IV| A criatura
De uma hora para a outra, toda a aura que rodeava e corria pelas veias de Daphne sumiu completamente. Contudo, esse fato, além de confuso, não foi nem um pouco indolor para a garota. Ela estava dando tudo de si contra a poderosa barreira de Cássia, porém, de repente, a mesma sentiu um formigamento tomar conta do seu corpo, e essa dor foi se intensificando até chegar ao ponto de a menina precisar gritar para aliviar o seu sofrimento. Segundos depois dessa explosão de agonia, não só sua aura, mas a sua força também desapareceu. Sem conseguir utilizar nenhum dos poderes, o campo de força de Cássia conseguiu avançar com tudo contra a Daphne, que foi arrastada pelo mesmo até ser imprensada brutalmente contra a parede.
Quando o corpo da moça bateu no muro, o mesmo rachou um pouco, e isso gerou um leve tremor na arquibancada, afinal, ela estava sendo apoiada por ele. A vibração causou um certo pavor nas pessoas que estavam ali, mas essa sensação de receio não atingiu apenas a plateia, mas a Cássia também. Assim que a garota se deu conta do que havia feito, ela imediatamente desfez a sua barreira; em choque. Ela não imaginava que iria conseguir superar tanto a força de Daphne ao ponto de fazer o que fez... Naquele momento, uma parte dela estava querendo que a sua oponente se reerguesse para provar que estava bem, mas um outro lado seu, escondido bem lá no fundo, desejou que a sua adversária estivesse derrotada; e esse seu pensamento interior obscuro fez com que a Cássia xingasse a si própria mentalmente.
A poeira que havia sido levantada devido a fissura da parede impediu que todos vissem como a Daphne estava. Ansiosos, o Tony, o Michael, a Eva e todos os companheiros da garota se aproximaram mais do parapeito dos locais onde se mantinham, com a intenção de que conseguissem observar qualquer movimento ou, quem sabe, a sombra da Daphne. A plateia estava em silêncio, à espera de que a poeira baixasse ou de que a menina aparecesse, e, perante esse momento tenso, os médicos espalhados por ali ficaram em alerta; preparados para irem ajudar a moça, caso ela não tivesse mais condições de batalhar. A poeira que estava ali, cobrindo o corpo de Daphne, acabou, de uma hora para a outra, sendo consumida por uma forte luz verde esmeralda; que, devido a sua potência, fez com que todos fechassem os olhos. A luminosidade que brilhava ali era gigante, e o fulgor esverdeado subiu ao céu, criando uma espécie de farol que, por alguns rápidos segundos, fez com que todo o lugar fosse ocupado pelo clarão verde; coisa que deixou todos – que se forçavam a abrir os olhos perante aquele resplendor – ficarem boquiabertos.
Teria a menina feito aquilo só para mostrar que estava bem?
Quando a luminescência se extinguiu, a poeira já havia baixado, revelando uma cena diferente da que todos estavam esperando. A Daphne estava caída no chão, sem consciência, enquanto saía sangue pelo nariz e até mesmo pela boca dela; isso sem contar nos arranhões que podiam ser vistos pelo seu corpo e, principalmente, no seu braço direito, que havia tido a manga do seu uniforme – que antes ia até o seu pulso – completamente destruída.
O bracelete que costumava ficar ali não estava mais lá.
— Fim da primeira batalha! — declarou o organizador, ao mesmo tempo em que fazia um sinal positivo para os médicos, indicando que eles poderiam tirar o corpo de Daphne do local. Eles prontamente o fizeram. — A vencedora deste primeiro round foi a Cássia, da academia A1! — prosseguiu, e a plateia começou a aplaudir a vitória da garota, que, diferente de todos, não estava muito contente. Na verdade, a mesma ainda estava em choque com o que havia ocorrido. Ela não sentia que havia vencido aquela luta de uma maneira justa, mesmo que não tenha feito nada de errado... Cássia bufou. Por que estava se sentindo assim? Em busca de apoio, os seus olhos foram automaticamente em direção ao seu pai, que, para a sua surpresa, tinha um sorriso no rosto, enquanto um jovem – Tony – estava fazendo o maior estardalhaço naquela área especial, como se estivesse querendo sair dali.
Um nó se formou na garganta da garota quando ela se forçou a rir de volta para o seu pai, fazendo com que ela não seja capaz de emitir mais do que um fraco sorriso no canto dos lábios. Aquela não era uma vitória que a orgulhava, e ela não sabia ao certo o porquê disso.
Daphne foi levada às pressas para a enfermaria, e, como o Tony era membro dos dez treinadores de elite, o mesmo não podia ir atrás dela, pois tinha que ficar onde estava para analisar as próximas lutas. Obviamente, essa regra não o agradou nem um pouco, e o descontentamento de Tony com aquilo acabou fazendo com que o Thiago e o Kaleb sofressem bastante para conseguirem segura-lo naquele ambiente. A irritação do homem só diminuiu mais quando ele viu que a Eva, sua namorada, estava seguindo até a ala médica para ver o estado da sua irmã. Isso o tranquilizou muito, porque, no seu ponto de vista, era melhor que a Daphne acordasse e visse alguém familiar ao seu lado, ao invés de somente pessoas desconhecidas. Os companheiros da garota também haviam ficado tensos com o estado da amiga, porém, a maioria ficou aliviada quando a Eva avisou que ia vê-la e, assim que possível, relataria a situação em que a menina se encontrava; entretanto, isso não foi capaz de acalmar os nervos de Diego, que estava inquieto e, consequentemente, acabava transpassando isso para os outros ao seu redor. Se os alunos não estivessem proibidos de saírem das arquibancadas onde estavam, não só o ruivo, mas todos os que estavam ali, com certeza, já teriam ido para a enfermaria.
— Vamos ver qual será a próxima dupla que irá lutar? — questionou o organizador, de maneira casual, como se nada de ruim tivesse ocorrido, e, respondendo à animação dele, a plateia começou a bater palmas; revelando que desejavam saber quais seriam os protagonistas do próximo round.
