I| A chegada

— Nem acredito que estamos debaixo d'água! — proferiu Flora, enquanto olhava o ambiente ao seu redor com uma certa perplexidade. Além disso, não era todo dia que um ônibus entrava no mar e se transformava em um submarino.

No momento, todos estavam admirando o que parecia ser o estacionamento da academia A1. Eles estavam dentro de uma circunferência feita de vidro que, graças as luzes que emanavam de dentro do local, era possível enxergar uma parte do oceano que, em sua maioria, encontrava-se numa densa escuridão. Havia apenas uma maneira de entrarem na A1, que era por meio de um corredor, também de vidro, que interligava aquele estacionamento ao prédio principal. Sinceramente, até que aquela era uma visão bastante interessante de se ter, porém, ao mesmo tempo em que era bela, também era bastante aterrorizadora. Principalmente para aqueles que não curtiam muito o fundo do oceano.

— Vocês também estão sentindo uma falta de ar? — questionou Daphne, engolindo em seco.

Os olhos dela estavam arregalados – alertas – como se, a qualquer momento, aquele vidro ao seu redor pudesse ser destruído graças a pressão da água. A medida em que os olhos da garota percorriam o lugar, mais pensamentos conturbadores passavam pela sua mente. E se tiver uma rachadura e a água entrar? E se esse vidro quebrar? Se saíssem dali, será que eles seriam esmagados pela pressão da água ou simplesmente afogariam até a morte?

— Isso tudo parece meio perigoso, não? —indagou ela, levando o seu olhar até os seus amigos para que, dessa forma, a mesma não precise se concentrar na água ou nas criaturas marinhas que passavam próximas ao vidro. — Já pensaram no que poderia acontecer conosco se um animal grande conseguisse destruir esse vidro?

— Fique tranquila, devem haver vários meios de fuga ou sistemas de segurança para o caso de algo assim ocorrer — explicou Thomas, na tentativa de acalmar os nervos da garota.

Mas a Daphne não pareceu se contentar com isso, então acabou cruzando os braços e focando o seu olhar no ônibus, para tentar esquecer que estava numa parte bastante profunda do oceano. Para a felicidade dela, a mesma não parecia ser a única assustada ali, pois vários outros estudantes da sua academia também demonstravam semblantes receosos.

— Quem diria que alguém tão forte e corajosa iria ter medo de estar dentro de uma redoma gigante cercada por água... — provocou Nicholas, dando algumas batidinhas de leve no braço de Daphne. O rapaz parecia estar se vingando dela no momento, já que a garota havia tirado sarro do seu medo por injeções há alguns dias atrás. — Confesse, você está com medinho, não está?

Diante dessa pergunta, Daphne semicerrou os olhos para o menino e, em seguida, virou o seu rosto para o outro lado. Ela parecia decidida a não dar o braço a torcer e a não dizer que o Nicholas estava certo.

— Não, não estou! — negou, firmemente. — Além do mais, parece que nós fomos os últimos a chegarem aqui... Os ônibus das outras academias já estão vazios e estacionados — comentou, com o intuito de mudar de assunto, e, diante disso, o Nicholas apenas deu uma risadinha e balançou a cabeça de um lado para o outro.

Daphne ignorou a risada do rapaz e se virou para o Thomas e para a Flora, como se esperasse que um dos dois iniciasse algum assunto que não envolvesse ''medo'', ''água'' ou ''oceano'' na mesma frase. Entretanto, antes que alguém ali abrisse a boca, os professores responsáveis por cada equipe da K2 surgiram, de repente, no local.

Provavelmente haviam sido teleportados para lá com a ajuda dos seus relógios de pulso, que tinham essa funcionalidade bastante útil.

— Boa tarde, alunos! — proclamou Simmon, o professor do time I. — Vocês devem estar um pouco enfadados por conta da viajem, não? Bem, como já foi explicado anteriormente, nós não fizemos uso de teletransportes para acelerar o percurso porque não poderíamos correr o risco de rastrearem a nossa localização. Todo cuidado é pouco... — explicou. — Enfim, vamos ao que realmente interessa. Os estudantes que irão fazer a semifinal, por favor, vão para perto dos seus respectivos professores, pois eles irão leva-los até uns cômodos especiais. Os que vieram só para observar, venham comigo! — decretou, e todos acataram às suas ordens.

