não estava de acordo com aquilo. — Pelo menos o meu grito nos ajudou a te achar mais rápido... — falou, erguendo a cabeça para encarar os demais. — ... se quiserem posso fazer de novo, talvez o Ed consiga ouvir já q...
      — Não! — Ryan se apressou em dizer. — Pelo Ômega, cadê o Thomas para controlar esse menino?!
      Camille riu.
      — Não se preocupem mais com isso, pessoal — declarou ela, ainda com um sorriso. — Se tivessem ouvido o berro do Niquinho, os guardas já estariam por aqui.
      Cássia rolou os olhos diante da fala da menina.
      — Pode até ser, mas... — os olhos negros da mesma seguiram em direção aos de Nicholas, que a encarou de volta. — ... se você ousar fazer isso outra vez, eu darei um jeito de calar a sua boca pra sempre — ameaçou, e o rapaz apenas deu de ombros; Alephe, por outro lado, não levou aquele comentário numa boa.
      — Tenta.
      A garota desviou os olhos do Nicholas para levar até o mais novo.
      — Como é?
      — Tenta — repetiu, com mais firmeza.
      A Cássia estreitou sua visão e inclinou a cabeça um pouco para o lado, e a expressão amedrontadora que surgiu no rosto da garota fez o mais novo engolir em seco e se segurar no Nicholas, mas não antes de mostrar a língua para a capitã da equipe I.
      Um sorrisinho se formou rapidamente no canto dos lábios da moça por conta da atitude do pequeno.
      — Até que eu fui com a sua cara, pirralho — murmurou, fazendo com que o menino balançasse os ombros, mostrando que não ligava para a aprovação dela; a mesma sorriu disfarçadamente outra vez. — Bom, o que nós devemos fazer agora?
      — O Tony garantiu que iria resolver o lance das prisões e pediu para que esperássemos aqui até segunda ordem — respondeu Camille, ao mesmo tempo em que abria o mapa que se mantinha dentro do pequeno objeto hexagonal que o homem lhe havia dado. — Acho que podemos dar uma olhada nisso por enquanto, aí saberemos melhor os locais desse castelo e as possíveis saídas.
      As sobrancelhas de Cássia se ergueram perante o holograma bastante detalhado que surgiu no ar.
      — Que ótima ideia! — afirmou, analisando o gráfico com atenção juntamente à Camille e ao Ryan.
      — Você não vai ver também? — sussurrou Alephe para o Nicholas, que estava mais interessado em brincar com a aura azulada que perpassava por sua mão.
      — Não, porque eu sei que vou esquecer de tudo rapidinho — admitiu, e o mais novo sorriu em concordância. — Ficar parado aqui é muito chato... Não sei se vou aguentar não.
      — Eu estou tranquilo, afinal de contas, aqui é o lugar mais seguro.
      Esse comentário fez o Nicholas rir pelo nariz.
      — Você está com medo, não está?
      — Claro! — respondeu, sem nem pensar duas vezes. — É a minha primeira experiência de quase morte, eu estou nervoso!
      O rapaz gargalhou perante a justificativa do menor, que cruzou os braços e encheu as bochechas de ar; amuado por ter sido o motivo do riso.
      — Não se preocupe, irmão — proferiu, bagunçando o cabelo de Alephe, que ergueu um pouco as sobrancelhas graças a forma na qual o Nicholas o chamou; seus olhos brilharam um pouco. — Eu estou aqui e não vou deixar que você e nem ninguém morra. Confie em mim.
      O mais novo sorriu.
      — Obrigado, irmão — agradeceu, pondo ênfase na palavra final; ação essa que fez o Nicholas abrir um sorriso carinhoso.

      Não só a prisão, mas o castelo do reino Bry como um todo era gigante. O grupo de Cássia teve sorte de ter conseguido encontrar a cela de seus amigos, pois, além dos dois andares no qual ela e o seu time andaram, haviam mais dois. Ao todo existiam quatro áreas repletas de celas para prenderem os infratores; isso sem falar nos cárceres especiais – como o que a Flora adentrou para ter a sua mente atribulada.
