Vinte e Dois
O que vi se levantar do caixote, foi uma pele pálida como um vampiro banhado em pó de arroz. A cor vibrante de seus olhos me levava ao alto mar. Tinha cabelos curtos, cinzentos. De fato, meu olho via o Salieri que encontrei na temível floresta onde descobri o pior que um barbarian tinha a oferecer. Mas, mesmo caindo ao chão assustado por encontrar seu rosto, mesmo depois do grito que escapou da minha boca e do pânico que tremeu meu corpo por encontra-lo bem ali na minha frente, eu sabia, aquele garoto não era Salieri.
Ele não disse nada, apenas permaneceu me encarando perplexo, sem se mexer ou piscar. Tinha uma expressão inocente, despretensiosa. Eu, por outro lado, ainda tremia. Por que eu estava nervoso? Ele não era Salieri de verdade. Não era. Lembrei-me do que Áquila disse, o verdadeiro Salieri nem mesmo estava na floresta. O rapaz deveria ter sido só mais um de seus fantoches.
— Peço desculpas. — tentei me levantar. Me esforcei para continuar falando, mas a voz falhou. Até que finalmente consegui: — Sei que não me conhece, mas, quem é você?
Ele abaixou o rosto. Encarou incisivamente sua mão e escutei sua voz. Aquela voz que ainda me atormentava em pesadelos.
— Eu... Eu não sei. — estranhamente não era mais uma voz ameaçadora. Era serena, baixa e singela. Com isso, finalmente baixei a guarda e me acalmei.
— Você se lembra como veio parar aqui? — ele negou com a cabeça — Salieri te trouxe aqui? — a simples menção desse nome arregalou seus olhos. O vi se estremecer e gemer baixinho. Ele apertou seus cabelos platinados.
— Peço perdão. — me aproximei dele com passos lentos — Eu me chamo Franz Silvertoch, descendente de uma casa milenar de guerreiros Anglos da Mércia.
— Franz Silvertoch... — ele balbuciou lentamente meu nome como se fosse a primeira coisa que estivesse escutando.
— Isso. E qual o seu nome? — Seus olhos pareciam se perder na escuridão. O silêncio que ele me entregou era massivo e levemente angustiante. Até enfim o rapaz negar com a cabeça. — Tudo bem. — tentei o acalmar — Tudo deve ser esclarecido em breve. — Vendo-o agora, mais de perto, ele não deveria ser tão mais velho quanto Rui ou Haaka. A escuridão trazida pelas nuvens densas repousadas ao céu da floresta naquele dia, me escondeu isso.
— Você me salvou. — escutei sua voz e fiquei perplexo, agora não tão baixa quanto antes. — Você me salvou — repetiu —, por isso devo-lhe a minha vida, senhor Silvertoch.
— Não — gaguejei com a palavra seguinte, me esforcei para entender o que queria dizer. — Não me agradeça, e nem me chame por senhor. Você deve ser mais velho do que eu. Quantos anos você tem? Talvez quinze, ou dezesseis?
— Eu... — ele abaixou o rosto mais uma vez, tristonho como um cachorro doente. — Não tenho certeza. — depois , escutamos passos de fora da sala. Logo apareceram o professor Tobias, o classe alfa, Áquila e Eliz que carregava nos ombros, Haaka. O rapaz ao meu lado imediatamente ficou em posição defensiva. Estendi a mão a sua frente para o acalmar e impedir de qualquer coisa.
— Calma — disse a ele —, eles são meus amigos.
— O que é isso, Franz? — o professor Tobias perguntou.
— Ele estava na floresta. — bastou dizer isso para o professor entender. Seria desnecessário entrar em mais detalhes com aquele rapaz estando bem ao meu lado.
— O que vamos fazer com ele, professor? — Áquila questionou.
— Boa pergunta — o professor sorriu sem empolgação.
— Vamos levá-lo a comuna. — o classe Alfa dom Sélquis, ordenou.
O rapaz ao meu lado fugiu seu olhar aflito até mim.
— Não se preocupe, você tá seguro agora.
— Quero ficar ao seu lado, senhor Silvertoch. — seu tom estava firme. — ficarei ao seu lado e serei sua espada! — fiquei estarrecido. O que eu deveria dizer para isso?
— Depois veremos isso — disse o professor Tobias —, primeiro, vamos deixar o classe alfa investigar o local, não precisamos mais ficar aqui.