Os nove que iriam para a semifinal: Ária, Camille, Daphne, Diego, Eduardo, Flora, Nicholas, Ryan e Thomas; fizeram conforme foi mandado e seguiram rumo aos seus professores responsáveis (PF's): Kelly, Luís e Michael. Num piscar de olhos, os alunos foram teleportados do estacionamento até um corredor estreito trabalhado com vidro e uns toques amadeirados.

Os responsáveis pela A1 realmente gostavam de adicionar vidro nas suas decorações.

— Este será o quarto temporário de vocês! — anunciou Michael, apontando para a porta que estava na frente dele e de seus pupilos. — Ah, e o banheiro é logo ali! — revelou, apontando para uma porta no final do corredor. Os outros professores também passaram essas mesmas informações para os seus estudantes, até que, enfim, cada time adentrou no seu próprio cômodo. Não era tão espaçoso quando o quarto do hotel em que estavam antes, mas as camas, o frigobar, a tv, a mesa, as cadeiras e uma pequena estante estavam organizadas milimetricamente no espaço; otimizando-o.

Para o alívio de Daphne, não havia nenhuma janela com vista para o mar ou coisa parecida.

— Hoje vocês têm o dia livre para descansarem, treinarem ou fazerem o que bem entender — expôs Michael, ao mesmo tempo em que seguia até uma das quatro cadeiras e se sentava. — Podem até dar uma volta pela A1, caso desejem conhece-la melhor. Garanto que é uma academia muito bonita! — afirmou.

Os integrantes da equipe X concordaram com a cabeça e adentraram no local. Em menos de um minuto, as malas de todos já estavam abertas e os seus pertences jogados pela cama de cada um. Thomas foi o que menos bagunçou as suas coisas, pois ao invés de desarrumar a sua mala grande, o mesmo só abriu a sua mochila menor e tirou uma caneta e um caderno de dentro dela. Em seguida, ele se dirigiu até a mesa onde o Michael estava com um sorrisinho ardiloso no canto dos lábios.

— Eu tenho uma coisa interessante para mostrar a vocês! — declarou, conseguindo chamar a atenção dos seus amigos por meio dessa fala. — Nós podemos usar esse tempo livre para analisar um pouco as pessoas que irão participar das semifinais! Eu anotei as habilidades de cada um, tal como o ponto fraco que eles podem ter devido aos poderes que possuem. Isso é apenas um estudo que fiz deles, mas tenho pra mim que ele será bastante útil para vocês também! — anunciou.

Curiosos, os três companheiros do rapaz seguiram até a mesa onde o menino estava e se sentaram para ouvi-lo. Como não tinham cadeiras o suficiente para todos, a Flora preferiu se sentar na mesa, já que ela não queria que o Michael ficasse em pé, como o mesmo havia sugerido.

— Então era isso que você estava escrevendo durante toda a viajem! — proclamou Daphne, fazendo com que o Thomas assinta com a cabeça, mas sem retirar os seus olhos do papel.

— Agora os nossos antigos aliados, que ficaram conosco na aliança, serão os nossos adversários... — comentou Flora, enquanto observava o seu amigo folhear o caderno que tinha em mãos. — Puxa... — sussurrou, um pouco triste com aquilo, e o Michael logo colocou a mão no ombro dela; apoiando-a.

— Por enquanto — garantiu. — Quando isso acabar, vocês poderão conviver normalmente como antes! — disse o homem, criando um pequeno sorriso nos lábios de sua aluna.

— Ao todo há vinte e quatro alunos participando da semifinal... — iniciou Thomas, ainda concentrado nos seus papeis, e, devido a sua fala, os demais se calaram para ouvi-lo. — ..., mas, se não levarmos as pessoas da nossa academia em conta, esse número baixa para quinze! — ao proferir isso, Thomas virou o seu caderno em direção aos seus companheiros, para que eles pudessem ver as anotações que o mesmo havia feito.

Os nomes, habilidades, características físicas e possíveis fraquezas eram os quatro pontos em destaque nas notas do menino. Tudo estava incrivelmente organizado e separado por academias, somando, no total, seis participantes da A1: quatro da equipe I, um da II e uma da VIII; três da B1: um da equipe I, e dois da II; dois da C1: uma da equipe II e uma da VII; quatro da D2: todos os quatro da equipe V; e, por fim, nove da K2: uma da equipe II, um da III, três da IX e quatro da X. Diante de tudo aquilo, o Nicholas chegou a piscar os olhos e massagear as têmporas. Era informação visual demais para ele.