Toda a tensão que os telespectadores haviam sentido durante a luta de Daphne e Cássia pareceu ter sido esquecida. No entanto, esse sentimento apreensivo não havia sido deixado de lado pelos amigos da menina.
— A Eva vai nos dizer como ela está, aguarde! — pediu Michael ao Diego, que estava determinado a ir em direção ao local onde a Daphne estava. — Ela deve estar bem! — prosseguiu, com a intenção de acalmar o garoto, todavia, o semblante preocupado do PF o impedia de colocar uma boa dose de convicção em sua fala.
— Eu quero ir! — declarou. — E vou fazer churrasco daqueles que entrarem na minha frente... Quem está comigo? — perguntou, dando uma olhada para os seus parceiros, e, diante dessa indagação, o Nicholas até ameaçou dar um passo à frente para segui-lo, mas, quando o mesmo olhou para o Michael, logo desistiu. Ele não queria deixar o seu professor mais aflito do que já estava. — Pois bem! — continuou, ao notar que não havia recebido a aprovação de ninguém. — Eu vou sozinho!
— Não! — proclamou Ryan, entrando na frente do seu rival antes mesmo que ele pudesse dar um passo adiante. — Qual parte do "não podemos sair daqui" que você não entendeu?
— A minha dama pode estar precisando do meu apoio agora, então eu não ligo para o que foi ou o que não foi dito! — rebateu, enquanto tentava empurrar o Ryan para fazê-lo sair da sua frente, entretanto, o de cabelos platinados não saiu do lugar. — Se você não sair, eu juro que...
— Chega! — implorou a Ária, angustiada devido aquela situação, e, graças ao semblante apreensivo que ela carregava, o ruivo se calou. Kelly, que estava naquele lugar junto com o Luís, o Michael e a Sara, soltou um suspiro aliviado ao ver que o Diego havia finalmente ficado em silêncio. — A sua presença não é de extrema utilidade lá, então, por favor, não insista em querer ir! A sua atitude impulsiva está deixando todos nós ainda mais ansiosos! — reclamou, fazendo com que o garoto observe as pessoas ao seu redor para, em seguida, baixar um pouco o olhar; encabulado. Na visão do ruivo, a Ária, dentre todos ali, era a que mais tinha experiência em perder amigos; e saber que, no momento, ela estava engolindo a sua dor para tentar controla-lo o deixava um tanto quanto envergonhado consigo mesmo. Constrangido com o drama que havia feito, Diego até tentou abrir a boca para se desculpar, mas a Ária rapidamente se aproximou mais dele e o abraçou; deixando-o levemente surpreso. — Eu sei que você está assim devido à preocupação que tem por ela, mas tente controlar um pouco mais as suas emoções, ok? — aconselhou-o, e o menino rapidamente retribuiu o gesto e assentiu com a cabeça, ao mesmo tempo em que abria um leve sorriso por saber que a moça o compreendia.
Perante aquela cena, o Nicholas abriu um sorriso e levou os seus olhos até o Thomas e a Flora, que estavam conversando entre si – como se tivessem acalmando um ao outro, assim como a Ária havia feito com o Diego. Como as coisas haviam se tranquilizado após o ruivo se calar, o Nicholas respirou fundo e seguiu até o parapeito para observar os organizadores ajeitarem o campo de batalha que havia sido prejudicado na luta passada.
— Ela tem poderes de cura, não tem? — uma voz infantil indagou para o Nicholas, que concordou com a cabeça. — Ah, então ela vai ficar bem! Não precisamos nos preocup...
— Eu sei! — apressou-se em responder. De imediato, o mesmo virou o rosto na direção de Alephe, e, em seguida, sorriu. O pequeno notou que o sorriso que ocupava o rosto do seu companheiro não era o mesmo de sempre. Normalmente, o Nicholas carregava um sorriso animado ou gentil nos lábios, mas, agora, possuía um sorriso sério... Se é que isso fosse possível. Bom, a questão é que os olhos do garoto não sorriam junto aos seus lábios; coisa que normalmente ocorria. — Ela não se entregaria tão fácil assim, a Daphne é a mulher mais forte que eu conheço! Eu tenho certeza de que ela ficará bem — garantiu, porém, mesmo que o Nicholas tivesse dito aquilo, o Alephe ainda conseguiu notar a apreensão que havia nos olhos e no tom de voz de seu parceiro.
— Você... — iniciou o menininho, após observar o rosto do seu companheiro por um tempo. — ... admira mesmo ela, não é? Vocês dois são super mega hiper fortes e... bom, acho que combinam.
Nicholas ergueu as suas sobrancelhas, surpreso com o comentário do garotinho, e, nesse exato momento, os nomes que estavam sendo embaralhados no telão foram escolhidos.
— Nicholas versus Alina! — anunciou o organizador, atraindo a atenção de todos.
Assim que foi chamada, a garota da A1 prontamente se dirigiu até a escada, mas o Nicholas, antes de qualquer outra coisa, ajeitou a sua postura e colocou a mão sobre a cabeça de Alephe.
— Está bem, eu a admiro sim, mas não conte isso pra ela! — pediu, dando uma piscadinha para o seu parceirinho, que sorriu e assentiu com a cabeça. O Nicholas levou seu olhar para os seus outros companheiros, que já estavam indo até ele para desejar boa sorte, todavia, antes que alguém se aproximasse de si, o mesmo rapidamente se virou em direção ao parapeito e se jogou dali. Diante daquela cena, Alephe não conteve um arregalar de olhos e imediatamente ficou na ponta dos pés, para ver se o seu amigo iria cair com tudo no solo. Contudo, não foi isso que aconteceu. Momentos antes de bater contra o chão, o Nicholas usou o seu teleporte para seguir até a metade daquela área, ganhando, devido a esse pequeno show, uma salva de palmas da plateia.
Pelo visto, ele também sabia como cativar o público.
— Foi bom terem chamado ele agora... — proferiu Thomas, ao mesmo tempo em que apoiava os cotovelos no parapeito, ficando ao lado de Alephe, que encarou o mesmo com um semblante curioso; com o intuito de saber o porquê daquele comentário. Notando o interesse nos olhos do pequeno, o Thomas riu. — Bom, é porque agora ele está com as emoções a mil.
