XII| Kral, a besta
Cássia e Ária retornaram com pontualidade ao lugar onde deveriam se reencontrar com os garotos, contudo, para a inquietude delas, os mesmos ainda não haviam chegado.
Todo o grupo havia combinado que, após trinta minutos, iriam voltar para aquela área, entretanto, apenas as meninas estavam ali.
De início, a Cássia até conseguiu tranquilizar a Ária, dizendo que eles deveriam estar chegando e que dez minutinhos de atraso não fariam diferença, porém, a ansiedade foi tomando conta de ambas quando esses dez minutos se transformaram em quinze.
Vinte.
Vinte e cinco.
Trinta.
— Meia hora de atraso! — destacou Ária, enquanto batia os pés no chão, agoniada com o fato de estar ali parada. — Será que agora nós podemos ir atrás deles ou...
— Ok! — proclamou Cássia, impaciente não só com a situação, mas com a aura apavorada que emanava de Ária.
Aquilo a deixava apreensiva, e ela não gostava nem um pouco de se sentir assim.
Cássia respirou fundo, em busca de manter uma postura calma, e, enquanto equilibrava sua respiração, a mesma levou seus dedos as têmporas da testa, com a intenção de aliviar ainda mais o estresse.
Outro problema.
Já não bastava terem de procurar a cela dos demais, agora, ainda tinham que se preocupar com o desaparecimento de mais dois dos seus!
Ela abriu os olhos devagar, como se tivesse conseguido digerir a situação em que se encontrava, e, assim que levou a sua vista até a Ária, a mesma logo notou as lágrimas que estavam se acumulando nos olhos da garota.
Cássia revirou os seus.
— Vamos logo, não quero ter que lidar c...
— MENINAS!
Ambas viraram rapidamente na direção em que a voz familiar gritou. O berro as havia assustado, mas, ao mesmo tempo, as tinha aliviado também.
Os nervos delas estavam a flor da pele.
— Arthur! — proclamou Ária, com um sorriso, porém, como a mesma percebeu que o Kal não estava ao lado do rapaz, seu sorriso rapidamente sumiu. — O-O que aconteceu?
Ela parecia temer ouvir a resposta, fazendo com que o desespero de antes voltasse a consumi-la em dobro.
— Ele...
O garoto parou por um instante, e um silêncio perturbador se instalou.
— Ora, pelo amor do Ômega, desembuche! — ordenou Cássia, irritada com a falta de informação.
Arthur engoliu em seco.
— ... sumiu. Ele sumiu!
Ao ouvirem aquilo, as moças arregalaram os olhos num misto de confusão e surpresa, afinal, como o rapaz poderia ter simplesmente sumido?! Não fazia o menor sentido!
— Como assim? — questionou Ária, que franziu o cenho quando o garoto apenas balançou os ombros, afirmando que também não sabia o que havia ocorrido.
— Isso não é do feitio dele! — afirmou Cássia, estreitando os olhos enquanto encarava o semblante assustado e, ao mesmo tempo, confuso que Arthur carregava. — Conte essa história direito!
O menino levou as mãos até a cabeça, nervoso.
— E-Eu não sei! — praticamente gritou; estava visivelmente atormentado. — Eu estava andando na frente e ele estava me seguindo o tempo todo, mas teve uma hora que eu fui para perto de uma cela pra ver se o Eduardo e os outros estavam lá e, quando olhei para trás, o Kal tinha sumido! Depois disso eu comecei a procurar por ele pelos lugares que tínhamos passado e até tentei perguntar para os presos se tinham visto algo, porém ninguém me falou nada! — explicou-se, quase que em prantos. — Eu não sei se pegaram ele ou se ele se perdeu ou... Ah, não sei, caramba! — exclamou. — O que faremos?
Ária se apressou em se aproximar do garoto, com o intuito de acalma-lo. Sem pensar duas vezes, o menino a abraçou, trêmulo.
— O que faremos? — voltou a indagar.
— Vamos continuar o que estávamos fazendo — declarou Cássia, friamente, fazendo com que os outros dois a encarassem com um certo espanto. — Claro que iremos procurar o Kal também... — apressou-se em dizer. — ..., mas não podemos nos esquecer dos nossos companheiros que estão nessas celas! — lembrou-os. — Nossa prioridade é acharmos os que estão presos, enquanto fazemos isso, vamos ficar em alerta para ver se achamos o Kal andando por aí!
Ária e Arthur se entreolharam, como se não estivessem inteiramente satisfeitos com a ideia, todavia, não tinham uma sugestão melhor para impor.
— Se algo sério tivesse acontecido, provavelmente já saberíamos! — afirmou, engolindo em seco.
Era mentira.
Claramente ela só estava falando aquilo para tranquilizar os dois colegas inquietos que tinha, e, com tamanha ansiedade percorrendo na veia deles, ambos nem cogitaram que aquilo poderia ser uma mentira, afinal de contas, a Cássia fez questão de se manter o mais resiliente possível tanto em sua postura corporal quando nas palavras.
Desesperar-se só iria atrapalhar as coisas, por isso a mesma nem se importou muito com o fato de ter ocultado a verdade.
— Vou avisar aos outros o que está acontecendo — revelou, ao mesmo tempo em que fazia um gesto com a cabeça para que os dois a seguissem.
Assim, os três começaram a caminhar lado a lado pela prisão e subiram as escadas que os levaram para o andar de cima daquele espaço, pois, pelo que viram, o Eduardo, o Diego e os demais não estavam ali.
Enquanto andavam, o olhar de Ária passeava rapidamente de um lado para o outro, em busca de Kal e dos seus amigos presos — seus olhos pareciam agitadas bolinhas de bilhar se movendo de um lado para o outro; Arthur estava olhando o ambiente à sua volta sem tanta atenção, como se ainda não tivesse digerido o sumiço do seu colega; Cássia se mantinha mais concentrada nas celas e no pequeno comunicador acoplado em sua orelha.