— Estamos em maioria, então tudo indica que eles vão vir com tudo para cima de nós — comentou Thomas, colocando o seu caderno de volta sobre a mesa. Tal ato fez com que o Nicholas fizesse um rápido sinal com a cabeça, mostrando estar agradecido ao companheiro pelo fato dele ter tirado toda aquela pesquisa da sua frente. — Pelos meus cálculos, tenho para mim que iremos enfrentar as pessoas da A1 logo na primeira rodada do teste. Duvido muito que eles demorem para colocar pressão na gente.

— Bela sugestão! — elogiou Michael, estendendo o seu braço esquerdo. O mesmo apertou duas vezes na tela do seu relógio e a mesma prontamente se expandiu, formando um holograma bem diante dos olhos dos alunos, que chegaram a erguerem as suas sobrancelhas; surpresos com aquilo.

O homem começou a mexer naquela representação visual até chegar no que ele queria: a tabela de lutas da semifinal.

— Você não poderia estar mais certo, Thomas — declarou, assim que os estudantes viram a escolha da ordem e dos participantes que exerceriam cada batalha. — Como vocês já sabem, a semifinal será uma luta mano a mano contra integrantes de outras academias. Isso o que vocês estão vendo são quais pessoas irão lutar com quem na batalha de amanhã — explicou, ao mesmo tempo em que ampliava a imagem do holograma, para que os meninos pudessem vê-lo melhor.

O Thomas havia acertado em cheio. Os quatro membros da equipe X tinham sido escalados para lutar contra alguém da A1. O Thomas iria contra o Saul, da equipe I; o Nicholas contra a Alina, da equipe VIII – time este que era liderado pelo José, garoto no qual já havia arranjado uma briga com o Nicholas anteriormente; Flora contra Morgana e Daphne contra Cássia. Será que tinha como isto piorar?

— Eles nem tentaram disfarçar o fato de que desejam nos eliminar logo na primeira fase do teste... — comentou Daphne, encarando atentamente o holograma em sua frente. Michael tentou abrir a boca, como que para declarar algumas palavras de apoio para a garota, todavia, ela foi mais rápida e acabou falando o que tinha para falar primeiro; — Irei levar isso como um elogio! — assegurou, com um sorrisinho um tanto quanto maléfico nos lábios. — Me colocarem para lutar contra a Cássia, que é considerada uma das adversárias mais fortes, é, no mínimo, um enaltecimento da minha pessoa, não? — perguntou, fechando o seu punho. — Em resposta a isso, prometo que darei tudo de mim para destruir os campos de força dela.

Ao escutar as palavras de sua aluna, o Michael voltou a fechar a sua boca, mas não deixou de abrir um sorrisinho no canto dos lábios. Era bom saber que a garota havia levado aquilo na esportiva e ficado feliz, afinal, era bem melhor que ela se sentisse honrada e estimulada a lutar do que assustada ou hesitante, não era?

— Bom, pelo menos agora nós poderemos estudar as pessoas certas! — proclamou Thomas, tirando os seus olhos da tabela em sua frente para guia-los novamente as suas anotações. — A Cássia, como já sabemos, tem a habilidade de gerar campos de força, porém, pelo que já vi, ela não me parece ter um bom condicionamento físico. A força, resistência e velocidade dela não é grande coisa e isso é algo que você... — o mesmo lançou um olhar para a Daphne, que o observava atentamente. — ... tem de sobra. Em suma, a luta de vocês será decidida na resistência. Você poderá quebrar os campos de força que ela gerar até a mesma se cansar ou não? — Daphne olhou para a sua mão e, em seguida, para o Thomas de novo, dando a entender que havia compreendido o recado. — A Morgana manipula metais de uma maneira surpreendente, além disso, ela parece ter um bom senso de batalha. Você precisará ficar de olhos abertos, Flora. Porém, você conseguirá destruir os metais dela se fizer uso da sua eletricidade, mas, mesmo assim, é bom tomar cuidado e não usar algo feito desse material durante a luta para não dar vantagem a ela. Será uma batalha difícil, mas tenho que fé que você conseguirá levar a vitória caso queira — anunciou, e a menina engoliu em seco, mostrando-se um pouco nervosa com aquilo. — A Alina é a que eu menos tenho informações... — exprimiu, levando seus olhos para o Nicholas, que ainda estava admirado demais com o holograma em sua frente. — Pelo que eu soube, ela consegue manipular agulhas que, quando te acertam, podem deixar o local atingido imóvel e sem possibilidade de usar poderes. Não sei se você lembra... — prosseguiu, ao mesmo tempo em que cutucava o ombro do seu companheiro, para que a atenção dele fosse voltada para si. — ..., mas ela te acertou quando você estava brigando com o José naquele jantar em comemoração ao top seis — informou, mas o Nicholas o olhou com um semblante meio perdido, dando a entender que não lembrava mais da menina. Thomas suspirou e deu de ombros. — Enfim, galera, depois eu irei mostrar tudo para vocês de maneira mais detalhada.

