Vinte e Um

Nesses tempos em que estive com o professor Tobias, só o vi tenso, verdadeiramente preocupado, duas vezes. A primeira foi quando nos encontramos na grande floresta do teste, durante a investida de Salieri sobre os candidatos da comuna. A segunda vez foi a pouco, enquanto conversávamos sobre a missão e ele sentiu uma presença abismal. Agora, ele mantinha essa mesma expressão, esse mesmo olhar, esse mesmo medo.

O sol despontou tímido no céu. Saímos da taverna sob nuvens laranjas e o canto dos galos. “Por circunstâncias extenuantes, a missão está encerrada. Vamos voltar” Essa foi a explicação que o professor deu aos outros. Não era a melhor forma de convencê-los, conhecendo-os bem, sabia que não iriam aceitar isso. E como não aceitaram!

— O senhor vai fugir saltitando igual um cervo? — Haaka tentava desacelerar nossos passos andando bem devagar, ficando lá atrás. — Que tipo de agente o senhor é? O barbarian deve estar correndo por aí, matando mais e mais pessoas e o senhor tá fugindo!

— Não estou fugindo, Haaka. — o professor o encarou de canto — A missão será cumprida e os barbarians devidamente neutralizados. Pelas pessoas certas.

— Professor, isso não faz sentido! — dessa vez, a voz de Áquila surgiu, de modo impertinente — O quê quer dizer? Vai deixar a missão para Alexandria? — Áquila apertou seus olhos sobre ele — Não, o senhor não faria isso. O que está escondendo professor?

Tobias parou de andar, suspirou e escondeu o rosto com a mão.

— Eu não tenho permissão para revelar missões confidenciais de outros agentes. — fazia sentido ele ter me pedido para não contar a ninguém que um classe Alfa estava por perto. Por seu imenso poder, classes Alfa são muito procurados pelos inimigos e correm perigo constantemente, além de que suas missões são altamente confidenciais. Já foi uma quebra de protocolo Tobias e eu sequer sabermos de sua presença. Em resumo, quanto mais pessoas soubessem daquela presença especial perto de nós, mais problemas poderíamos ter.

— Um classe Alfa está aqui! — eu disse incisivamente e escapei dos olhos de Tobias. Só de imaginar a expressão que ele deveria estar fazendo para mim, ficaria sem dormir por longas e intermináveis semanas. Mas foi inevitável e encontrei com seu rosto nem um pouco amistoso. Sorri fraco, sem graça. — Desculpe professor, mas eles não iriam se convencer se não contasse. — levantei o queixo — Eu assumo a responsabilidade se minha atitude der algum problema.

Tobias estalou a língua e balançou a cabeça.

— Bem... Que seja. Pelo menos assim isso tudo já fica claro para vocês. — ele levantou os olhos para Áquila e Haaka — Vocês sabem o nível que está uma missão de um classe Alfa, não sabem? Não temos a menor possibilidade de interferir. Só iríamos atrapalhar.

Haaka virou o rosto e Áquila apertou os lábios, ficou em silêncio. Finalmente, seguimos caminho.

— Ouvi dizer que você lutou contra Salieri. — Haaka nos fez parar novamente — Todos vocês lutaram. Salieri não é um barbarian de nível tão avançado que só um classe Alfa consegue lutar?

— Salieri... — ele hesitou — Salieri foi uma situação excepcional. No caso dos alunos, era lutar para sobreviver. No meu caso, era morte ou desonra. Eu não tinha chance de vencer Salieri sozinho, mesmo contra um de seus fantoches eu seria aniquilado. Esse é o destino de quem busca uma luta que não pode vencer. É por isso que estamos indo embora. — Tobias soltou o ar dos pulmões, pausou, pensou e prosseguiu: — Não há vergonha alguma em apartar de uma missão e deixá-la para quem realmente tem alguma chance de sucesso.

— Esse é o tipo de agente que o senhor quer ser? — Haaka o encarou com mais afinco, com mais seriedade, com raiva — o agente que só luta se sabe se vai vencer?

— Não foi o que eu quis dizer.

— Eles me mataram. — nada se ouviu em seguida. Um silêncio se abateu sobre minha língua, senti o mesmo em relação ao professor. — Eu tinha decido para mijar e escutei aquela conversinha secreta de vocês ontem. — Haaka fugiu os olhos.