— Não! — o rapaz exclamou. Depois me encarou penetrantemente — Não sairei daqui enquanto não me prometer, senhor, que me deixará servi-lo. Esse é o preço da minha vida, por me ter salvado. — eu, por outro lado, fugi minhas irises dele.
Todos ficaram em silêncio, aguardando alguma reação minha. Oras, por que raios eu tinha que ser o primeiro a falar alguma coisa? Não me coloquei naquela situação por que quis. Finalmente, voltei a encontrar seus olhos. Ele parecia decidido. Se é isso que ele quer, que seja então.
— Tudo bem. — admiti suspirando — Sinceramente, não sei o que isso significa. Mas, já que quer ficar ao meu lado, não posso impedí-lo. — vi sua expressão fechada se abrir. Ele balançou a cabeça positivamente. — por favor — prossegui — poderia me acompanhar até a comuna? — ele concordou.
Nós subimos até a igreja e deixamos o classe alfa lá em baixo para investigar a sala nova que encontrei. Graças a isso, ele disse que nos daria um relatório positivo para a senhora Rhodes sobre nossa interferência na missão. Em outras ocasiões, todos nós provavelmente sofreríamos alguma séria punição por isso. O único caso que ficou pendente foi de Haaka. A insubordinação dele poderia levá-lo a ser expulso da comuna. Falando nele, esse idiota permanecia desacordado. Tobias disse que ele só sobreviveu porque os escorpiões do senhor dom Sélquis o protegeu. Aqueles escorpiões também tinham algum tipo de poder de regeneração. Dado a isso, seus ferimentos não foram graves.
Chegamos até o primeiro andar, na igreja velha. Ali, nos esperando, encontramos sombras e, delas, silhuetas. Eram três. Até que levantei o olho. A comuna de Alexandria. Estavam ali a moça com o guarda-chuva, o rapaz elegante quieto e mais um homem, esguio e com um rosto reto parecendo um alho-poró. Tobias deu um passo a frente. O rapaz antes ao meu lado, fez o mesmo.
— Para a vossa surpresa — iniciou o professor — Já esperava vocês por aqui.
O senhor com a cabeça em formato de alho-poró apertou os olhos, desconfiado. A moça abaixou seu guarda-chuva.
— Seja como for, o futuro de vocês aberrações acaba aqui. — ela pausou — Mas teremos piedade se nos entregarem a aberraçãozinha de cabelo prateado.
— Então é por isso que estão aqui? — exclamei. — Pode apostar que não! Retirem-se!
— Não seja tão impetuoso. — ela levantou o queixo — Terei prazer em te despedaçar primeiro.
— Você ainda não entendeu. — agora escutei a voz de Tobias — Eu disse que já esperava vocês por aqui. — as trevas de Tobias cobriram, num piscar de olhos, toda a igreja, do chão ao teto. — Sabe porque as pessoas tem medo do escuro? Porque no escuro, nunca se sabe o que está bem ao seu lado, te observando. — Seu corpo se escureceu e ele se misturou a escuridão.
— Não seja patético, aberração. — A moça com o guarda-chuva estendeu a mão. Provavelmente desprenderia o mesmo ataque que deu naquela minha visão.
— Cuidado! — o senhor alho-poró empurrou-a para o lado. Ele levou o golpe de Tobias. Uma lâmina escura como as trevas perfurou seu ombro direito.
— Por que seus poderes não estão sendo anulados? — o rapaz elegante reclamou com os dentes cerrados.
— Vocês são idiotas? — a voz de Tobias pairou como um eco — Eu disse que já esperava vocês por aqui.
— É essa massa escura que tá me impedindo de bloquear seus poderes? — ele questionou. Quando menos se deu conta, uma flecha completamente feita de fogo acertou seu peito. Olhei e vi Áquila segurar um arco flamejante. Áquila transformou esse arco num porrete de fogo e correu até o rapaz. O professor Tobias lançou espinhos escuros sob o homem esguio.
A moça com o guarda-chuva caminhou até onde eu estava. Seu olhar era insípido e perfurante. O rapaz ao meu lado deu um passo a minha frente, segurei seu braço.