Encontrar o Kal não seria tão fácil assim, e o sumiço dele ainda iria gerar um grande problema para todo o grupo – e a capitã da equipe I sabia muito bem disso.
MOMENTOS ATRÁS – quando o grupo de Cássia se separou em duplas.
Sem comentarem mais nada, ambos os garotos continuaram caminhando pela prisão – sempre em alerta para que não esbarrassem num guarda sem querer – até acharem uma porta que ficava ao lado de um lance de escadas parecido com o que o grupo de Nicholas havia usado para ir a sala de controle. Curioso, o Arthur foi até a porta e a abriu sem nem sequer questionar ao Kal antes, todavia, como nada de ruim ocorreu com a abertura da mesma, ambos os rapazes se aproximaram dela para verem o que havia do outro lado.
Era uma sala de tamanho médio que estava com algumas espadas, armaduras e outros tipos de materiais que os seguranças daquele setor poderiam utilizar. Além disso, havia também uma porta do outro lado daquele espaço que, provavelmente, levaria a um banheiro, refeitório ou, quem sabe, a mais celas.
Aquele castelo velho era cheio de surpresas.
— É só um depósit... AH! — exclamou Kal, ao ser empurrado para dentro daquele recinto por Arthur, que também entrou e logo fechou a porta atrás de si. — Qual é o seu problema?! — indagou, num misto de sobressalto e irritação. — Voc...
O barulho de alguns passos ecoando por trás de si fez com que o Kal se calasse e arregalasse os olhos ao perceber o que estava acontecendo ali. Os seus olhos negros se fixaram no rosto de Arthur, que estava extremamente sério, como se ele não estivesse surpreso com o fato de que eles não estavam sozinhos naquele espaço.
— Menos um — proferiu uma voz masculina.
Ao ouvir isso, Kal se virou vagarosamente para encarar o dono daquele timbre, e, ao se deparar com um homem alto acompanhado de dois jovens, o mesmo ergueu as sobrancelhas, em choque.
— Não acredito... — sussurrou, voltando a olhar para o seu companheiro, que desviou o olhar.
— Bom trabalho, Arthur — alegou Rey, e os dois rapazes que estavam ao lado do homem – James e Yuri – sorriram. — Vamos pega-los um por um.
— Bom trabalho — murmurou Kal, fazendo com que o seu colega levantasse a cabeça para encara-lo. — Eu não esperava isso de você, mas, se pensarmos bem, você sempre reclamou do sistema da Hope, não? — ele riu, de maneira irônica. — Você acha que o da Divisão é melhor?
— Sim — afirmou, confiantemente. — Você não entende o que há por trás de tudo. Nós não capturamos pessoas com poderes à toa. Estamos salvando o mundo.
Kal riu. Uma risada cheia de sarcasmo.
— Você está ajudando a salvar o mundo matando ou escravizando as pessoas?! Isso n...
— Kral — proclamou Rey, com a voz alta e clara o bastante para fazer o menino engolir em seco. — Vocês, das academias, matam uns aos outros com o propósito de subirem de grau, então não queria vir com um discurso ético para cima de mim, você não tem moral para isso. Sendo assim, cale-se.
O jovem fechou o punho com força, todavia, obedeceu à ordem do mais velho e, com a intenção de se acalmar, o mesmo fechou os olhos e começou a tentar controlar a sua respiração ao máximo.
Ele não podia se descontrolar. Não podia.
O Rey sorriu ao ver o autodomínio do garoto, e, em seguida, voltou a encarar o Arthur, que permanecia com uma aparência séria.
— Traga-me os outros, e, se você avistar o Nicholas White, diga a ele que eu, Rey, estou ansioso para revê-lo.
MOMENTO ATUAL – no depósito.
Logo após o Arthur sair daquele espaço, já que precisava concluir a sua missão de enganar cada membro daquela aliança e atrai-los para uma armadilha, o Kral foi deixado sozinho com o Rey, o James e o Yuri onde, a todo momento, permaneceu imóvel e com um semblante neutro.
Ele não podia deixar que o seu medo transparecesse – nem a sua raiva, que, naquela hora, parecia engolir todo o temor que ele sentia.
— Kral, Kral, Kral... — proferiu Rey, enquanto caminhava vagarosamente ao redor do menino. — Que idiota! — afirmou, ao mesmo tempo em que ria de forma desdenhosa. — Achou mesmo que não iríamos adivinhar o enigma?
O garoto não o respondeu. Na verdade, ele nem sequer se mexeu.
A única parte do corpo de Kal que se movia eram os seus olhos, que encaravam a porta na qual o Arthur havia saído. Ela estava trancada, porém, algo no olhar do menino sugeria que ele ainda tinha uma certa esperança de que seu companheiro poderia voltar e tentar se redimir por ter feito aquilo.
O Rey notou o interesse do garoto na porta, então, prontamente, parou em frente ao local que o menino observava; obstruindo sua visão e obrigando o mesmo a encara-lo.
Kral não conseguia conter a fúria que transparecia em seus olhos negros como a noite.
Rey sorriu ironicamente perante aquilo.
— Há quinze anos, o herdeiro do reino Lovtsi nasceu... — iniciou a história, fazendo com que Kal estreite levemente os olhos. O rapaz parecia querer saber aonde o Rey queria chegar com aquilo. — ... a sua pele, cabelo e olhos tinham uma cor que alguns comparavam ao ônix e outros ao cobre. Uma belíssima mistura de ambas que deixavam todos admirados. A esse gracioso bebê deram o nome de rei, pois, um dia, seria o herdeiro daquele país — continuou, e, enquanto a narrativa era contada, a expressão de Kal permaneceu neutra, entretanto, o menino já não conseguia controlar os pés, que batiam contra o chão de uma maneira um pouco agitada. Aquilo o estava deixando desconfortável. — Tudo parecia estar indo bem, contudo, a Divisão descobriu que os reis desse reino haviam ajudado alguns integrantes do exército rebelde e...
— Eles não sabiam que eram rebeldes! — declarou Kal, firmemente. O menino não conseguia mais se manter neutro, e a raiva que antes transparecia apenas em seus olhos agora estampava em sua face também. — Foi o que eu ouvi dizer...