— É... — Tobias concordou com a cabeça. — Mas isso já foi evitado. O classe Alfa irá cuidar deles também, então não há...

— Eu não entendo. — Haaka derrubou sua ira sob o chão — Que merda eles estão na cabeça em querer nos atacar? Por que me mataram? Não estamos do mesmo lado? Não lutamos todos nós contra esses barbarians dos infernos? — Me surpreendi, e acho que o professor também. Dado a personalidade de Haaka, óbvio que eu pensaria que ele ficaria rancoroso com eles. Mas tudo o que vi, foi indignação.

Haaka nada mais contestou depois disso. Só que o silêncio que pairou sobre nós ao longo do caminho foi inquietante.

————||————


Primeiro chegamos a igreja. Tobias nos lembrou da importância de manter os disfarces. Iríamos nos despedir do padre que nos recebeu na cidade, e fazer isso de maneira natural e simplista. Sumir repentinamente da cidade não estava em cogitação. Depois de uma entediante e infindável conversa, enfim demos nosso aperto de mãos final. Eu já estava para me virar com alívio e um pouco de alegria de escapar do cárcere, mas a voz assustada de Tobias me enriçou completamente:

— Onde está Haaka?! — de fato, e nem tinha notado que ele sumiu.

— Ele disse que ia ao banheiro, professor. — Áquila respondeu com despreocupação. É claro que ele não foi.

— Inferno! — o professor apertou os dentes. O padre se escandalizou e fez o sinal da cruz.

— O que foi, professor? — Áquila perguntou. Finalmente, parou para pensar um pouquinho e percebeu seu próprio deslize — Inferno! — o padre arregalou os olhos mais uma vez e fez outro sinal da cruz.

Todo aquele disfarce construído na frente do padre, todo o esforço e fingimento, o professor jogou por água abaixo, já que do nada, acelerou numa arrancada para fora da igreja gritando tão alto quanto o canto de uma maritaca: “INFERNO!” Nós fomos juntos. Tentei pedir desculpas ao padre antes de ir, mas fui breve, para acompanhar o professor.

— Fingir que vai ao banheiro para ir atrás do barbarian? Duvido que essa ideia tenha sido dele. — eu disse, tentando me aproximar dos dois logo a minha frente.

— Eliz está ajudando ele? — Áquila indagou — Justo ela, que parecia ser tão sensata?

— Se Eliz está ajudando ele — o professor ponderou — Então não vai demorar muito pra Haaka encontrar a igreja de onde o barbarian veio. — ele cerrou o punho e vociferou: — QUE DROGA! — Áquila e eu nos entreolhamos assustados.

O ruivo gargalhou sem humor.

— Aquele idiota vai perder a licença pra ser agente da comuna de Cartago. Já vi pessoas serem expulsas da comuna por bem menos. Uma insubordinação dessas nem...

— Isso, se ele sobreviver. — a voz de Tobias se engrossou. Eu estremeci e senti meu peito pulsar.

Nas periferias estreitas da cidade, em meio a casas descascadas, terra nua e cheiro de estrume, encontramos uma igreja de tijolinhos. Não era maior em largura do que a do centro, mas era mais alta. Tinha um campanário chamativo e uma cruz ao topo manchada pelo tempo.
Vi olhos fundos no professor Tobias. Sua testa brilhava com o suor. O estado atônito pareceu travar sua língua enquanto decidíamos em nossas mentes como ou quando iríamos entrar.

— Duvido que vocês vão obedecer, se eu pedir para ficarem aqui fora. — Tobias enfim balbuciou. Nós dois balançamos a cabeça concordando.

Entramos. Tobias na frente, Áquila e eu há uns dois passos atrás. A porta rangeu como uma bruxa gargalhando quando a escancaramos. Era um local úmido, cheirava a poeira e via-se aranhas possivelmente perigosas caminhando pelas paredes. Como a parede estava repleta de rachaduras e buracos, não era tão escuro. A igreja estava despida, retiraram as cadeiras e qualquer decoração. Sobrando apenas o vitral ao fundo para tirar a monocromia do vermelho dos tijolinhos.

— Vocês demoraram mais do que eu esperava — a voz súbita de Eliz levou Áquila a dar um pulo.

— Onde está Haaka? — Tobias a encarou com desaprovação.