Alephe franziu o cenho, ainda sem entender direito o que aquilo significava.
— Em outras palavras... — prosseguiu Flora, aproximando-se dos rapazes. — Todo o nervosismo que ele está sentindo agora vai ser retirado aí. Ele fará uma boa luta — explicou a garota, fazendo com que o Alephe volte a olhar para o local onde o seu amigo estava. Os olhos do garoto estavam centrados, como se o mesmo realmente estivesse preparado para despejar sua preocupação naquela batalha e, assim que o pequeno voltou a olhar para o Thomas e para a Flora, ele logo percebeu que ambos também tinham esse olhar. Os três estavam inquietos com o que havia ocorrido com a Daphne e... Alephe olhou ao seu redor, e ergueu as sobrancelhas ao constatar que os demais também estavam com sede de vitória. Ele sorriu. Os companheiros de Daphne realmente prezavam pela mesma, e Alephe guardou essa cena em sua memória para contar à garota mais tarde e... Bom, falando em contar as coisas...
— Você é o Thomas, certo? — questionou o pequeno ao rapaz, que confirmou com a cabeça. — Que bom! É que eu ouvi uma conversa bem interessante entre o diretor Kaleb e um homem importante que eu não sei quem é... Enfim, parece que estavam querendo te levar para a A1, porque esse cara desconhecido aí tinha uma dívida com uma tal de Dara. Ah, além disso, também falaram que o tio Thiago era um prodígio, e que a sua equipe foi escolhida a dedo pelo substituto do Ômega... Nem o seu professor sabia disso, acredita? — revelou, de uma só vez, fazendo com que o Thomas arregalasse os olhos, devido a surpresa que havia tomado diante de tantas informações.
— Quê?! — indagou, aproximando-se mais do rapazinho. — Explique isso melhor! — pediu, e Alephe não deixou de abrir um sorrisinho antes de pigarrear; para mostrar que estava pronto para começar a fofocar.
Os médicos não tardaram em levar a Daphne para a enfermaria, e, assim que colocaram a garota numa das macas que havia por ali, a Bell rapidamente se aproximou da menina para checar o seu estado. A princípio, a anciã estava preocupada com o quadro da moça, porém, após alguns instantes, a mesma notou que a situação de Daphne não era tão ruim quanto aparentava ser. Perplexa, e, ao mesmo tempo, confusa, a médica levou sua mão até a testa da garota para medir a sua temperatura.
Surpreendentemente normal.
— Como ela está?! — questionou Eva, adentrando no local com uma grande dose de inquietude e preocupação dentro de si; e isso acabou obrigando os médicos a pedirem para que a mesma se acalmasse. A mulher concordou, mas sem dar muita atenção ao sermão de um dos profissionais, e, imediatamente, correu até a cama em que a Daphne estava. Uma vez lá, ela observou a Bell com um semblante cheio de esperança, à espera de que não recebesse uma notícia muito ruim. — Como ela está? — repetiu a pergunta, mesmo que a idosa já tivesse a escutado na primeira vez.
— Bem... — exprimiu, afastando a mão da testa da garota com uma certa confusão, coisa que deixou a Eva com uma aparência aflita.
Como a mais velha não proferiu mais nada, a Eva ficou alternando o seu olhar entre a mesma e a Daphne, esperando que algo acontecesse. Apreensiva devido à demora, a mulher resolveu abrir a boca para falar algo, mas, antes que as palavras pudessem ser proferidas, o corpo de Daphne começou a ser coberto por uma aura verde clara que, aos poucos, curava os pequenos arranhões que ela possuía.
— O-O que está havendo? — indagou Eva, um pouco surpresa com a aparição repentina daquela luminosidade.
— Eu... — iniciou Bell, soltando um longo suspiro. — ... não sei.
Eva piscou algumas vezes, espantada com a resposta da anciã, e, prontamente, resolveu levar os seus olhos para a Daphne outra vez. Os poderes da garota estavam se manifestando inconscientemente, porém, constatou a mulher, parecia que estava tudo indo bem com o corpo da menina, afinal, os machucados dela estavam sendo sarados. Era impressionante saber que a Daphne conseguia usar as suas habilidades tão sabiamente – mesmo nas condições em que estava. Quando a Bell enfim comentou que a garota ficaria bem, a Eva soltou um suspiro aliviado e se sentou numa cadeira próxima à maca da menina para, em seguida, ligar para o Tony e para o Michael, com a intenção de avisar a eles que a situação da moça estava sob controle. Uma vez que desligou o seu comunicador, a mulher ficou observando o corpo de Daphne, admirada com as feridas que iam se curando, entretanto, após um tempo, ela ergueu uma das sobrancelhas, mostrando-se surpresa ao perceber que o bracelete da menina não estava mais preso ao braço direito dela.
Será que isso tinha alguma coisa a ver com essa manifestação incomum dos poderes da garota?
Alephe não demorou para explicar tudo o que sabia para o Thomas, que ficou espantado com a quantidade de informações interessantes que o pequeno possuía, sendo elas: a conversa do diretor sobre leva-lo para a A1; uma dívida e o fato do grupo X ter sido escolhido a dedo. Ter conhecimento sobre essas coisas deixou o Thomas desnorteado, por isso, ele fez questão de prometer a si próprio que iria, primeiramente, perguntar ao substituto do Ômega – vulgo avô do Nicholas – o motivo da equipe X ter sido escolhida dessa forma. As demais coisas o mesmo tentaria descobrir mais tarde.
Assim que a conversa entre os garotos teve fim, ambos levaram as suas atenções para o campo de batalha, onde a luta entre o Nicholas e a Alina já estava prestes a ter início. Na verdade, a briga entre eles ainda não havia ocorrido porque a garota que ia batalhar parecia estar desfilando até a metade do ringue, já que os seus passos eram demasiadamente lentos e formosos; por conta disso, o Nicholas acabou bocejando de tédio, enquanto levava a sua atenção até o público que estava nas arquibancadas.
Que péssima escolha.