Rey sorriu de forma sarcástica.
— A Divisão não podia ficar em silêncio com essa descoberta, então, invadiram o reino para terem uma “conversinha" com as majestades. Como os representantes de Lovtsi não eram idiotas, eles mandaram que alguns homens de confiança levassem o seu único filho para longe dali, assim, ele ficaria a salvo — uma risada áspera ecoou rudemente da garganta do homem. — O que eles não esperavam era que a criança de dez anos fosse conseguir despistar os soldados para voltar ao local onde os responsáveis estavam. Quando esse menino entrou no castelo, acabou se deparando com os pais machucados, afinal, eles deveriam aprender a lição por terem traído o governo, mas...
O homem fez uma pausa.
Kal apertou os punhos com força e rangeu os dentes ao escutar outra risada que, desta vez, não foi ecoada apenas pelo Rey, mas por James e Yuri também.
— A criança ficou paralisada ao ver os pais machucados, e, com o trauma daquela cena, o temível poder oculto dos cidadãos de Lovtsi se despertou no pequeno. Esse poder não é despertado em todos os residentes desse reino, pois é preciso uma “estimulação” muito forte para que ele desperte... Bom, para uma criança de dez anos, as feridas expostas dos pais após uma longa tortura foi um ótimo incentivo — comentou. — Ao adquirir os poderes, ele se descontrolou e matou todos os soldados da Divisão, contudo, se tivesse parado por aí, as coisas ainda estariam “boas", mas... — ele riu. Kral engoliu em seco; os olhos já marejados. — ... mas ele não parou, e, graças a isso, acabou matando alguns soldados do próprio reino e os seus pais também!
Assim que essa parte foi proferida, os olhos negros de Kral ficaram incontrolavelmente mais densos, e a sua esclera começou a ter alguns pontos vermelhos respingando na cor branca.
Algo definitivamente estava acontecendo com o rapaz.
— Depois disso, ouvi dizer que esse garoto viveu sozinho no deserto de Lovtsi por dois anos, sendo atormentado todas as noites com pesadelos da morte de seus pais e dos soldados de seu próprio reino. Ao ativar os poderes, a criança perdia o controle de seu corpo e mente, por isso que, a noite, seu subconsciente o revelava tudo o que havia ocorrido. Tudo. Com detalhes.
O Rey observou o garoto por um tempo, analisando os pontos vermelhos que começavam a pintar a parte branca de seus olhos. Disfarçadamente, o mais velho levou a mão a um bolso de sua calça e agarrou algo.
Provavelmente estava pegando uma arma para se proteger caso o mais novo se descontrolasse de repente.
— Quando a Divisão soube o que aconteceu, eles nomearam o pequeno reizinho com um carinhoso apelido: a besta — riu. — Todavia, acho que eles colocaram atenção demais nisso. Um descontrolado não deveria causar tanta comoção assim.
Um silêncio tomou conta.
Com o fim da história, o Rey não tirou sua atenção de Kral que, em certo momento, até chegou a ajeitar a postura – como se fosse ataca-lo – mas, de uma hora para a outra, ele fechou os olhos, respirou fundo e, quando tornou a abri-los, a parte branca de seu olho já não tinha mais pingos vermelhos.
— Você é um ótimo contador de histórias — proclamou, debochadamente.
— Fico feliz que o protagonista dela pense assim.
Kral sorriu de forma irônica.
— Não sei se notou, mas meu nome não é “Rei". Aliás, o seu é, não?
O homem abriu um sorriso obscuro; seus olhos ficaram mais temíveis diante da mudança de expressão.
— Exatamente. Como me chamo assim, já pesquisei algumas variações do meu nome e, ocasionalmente, descobri que o nome Kral, na verdade, significa rei.
O garoto não pôde deixar de arregalar os olhos.
— Kral, a besta. Até que combina, não? — zombou, enquanto parecia satisfeito com o recente medo que havia se instalado nos olhos do mais novo. — Eu conheço as suas habilidades, e irei fazer com que você as use para matar os próprios companheiros.
Kral engoliu em seco, ao mesmo tempo em que dava alguns passos para trás.
Mais do que nunca, ele precisava ficar calmo. Se suas emoções tomassem conta de si, o Rey iria ganhar; e ele não podia permitir que isso acontecesse.
— Não seria a primeira vez que ele ia fazer isso! — zombou Yuri, levando a sua mão até a nuca de Kal, onde rapidamente encaixou um pequeno quadrado de metal que fez o garoto gemer de dor ao sentir o objeto perfurar a sua pele. — Sinceramente, como você não se matou após tudo isso? Por acaso tem esperanças de salvar o seu reino ou algo assim? — riu. — Eu poderia acabar com você facilmente agora.
Perante aquele comentário caçoador, os olhos negros de Kal, de repente, pareceram se fundir a um tom vermelho, e, quando ele os levou até o Yuri, o garoto deu um passo para trás; surpreso com a mudança perceptível no olhar do menino, que rapidamente manteve uma postura firme imprescindível.
— Ah, é? Então ande logo com isso, bastardo, eu poderia ter matado mais de vinte homens enquanto você brinca com as palavras — bradou, fazendo com que o Yuri arregalasse os olhos e entrasse em posição de combate.
De imediato, Rey deu um passo a frente.
— Não tenha medo, ele é inofensivo! — revelou, observando o Kral de cima a baixo com um olhar sério, contudo, quando a sua vista parou numa parte do cinto do menino, um sorriso escarnecedor surgiu em seus lábios. — O bastão.
Instintivamente, Kal levou sua mão até o objeto que estava acoplado a sua cintura. Aquele utensílio não era maior que vinte centímetros, e possuía uma tonalidade preta e uma pequena coroa vermelha grifada no meio dele.