— Ele desceu no galpão a baixo. — não tardamos em seguir caminho. Tobias contornando com os olhos cada canto, cada lacuna do espaço. Eliz nos acompanhou. Ela baixou o rosto antes de começarmos a ouvir o que já era esperado, suas desculpas. — Eu sei o que está pensando, professor. Eu deixei claro a Haaka as consequências de desobedecê-lo. Mas existem coisas que simplesmente não podem ser ignoradas por ele.

SE um dia Haaka for um professor — Tobias suspirou — Talvez ele entenda o quão sério foi sua atitude e o quão decepcionado me deixou.

— Ele está pronto para as consequências das suas ações. — o rosto de Eliz mantinha-se entristecido.

— Eu não entendo — Áquila intrometeu-se — se o classe alfa vai cuidar de tudo, porque esse desespero todo dele em querer concluir a missão?

Vi os lábios de Eliz se tencionarem.

— Haaka perdeu os pais para barbarians. Nessa época, algumas pessoas do vilarejo que ele morava, testemunharam de longe quando os barbarians atacaram sua casa e mataram seus pais. Então, nisso, surgiu um boato na região, difundido pelo padre local de que a família de Haaka estava amaldiçoada, por isso foram mortos por demônios. No final das contas, ele passou o resto da sua infância sozinho, não tinha amigos pois todos o evitavam, até mesmo seus parentes distantes. Era o garoto da família amaldiçoada. Todos tinham medo de serem amaldiçoados também e serem mortos por demônios. — Eliz pausou por um momento e soltou o ar que limpou seus pulmões — Haaka nunca culpou as pessoas por o evitarem. Em vez disso, ele sempre soube quem era o verdadeiro inimigo que o levou a passar por tudo isso. Os barbarians.

— É por isso que ele odeia tão profundamente eles. — complementei, Eliz concordou. — Agora é fácil entender o porquê ele ficou tão transtornado quando soube que pessoas que deveriam estar matando barbarians, possuem a intenção de matar outros humanos.

— Exatamente. — Eliz fugiu os olhos para o bolor nos tijolos — O maior medo de Haaka é ficar sozinho. Por isso ele me tem. Quando era pequeno — ela riu sem humor — ele inventou uma namorada imaginária e deu a ela esse nome maluco de Elizsamaheisenshöder. Quando eu apareci pela primeira vez para ele, vi, pela única vez em todo esse tempo, Haaka chorar. E ele não chorou apenas por que não iria mais ficar sozinho, mas porque finalmente teria uma maneira de se vingar dos barbarians. A vontade dele de acabar com os barbarians, é ainda maior que seu medo.

— Eu entendo o quão importante isso é para ele. — Tobias a interrompeu — Mas de nada vai adiantar se ele morrer.
Descemos as escadas até o galpão a baixo da igreja. No último degrau, escutamos um estrondo pavoroso. Algo parecia desmoronar. O chão tremeu. Corremos, adentramos mais ainda o andar de baixo. Logo de início, ao horizonte, encontramos uma silhueta sentada ao chão, manchada de vermelho dos pés a cabeça. No chão, ao redor dela, vimos uma massa meio amarelada, parecendo um tapete de caramelo. A pessoa estava próxima a quina de uma outra sala, a sala de origem dos tremores e do som de desmoronamento. A pessoa no chão era Haaka e a massa amarela ao lado dele eram, na verdade, um emaranhado com centenas de escorpiões.

Paramos há uns cinco ou seis passos de distância. Víamos os escorpiões andarem sobre sua pele e entrarem em suas vestes. Alguns estavam na sua cabeça, outros de baixo do braço, nas axilas e no pescoço. Notei Eliz se estremecer, perplexa.

— Ele está vivo. — Tobias disse. — Se a pessoa que está nessa sala for quem eu estou pensando, esses escorpiões não devem nos atacar.

— E se não for? — Áquila contestou.

—  Com certeza é. Mas se não for, vamos agoniadamente morrer.

Tobias tomou coragem e nos levou juntos em seguida. Com passos de bailarina, passamos por eles. Nenhum nos atacou. Um, que estava no teto, caiu na cabeça de Áquila, que se desesperou e o arremessou longe. Chegamos para enfim ver a sala da balbúrdia.