— Sei que tem boas intenções, só que como eu já te disse, eu sou Franz Silvertoch, descendente e herdeiro direto da milenar casa Silverock de earldormans do antigo Reino da Mércia, também sou um membro classe delta da Comuna de Cartago, não posso dar pra trás numa batalha. Além do que, eu tenho contas a acertar com essa aí. Ela vai pagar por me fazer ver aquela cena horrenda.
— Detesto quando aberrações como você fazem chilique, achando que terão alguma chance.
Ignorei o que ela disse. Virei para o rapaz a minha frente e prossegui o que dizia:
— Por favor, deixe comigo. — ele se pôs então ao meu lado.
— Então deixe-me lutar junto a você. — concordei com a cabeça.
Ao mesmo instante que a moça estendeu o braço, arremessei uma adaga. Esta, estocou em sua mão. Ela gritou, depois arrancou a adaga, furiosa. Ela estendeu o outro braço, saltei para o lado. Pelo o que Tobias disse, ela deveria manipular os membros das pessoas com algum tipo de linha, ou fio invisível. Desde que não me atingisse, não haveria problema. Num estalo, vi o garoto platinado atrás dela. Ele encostou gentilmente suas mãos nas costas da moça e algum tipo de repulsão magnética a arremessou. Era igualzinho o poder que me lembrava ter visto na floresta. Salieri, além de tornar as pessoas suas marionetes, copiava seus poderes.
A moça apertou os dentes.
— Malditos, como ousam encostar esses dedos imundos em mim? — não perdi tempo e segui arremessando mais adagas. Suas vestes foram fatiadas como seriam por navalhas e desenhei arranhões e feridas, de seus braços a cabeça. Ela estendeu imediatamente as duas mãos de uma vez, numa ofensiva. Pulei para fugir, contudo algum tipo de força me arremessou de volta ao chão. Não conseguia mexer minha perna esquerda. A vi sorrindo. Ela conseguiu me enlaçar.
Tentei lançar mais adagas, porém, logo senti minha mão ficar presa. Era como se os fios invisíveis presos em minha perna subissem pelo resto de meu corpo, me amarrando completamente. O rapaz platinado gritou meu nome e correu até ela. Tentou usar sua repulsão mais uma vez, porém, ela me moveu para frente dele e eu que fui repelido. Bati as costas numa das paredes da igreja coberta pelas trevas de Tobias. Escutei um estalo dentro de mim, deveria ter quebrado algum osso. Levantei o rosto e vi o rapaz constantemente tentando a atacar, mas não a acertava. Depois, ele também acabou sendo enlaçado. Ela levantou o queixo orgulhosa.
— Chegou a isso então? Eu disse que seus esforços eram inúteis. — subitamente ela levou uma cotovelada violenta na nuca. A moça caiu no chão. Pude ver o rosto carrancudo de Eliz, de pé.
— Vocês são uns frangotes mesmo. É o máximo que conseguem fazer? — virei o rosto ao lado e vi que ela tinha deixado Haaka repousado ao canto. Suspirei em alívio, provavelmente teríamos morrido.
A moça de guarda-chuva se esforçou para levantar. Claramente estava zonza.
— Uma mulher? — ela questionou a si mesmo — Eu detesto aberrações e detesto mais ainda quando mulheres ficam ao lado delas.
As duas iniciaram um combate corporal. A moça, que teve o azar de enfrentar a marombada da Eliz, não conseguiu desferir um único soco. Quase fiquei com pena quando vi Eliz acertar seu estômago, sua virilha, suas pernas e seus braços. Escutei estalos de ossos sendo quebrados e vi o chão tingir-se de vermelho pelo sangue que saía de seu nariz. No final, tudo que a moça com o guarda-chuva vermelho conseguiu, foi feri-la com um arranhão no braço. Mas algo não me cheirava bem nessa luta. E isso ficou claro em seguida.
Imediatamente, Eliz ficou paralisada. A outra riu.
— A minha maior fraqueza é o combate corpo a corpo. – disse ela — E você foi estúpida o suficiente para imaginar que minha guarda estaria baixa.
Eliz parecia fraca, e não, ela não parecia estar enlaçada como nós. Vi suor brilhar em sua testa e passar a tremer como alguém doente.
— A Toxina Coxbrie. Paralisa os membros e destrói os órgãos internos pouco a pouco, causando uma lenta e dolorosa hemorragia. — Eliz cambaleou para os lados, vomitou. Meu coração apertou em vê-la gritar logo em seguida.
— Como você... — Eliz vomitou novamente — Estava nas suas unhas, né? Foi quando me arranhou.