De imediato, os olhos do mesmo foram de encontro ao das pessoas pertencentes à A1, que o encaravam com um certo desprezo. Quando um dos rapazes decidiu começar a gesticular ameaças para o Nicholas, o garoto optou por ignorar a presença daquele indivíduo para, então, levar os seus olhos para outro lugar. Dessa vez, a sua visão parou em Kal, que o observava com a costumeira aparência séria, e, por puro instinto, o Nicholas rapidamente abriu um sorrisinho para o jovem, que acenou para ele com a cabeça.
A essa altura, a sua oponente já havia chegado ao local onde deveria estar, e, antes de levar os seus olhos para ela, o Nicholas os guiou até a arquibancada especial, na esperança de que pudesse ver o seu avô, entretanto, ele não estava lá... Descobrir isso fez o mesmo soltar um suspiro triste, antes de guiar os seus olhos de volta para a sua adversária. O Nicholas parecia querer que o seu avô não o assistisse, por isso ele acabou se sentindo um pouco deprimido ao ver que o homem não estava lá; todavia, o menino não teve muito tempo para focar nesse sentimento melancólico, pois a voz alta e firme do organizador logo ecoou por todo o ambiente, obrigando o rapaz a deixar os seus pensamentos de lado para, então, depositar a sua concentração no que estava por vir.
— Comecem!
Em questão de segundos, o Nicholas se teleportou para perto da garota, com a intenção de desferir o primeiro golpe, contudo, assim que o mesmo se preparou para acerta-la, o uniforme da mesma, que cobria todo o corpo dela – exceto o rosto –, gerou, de uma hora para a outra, várias agulhas. Ver todos aqueles finos objetos cortantes amontoados pelo físico da moça fez com que o garoto, imediatamente, interrompesse o seu ataque e se teleportasse para uma distância segura.
— Ora, ficou com medinho? — indagou, sarcasticamente.
— Eu não esperava me encontrar com um porco espinho! — rebateu, ao mesmo tempo em que abria um portal ao seu lado, no qual prontamente enfiou as mãos. Quando o rapaz revelou que havia pego duas adagas de dentro do seu portal, a Alina ergueu uma das sobrancelhas e ficou em posição de combate; preparada para o que quer que o menino estivesse aprontando. Antes de fazer alguma coisa, o Nicholas fixou uma das facas na lateral do seu corpo, e, em seguida, fechou a mão livre, na qual logo ficou coberta de uma aura azul. Com uma adaga na mão esquerda e com uma luz azulada na direita – indicando que ele estava usando a sua invulnerabilidade nela –, o garoto prontamente começou a correr em direção a menina, que, por sua vez, também foi rumo ao mesmo.
Não demorou muito para os dois diminuírem a distância entre si, e, quando estavam próximos o bastante para acertarem um soco um no outro, o Nicholas rapidamente tentou o fazer, porém, para a surpresa dele, a menina permitiu que ele a acertasse. O punho do rapaz se chocou contra o antebraço de Alina, que ela usou como escudo para se proteger, entretanto, ao mesmo tempo em que a garota era acertada por aquele golpe, ela também decidiu revidar. A mesma esticou a sua mão livre na direção do garoto, que ergueu a adaga para intercepta-la, contudo, repentinamente, a mão dela mirou numa das pernas do rapaz, e, devido a esse movimento, as agulhas que estavam fixas nessa parte da roupa dela se soltaram para acertarem a perna esquerda do Nicholas, que não demorou para cair. Alina até pensou em comemorar a queda do rapaz, mas ela também foi ao chão, porque a força que o garoto usou para soca-la foi capaz de não só quebrar as agulhas do braço que ela usou como escudo, mas também lhe causou uma dor gritante.
— Aconselho você a desistir! — proferiu, entredentes. Ela parecia tentar esconder a dor que atingia o seu braço, mas era difícil não notar que a mesma estava sofrendo. — Caso contrário, eu terei de obrigar o organizador a interromper esse exame! — prosseguiu, fazendo com que o Nicholas franza o cenho. No entanto, quando as agulhas que estavam presas à sua perna esquerda começaram a entrar ainda mais na sua pele, o Nicholas entendeu como a menina ia conseguir interromper aquele teste: ela queria incapacita-lo. Sem perder tempo, o Nicholas tentou retirar algumas agulhas do seu corpo, contudo, quando a sua mão encostou naquele objeto, ela ficou imóvel, assim como a sua perna, então ele rapidamente a afastou desse local. Nesse instante, as palavras de Thomas pareceram refrescar a mente do mesmo.
A Alina pode anular os poderes e os movimentos das áreas no qual acerta, sendo assim, tome bastante cuidado com as agulhas dela.
Um "ops" foi tudo o que o Nicholas conseguiu exprimir, antes de virar a sua cabeça para a direção contrária à da arquibancada da K2. Não seria muito agradável ver o semblante do seu companheiro agora.
— Eu te dou cinco segundos para desistir! — anunciou a garota, enquanto se levantava do chão com uma certa dificuldade. — Quatro... — continuou.
Nicholas ergueu o seu olhar para ela, que desferia a ele um sorrisinho vitorioso. Além desse fato, algumas pessoas da A1 riram quando o menino gemeu de dor, devido a perfuração que as agulhas estavam fazendo na sua perna.
— Três... — nesse momento, a plateia começou a murmurar, como se estivessem ansiosos para que a contagem acabasse. — Dois... — ao chegar nesse número, o público se calou, mostrando-se ansiosos para saberem o que aconteceria quando chegasse no zero, e, como o ambiente estava bastante silencioso, os pensamentos do Nicholas começaram a infestar a sua mente.
A sua perna estava imóvel, e os seus poderes não conseguiam ser usados com tanto sucesso da sua cintura para baixo. Caso o rapaz quisesse prosseguir lutando, ele teria que dar um jeito de fazer isso sem andar, além de, claro, ter de tomar cuidado para que aquelas agulhas não o atingissem outra vez.
— Um... — o Nicholas observou a menina, que abriu um largo sorriso, antes de prosseguir; — Zero!