— Essa arma pode estender de tamanho, ser partida em duas e as suas pontas, além de poderem ficar mortalmente afiadas, também podem dar uma descarga elétrica na vítima — comentou. — É uma arma que não só os soldados, mas todos os cidadãos do reino Lovtsi costumam usar — ele riu outra vez, enquanto balançava a cabeça de maneira negativa. — Você realmente não se preocupou em esconder a sua identidade.
Kral apertou o bastão com força. Aquela era a única lembrança que lhe restara de seu lar.
— Enfim... — finalizou Rey, notando que já passara tempo demais ali. — ... tenho coisas mais importantes para fazer, mas não se preocupe, assim que outro amigo seu for capturado, pode ter certeza de que traremos ele para cá, afinal... — a voz dele se tornou mais sombria. — ... queremos que você acabe com eles, certo?
Kal engoliu em seco, e, sem pensar, levou a mão até a sua nuca – onde o Yuri havia encostado há pouco – mas, assim que colocou o dedo no dispositivo metálico que havia sido posto ali, uma onde de choque foi descarregada em seu corpo a partir daquele ponto, fazendo-o urrar e cair de joelhos sobre o chão; trêmulo e um pouco desnorteado.
— Vamos garantir que as duas portas se tornem impossíveis de serem abertas por dentro — cantarolou Rey, ignorando o olhar espantando de rapaz devido ao choque recém tomado. — Adeus, Kral, a besta.
Aquele apelido ficou passando pela mente do garoto mesmo depois do Rey e dos outros jovens terem se retirado daquela área. E isso fez com que o rapaz precisasse usar todo o seu auto controle para não se desesperar, pois, caso as suas emoções tomassem conta, tudo estaria perdido.
Um frio desagradável percorreu pela sua espinha.
O grupo de Cássia ainda perambulava pela enorme prisão daquele castelo enquanto a mesma ligava para o Nicholas com a intenção de relatar o recente sumiço de Kal, porém, assim que o companheiro da garota atendeu, ele prontamente a avisou sobre vários soldados que o Thomas havia visto e pediu para que ela e os demais tomassem muito cuidado.
Assim que essa informação foi passada para a integrante da A1, ela afirmou que ficaria ainda mais alerta e, quando tentou iniciar o assunto de Kral, uma voz mais firme e grossa que a de Nicholas tomou o comunicador, fazendo com que a moça franzisse o cenho; confusa perante o timbre desconhecido.
— Escute bem o que vou dizer — proferiu Tony, todavia, como a menina não o conhecia, sua expressão permaneceu duvidosa. — Já sabemos que há um traidor entre esse grupo, então faça com que ele, ou ela, saiba que logo mais irei descobrir a sua identidade e, quando isso acontecer, eu garanto que as coisas não ficarão nem um pouco agradáveis para ele. Fui claro?
Ela franziu ainda mais o cenho, entretanto, um certo receio percorreu suas veias quando o Arthur e a Ária pararam para observa-la.
Naquele instante, ela pareceu aliviada com o fato de eles não conseguirem ouvir nada. Não seria um assunto fácil de lidar.
— Quem é? — questionou, firmemente.
O homem do outro lado da linha deu uma risada baixa.
— Você não precisa saber dessa informação.
Em seguida, o comunicador foi desligado; e um longo silêncio se instalou entre Cássia, Ária e Arthur, tornando a atmosfera daquele ambiente um pouco pesada.
— Por que você não avisou sobre o sumiço do Kal?
Ária foi a primeira a quebrar o gelo.
— Não tive chance... — justificou-se, ao mesmo tempo em que levava os seus olhos até o rapaz que estava com elas.
Era impossível esconder a suspeita e descrença presente no rosto da mesma.
— Você... — Ária parou por um momento, estranhando o modo como a parceira olhava para o Arthur. — ... vai ligar de novo?
Cássia concordou levemente com a cabeça, mas os seus olhos permaneceram fixos no menino à todo o tempo, chegando a fazer com que ele engolisse em seco e desviasse o olhar do dela; quebrando o contato visual.
— Apenas parei para pensar que esse sumiço do Kal foi algo muito... vago — comentou.
De imediato, o semblante de Arthur decaiu, e o menino cobriu o rosto com as mãos, desolado. O tronco dele começou a subir e descer, indicando a aceleração de sua respiração.
— Desculpe! — implorou; a voz embargada. — Eu não pensei que... Droga! Deveria ter prestado mais atenção, desculpe!
— Não se culpe! — exclamou Ária, colocando a mão no ombro dele para demonstrar apoio, ao mesmo tempo em que encarava a Cássia com um olhar repreensor.
A integrante da A1 baixou a cabeça; envergonhada.
O Arthur estava no topo da sua lista de suspeitos devido ao sumiço do Kral, mas... E se o Kal fosse o traidor?
Esse seria um motivo para ele ter desaparecido.
— Foi mal aí — sussurrou ela, olhando para o Arthur, que já estava um pouco mais calmo graças a ajuda da moça da K2. — Enfim, o Thomas pediu para tomarmos cuidado porque ouviu passos de inúmeros guardas — alertou-os, enquanto fingia interesse nas prisões ao seu redor para que, assim, não deixasse nítido para os companheiros que havia um grande dilema martelando a sua mente.
— Então não temos tempo a perder! — afirmou Ária. — Vamos achar os outros logo para sairmos daqui!
Os outros concordaram com as palavras dela e, então, rapidamente voltaram a andar por ali, porém, dessa vez, a Cássia ficou um pouco mais distante dos dois enquanto encarava as costas de Arthur.
Seria ele o traidor ou seria o Kal?
Enquanto pensava, a moça fechou o punho e a aura arroxeada de seu campo de força surgiu ao redor de sua mão por rápidos segundos. Aquilo era um sinal de que a mesma estava preparada para acabar com o traidor sem dó.
Ou melhor, era o que ela desejava fazer, mas o leve abatimento que havia surgido em sua face dizia o contrário.
Ela não queria ter que fazer isso. Não mais.
— Justo quando eu estava começando a ir com a cara de vocês...
Thadeu foi o último a adentrar na sala do trono.
Dessa vez, além do trono dos governantes, haviam mais três em frente aos assentos dos reis; um para cada Brytleofber.