— Brigando? — questionou Michael, desfazendo o holograma enquanto seu olhar ia em direção ao Nicholas, que abria um sorrisinho amarelo. — Ninguém me falou de briga alguma... — revelou, semicerrando os olhos para o garoto, que se encontrava com uma cara de culpado estampada em sua face.

— Ah, PF, é que não pode chamar uma coisa de briga quando só uma das partes apanha, sacou? — rebateu ele, fechando o punho de maneira confiante, como se isso pudesse fazer com que o homem esquecesse a briga em si e o admirasse pela sua força. Mas é claro que algo assim não iria acontecer, e Daphne logo percebeu isso, sendo assim, ela começou a falar, para que pudesse tirar o foco do professor daquele tema.

— Você também apanhou, Idicholas! — garantiu Daphne, cortando o barato do menino, que fez um bico meio emburrado perante a fala da mesma. Notando isso, ela semicerrou os olhos para ele, como se estivesse dizendo: ''eu estou tentando te salvar de uma bronca por meio de uma maneira mais inteligente e confiável!'', contudo, como o Nicholas nunca iria entender isso e a mesma também não podia se explicar, ela simplesmente o ignorou e continuou falando; — Mas não foi nada importante, Michael, porque... Bem, nós não... É que eles... Não foi... Enfim, prossiga com o que você estava dizendo antes, Thomas! — pediu, lançando um olhar de súplica para o menino, como se estivesse implorando para ele fazer alguma coisa que mudasse o assunto que estava sendo debatido no momento, e, para a sorte dela, o garoto rapidamente entendeu o recado.

— Também tem o Saul, que ficará contra mim... — iniciou ele, fazendo com que os olhos cerrados e questionadores de Michael sejam guiados até o mesmo. — Ouvi falar que ele tem poderes relacionados a desenhos.

— Oh, ele consegue dar vida ao que desenha? — perguntou Flora, entrando na conversa para que esse assunto flua e o anterior seja esquecido.

— Provavelmente! — respondeu, um pouco alto demais. Ele parecia aliviado por Flora ter comentado aquilo, dessa forma, ele não teria que ''distrair'' o Michael sozinho. — Essa foi a informação que eu recebi do pessoal da nossa academia enquanto estávamos no ônibus, então ainda não dá para ter muita certeza do que ele é ou não é capaz.

Diante dos esforços que os seus alunos estavam fazendo para mudar o rumo da conversa, o Michael teve que passar a língua pelos dentes, numa tentativa de segurar o riso, e, por fim, resolveu ''cair'' na lábia deles. Pelo que ele estava vendo, a tal briga não havia sido tão séria assim, até porque, caso tivesse sido, com certeza o mesmo já teria ouvido falar dela. A fofoca era uma coisa que se espalhava rápido por ali, principalmente se chegasse aos ouvidos de Simmon, que com certeza iria utilizar ela para irritar o Michael, o Luís ou qualquer outra pessoa que pudesse se vincular ao assunto em questão.

— Então... — proferiu o PF, levando a sua mão até um dos compartimentos do seu cinto. No momento em que o homem falou, todos se calaram e levaram os seus olhares até ele; alertas. — Cada um de vocês vai poder usar isso durante as batalhas que virão... — revelou, ao mesmo tempo em que colocava quatro bolas acinzentadas sobre a mesa. Elas eram maiores que uma CEM, e, caso precisassem ser comparadas em tamanho com algo, era possível dizer que podiam ser excelentes bolas de pingue-pongue.

Percebendo que o seu professor não estava mais dando atenção ao assunto briga, os estudantes pareceram relaxar um pouco mais. Não havia nada melhor do que fugir de um sermão.

— Os alunos estão autorizados a usarem apenas uma dessas durante a luta na semifinal — explicou. — Digam-me, vocês têm ideia do que são essas bolas?