— NICHOLAS! — em meio ao silêncio, uma voz infantil se levantou, e o garoto sabia exatamente quem era o dono dela. Alina chegou a erguer seu olhar, como se quisesse saber quem havia gritado, e, graças a esse rápido momento de distração por parte da garota, o Nicholas rapidamente ergueu uma das mãos em direção a ela. Em questão de segundos, as pernas da menina adentraram em um portal, deixando-a livre apenas do quadril para cima.
— Mas o que...? — proferiu, em choque, entretanto, rapidamente tratou de se recompor e ficar com uma postura mais séria. — Se ainda quiser lutar, por mim tudo bem! — exclamou, num tom ameaçador, mas o Nicholas não a respondeu; ficou apenas a encarando por um pequeno período de tempo.
— Diga ao José... — iniciou, abrindo um sorrisinho. — ... que ele e a equipe dele são bem fraquinhos.
— O que?! — questionou, um tanto quanto surpresa com a provocação do garoto. — Quem você pensa q... Ah! — gritou, assim que o seu corpo adentrou ainda mais no portal que estava abaixo de si.
— Já vou logo avisando que eu não sei como tirar o seu corpo daí, caso ele entre por completo — admitiu, fazendo com que a moça o encare de maneira mortal; como se quisesse causar dano no rapaz através do seu olhar.
— Você está confiante demais para alguém que não mexe uma das pernas! — disse, e as agulhas começaram a perfurar ainda mais a pele do garoto, que bradou de dor, mas não deixou de pôr um sorrisinho nos lábios quando encarou a garota de volta.
— Você também está, para alguém com metade do corpo preso! — rebateu, e ela adentrou mais no portal, ficando presa nele da cintura para baixo.
— As minhas agulhas podem entrar ainda mais no seu corpo e, com isso, atingir áreas bastante importantes para você. Quer ficar sem mexer a perna para sempre? — ameaçou.
Naquela altura, a disputa entre os dois parecia ser somente verbal, e aquele que se assustasse primeiro com as consequências da briga iria perder. Para a plateia, aquela estava sendo uma batalha enfadada, porém, para os participantes, estava longe disso; pois a tensão entre eles era algo que só ia crescendo cada vez mais com o passar do tempo.
— E o meu portal... — falou, com uma certa dificuldade devido a dor. — ... pode te esmagar, caso você continue fazendo essas agulhas entrarem mais no meu corpo! — revelou, e, ao mesmo tempo, a garota arregalou os olhos e abriu a boca; sem ar. O portal do Nicholas havia apertado a cintura dela, com a intenção de se fechar, e, caso o menino colocasse mais força para fechar aquele portal, a Alina poderia ser facilmente esmagada.
Perder o movimento da perna ou perder metade do corpo; Alina riu de maneira nervosa quando essas duas opções surgiram em sua mente.
— Parece que entramos num dilema complicado, não concorda?
Na ala médica, a Eva e a Bell observavam a Daphne com uma certa curiosidade e esperança, pois a aura que cobria o corpo da menina havia sumido por completo. Esse fato fez com que ambas aguardassem ansiosamente algum tipo de reação por parte da garota que, depois de um tempo, felizmente, correspondeu às expectativas das mulheres.
— Daphne! — exclamou Eva, sem conseguir conter um largo sorriso que se abriu em seus lábios graças ao abrir de olhos da moça. Quando acordou, a menina ficou meio perdida e começou a olhar atentamente o ambiente ao seu redor, como se estivesse tentando se localizar; enquanto ela fazia isso, as mais velhas ficaram em silêncio, para que a garota pudesse conseguir se situar com calma. Assim que a Daphne sondou todo o local, a vista dela logo foi rumo às suas mãos, para, em seguida, dirigir-se até o seu braço direito. Quando a garota notou que o seu bracelete não estava lá, os olhos dela chegaram a arregalar um pouco.
— Então não foi um sonho? — perguntou, olhando para as mais velhas, que se entreolharam com semblantes confusos.
— Sonho? — indagou Bell, franzindo o cenho, e a Daphne piscou algumas vezes, mostrando-se estar meio atordoada, antes de concordar com a sua cabeça. — Como assim, pequena?
— Vocês não ouviram a voz? — questionou, e as sobrancelhas da mesma se ergueram, em sinal de surpresa, quando as mulheres fizeram que não com as cabeças. — Quando o meu bracelete explodiu, apareceu uma luz verde bem forte e uma voz!
— Nós vimos a luz... — anunciou Eva, adquirindo uma aparência pensativa, como se estivesse tentando lembrar de alguma voz diferente que tenha ouvido durante a explosão luminosa. — ..., mas não ouvimos nenhuma voz — garantiu, após pensar bem. — O que ela dizia?
— "Espere-me despertar, Daphne Signya" — proferiu, ao mesmo tempo em que sentia um arrepio percorrer pelo seu corpo. — O que isso significa? — questionou para as mais velhas, que se olharam com semblantes ainda mais confusos que antes. — Quem poderia dizer isso? Essa voz não me é familiar nem nada...
— Eu realmente não sei — admitiu Bell, e Eva afirmou com a cabeça, revelando que também não sabia o significado daquilo. — Bom, deixando isso um pouco de lado, diga-me, como está se sentindo?
Daphne olhou para as suas mãos, depois para o seu braço, e, por fim, começou a mexe-los vagarosamente.
— Bem... — respondeu. — Nem parece que eu lutei! Estou me sentindo tão... leve!? — a mesma franziu o cenho, confusa com os seus próprios sentimentos, afinal, o golpe que havia recebido deveria ter feito com que ela ficasse algumas semanas, ou talvez meses, agonizando de dor.
Bell ergueu uma das sobrancelhas perante a resposta da mesma. Ela parecia desconfiada com aquela melhora repentina, e não era para menos, até porque, mesmo possuindo poderes curativos, a Daphne ainda não tinha tanto controle assim para conseguir se curar de maneira tão rápida... ou será que tinha?
— O que importa é que estejas bem, porém, mesmo assim, irei pedir para que você fique aqui mais um tempo só para ter certeza de que não há mais nada de errado, pode ser? — a garota confirmou com a cabeça. — Ótimo! Agora, se me dá licença, eu preciso ir ver como os outros alunos estão se saindo na luta, ok? Preciso estar preparada para o que quer que aconteça com eles — explicou-se, ao mesmo tempo em que se retirava dali.
