Vinte e Oito
“Se quiser descobrir os verdadeiros sentimentos de um homem, veja como estão suas mãos.” Lembro-me que meu pai me disse isso certa vez, enquanto eu lhe fazia companhia em seu escritório, ele com papéis sob a mesa e uma pena na mão, e eu com algum conto inglês cujo nome não vou me recordar. Desde então, ele mergulhou-me com as mais específicas e notórias artes do vocabulário de gestos e expressões faciais. Foram horas de explicações que, para uma criança normal, seriam monótonas e angustiantes, contudo, para alguém que nunca chegou perto da definição de “criança normal”, aquilo não chegou a ser um problema.
Me lembrei dele quando vi tio George se aproximar na companhia do imperador, ali no convés do navio. Ele tinha o mesmo rosto, a mesma expressão de sempre. A aura de alguém sábio, de um senhor dotado em conhecimento e nos bons modos. O famoso Barão de Paraty, outrora título de meu pai. Quem o visse, veria alguém para se respeitar, para se abaixar a cabeça e não olhar nos olhos. Mas eu vi suas mãos, e suas mãos se entrelaçavam incontrolavelmente. Tio George estava nervoso, estava intimidado.
Primeiro, o imperador, a imperatriz Tereza Cristina e meu tio George cumprimentaram os membros de outras Comunas, que os aguardavam em fila horizontal ali ao nosso lado. Apertos de mão e reverências seguiram-se umas atrás da outra. Por fim, chegou a nossa vez. Primeiro, vossa majestade cumprimentou o professor Tobias, que tirou a cartola e lhe estendeu uma singela e desengonçada reverência. Vi os olhos do professor piscarem incessantemente, como se tivesse passado por uma tempestade de areia. Sua voz falhou em um ou dois momentos. “O prazer é inteiramente meu em fazer parte deste trabalho ao vosso lado, senhor” — ele disse ao imperador, que retribuiu-lhe um sorriso-real silencioso. Logo, chegou a minha vez.
O imperador pareceu levar um susto ao me ver. Seus olhos se abriram e sua boca, irreverentemente, não fechou. Fiquei assustado. Fiz alguma coisa de errado? Olhei para o chão, será que pisei em seus pés?
— O senhor! — ele disse — O senhor é o rapaz daquela tarde no teatro. O que salvou nossas vidas. O jovem garoto Franz, não estou certo? — eu acenei com a cabeça.
— Sim, de fato. — e fiz uma reverência. Também fiz a sua esposa ao lado. — É um prazer encontrá-lo vossa majestade, e também a sua alteza imperial.
— Saiba que o prazer é todo meu. Pedi para que convocassem-lhe pessoalmente e fico imensamente feliz que tenha aceitado o convite.
— Seria uma grave descortesia de minha parte fazer o contrário.
O imperador curvou levemente o rosto ao meu Tio George e disse-lhe, com um sorriso satisfeito.
— Este é o rapaz de quem lhe falei. O que salvou a minha vida e a vida de metade das pessoas que estavam no Theatro. E o senhor só tem o quê? Treze anos?
— Sim, vossa majestade. — depois olhei para tio George, que fugiu o rosto de mim.
— Ainda desejo conversar muito com o senhor, senhor... — sua língua se enroscou — a propósito, agora percebo que ainda não me concedeu a honra do seu sobrenome.
— Perdão, vossa majestade. — encarei novamente tio George. O olhava de canto e desta vez ele não correu o rosto de mim como um esquilo assustado. Tio George sorria sutilmente e, neste sorriso sem graça e desajeitado, havia um pedido. Eu sabia exatamente qual era e partilhava deste mesmo desejo. — Mas creio que para alguém indistinto e sem relevância como eu, chamar senão pelo nome próprio seja o mais cabível. — não sei quais eram os motivos que levaram tio George a não querer que o imperador soubesse de nosso parentesco, de qualquer forma o que realmente importava eram os meus motivos. Não estava na hora, não enquanto eu continuasse sendo um garoto de treze anos indistinto e sem relevância, de fato.
— Se é assim que deseja, senhor Franz. — ele sorriu e foi cumprimentar os demais.
Lembrei-me do que o senhor Dom Sélquis disse-me no dia em que pegamos carruagem até Petrópolis para o encontro com o conselho. “É melhor não contar a mais ninguém sua história”, foram suas palavras, curtas e incisivas. Mais tarde, naquele dia, ele prosseguiu: “A classe latifundiária deste país é perigosa, não, pior, é poderosa. Se quiseram, podem até mesmo derrubar o imperador. Seu Tio George, como um alto representante desta elite, com certeza tem amigos poderosos assim. Você, assim como qualquer coisa que fizer, jamais terá a chance de prosperar se souberem onde está ou o que está tentando fazer. Seja invisível, garoto. Não seja ninguém. Seja o que treinou para ser aqui em Cartago, um espião.”