Se toda a família estivesse reunida, ali haveriam sete tronos, porém, sem a presença do Thomas e do Thiago, cinco imponentes cadeiras reais eram mais que o suficiente.
Thadeu foi sem muita pressa em direção ao local reservado para si ao lado dos irmãos que, surpreendentemente, também tinham olhos violetas bastante marcantes, cabelos pretos e uma pele bronzeada chamativa e brilhante.
Que genética poderosa. Aquilo deveria ser considerado um super poder.
Uma das diferenças mais impactantes entre eles era a altura. O mais velho, que estava sentado próximo ao rei, era o mais alto, mas os traços de seu rosto eram mais delicados e arredondados como o da mãe. O do meio era poucos centímetros mais baixo que o mais velho, tinha o cabelo preso a um coque no alto da cabeça e os traços mesclados de sua mãe e seu pai conferiam a ele um rosto mais uniforme. Thadeu, por sua vez, era drasticamente mais baixo que os outros dois – tanto que até o Thomas conseguia ultrapassa-lo nesse quesito – e o seu rosto, assim como o do mais velho, era mais puxado para a feição arredondada de sua mãe. Se o Thomas e o Thiago estivessem ali, ambos se destacariam em feições faciais, tento um rosto marcado igual ao do pai, porém, o Thiago ainda tinha os olhos mais gentis como os da mãe, tendo como mudança apenas a coloração dele; enquanto o Thomas possuía praticamente a mesma cara do pai.
Por mais que todos tivessem o mesmo tom de pele, cabelo e olhos, as feições os diferenciavam e, se tivessem que decidir qual era mais formoso, o Thomas, que havia puxado ao seu pai mais que qualquer outro, se destacaria.
— Pensei que você iria chegar na hora, pra variar... — proclamou o rei, encarando Thadeu com seu olhar resoluto e profundo. — Mandamos chamar você dez minutos antes para ver se você chegaria na hora, mas, pelo visto, teremos que tentar com vinte minutos de antecedência da próxima vez.
O rapaz deu de ombros.
— Eu estava fazendo coisas importantes.
O Brytleofber do meio se virou para o mais novo com um sorrisinho.
— Achou um novo brinquedinho, não foi?
Thadeu confirmou com a cabeça, e um sorriso sinistro se instalou no canto de seus lábios grossos.
— Tente fazer com que ele dure mais que três dias — comentou o mais velho. — Devemos saber o limite do inimigo e apenas chegar até ele, isso é, se quisermos que o indivíduo sofra por mais tempo, claro.
— Esse é diferente, eu planejo fazer outras coisas.
O mais velho ergueu uma sobrancelha, mas pareceu compreender.
— Faça bom proveito — declarou. — Bem, em relação ao que eu estava dizendo, o máximo de tempo que eu já fiquei perturbando alguém foram seis meses.
— Seis?! — questionou o do meio, surpreso. — Quanta paciência... O meu recorde foi quatro meses e doze dias.
— Os meus não passam de duas semanas.
Os dois mais velhos gargalharam.
— Ora, a culpa não é minha se eles não aguentam o...
De repente, a rainha pigarreou. Uma forma sutil de mandar os adoráveis filhos calarem a boca. Eles não demoraram a obedece-la.
— O motivo dessa reunião foi para informa-los de que há intrusos dentro do nosso castelo que vieram com o propósito de salvarem as pessoas que a Divisão trouxe para nós ontem — revelou o rei.
Ao ouvirem aquilo, os três príncipes ficaram em silêncio por alguns segundos até que, de uma hora para a outra, a sala de encheu com o som da gargalhada deles; que logo foi acompanhada pela risada grossa do rei.
A rainha permaneceu séria.
— Não sei como ainda me surpreendo com a burrice do ser humano! — declarou o mais velho, quase sem ar devido ao riso.
— Vieram como ratos atrás do queijo na ratoeira! — brincou o do meio.
— Parece que vou conseguir uma dúzia de souvenirs!
Após a rainha lançar um olhar sério para o marido, o rei cessou a risada e fez um sinal com a mão para que os seus filhos fizessem o mesmo e, assim que todos voltaram a se calar, ele prosseguiu;
— Escutem, ainda tem mais! — declarou. — Vocês lembram que haviam vários idiotas fazendo a última prova do teste de não sei o que no território do nosso reino, não é? — os três confirmaram com a cabeça. — Então, parece que os sobreviventes da batalha tentaram passar para o lado leste do país, rumo a Hope, em barcos de carga, mas não conseguiram se esconder quando passaram pela área da Divisão! — revelou. — Todos foram mortos imediatamente.
O ambiente explodiu em risos outra vez.
— Que bando de imbecis!
— Eles acharam mesmo que conseguiriam fugir tão facilmente após um ataque daqueles? Era óbvio que a atenção havia sido redobrada e... Ah, não acredito! — comentou o mais velho, parando de falar para rir junto aos irmãos.
— O general Rey, líder do setor Karosa da Divisão, que é representado por nosso reino, está aqui! — afirmou a rainha, num tom de voz alto e firme o bastante para colocar aquele lugar em silêncio mais uma vez.
Os setores da Divisão.
Ao todo, existem cinco. O setor Fluorite, que é representado pelo reino Valir; o setor Obsidiana, comandado pelo reino Nullo; o setor Karosa, pelo reino Bry; o setor Ônix, pelo reino Lovtsi; e o setor Celeste, que é o único departamento que não é representado por um reino, e sim, pela própria Divisão. Este último, diferente dos demais, localiza-se na terra celestial, e todas as informações dessa área são sigilosas, tanto é que apenas os quatro generais dos outros setores conhecem uma parte delas.
Os quatro generais.
Eles são as forças do governo que se equiparam a Classe S em nível de poder e periculosidade. Os temíveis líderes de cada setor.
— Eu não confio nem um pouco nele — confessou o rei. — O Rey pode ser considerado um general pela Divisão, mas não estamos de acordo. Theo... — ele apontou para o mais velho. — ... você quem deveria estar nesse posto liderando o setor do nosso reino.