Uma vez a sós com a Eva, a Daphne virou o rosto na direção da mesma e abriu um sorriso gentil para ela. No entanto, de imediato, os olhos da menina seguiram até um colar que ficava em destaque no pescoço da mulher. Na verdade, não era bem um colar, e sim um anel que possuía uma corrente prata presa a ele, para dar a impressão de que aquilo era um adereço para o pescoço. O anel em si era composto por bordas pretas, enquanto que no meio dele havia alguns dragões prateados por cima de uma linha vermelha.
— Caramba, que lindo! — elogiou.
— Obrigada — agradeceu, e um sorriso nostálgico se abriu no rosto da mulher assim que ela observou a sua joia. — Eu estou usando isso para enviar uma pequena indireta a alguém... — revelou, lançando um olhar travesso para a Daphne, que franziu o cenho e inclinou a cabeça um pouco para o lado; confusa.
— Hã?! Pra quem?
— Para o seu irmão! — respondeu, juntamente à uma risadinha astuta. — Acho que preciso de uma aliança em meus dedos! — comentou, ao mesmo tempo em que olhava as suas mãos com um ar pensativo. — Ah, e isso foi ideia do Thiago.
— Mas pra que você quer uma alian... — quando se deu conta do que estava havendo, instantaneamente as sobrancelhas de Daphne se ergueram e o queixo dela caiu. — Não acredito! V-Vocês estão juntos?! — questionou, e, quando a Eva confirmou com a cabeça, a menina piscou algumas vezes; atônita. — Você nem conseguia dizer o nome dele direito na última vez em que te vi!
— Ah, i-isso é passado! — declarou, ruborizando um pouco. — Enfim, nós dois já estamos juntos há algumas semanas... — anunciou, com a intenção de levar o foco do assunto para aquilo, e, perante isso, a Daphne riu um pouco, antes de esticar o braço para segurar a mão da mulher.
— Fico feliz que ele tenha escolhido você. Não consigo imaginar alguém melhor para adentrar na minha família! — confessou, fazendo com que a Eva abra um largo sorriso, antes de apertar a mão da garota com um pouco mais de força.
— Obrigada.
Daphne sorriu mais uma vez para a Eva, e, em seguida, os olhos da menina foram novamente até o "colar" pertencente a mais velha. Aquele era um belíssimo adereço, então era complicado não o admirar.
— Por que você não coloca o anel no dedo, ao invés de utiliza-lo como um colar?
— Está muito largo para mim, pois ele pertencia ao meu pai — admitiu, ao mesmo tempo em que o tirava do pescoço. — Ele costumava dizer que esse anel trazia força, proteção e poder — comentou, com um sorrisinho se formando no canto dos lábios. — Tome.
— Oi? — questionou a moça, levemente espantada. — N-Não precisa! Era do seu pai, não era? Eu não quero q...
— É só por enquanto! — garantiu, com a intenção de convencer a menina a aceita-lo. — Como o Kaleb está aqui, eu precisarei voltar para a K2 mais cedo, então irei deixar o meu anel com você, para que tenhas força, proteção e poder durante o resto do tempo que passares aqui. Além disso, estou te dando isso para que você tenha um motivo para vir me ver após as semifinais! — justificou-se. — Desde que você parou de fugir, parece que se esqueceu de mim!
— Eu nunca me esqueceria de você! — afirmou, ao mesmo tempo em que pegava o adereço das mãos de Eva e o colocava em seu pescoço. Como esperado, o objeto ficou próximo ao colar de pedra safira que o seu irmão a havia dado há um tempo, e isso fez o sorriso de Daphne se alargar. — Obrigada.
— Não há de quê — respondeu, enquanto se levantava. — Quando você voltar para a K2, eu te direi como consegui capturar o coração do seu irmão.
— Eva! — exclamou Daphne, que acabou rindo da jogada de cabelo que a mulher havia dado. — É, eu realmente não consigo imaginar ninguém melhor para fazer parte da minha família!
— Mas eu sim! — apressou-se em responder, e isso fez com que a garota franzisse o cenho. — Para adicionar, na verdade — completou, fazendo com que a Daphne incline a cabeça um pouco para o lado, demonstrando interesse em querer saber quem estava na mente da ruiva. — Aquele menino de cabelos cor de mel, por exemplo... Ele é bem bonitinho, não?
— O Idicholas?! — questionou, arregalando os olhos. — Logo ele?
— Oh, então ele foi a primeira pessoa com cabelos cor de mel que passou na sua cabeça? Pelo que eu saiba, essa é uma cor comum de cabelo, e você conhece mais pessoas que têm esse tom, não estou certa? — indagou, e, perante isso, o rosto de Daphne ruborizou por completo. — Ora, ora, quem é a tímida agora? — proferiu, com um sorrisinho ardiloso no canto dos lábios.
Antes era a Daphne quem zoava a Eva devido a vergonha que ela sentia do Tony, porém, agora, parece que o jogo havia finalmente virado.
— V-Você era pior! — a moça tentou se defender, mas o seu nervosismo impedia que as suas palavras convencessem a Eva a parar de rir. — Ao menos eu consigo falar o nome dele! — afirmou.
Exceto quando ele está muito perto de mim, a mente da garota logo tratou de completar, mas ela não precisava expor isso à Eva.
— Quando você for para a K2, nós iremos conversar melhor sobre isso! — assegurou, dando uma piscadela para a menina, que encheu as bochechas de ar, mas, mesmo assim, concordou com a cabeça. Após isso, a Eva seguiu até a saída, e, assim que ficou sozinha, a Daphne abriu um sorrisinho para, então, encarar os dois colares que estavam em volta da sua garganta. — Bom, agora posso dizer que carrego uma parte da minha família no meu pescoço — sussurrou, e a mesma acabou rindo levemente pelo nariz. Ela estava realmente feliz pelo seu irmão e pela Eva, e uma sensação maravilhosa tomava conta de si devido a isto. Para a menina, era como se a sua família estivesse se reerguendo, e isso a deixava muito realizada, pois saber que o sobrenome dos seus pais não morreria com ela lhe causavam uma sensação boa. Muito, muito, muito boa. — Finalmente um pouco de esperança.