      A equipe de Cássia havia entrado no último andar da prisão e, quando subiram as escadas, encontraram a cela de Ed e dos demais, porque, normalmente, a maioria dos prisioneiros recém chegados eram postos ali. Resumindo, no quarto e último andar da prisão, Kral e Ária se encontravam presos em um depósito, logo acima deles havia a cela de Eduardo e dos outros, mais acima havia outro andar cheio de compartimentos prisionais e, ainda mais em cima – no primeiro andar das prisões – haviam dois prisioneiros novos em uma das enxovias.
      Esses homens estavam sozinhos dividindo a mesma cela quando uma mulher de longos cabelos castanhos se aproximou do vidro deles, fazendo com que ambos se levantassem num pulo para observa-la melhor.
      Sara.
      — Michael... — proferiu ela,  com grande delicadeza, para o sujeito que a encarava em choque; Luís, que estava ao lado do parceiro, cruzou os braços e estreitou os olhos diante da fala da mulher. — ... eu preciso conversar com você.
      — Hipnose — proclamou ele, fazendo-a se calar. — Você me hipnotizou para que eu gostasse de você, não foi?
      Diante daquela indagação, a mulher precisou encara-lo por um longo período até, enfim, tomar coragem para assentir com a cabeça.
      Michael riu pelo nariz, desacreditado.
      — É por isso que eu fiquei tão encantado com você... Eu nem te conhecia direito e já fui logo te chamando para um encontro e... Pelo Ômega, como fui idiota! — reconheceu, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça de um lado para o outro; irritado com si próprio. — Diga-me, o seu nome é Sara mesmo ou isso é só mais uma enganação?!
      A mulher levou a mão ao vidro, incomodada com a pergunta dele.
      — Sim, eu sou a Sara! — confessou, porém, quando o homem a olhou com incredulidade, o olhar da mesma se entristeceu e uma parte de sua firmeza se esvaiu. — Também sou conhecida como espiã KS02.
      — E o que isso significa? — questionou Luís, sem muita paciência.
      — K de Karosa, que é o meu setor na Divisão, S de Sara e 02 é o número da academia que entrei — explicou-se, mas sem desviar os olhos de Michael, que a observava de forma cética.
      — Quem mais você hipnotizou? Tenho certeza de que não fui o único.
      Ela engoliu em seco.
      — O Coby — os olhos de Luís e de Michael arregalaram ao mesmo tempo diante da descoberta. — Eu fiz isso para que as atenções não viessem até mim, porque o Simmon estava duvidando muito... Eu controlei o Coby para que ele capturasse o Simmon e, como a Flora entrou no caminho, precisei leva-la também p...
      — O quê?! — Michael levantou a voz ao ouvir o nome de sua aluna. — O que você fez c...
      — Eu não a machuquei! — exclamou, omitindo a parte de que havia feito o Coby atirar nela. — Eu os tranquei num esconderijo e os hipnotizei; em resumo, apaguei uma parte das memórias deles. Eu precisava de um pouco mais de tempo!
      Após ouvir aquilo, o Michael a encarou vagarosamente de cima a baixo, como se estivesse tentando entender como havia sentido tanto apreço por aquela mulher que, agora, só lhe causava asco.
      — Eu te hipnotizei para ter alguém do meu lado caso acontecesse algum imprevisto... — continuou a se justificar; — ... mas, com o tempo, eu fui vendo o quão incrível você é, Michael. Eu sei que pra você foi apenas hipnose, porém, para mim, foi real. Eu realmente me apaixonei pela pessoa que você é, então, por favor, lembre-se do que passamos juntos e...
      — Puff — exprimiu Luís, ao tentar segurar o riso. — É cada uma, viu... Você hipnotiza o cara e ainda quer que ele confie em você? Acorda, minha filha, tá pensando que ele é idiota, é? Pelo Ômega, por que você não v...
      — Luís! — exclamou Michael, de forma rude; tal ato acabou fazendo com que o homem ao seu lado franzisse o cenho, confuso, e se calasse. Em seguida, o PF voltou a encarar a Sara com um semblante cabisbaixo, mas, ao mesmo tempo, carregado de emoções. — Eu... ainda estou em transe?
      A mulher negou.