— Há boatos de que ele é o mais fraco entre os quatro generais — respondeu o mais velho, jogando o cabelo para trás.
Ao fazer essa ação, um símbolo levemente espiral, só que com curvas mais delicadas e verticais, apareceu no lado esquerdo de sua testa.
Ele era um espiritual.
De que espírito ele havia conquistado os novos poderes?
— Além disso, ele é o único entre os generais que não possui poderes... — proferiu Thadeu. — Deveríamos mata-lo.
— Teríamos que pensar bem nisso para não ficar muito na cara que fomos nós — alegou o do meio, tirando a franja de seu cabelo, que estava na frente do seu olho esquerdo, para prende-la ao seu coque alto, porém, ao fazer isso, um símbolo em forma de balança ficou visível no canto de sua testa.
Outro espiritual.
Com o passar do tempo, aquela família se mostrava cada vez mais perigosa.
— Poderíamos dar a entender que os jovens que invadiram o nosso castelo o matou! É só darmos uma pequena ajudinha para eles, afinal de contas, não temos interesse nos prisioneiros trazidos para cá e, se pararmos para pensar, seria ainda melhor pra nós se uma parte dos capturados fugissem! — comentou a rainha. — Isso iria comprovar ainda mais para a Divisão que o Rey não é capacitado para o cargo.
O rei sorriu perante a fala da esposa.
— Ótimo! — concordou. — Rapazes, a nossa prioridade será a morte do Rey, esqueçam os intrusos e os prisioneiros. É hora de tirarmos o fracassado do nosso setor para colocarmos o Theo lá, assim, o Karosa se equipará ou até superará os demais departamentos da Divisão e, de quebra, ainda saberemos que tipo de segredos existem no setor celeste!
Os três confirmaram com a cabeça, excitados com a possibilidade.
— Ah, ainda tem mais uma coisa que fiquei sabendo! — prosseguiu o homem, com um sorrisinho maldoso nos lábios. A rainha ergueu uma das sobrancelhas perante aquela fala, já que não sabia ao certo o que o marido iria revelar. — Um dos irmãos de vocês está entre o grupo de invasores.
A mulher, juntamente aos garotos, arregalou os olhos em sinal de surpresa.
— Qual deles?! — questionou Thadeu, ainda em choque.
A rainha logo tratou de deixar o rosto neutro novamente.
— Thomas! — respondeu a majestade.
— Oh, o caçula — comentou o mais velho, rindo.
— O “perfeito" — debochou o do meio. — Uma pena que o Thiago não esteja aqui também, seria extremamente satisfatório eliminar as duas desgraças da família de uma vez só!
Os outros assentiram. Era notório o ódio que os três sentiam pelo Thiago e pelo Thomas, e isso fez o governante sorrir com um certo orgulho, mas, quando ele olhou para a esposa e a viu com um semblante sério, o mesmo estreitou os olhos por um instante.
Ao sentir o olhar do homem sobre si, a rainha fez questão de fechar os olhos e levar a mão a boca, dando a entender que estava tentando segurar a risada.
O rei sorriu ao ver que ela concordava com os demais.
— A reunião terminou — proclamou ela, ao mesmo tempo em que se levantava; um sorrisinho ocupava seus lábios ao proferir isso, fazendo com que os homens daquela sala vissem que a mesma concordava com tudo o que disseram. — Não esqueçam do nosso objetivo principal: o Rey.
Ao alerta-los sobre aquilo, todos confirmaram com a cabeça e, então, ela se retirou da sala vagarosamente enquanto os olhares de todos acompanhavam cada passo seu.
Querendo ou não, o respeito que os filhos sentiam por ela ia muito além do fato dela ser a mãe deles.
A denominação de “melhor estrategista de Envyr" empunhava temor por si só.
— Estão liberados! — alegou o governante de Bry depois que a esposa se retirou, e, rapidamente, os filhos também o fizeram.
Arthur, Cássia e Ária percorreram um longo caminho pela prisão e, a todo o tempo, a capitã da equipe I fez questão de ficar um pouco atrás do menino, que conversava normalmente com a Ária durante o trajeto.
A Cássia estava começando a achar que as suspeitas que havia depositado no rapaz estavam erradas e que o Kal era o verdadeiro culpado de tudo, afinal, o garoto em sua frente não lhe parecia suspeito, contudo, mesmo pensando dessa maneira, ela não queria se precipitar e julgar as coisas erroneamente.
Era melhor esperar mais um pouco.
Pensativa, a garota andava por aquele ambiente com um semblante sério, porém, depois de tanto tempo procurando de cela em cela as faces de seus amigos, tudo já parecia ter se tornado um quadro monótono e repetitivo.
Parecia que estavam andando em círculos.
Toda aquela área parecia igual, e os prisioneiros que usavam a mesma vestimenta completamente preta com alças e calças longas e folgadas acabavam confundindo a mente da menina, dando a entender que ela estava vendo as mesmas pessoas repetitivamente.
Sua cabeça já estava explodindo, então, incomodada com aquilo, a integrante da A1 parou de andar para massagear as suas têmporas em busca de um certo alívio.
— CÁSSIA!
A garota franziu o cenho ao ser chamada, mas assim que levou os olhos para a cela a sua direita e viu um garoto em pé colado ao vidro que o aprisionava, a mesma ergueu as sobrancelhas, surpresa.
— Você!
Ela não parecia lembrar do nome dele.
— Eduardo! — exclamou Ária, correndo para cima do vidro como se pudesse ultrapassa-lo e abraçar o menino que estava do outro lado. — E-Eu nem acredito! — riu. — Está tudo bem com você?
O garoto não estava sozinho na cela. Junto ao Edu, estavam os demais membros da equipe dele, a Morgana, o Saul e o Ivan – do time da Cássia –, e alguns outros jovens que estavam participando do exame de prata.
Entre os adolescentes, também estava o José, que possuía o nariz enfaixado devido ao soco que havia recebido do Nicholas durante a última luta antes das finais do exame.