No campo de batalha, a situação de Alina e Nicholas estava complicada, pois um ficava apenas ameaçando verbalmente o outro, e nenhum dos dois tinha a intenção de desistir da briga tão facilmente. A essa altura, alguns da plateia já estavam resmungando, como se quisessem que o organizador colocasse um empate logo, ou, quem sabe, eliminasse ambos de uma só vez. No momento atual, a menina da A1 estava apenas com os braços e a cabeça para fora do portal, enquanto que a perna do Nicholas já sangrava devido a perfuração das agulhas. Mesmo que o público estivesse querendo que o organizador interferisse ali para que as coisas acabassem depressa, eles também pareciam querer que alguma coisa interessante acontecesse naquela briga; algo que não envolvesse apenas ameaças.
— Você só vai desistir quando ficar sem a perna? — questionou a garota, que tentava sair de dentro do portal colocando força contra o chão, através das suas mãos livres. No entanto, como o corpo dela estava sendo apertado por aquele poder, essa sua ação era vã.
— Se isso acontecer, você pode parar de chamar isso aí de portal e começar a chamar de casa, porque eu não vou saber te tirar! — rebateu, fazendo com que a moça ranja os dentes, enfurecida. Ela já parecia estar cansada da mesma ameaça de "entrar no portal para sempre", além disso, ter o seu corpo comprimido não era uma sensação nem um pouco agradável. Era hora de acabar com aquilo.
— Ok, já que é assim, diga adeus à sua pern... — de repente, a mesma simplesmente parou de falar e arregalou bastante os olhos; em choque. — A-Alguma coisa encostou na minha perna! — anunciou, tentando manter a calma, porém, assim que ela viu o semblante perdido no rosto do Nicholas, o seu pânico começou a crescer. A Alina tentou respirar fundo para não demonstrar estar tão amedrontada, afinal, o rapaz deveria estar brincando com ela... É claro que ele deveria saber o que tinha encostado na sua perna! Talvez até tenha feito aquilo de propósito só para assusta-la.
Convicta disto, a moça lançou um olhar sério para o garoto, que se dissipou quando ele inclinou a cabeça para o lado, mostrando-se realmente confuso com a reação dela.
— Hã?
Merda, pensou ela, empalidecendo. Esse idiota realmente não sabe de nada.
— DE NOVO! — dessa vez, ela gritou, chegando a assustar o Nicholas, todavia, além do susto no menino, esse berro também serviu para que a atenção das pessoas na plateia fosse levada até eles. — TEM ALGUMA COISA MEXENDO NA MINHA PERNA! O QUE É?! — a princípio, o Nicholas encarou a garota com estranheza, como se estivesse pensando na hipótese de a mesma ter enlouquecido ou, quem sabe, estar mentindo para que ele a tirasse dali, porém, assim que os olhos do rapaz seguiram até as bordas do seu portal, ele finalmente se deu conta de que o tom azul da sua habilidade estava escurecendo e adquirindo uma coloração preta; perceber isso fez o mesmo erguer as sobrancelhas, surpreso. Se a cor do seu portal estava se alterando, então havia mesmo a possibilidade de ter alguma coisa morando ali dentro! Sem saber o que pensar, o Nicholas acabou levando a sua atenção até a arquibancada da K2, e não foi nem um pouco complicado encontrar o Thomas, que estava de pé e com uma aparência bastante assustada, enquanto fazia alguns sinais negativos com as mãos. Provavelmente ele estava pedindo para o seu companheiro fechar o portal, mas...
O Nicholas não era muito bom em entender sinais.
Por conta desse detalhe, o mesmo acabou abrindo um sorrisinho amarelo para fingir que concordava com o que o Thomas estava querendo dizer através daqueles gestos, e, em seguida, ele logo voltou a olhar para a sua adversária. Nesse instante, se a plateia estivesse em silêncio, teria sido possível escutar o Thomas bater a própria mão contra a testa; incrédulo com a atitude do seu parceiro. Talvez o fato de o Nicholas ter ido brigar com as emoções a mil – graças ao que havia acontecido com a Daphne na luta passada –, não havia sido uma ideia tão boa assim. — DIGA LOGO! — exigiu a garota, sem fazer questão de esconder o medo que estava sentindo. — O QUE TEM DENTRO DESSE PORTAL?
Eu não sei, era o que o Nicholas falaria a princípio, porém, antes de dizer isso, o rapaz parou um pouco para pensar e decidiu usar essa oportunidade para fazer a menina desistir de uma vez por todas daquela luta.
Uma mentirinha não faria mal a ninguém, faria?
— É um... um... Ah! Um fantasma! — se a menina não estivesse com tanto receio, provavelmente ela iria notar o sorrisinho amarelo e os olhos do Nicholas fixados em algum lugar aleatório no céu, revelando claramente que ele estava inventando as coisas. Ele realmente precisava de algumas aulas sobre o que não fazer quando se quer enganar alguém, mas isso é uma conversa para outra ocasião. — Se você não desistir, o fantasma aí vai... ele vai... te... comer?! — disse, sem firmeza, e a menina o observou como se ele fosse o ser mais idiota do planeta terra. — Eu quis dizer te possuir! — exclamou, de imediato. — E-Ele vai te possuir... — declarou, soltando uma risadinha nervosa, para, então, voltar a olhar para alguma coisa acima de si, contudo, dessa vez, até mesmo um assobio tomou conta dos seus lábios, para evidenciar o nervosismo que o mesmo sentia por não estar falando a verdade.
Pelo Ômega, alguém precisava urgentemente ensinar esse garoto a mentir melhor!