      — A partir do momento em que você entrou aqui, eu te libertei — confessou. — Mas, pelo visto, você não tirou a sua hipnose de mim, pois ainda continuo me sentindo atraída por ti.
      — Pis aindi continui mi sintindi atraidi pir ti — ironizou Luís, imitando a mulher de uma maneira apalermada; mas foi ignorado.
      — Por que você fez isso, Sara? — indagou, ansioso para receber uma resposta razoável. — A Divisão mata, escraviza e oprime a todos desde que foi fundada. Eu não entendo como v...
      — Há um motivo grande e compreensível por trás disso! — afirmou. — Tenho certeza de que você vai começar a vê-los como heróis quando souber, então... — ela parou por um momento para tomar ar antes de questionar; — Michael, você quer ficar comigo? Poderemos ficar juntos, aí você vai ver que a Divisão está fazendo a coisa certa... por favor.
      Um silêncio tenso se instalou após a pergunta; ambos se encaravam intensamente e, percebendo aquele clima, o Luís não conseguiu mais se segurar.
      — EI, MALDITO MICHAEL! — gritou, contudo, mesmo assim, o seu companheiro não tirou os olhos da mulher. — VOLTE A SI, CARA! NÃO TOME DECISÕES COM A CABEÇA DE BAIXO!
      — CALE-SE! — bradou, virando-se para o amigo com uma certa raiva devido a fala dele; Luís ergueu as sobrancelhas, espantado com o furor que emanava da voz do parceiro. — Se fosse a Kelly, o que você faria?
      A princípio, o professor da equipe III engoliu em seco, chocado com a pergunta, todavia, não demorou para ele se recompor e erguer a postura com grande firmeza e determinação.
      — A Kelly nunca ficaria do lado de pessoas que escravizam, matam, perseguem e...
      — ... e se existir uma explicação plausível para tudo isso? — completou, fazendo com que o Luís negasse veementemente com a cabeça, como se não acreditasse que aquilo estivesse realmente acontecendo.
      Uma raiva se aflorou no interior do homem.
      — Que tipo de explicação?! — vociferou, ação essa que fez o Michael erguer rapidamente as sobrancelhas, surpreso com a rigidez do seu amigo. — “Ah, nós só fizemos essa merda toda porque amamos todos vocês, viu? Amar é deixar partir’’. PELO AMOR DO ÔMEGA, MALDITO MICHAEL, ABRA A PORCARIA DOS SEUS OLHOS E...
      — Há uma explicação convincente para isso! — retrucou Sara, interrompendo o Luís, que estreitou os olhos perante a fala dela. — Nós estamos salvando o mundo!
      Uma risada sarcástica emanou da garganta do homem.
      — Ok, mulher maravilha — ironizou, ao mesmo tempo em que voltava a encarar o Michael. — Você não vai acreditar nisso, não é? Ela só pode estar te hipnotizando pra que você se torne tão ingênuo assim!
      A declaração de Luís colocou um semblante pensativo no rosto do Michael, que alternou o olhar entre ele e Sara por longos minutos, até, enfim, tomar um posicionamento definitivo.
      — Desculpe, amigo.
      Os olhos de Luís arregalaram. Aquilo não podia estar ocorrendo – ele não podia permitir que as coisas acabassem assim.
      — NÃO DESCULPO NÃO! — gritou, puxando o companheiro para perto de si num ato de desespero. — É por culpa da Divisão que há toda essa segregação, Michael. Nada que eles digam pode reverter toda dor e sofrimento que já causaram a milhões de famílias e, caso não esteja lembrado, você e eu estamos incluídos nisso! — alegou, num ímpeto angustiador de tentar reverter a decisão do homem. — Esse não é o Michael que eu conheço, definitivamente não é e posso dizer isso com toda a certeza do mundo porque... — ele se interrompeu, espantado com o que ia dizer. — ... porque eu te... — o mesmo apertou a gola do uniforme do homem com mais força, aflito. — ... admiro — completou, ainda que com uma certa dificuldade. Parecia que, a princípio, o Luís planejava falar outra coisa, porém essa  última palavra fora a única que havia conseguido sair de sua boca.