Eu refleti nisso nestes últimos dias e isso me levou a uma conclusão: O que fizeram em Sorocaba não foi nada, afinal de contas. O quão difícil seria conseguir comprar um juiz, testemunhas ou até mesmo o clero? Mas me peguei tentando descobrir qual a propina que foi paga por tudo aquilo? No final era tudo negócio. Para vencê-los eu precisava me tornar um deles, e iria me tornar. Não no sentido de me entregar a corrupção, não, isso tinha o meu mais profundo desprezo. Mas seria magnânimo, influente e poderoso, muito poderoso, tendo o tipo de poder que traria mais medo que qualquer luva de outono, tendo muito dinheiro. Mas agora, era tempo de eu ser simplesmente ninguém.
Tio George cumprimentou Tobias e então, estendeu-me sua mão áspera e manchada pelo tempo. Eu lhe respondi.
— Não sei se posso dizer que é um prazer vê-lo por aqui, Franz. — disse-me, quase sussurrando.
Eu levantei um largo e gentil sorriso falso.
— Saiba que é inteiramente recíproco, meu tio.
— Perdão Franz, mas é porque não esperava vê-lo trabalhando com este tipo de gente. — ele olhou para o lado e alvoroçou-se em notar o imperador tão adiantado nos cumprimentos — conversamos depois, sim? — deixou-me e seguiu apertando as mãos dos outros.
Suspirei, como se uma pedra enorme tivesse saído de minhas costas. Senti o professor massagear meu ombro em conforto.
— Vamos? — ele disse. Naquela altura o imperador já havia se retirado do convés — Temos que cumprimentar os demais companheiros das outras comunas.
Segui o professor. Primeiro nos encontramos com um homem corcunda, que deveria ter a idade do professor e, com ele, uma jovem garota da minha idade. Era a Comuna de Troia.
De início, não conversei muito com eles, Tobias quem desenrolou algum diálogo. Notei que os dois usavam um anel no indicador. Logo entendi que deveria ser dali que o poder deles vinha. De Cartago vinha das nossas luvas, de Alexandria, dos braceletes e de Troia, aparentemente do anel. “O Poder do Amor”, o professor me contou mais tarde.
Amor... Aquela garota, aliás, era assustadoramente linda. Chamava-se Liliana. Talvez, por um instante, este tenha sido o único sentimento que me ocorreu. Seus cabelos eram amarronzados e elegantemente encaracolados. Ela tinha uma pele delicada e corada nas bochechas como uma boneca de porcelana. Minha filosofia é a de que a beleza é uma das coisas que menos possui relevância para servir como qualidades de uma mulher, mas entrei numa irremediável contradição naquele instante e, por um rápido fluxo de tempo, senti-me seriamente tentado a pedir sua mão em casamento. Ela virou-se para mim e levei um susto. Sorri, cheio de vergonha. De repente, uma sombra vinda do sol roubou minha atenção de seus olhos esverdeados. Um papagaio. Este, pousou direto em seu ombro.
— Ele é seu? — tomei coragem para perguntar.
— Ah não. Eu diria que ele é livre e está comigo porque quer. Mas eu que cuido dele.
— Então teoricamente ele é seu. — conclui e sorri.
“Você é idiota por acaso?” — uma voz ardida e impertinente surgiu do pássaro. “Não escutou quando ela disse que eu sou um pássaro livre?”
— Que bruxaria é essa?! — dei um passo para trás.
— Por favor, se acalme! — ela disse a mim. Depois, voltou-se a ave — Nico! Precisava assustar ele assim?
“Ué, não estamos entre comunas? Duvido que essa seja a coisa mais estranha que esse pirralho já tenha visto”
— O papagaio fala... — balbuciei. — Que incrível! — voltei a me aproximar dele.
O loro estreitou os olhos, parecia ter se irritado.
“E que raios de papagaio que não fala, pirralho?”
— Mas você conversa igual uma pessoa. Como isso é possível? Isso faz parte do seu poder? — ela concordou com a cabeça — Fantástico!
“Ótimo, ganhei um fã.”
Depois, escutei o professor Tobias vociferar por meu nome. Ele estava saudando outras pessoas e chamou-me para me apresentar.
— Perdão, mas tenho que ir. Foi um prazer, senhorita Liliana e... Nico, certo?
Ela fez uma reverência respeitosa e prosseguiu:
— O prazer é inteiramente meu, Franz.
“Tá bom, vaza daqui pirralho” — acenei e fui.
— Franz! — o professor Tobias ansiava minha chegada, frenético — Quero que conheça a senhorita Ada. — levantei o rosto e vi uma moça magricela, esguia, tinha a idade do professor, provavelmente. Tirei meu chapéu em cumprimento.
— É um prazer! — ela iniciou — Soube o que fez pelo imperador, lá no theatro. Quem diria que o primeiro aluno de Tobias seria alguém tão impressionante. Tobias que sempre foi tão estabanado e inseguro.
— Estabanado tudo bem. — ele riu — Mas inseguro? Eu sempre tomava a liderança nas missões.
— Espera — os interrompi — vocês já trabalharam juntos?