Um silêncio se instalou ali por alguns segundos, demonstrando o quão pensativos os estudantes estavam em relação aquilo.

— Isso não é parecido com aquela coisa que a Cássia usou no nosso jogo? — sugeriu Daphne, enquanto pegava umas das bolas para analisa-la com mais atenção. — Se não estou enganada, acho que isso armazena o nosso poder para que possamos usar mais tarde. Em outras palavras, é uma espécie de Dinks, não é?

— Exato! — declarou Michael, com um sorriso.

— Realmente... — comentou Thomas, também pegando um daqueles objetos. — Ela usou isso para gerar um campo de força ao redor da nossa quadra improvisada... Como será que poderíamos utilizar isso da melhor forma possível?

— Não tem mistério, a partir do momento em que vocês tocam nisso, os seus poderes já serão automaticamente sugados! — informou-os, fazendo com que os alunos erguessem as suas sobrancelhas, num misto de surpresa e assombro. O impacto da sua fala foi tanto que o Nicholas, que estava prestes a encostar no material sobre a mesa, rapidamente puxou a sua mão de volta; ato esse que ocasionou uma pequena risada em Michael. — Não se preocupem, isso só vai sugar uma parte pequena da habilidade de vocês. Além disso, esse material só costuma absorver o poder que vocês mais dominam, sendo assim, não se surpreendam se isso absorver apenas um tipo específico das suas habilidades.

Somente depois das explicações do homem que o Nicholas ousou pegar uma das bolas acinzentadas que estavam sobre a mesa. Assim que teve o material em mãos, ele o observou com um semblante um tanto quanto reflexivo.

— Isso está me dando fome... — murmurou, fazendo com que os demais o encarassem com uma certa dúvida. Aquilo estava longe de parecer com alguma comida. — Essa coisa me lembrou uma CEM — explicou, e os outros finalmente entenderam o porquê da fome repentina do rapaz.

— Falando nisso, nós precisamos fazer mais! — lembrou Flora. — As nossas já acabaram há um tempo.

— Verdade, é sempre bom termos algumas para o caso de haver uma emergência ou algo parecido... — afirmou Thomas, ao mesmo tempo em que se levantava de seu assento e seguia até o frigobar que eles tinham naquele cômodo.

— Eu ainda tenho várias das minhas criações aqui comigo! — declarou Nicholas, ao mesmo tempo em que dava algumas batidinhas no local em que as guardava.

— Isso significa que nem você tem coragem de comer elas! — retrucou Daphne.

— Não é isso! — assegurou o rapaz. — É que eu estou as guardando para uma ocasião especial! — explicou-se, e a garota o observou com um semblante nada convencido. Aquele argumento não havia sido bom o bastante para fazer a menina acreditar nas palavras do Nicholas. — Ah, você não entende ainda! — declarou, balançando uma das mãos no ar, como se estivesse afastando aquele assunto dali; em resposta, a moça apenas deu de ombros.

— Tínhamos isso no nosso frigobar! — anunciou Thomas, retornando à mesa com alguns alimentos em mãos, e, rapidamente, ele os colocou sobre o móvel. — Isso aqui já vai dar para... — o mesmo parou de falar por um instante, para que pudesse afastar a mãozinha do Nicholas, que já estava perto de pegar um sanduíche. — ... fazer alguma coisa! — concluiu, ignorando os resmungos baixos que o seu amigo havia dado devido ao fato dele não ter conseguido pegar algo para comer.

Sem demora, o Michael levou uma das suas mãos até um compartimento do seu cinto, no qual logo retirou dali três frascos: um transparente, um alaranjado e um multicolorido que a cada instante parecia mudar de coloração. Em seguida, o mesmo pegou um prato vazio que o Thomas havia trazido e colocou um pedaço de comida no meio desse objeto, para, depois, colocar três gotas do líquido transparente ali.

— Irei ajuda-los com isso — proclamou o homem, enquanto observava a comida ir se juntando aos poucos, como se as partículas delas estivessem se unindo. Assim que a união parou, o homem colocou duas gotas do líquido alaranjado, e, dessa vez, o alimento não faz nada de especial. Por fim, ele pegou o último frasco e colocou uma gota dele na comida, e, imediatamente, uma espécie de cápsula foi sendo formada ao redor dela, até que, no fim, ela ganhou a forma de uma circunferência. — Menos uma! — garantiu, pegando aquela CEM, que havia adquirido um tom creme, entre os seus dedos.