      O Michael arregalou os olhos perante a declaração de seu amigo, todavia, um vislumbre de tristeza rapidamente tomou conta de sua face; sem pensar muito, o mesmo puxou o parceiro para um abraço, fazendo com que o Luís fechasse os olhos e segurasse o homem fortemente como se, assim, pudesse impedi-lo de sair dali.
      — Se eu me juntar a eles, posso conseguir fazer com que você e uma parte das crianças capturadas fujam em segurança — sussurrou. — As academias foram atacadas e estão enfraquecidas, umas até foram destruídas por completo... Ninguém vai vir nos salvar e, se ficarmos de braços cruzados, muitas crianças serão levadas.
      Ao ouvir isso, os olhos de Luís se arregalaram, no entanto, o homem foi rápido em controlar a sua expressão facial para que a Sara não notasse isso. O som não era muito claro graças ao vidro, então, se falassem baixo, a mulher não conseguiria ouvir o que estavam falando.
      — Mas a que custo? — questionou, temeroso. — Não quero que você se arrisque para isso, vamos arranjar um jeito melhor d...
      — Você acha que a minha vida vale mais que a de várias crianças? — Luís se calou; seu coração batia rapidamente dentro do peito. — Eu preciso tentar!
      — Mas e se você for hipnotizado de novo? — retrucou, com os olhos já marejados. — E se a Sara te fizer esquecer de nós? E se você concordar com a Divisão? E se...
      — Então você me deterá! — declarou, afastando-se um pouco do amigo para encara-lo nos olhos; Michael se angustiou com o olhar receoso de seu companheiro, mas continuou firme em sua decisão. — Eu sei que você sabe como fazer isso. Confio em você.
      O professor da equipe III não teve mais palavras para convencer o parceiro, e, aproveitando-se disso, o Michael rapidamente se virou em direção à Sara.
      — Eu vou com você...
      A mulher sorriu largamente.
      — Que bom! — comemorou, e seu sorriso se ampliou ainda mais quando observou o do homem. — Agora eu...
      — ... mas com uma condição — prosseguiu, fazendo-a se calar para ouvi-lo. — Eu quero que você solte ele e algumas outras pessoas, caso contrário eu ficarei.
      Era errado, mas, mesmo assim, o Luís desejou dentro de si que a Sara negasse a proposta do Michael.
      — Combinado! — confirmou; o professor de Ed cobriu o rosto com as mãos, angustiado. — Porém só poderei fazer isso mais tarde, agora poderão ver.
      Michael assentiu e, enquanto o via sair, Luís apertou os punhos com força, frustrado. Assim que seu parceiro se distanciou, o homem se encostou na parede da prisão e foi caindo aos poucos até, enfim, sentar-se no chão.
      — Droga, maldito Michael, eu não quero que você... — ele se interrompeu, rangendo os dentes. A sensação de impotência que emanava dentro de si o corroía. — Seu maldito, eu... — tentou falar de novo, mas, como não conseguiu, uma raiva tomou conta de si e ele socou a parede com muita força, chegando até a gemer levemente devido a dor que lhe atingiu. — De que adiantou fingir gostar da Kelly todos esses anos? De que adiantou suprimir tudo o que eu sentia?! — perguntou, em voz baixa, para si mesmo. — ADIANTOU DE QUÊ?! — gritou, virando-se bruscamente para a parede na qual começou a socar repetidas vezes.
      Naquela altura, o homem não sabia ao certo se estava irritado com si próprio por suprimir os seus sentimentos ou se o problema era a Sara, que havia conseguido levar o Michael para longe mesmo depois de tudo o que fizera.
      Confuso, solitário e frustrado, o Luís continuou batendo seu punho contra a parede até a sua mão sangrar.

E aí gente, tudo bem?
Estou passando no final do capítulo pra lembrar vocês de deixarem uma estrela ☆ e um comentário dizendo o que vocês acharam ♡
Digam aí, vocês acham que o Michael vai ser hipnotizado pela Sara de novo? Será que ele se aliará ao governo? Vcs acham que a explicação para o governo fazer o que faz será convincente? E a Daphne e o Thomas? Será que estão bem? Falem das suas teorias aqui pra mimmm! 💞
Por hoje é isso, galera, um abraço e até breve!

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