— Sim, realmente — Tobias concordou — É o senhor Sélquis. — o homem que o professor olhava era um gigante, o Colosso de Rodes. Além de quase ser da altura do teto do galpão — que por sinal não era nem um pouco baixo — seu peitoral desnudo parecia um escudo de guerra inglês. Os músculos nos braços certamente eram maiores que minhas mãos. Vi uma escápula bem desenhada no breve momento que esteve de costas, quando se virou para nos ver. As lamparinas amarelas reluziram com contraste seu corpo escuro como uma estatua de bronze. Então vi a origem dos escorpiões. O calção amarelo que vestia, que na verdade não era um calção, eram escorpiões.

— Tobias? O que está fazendo aqui? — a voz era estranhamente fina. Não, não chegava a ser feminina, mas para alguém tão grande como ele, parecia irônico.

— Esse aluno é seu?

— Peço perdão senhor Sélquis.

— O correto é senhor “DOM” Sélquis, Tobias. SE um dia você chegar a ser forte como eu. — ele pausou — Talvez entenda o quão sério uma falta de compostura dessas é, além do quão decepcionado isso me deixa. — me soou levemente familiar.

— Desculpas, senhor dom Sélquis.

— O que fazem aqui? Não estão vendo que estou ocupado? — então olhamos para um corpo que estava caído a frente dele. Era animalesco, parecia um cervo gigante deformado. Um barbarian, com certeza. — Seu aluno teve sorte, um segundo a mais que eu demorasse para chegar, e estaria trucidado.

— O que houve, senhor dom Sélquis? O que esse barbarian faz aqui? Ele é o responsável pelos ataques na cidade? — Áquila não teve pudor em perguntar.

O senhor dom fechou o rosto. Levantou as sobrancelhas, tinha um olhar de superioridade.

— Por que eu contaria sobre uma missão classe Alfa para um pirralho? — ele riu sem humor. Tobias repreendeu Áquila pela pergunta. — Mas já que você me chamou de senhor dom Sélquis logo de início, vou te dar o prazer em saber. — ele chutou o barbarian que estava virado na direção oposta a nós, para que pudéssemos o ver. — Esse carinha aqui era um capacho de Salieri. Essa igreja possui catacumbas gigantescas. Nelas eu matei centenas dessas criaturas, e outras com uma cabeça de fogo. Provavelmente algum deles escapou daqui e foi até a cidade. Aqui é uma base de Salieri.

— Salieri... — perdi os olhos nas paredes.

— Infelizmente ele não está mais aqui. Mas pela força que deixou, duvido que quisesse que alguém entrasse.

Os três permaneceram ali na sala mais um pouco. Eu me retirei para ver como Haaka estava. Eliz estava com ele. Ela espantou os escorpiões que andavam por seu corpo e verificou o pulso. Ele estava bem, apenas desacordado – me garantiu. Por fim, ela se levantou e disse que comunicaria o professor sobre o estado dele. Eu, por outro lado, permaneci ali e aproveitei para o observar melhor. Pude encontrar algumas contusões na cabeça e nos cotovelos, mas não pareciam sérias. Logo, ali no corredor das catacumbas da igreja, um ruído roubou minha atenção presa em Haaka.

Era o som de um tambor, de uma batida em madeira. Fui até ele. Andei uns doze ou treze passos. Pude ver os barbarians que o senhor dom matou ao longo do caminho. Vi mais escorpiões e mais sangue. Mas o corredor chegou ao fim e o ruído, não cessou. Seguia vindo de trás da parede. Dei três socos na parede. Era oca como um barril. Finalmente, a chutei e ela desmoronou. Encontrei uma sala diferente, com paredes azuladas e lamparinas que brilhavam neste mesmo tom. O azul chegava a dar náuseas. Vi prateleiras repletas de livros, vi, ao fundo, em cima de uma mesa, potes de vidro repletos de um líquido púrpura esquisito. Perto deles, caixotes de madeira de todos os tamanhos. O som de batida novamente irrompeu. Dei um pulo para trás no susto, então encontrei o caixote de origem. Era largo, mas baixo. Na verdade lembrava mais um caixão do que um simples caixote. Alguns dizem que é ridículo e louco, mas, por algum motivo, não senti qualquer ameaça que pudesse se conter dentro dele. Por isso o abri.

Foi quando vi Salieri.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top