— Terminamos! — comemorou Flora, enquanto observava o pote que continha as várias CEM de cores diferenciadas que ela e os seus companheiros haviam produzido. — Até que enfim... — sussurrou, feliz com a conclusão do trabalho.

— Que bom pra vocês... — murmurou Nicholas, com uma nítida dose de tédio em sua voz. Ninguém havia deixado o rapaz ajudar a fazer as CEM, afinal, ele não conseguia manter a bolinha num tamanho pequeno e prático, muito pelo contrário.

— Eu já te falei que é só não botar muita comida... — proferiu Michael, ao mesmo tempo em que encarava a grande CEM que o Nicholas havia criado. — Uma esfera grande como essa não é muito boa para missões, além disso, tenho certeza que essa aí não cabe nem nos compartimentos do seu cinto!

— CEM pequena não enche o bucho — retrucou o garoto, enquanto dava uma mordida na esfera grande que ele mesmo havia feito.

— Enche sim! — assegurou. — Você usou um sanduíche inteiro para fazer isso, mas eu já disse que não é necessário. O líquido laranja que colocamos na comida tem várias vitaminas e coisas para dar energia e saciedade sem que o gosto da comida que foi colocada para fazer a CEM seja prejudicado.

Após o fim da explicação de seu professor, o Nicholas olhou para o frasco com o líquido alaranjado e, em seguida, para a sua CEM de tamanho desproporcional. Se aquele fluido dava saciedade, energia e mais um montão de coisas, será que ele não podia simplesmente bebe-lo?

— Aqui, Nicholas! — declarou Thomas, entregando ao parceiro um punhado das CEM que haviam feito há pouco tempo. O mesmo nem se deu conta de que o olhar do seu amigo estava fixo no líquido alaranjado, dando a entender que ele estava calculando as possibilidades de ingeri-lo ou não. — Ah, e nem pense em comer isso agora, você precisa guardar para mais tard...

Uma batida interrompe a fala do garoto, e isto, consequentemente, acaba levando os olhares de todos até a porta. Exceto o de Nicholas.

— Quem é? — indagou Michael, porém, como não houve resposta, ele acabou franzindo o cenho; confuso. — Quem é? — repetiu a pergunta, mas com um tom mais alto.

Outra batida foi dada na porta. Uma mais forte.

Michael olhou para os seus alunos com um ar confuso e, ao mesmo tempo, desconfiado, para, em seguida, levantar-se do seu assento e seguir até a entrada.

— Está aberta! — declarou, assim que chegou perto do local onde estavam batendo, e, mais uma vez, o barulho de um punho se chocando contra a madeira é ecoado.

A mão de Michael segurou a maçaneta com uma certa hesitação.

— Vai ver é alguém surdo... — sugeriu Nicholas, ao mesmo tempo em que a porta era aberta. Não foi possível ver direito o rosto da pessoa que estava batendo no portão de entrada, pois, assim que o acesso ao quarto foi liberado, esta pessoa, num piscar de olhos, já tinha entrado naquele cômodo e chegado perto do Nicholas. O menino também não teve tempo de ver quem estava ao lado dele, e a única coisa que pôde sentir foi a mão daquela pessoa agarrar a sua nuca para, em seguida, empurrar a sua cabeça com tudo até a mesa. Ao ver o que tinha acontecido com o rapaz, os outros arregalaram os olhos, e, antes que pudessem sequer piscarem, a pessoa desconhecida puxou a nuca do garoto de volta para cima e, em seguida, levou o crânio dele em direção ao móvel novamente. Dessa vez, a mesa se quebrou e o rosto do menino bateu contra o chão, fazendo-o soltar um brado de dor.

— Nicholas! — exclamou Michael, espantado com a velocidade em que as coisas haviam sido realizadas.

O homem que havia feito aquilo com o menino ergueu a cabeça para encarar os demais daquela sala, e, quando o Michael finalmente pôde ver a face daquele indivíduo, os seus olhos arregalaram em sinal de surpresa.

— V-Você?!

E aí gente, tudo bem?
Estou passando no final do capítulo pra lembrar vocês de deixarem uma estrela ☆ e um comentário dizendo o que vocês acharam ♡
Estavam com saudades dessa história? Porque eu estava ansiosa pra continuar postando ela :)
Por hoje é isso, pessoal, um abraço e até breve!

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