— Me impressiona que conseguiu descobrir. Sabe, eu até tenho um antídoto aqui, mas não te do-ou — ela riu baixinho.
— Espera! — chamei sua atenção — por quê? Por que está fazendo isso com ela? Não são os homens que você despreza? — vi Eliz ficar confusa com tal afirmação. — o poder da Comuna de Alexandria vem do desprezo, não é? E por tudo o que você já disse, está claro que você despreza os homens. Por que está fazendo isso com ela então?
O sorriso na moça com o guarda-chuva se desmanchou.
— Mulheres que protegem aberrações nojentas e desprezíveis como os homens, merecem nada senão o destino deles.
Escutei um rosnado vindo de Eliz.
— É melhor fechar sua boca, vadiazinha. — Eliz apertou a voz, ainda que um pouco desorientada — Não ouse generalizar seu conceito de merda. — a vi olhando para trás, para Haaka, por um minuto — mesmo que existam homens ruins nesse mundo, ainda existe aqueles que irão se levantar para dar de tudo pelas pessoas importantes para eles.
— Não vem com essa conversa. Não existe homens bons! Todos são animais desequilibrados. Até mesmo essa pessoa aí atrás, que você fica olhando toda hora. É seu namoradinho por acaso? Ou algum parente? De qualquer forma, se ele não é agora, uma hora ele se tornará um monstro para outras mulheres. Um assassino cruel, como todos os outros homens. Por isso, matarei quantos eu puder, para que eu não seja uma futura vítima deles.
— Neste caso, se quer tanto assim não morrer nas mãos de homens, te darei o prazer de morrer nas minhas mãos. — Eliz com sua força avassaladora, apertou os pés sobre o chão, levantou o braço bom e o amassou na barriga da moça com o guarda-chuva. A moça desfaleceu ao chão, deitada sob o próprio sangue.
Eliz abaixou a mão lentamente até o pescoço da moça.
— Não a mate! — exclamei. — Tobias pediu isso. Ele disse que não precisamos chegar ao nível deles.
— Não farei isso. — ela me encarou séria. Por fim, de baixo de um compartimento na gola, pegou o antídoto e o tomou num gole — Até porque, como Haaka disse, são os barbarians nossos inimigos, não eles.
Em poucos minutos seus sintomas começaram a melhorar. Embora o olhar fundo e cansado permanecesse.
— Eu não sei pelo o que ela passou — quando consegui me desprender dos fios, caminhei até o corpo desacordado — mas deve ter sido algo terrível, para ela odiar tanto assim os homens.
— Há pessoas muito cruéis neste mundo, Franz. Se não fosse por Haaka — Eliz refletiu, encarando o frasco do antídoto, agora vazio. Depois o jogou no chão, onde se estilhaçou — E por vocês, membros da comuna, provavelmente eu pensaria o mesmo que ela.
— Mas uma coisa eu ainda não entendi. — passei e ponderei por um momento — Tipo, o que o poder dela tem a ver com seu desprezo?
— Talvez seja um poder que só manipule os homens, não é a toa que ela não o usou em mim. — fazia sentido. Acolhi tal explicação.
Ajudei o rapaz dos cabelos platinados a se levantar. Seu rosto estava fechado, deveria estar decepcionado.
— Eu prometi ser sua espada — disse ele — Mas não consegui fazer muito para te ajudar.
— Não esquenta com isso. Só pelo fato de você estar aqui e lutar ao meu lado, já faz toda a diferença. — vi seus olhos brilharem.
Virando o rosto para o lado, encontramos Áquila sentado em cima do corpo caído daquele garoto elegante de Alexandria. Ele não deveria ter tido muita dificuldade para o derrotar. Do nada, um estrondo chamou nossa atenção. O professor Tobias estava no chão e o vampiro esguio, de pé, imponente.
— Sabe como me chamam, Tobias? — vociferou — A hidra imbatível. As pessoas cogitam meu nome para ser o próximo farol da comuna. — Tobias mencionou mais cedo que farol era a designação do líder da comuna de Alexandria, equivalente a nossa Rhodes. — E sabe por quê? Nesses trinta anos, já fiz mais de dez mil missões, e nunca falhei numa única que seja. — silabou. Depois, ele levantou o braço para exibir seu bracelete prateado, e, ao centro dele, a inscrição beta.
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