Os olhos desse menino emanavam um profundo ódio, contudo, ninguém manteve a atenção nele por muito tempo.
— Como vocês chegaram aqui?! — questionou Morgana, espantada. — Aliás, que capas maneiras vocês estão usando e... Por que estão com uma máscara sinistra e legal presa no cinto ao invés de estarem usando no rosto? O objetivo não era o de esconder as suas faces?
Diante da indagação da moça, todos olharam para as suas máscaras. Eles nem lembravam mais delas.
— Cássia, você veio me salvar? — perguntou Ed, com um sorrisinho bobo nos lábios.
A garota o observou e engoliu em seco.
— Salvar é uma palavra muito forte! — disse, cruzando os braços. — Eu vim dar uma mãozinha pra vocês, só isso.
O menino sorriu ainda mais, e ela fechou a cara e desviou o olhar.
— Depois que nos capturaram, os soldados desse reino nos fizeram usar essa roupinha preta sem graça e nos colocaram aqui — revelou Saul, o garoto com a mecha arco-íris que lutou brevemente com o Thomas. — Eles não pareceram dar muita importância para nós. Sinceramente, eu nem sei o que fariam conosco se tivéssemos ficado aqui por mais tempo.
— Que bom que estão todos bem... — comentou Arthur, franzindo o cenho. — E que estranho eles não terem dado tanta importância pra vocês... O comum seria lhe testarem para descobrir os seus poderes, a periculosidade deles e, depois, comunicar isso imediatamente para a Divisão.
— Bem, eles não fizeram nada disso. Acho que nem sabem nossos nomes ainda, quanto mais os nossos poderes — respondeu Saul, dando de ombros.
Cássia observou o Arthur com desconfiança por rápidos segundos. Onde ele aprendera que a Divisão e os reinos deviam fazer aquele tipo de coisa com os prisioneiros recém chegados?
— Vou avisar ao Thomas e ao Nicholas que encontramos vocês — disse a capitã do time I, desviando o seu olhar do Arthur quando ele a olhou. — Estamos precisando passar boas notícias para eles, porque...
— Na verdade, há um problema — alegou Ed; seu sorriso havia sumido.
Ao notar a mudança na expressão do rapaz, Cássia, Ária e Arthur franziram o cenho, ansiosos para saber o que havia de errado ali, todavia, antes que o menino revelasse o problema, a Ária percebeu.
E então, um enorme pavor tomou conta do rosto da menina.
— Thomas? — indagou Daphne, bastante inquieta com o olhar apreensivo e tenso que estava presente no semblante do seu amigo.
O fato de seu companheiro não ter comentado absolutamente nada sobre a sua conversa com a Flora a deixou muito aflita. Ela o conhecia bem, por isso sabia que as coisas não estavam favoráveis.
Ele estava tentando esconder o seu amedrontamento para não preocupa-la.
Daphne fechou os punhos com força ao sentir uma sensação de incapacidade a atingir. A garota ansiava por saber o que se passava com a sua melhor amiga, mas ver o Thomas com aquela expressão perturbada e, ao mesmo tempo, séria – já que o rapaz queria mostrar que não havia nada de mais acontecendo – deixava a Daphne sem reação.
A moça mordeu os lábios, na tentativa de tentar se controlar, e, ao observar o seu colega com atenção, ela logo notou que o mesmo estava bastante concentrado em seus pensamentos. Provavelmente ele só necessitava de um pouco mais de tempo para processar as coisas que havia ouvido. Sendo assim, Daphne fechou os olhos e respirou fundo.
Na cabeça de Thomas, os seus pensamentos rolavam soltos. A conversa com a Flora havia sido muito rasa, e o menino sabia que ela havia passado por algo, afinal, a reação dela ao ouvir a sua voz tinha sido muito estranha. Ele só precisava saber o que havia acontecido para que...
Os seus olhos rapidamente arregalaram.
— Thadeu!
Ao ouvir o murmúrio do amigo, Daphne não demorou a erguer a postura para, em seguida, observa-lo com um olhar interessado, mostrando-se surpresa e um tanto quanto aliviada pela fala do mesmo.
— Sim...? — proferiu, confusa, pois não havia escutado direito o que ele havia dito antes.
— A Flora pediu para não deixa-la sozinha com o Thadeu — declarou ele, levando sua atenção até a Daphne, que ergueu as sobrancelhas ao perceber a raiva e o medo que se misturavam aos olhos violetas de seu colega. — Oh, céus!
A garota engoliu em seco; quase como se estivesse tentando engolir o seu pavor junto a saliva.
— Isso quer dizer que você sabe onde ela está?
Thomas concordou com a cabeça, mas a tensão nos olhos dele fizeram com que a Daphne não se sentisse muito feliz com a descoberta. Algo ruim havia acontecido com a sua amiga.
De imediato, houve um certo aperto em seu coração.
— O Thadeu é meu irmão. Ele é só dois anos mais velho que eu e sempre voltava com um “souvenir" das missões que éramos obrigados a fazer e... — ele parou por um instante para respirar fundo. — Se a Flora estiver com ele, então deve estar na prisão particular de seu quarto. Ele sempre levava as pessoas pra lá para depois... — ele se interrompeu novamente.
Thomas não queria comentar que o seu familiar levava os seus prisioneiros para uma área do castelo que foi criada especialmente para torturas psicológicas. O tipo de tortura que o seu irmão mais gostava de fazer, principalmente com os seus souvenirs que não demonstravam submissão a ele.
Pensar na possibilidade de que o Thadeu havia feito algo parecido com a Flora fez com que o sangue de Thomas imediatamente borbulhasse de ódio.
— Vamos para o quarto dele agora — ordenou, firmemente.
— Quero explicações sobre essa história de souvenir depois! — proclamou Daphne, seriamente, e, assim que ela pôde ver a repulsa que o seu companheiro sentiu ao ouvir esse nome, os olhos verdes da garota brilharam de fúria por alguns segundos. — Dependendo do que seja, irei mata-lo.