— Sim — ela balançou a cabeça. Tinha um olhar marejado e reflexivo — Já faz tanto tempo, não é? — depois entregou suas irises castanhas ao professor.
— Há quase oito anos. Nossa última missão foi ao mar, na ilha das cobras. No inverno de 1868. Você, o Afonso, eu, três adolescentes estúpidos brigando para ver quem impressionava mais. No final, o barbarian daquela ilha era muito mais assustador do que imaginávamos.
— Foi quando você ascendeu para a classe beta, não foi? — ela questionou.
— Sim, foi mesmo. — quase senti a nostalgia no olhar que entregavam um ao outro, mas veio um silêncio em seguida e me senti constrangido.
— Enfim — tomei a palavra — no caso, qual seria a Comuna que a senhorita pertence, senhorita Ada? — primeiro ela levantou uma sobrancelha, depois, a mão esquerda. Não demorei para ver o bracelete. Sim, Alexandria.
Ela percebeu minha rápida mudança de expressão.
— Eu entendo porque se sinta assim. Eu também soube que seu primeiro contato com Alexandria não foi lá, dos melhores. Mas nem todos de Alexandria são como Claudius, o troglodita que encontrou no theatro, ou o senhor Kenichi que encontrou na Igreja. Parte da Comuna de Alexandria partilha do mesmo desejo de Cartago, proteger as pessoas dos barbarians. — era estranho pensar em alguém bom, vindo de Alexandria. Quando se valoriza o desprezo acima de qualquer coisa, minha crença é que os principais valores de alguém acabam sendo invertidos, por mais que até para mim seja, de fato, tentador se entregar ao desprezo. Mas Alexandria possuía uma aura, uma espécie de solenidade amarga em seu âmago, sim, algo que não me fazia crer que poderiam ser pessoas a se confiar num todo. Mas então o que aquela moça era?
— Perdão senhorita — iniciei — de fato, meu contato com Alexandria não foi dos melhores. Mas de modo algum quis ofendê-la com minhas próprias opiniões. Estamos todos trabalhando juntos hoje, no final das contas.
Nisso, vindo das minhas costas, escutei uma voz desagradavelmente familiar e insolente.
— Não se preocupe, não nos importamos com a sua opinião. — virei o rosto, vi aquele garoto, o mesmo do theatro. O rapaz de cabelos dourados e sorriso atrevido.
— Pelo visto é sua vocação escutar a conversa dos outros na surdina, não é mesmo? Já te entregaram sua licença de fuxiqueiro?
— Franz! — o professor Tobias me repreendeu.
A senhorita de Alexandria fez o mesmo para com o outro rapaz. E então descobri seu nome: Martin.
— Trabalharemos juntos a partir de agora — ela disse — Ou seja, a vida de um estará nas mãos do outro, por isso é melhor aprenderem a se respeitar e se darem bem.
Cumprimentamo-nos sem a menor vontade. Quis apertar sua mão o mais forte possível para rir de sua cara depois. Ele aparentemente teve a mesma ideia e assim, tivemos um forte aperto de mão. Recebemos outra bronca. Já eu, mais tarde, um puxão de orelha.
Finalmente, depois de mais uma ou duas saudações por ali, senti meu corpo estremecer. O navio zarpou.
Alguns tripulantes correram para a borda do convés. Acenavam e gritavam despedidas para quem estivesse no porto. Logo, escutei Tobias bradar-me, ele estava junto a eles e sem demora também me uni a confraternização. Piatã, Elizabeth, Áquila e Apolo se puseram ao meu lado e fizeram o mesmo. Sorrimos ao ver os demais calouros por lá. Núbia estendia o braço e gritava sem medo algum de chamar a atenção. Rui, o português, balançava a única mão sem muita empolgação, mas sabia que esse era o jeito dele. Haaka mantinha o rosto fechado e estava quieto, parecia incomodado de ter que estar lá. Nossas faces se encontraram num singelo momento e então, ele ergueu o canto do lábio e balbuciou alguma coisa que não consegui compreender, mas suspeito que seja algo sobre matar aqueles barbarians desgraçados! Haniel também estava no porto, em cima de um poste mais precisamente e assustadoramente falando. Sombrio e misterioso como sempre, o garoto fantasma fez algum gesto esquisito e depois acenou. Vi também os professores Handel e Hamicota. Handel estava distraído conversando com uma moça, suspeito que tentando arrancar uma noite dela. Hamicota tirou a cartola e nos fez uma reverência respeitosa. Nisto, escutei um fungar, até um soluço ao pé de meu ouvido. Curvei o pescoço ao lado e vi os olhos do professor Tobias se encharcarem. Ele percebeu que estava sendo observado e não demorou em seu justificar:
— É que eu detesto despedidas. — ele não chorava, pelo menos parecia fazer uma força gigantesca para isso. Mas o professor sempre foi tão emotivo assim?
Com isso, como um risco borrado sob o horizonte, nossos colegas que tanto amávamos nos deixavam debaixo de um crepúsculo alaranjado e, acima de uma estrada azul cintilante.
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