— ALGO ME SEGUROU! — bradou, e, no mesmo instante em que a garota falou isso, várias pessoas que estavam na plateia – e até mesmo aqueles que estavam na arquibancada especial – se aproximaram do parapeito para verem melhor o que estava acontecendo. A Alina agora não estava mais preocupada se o Nicholas estava mentindo ou não, pois, seja lá o que fosse aquela coisa que a estava segurando, era impossível não se sentir minimamente assombrada com o toque de um ser desconhecido. Sendo assim, a mesma ficou se debatendo freneticamente, usando as suas mãos para tentar sair de dentro daquele portal, todavia, quando ela chegou no ápice dos seus esforços, um grito de dor ecoou pela sua boca; deixando todos num misto de curiosidade, confusão e receio. — Desisto, desisto, desisto! — declarou, e o Nicholas até gemeu de agonia quando as agulhas que estavam em sua perna esquerda foram retiradas de lá de forma imediata e brusca. — Tire-me daqui! — pediu ela ao garoto, que tentou se levantar para ir ajuda-la, mas, como a sua perna estava fragilizada, o mesmo não conseguiu fazer isso com a agilidade que desejava. — Rápido, rápido, rápido! — berrou, enquanto batia as mãos no chão, como se quisesse erguer o seu corpo. O Nicholas ficou assustado e, ao mesmo tempo, preocupado com o desespero da menina, por isso, acabou ignorando a sua dor e pisou firmemente no solo, para que pudesse andar o mais depressa possível até a moça. Assim que chegou perto dela, o rapaz a segurou pela mão antes de abrir mais o seu portal para, então, puxa-la pra fora.
Quando a parte inferior do físico da garota se revelou, foi possível perceber que a bota da mesma estava coberta por uma aura preta. Sem perder tempo, a moça usou o seu outro pé para retirar aquela bota de si, e, assim que o calçado caiu no chão, em questão de segundos ele foi completamente consumido por aquela luz negra; não demorando para se tornar nada mais que pó. Ao ver aquilo, o Nicholas prendeu a respiração; temeroso.
Que tipo de criatura seria capaz de destruir totalmente uma bota somente com um toque?
— FECHE O PORTAL! — uma voz desesperada gritou de uma das arquibancadas. O Nicholas não soube bem quem falou aquilo, mas resolveu obedecer ao comando e, sem demora, o menino prontamente se virou e ergueu a mão para o seu portal – para que pudesse fecha-lo –, no entanto, para a sua surpresa, o mesmo continuou aberto.
— Ué, não está fechando! — declarou, franzindo o cenho em sinal de confusão. O rapaz sempre conseguia fechar as entradas que abria, e o fato dele não estar conseguindo vedar essa o desestabilizou um pouco. Perante a fala do menino, não só os organizadores presentes ali ficaram em alertas, mas alguns dos treinadores de elite se levantaram também; indicando que alguma coisa séria estava acontecendo.
Será que os espíritos deles estavam sentindo alguma presença peculiar, assim como o Tell havia sentido durante a torre dos desafios?
— Feche isso logo! — ordenou Alina, que ainda encarava a sua perna com uma nítida dose de receio e dor. Agora, analisando melhor, era possível ver que não havia sido apenas a bota dela que fora destruída, mas as agulhas que antes estavam no seu uniforme também. Isto deixou a calça da garota com alguns buracos que permitiam que as pessoas vissem a pele dela, que, no momento, encontrava-se repleta de feridas. Os machucados da sua perna eram pequenos círculos pretos, e, pela careta da moça, não ficava difícil de constatar que eles incomodavam bastante.
— Eu estou tentando! — respondeu o Nicholas, chegando a exprimir um gemido devido ao esforço que estava fazendo. As veias da testa do garoto ficaram mais visíveis quando uma densa aura azul tomou conta das suas mãos, fazendo com que uma parte do portal dele ficasse azul novamente. O menino abriu um pequeno sorriso quando percebeu que a sua habilidade estava começando a se fechar, no entanto, a alegria do garoto rapidamente desapareceu quando a sombra de alguma criatura apareceu dentro do seu portal. Ao ver aquilo, um arrepio ruim percorreu o corpo do rapaz, e, sem pensar duas vezes, ele pegou a adaga que estava presa na lateral do seu corpo. O mesmo não sabia que tipo de ser era aquele, porém, de uma coisa ele tinha certeza.
Não era algo bom.
Sem pensar duas vezes, ele lançou a sua adaga de modo certeiro no local onde a sombra da criatura estava, e, quando aquela coisa desapareceu da sua vista, o portal finalmente pôde ser fechado. Assim que a sua habilidade sumiu, a aura que estava em suas mãos se dissipou também, restando a ele apenas um grande cansaço e bastante dor na sua perna. Grande parte do público ficou tranquilo com o fechamento do portal, mas a pulga continuava atrás da orelha de todos.
Que tipo de ser existia ali?
— Temos o vencedor do segundo round! — a voz do organizador ecoou, para tentar mudar o foco das pessoas. — O Nicholas, da K2! — anunciou, mas poucos aplaudiram. O público ainda estava confuso com o que tinha acontecido... e não eram os únicos.
O Nicholas, que até então estava paralisado por conta do choque que havia tido ao ver algo se movimentando dentro do seu portal, finalmente ergueu a cabeça, e, junto a este movimento, uma quantidade considerável de sangue começou a escorrer pelas suas narinas; confirmando ainda mais o quanto ele havia se esforçado para fechar o portal. Provavelmente a imagem daquela criatura não iria sair da mente do rapaz nem tão cedo, mas esse não era o único problema que ele poderia vir a enfrentar, pois, pela cara séria que os diretores e os treinadores de elite tinham, não era difícil concluir que o Nicholas poderia vir a ser interrogado a respeito do que havia feito.
Que o Ômega o ajudasse.
E aí gente, tudo bem?
Estou passando no final do capítulo pra lembrar vocês de deixarem uma estrela ☆ e um comentário dizendo o que vocês acharam ♡
Então galera, eu vou postar aqui a foto de um anel que é parecidíssimo com o que a Eva emprestou para a Daphne, beleza? Assim vocês poderão ter uma ideia melhor de como ele é! ✊⚓
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maravilhoso, não é? (peguei essa foto do google, mas não sei exatamente de onde ela é). Enfim, por hoje é isso! Um abraço e até breve! 🖤
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