O olhar frio de Thomas foi o bastante para revelar a companheira que ele pensava a mesma coisa.
— Vamos! — anunciou, ao mesmo tempo em que colocava a máscara no rosto e cobria os seus cabelos com o capuz do manto preto que vestia; Daphne fez o mesmo. — Não tire a máscara, há várias câmeras por aqui. Esses soldados que vimos devem ter sido acionados por conta das imagens das câmeras. Espero que os outros estejam usando suas máscaras.
Não estavam.
Assim que os dois esconderam suas identidades, o ar daquele local pareceu pesar; provavelmente a gravidade havia sido afetada. A raiva que o Thomas sentia já não conseguia mais ser escondida, então a Daphne prontamente colocou a mão no ombro do garoto, fazendo com que o mesmo desviasse os seus olhos da porta para os levarem até a sua amiga.
— Vamos salva-la. Nós chegamos até aqui com esse propósito e não vamos sair sem cumpri-lo, além disso... — ela segurou a mão do parceiro com força. — ... você não está sozinho. Você não tem que colocar tudo sobre si ou tentar se manter calmo só para que eu não me desespere. Ela está viva, Thomas, e isso já é motivo o suficiente para fazermos o possível e o impossível para resgata-la! — mesmo com o rosto escondido pela máscara, foi possível perceber que Daphne abrira um sorriso confiante antes de prosseguir falando; — Se mexem com um de nós...
Thomas também sorriu por dentro da máscara; os olhos transbordando com uma segurança recém adquirida graças as palavras de Daphne.
— ... mexem com todos nós!
Os olhos de ambos brilhavam de determinação e ousadia.
— Hora de mostrarmos a esse tal de “Thadeu" o que acontece quando mexem com um de nossos companheiros.
— Nicholas falando, câmbio!
O garoto, o Tony e o restante de seu grupo ainda estavam no duto de ar discutindo o que iriam fazer agora que a sala de controle estava repleta de gás, afinal, para libertar os prisioneiros, era necessário que eles mexessem nos computadores que estavam naquele ambiente.
— Aqui é a Cássia. Eu tentei falar com o Thomas mas não estou conseguindo fazer contato com ele, nesse caso, será que você poderia se encarregar de passar essa informação?
— Pode deixar comigo, câmbio!
— Deixar contigo o quê? — questionou Alephe, curioso.
Nicholas deu uma risadinha marota.
— É conversa de soldados, câmbio!
— Oh! — exprimiu Alephe, com os olhos brilhando de admiração. — Que maneiro!
Perante aquela conversa dos rapazes, o Tony revirou os olhos e tirou o comunicador do ouvido de Nicholas que, a princípio, até protestou, porém, isso não foi o bastante para impedir o homem de se apossar do aparelho.
Com o objeto em mãos, o jovem aumentou o seu volume no máximo, fazendo com que todos daquele lugar conseguissem ouvir as palavras que a Cássia proferia.
— O Kal sumiu.
— O quê, câmbio?! — indagou, puxando o comunicador para perto de si. — Como?!
— Não sabemos, o Arthur, que estava com ele, não viu nada...
Tony estreitou os olhos.
— Tem mais uma coisa... Nós acabamos de encontrar a cela em que os nossos companheiros estão! — ao ouvirem aquilo, Camille, Ryan, Alephe e Nicholas sorriram. Tony continuou sério; era como se ele já pressentisse que algo ruim estava por vir após aquela boa notícia. — Mas há um problema...
— Que pr...
— Que problema, câmbio?! — perguntou Nicholas, interrompendo o Tony, que balançou a cabeça de maneira negativa e bateu a mão contra a testa.
— Bem...
A moça ficou em silêncio por alguns segundos – que mais pareceram horas –, revelando para todos a inquietude que a consumia. Um leve desespero tomou conta de todos.
Primeiro, o sumiço do Kral... O que mais havia acontecido para abalar ainda mais o emocional deles?!
— O Diego não está aqui. Disseram que levaram ele para um lugar diferente desde que chegaram ao castelo... — desabafou, aceleradamente. — Ninguém sabe onde ou o quê aconteceu com ele desde então.
Um enorme e sufocante silêncio englobou o grupo de Nicholas, que estavam em choque com a notícia. Kral e Diego, ambos desaparecidos. O que poderia ter acontecido com eles? Ainda estavam vivos?!
Enquanto todos ainda estavam espantados, o susto de Ryan não tardou em se transformar em pura raiva, fazendo com que o seu corpo fosse apressadamente tomado pelo gelo e o seu hálito começasse a soltar uma fumaça branca graças a queda de temperatura que havia ocorrido dentro de si.
Parecia que a memória de tudo o que ele já havia sofrido nas mãos da Divisão retornaram a sua mente, fazendo com que os demais que estavam naquele ambiente chegassem a tremer de frio devido ao descontrole do rapaz; que levou a mão congelada até a cicatriz em seu olho esquerdo.
Pensar que o Diego estava passando por tudo o que ele havia passado lhe acendia uma agressividade que ele nem sabia que existia, então, com uma cólera incontrolável, o rapaz tomou o comunicador da mão de Tony, levou-o até a sua boca e falou, com uma voz rouca e mais fria que o próprio gelo;
— Diga-me agora a aparência da pessoa que o levou! Eu juro pela minha vida que vou atrás desse maldito e, se ele tiver arrancado um único fio de cabelo do Diego, eu irei matá-lo. Lentamente.
E aí gente, tudo bem?
Estou passando no final do capítulo pra lembrar vocês de deixarem uma estrela ☆ e um comentário dizendo o que vocês acharam ♡
Ui, que tenso... O que vocês acham que aconteceu com o Diego? Além disso, o que será que o Kal vai fazer? Será que ele vai machucar os próprios aliados?
Ainda tem o Arthur, que está no meio deles fingindo ajuda-los e... Caramba, haja coração!
Bom, é melhor eu correr e ir escrever o próximo capítulo logo, né? Um grande abraço e até breve! :)
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