Vinte e Cinco

Dizem que, certa vez, entre as nuvens atrozes de um dia soturno e pálido, a Terra se estremeceu com uma batalha travada as margens de um rio. Uma batalha de arrancar os pedaços até de quem a presenciasse. Hórus e Seth batalhavam ferozes pelo trono, uma batalha que não parecia ter fim, uma batalha a ser lembrada por gerações. Por algum motivo, não achei que essa lembrança me ocorreu por acaso. É claro, eu sabia que ali, debaixo da cúpula azulada do Theatro Imperial, não eram Hórus e Seth quem via se estranhando, mas certamente eram deuses.

Passou alguns minutos e eu já começava a entender sobre o que os dois conversavam. O senhor Tristan questionava o classe alfa de Alexandria sobre o motivo de ele estar presente no congresso. Aparentemente, Claudius nem mesmo havia sido convidado.

Claudius não disse nada. Depois virou o rosto para mim.

— Qual a utilidade de um agente que não consegue se defender sozinho? Eu iria lutar com ele, sabia? E você interrompeu. Ei garoto! Você vai lutar comigo, tá? — ele gritou para mim.

Tristan me encarou de relance, depois voltou a falar com Claudius:

— Ele é um garoto que não deve ter a metade da sua idade, não deve ter a metade do seu poder, a metade da sua força. — não me senti ofendido, mas parecia que, de repente todo mundo me olhava com pena — Não é questão de não saber se defender sozinho e você não é tão estúpido assim pra não perceber isso. — a última frase levantou um sorriso sutil, de canto de boca, em Claudius. — eu conheço pessoas como você — Tristan prosseguiu — que adoram a violência, que adoram o cheiro de sangue, de suor e os gritos de angústia de uma pessoa sofrendo. E eu simplesmente não suporto isso. — ele pausou — É por isso que está hesitante em lutar contra mim. Afinal de contas, o único sangue que seria derramado, seria o seu.

Claudius permaneceu em silêncio. Nos encarou, Piatã e eu, por um instante, depois voltou o rosto ao Dragão Vermelho Tristan. Ele não mudou a expressão por um grau que fosse. Se a última frase o abalou de alguma forma, ele soube esconder muito bem.

— Talvez, de fato não seja uma má ideia lutar contra você. — ele riu sem humor algum, deixando todos nós ainda mais desconcertados — Acha que eu tenho medo de você? Ou de algum de vocês? A Comuna que foi arrasada na floresta de Ouro Preto. Pensaram que essa história não se espalhou por aí? Todo mundo sabe como o demônio Salieri humilhou vocês. — ele ficou sério de repente. — deveria ser crime uma comuna como a sua existir. Acha que vão criar agentes poderosos aceitando crianças magricelas, vindas de qualquer lugar, de qualquer jeito? Pretas, índias... Vão me atacar como? — dessa vez ele olhou para Piatã — Com uma lança? — e riu mais, depois encarou Tristan. — Os adultos então nem se fala. — pausou. Em seguida, deu dois passos até o Dragão. Ambos se encaravam muito próximos, olhos presos um no outro e queixos levantados. Claudius cutucou o peito de Tristan e disse, de uma forma bem mais antipática — Eu aceito seu desafio, Tristan Pendragon de Cartago.

“Ora, ora, ora, vamos nos acalmar por um momento, rapazes” — um elegante senhor irrompeu de supetão ali, no meio dos dois. “Não vamos estragar esse festão, com todo este estardalhaço, não é?” –  sua voz surpreendeu um pouco. Era afeminada de forma bem evidente e ele não aparentava querer esconder isso, ainda que beirasse fácil os setenta e poucos anos. Parecia até que ele gostava. “Nós todos fazemos parte de comunas e todos lutamos contra barbarians” — foi quando eu percebi que em seu pescoço, um lenço roxo se amarrava. Mas que raios? Verde significava que era de Cartago. Azul, de Alexandria. Por que diabos ninguém contou sobre quais eram as outras cores de lenço?! “Vamos cultivar o amor entre as comunas” — ele prosseguiu — “Sem o amor as engrenagens da vida não fazem sentido. Deixem o Love nos guiar! Repitam comigo: ‘O Love irá nos guiar!’”

Me inclinei até Piatã, não precisei dizer nada. Ele já leu meus pensamentos.

— Chamam ele de Dom Benedecto. Por incrível que pareça, ele é o Cavalo de Troia.

Dobrei a testa, balancei o rosto. Tá, e eu deveria saber o que isso significa?

— Ótimo, e isso quer dizer o quê? Que ele é um cafetão? — Piatã parecia não ter entendido a última palavra. Que bom para ele, a infância continua pura!

— Significa que ele é líder da Comuna de Troia. Nossa líder é chamada de “Rhodes”. O líder de Alexandria é chamado de “Farol”. E, o líder de Troia é chamado de “Cavalo”. — por um instante agradeci a qualquer santo que ainda gostasse de mim lá no céu, por Piatã ser tão bem informado. Informação era ouro entre comunas, Tobias não estava lá para me contar. Sem aquilo, poderia falar ou fazer a coisa errada.

Se aquele senhor era líder de uma comuna, deveria ser tão, ou até mais poderoso que os outros dois. Não a toa que nenhum deles ousou dizer qualquer coisa quando o viram. Só o senhor falava. Não sei dizer, mas tinha alguma coisa pairando entre nós, alguma força desconhecida, um poder incomensurável e, talvez aquele senhor esguio, com um jeito tão despretensioso, cartola engraçada e rosto alegre, fosse a origem. Eram espinhos debaixo de um tapete colorido. E, ninguém ali, debaixo das estruturas brancas e polidas do Theatro glamuroso e abraçado ao cheiro doce das velas de cera de abelha, atreveu-se a pisar nele. Por fim, Alexandria nos deixou em paz.

O senhor Tristan dirigiu-se a Dom Benedecto. O reverenciou, depois o cumprimentou.

— O agradeço, senhor — disse ele — Não era minha intenção lutar contra Alexandria, mesmo que, por ventura, estivéssemos caminhando para isso.

O “Cavalo” — por assim dizer —, da Comuna de Troia, sorriu glamurosamente.

— Que isso, meu querido. Vocês são jovens e jovens brigam o tempo todo. — ele olhou para cima. Começou a devanear — Ah, como me faz falta os anos que se passaram. As brigas e traquinagens que eu e meus companheiros fizemos nos palacetes que desbravamos por aí. Se eu te contar as Marias Antonietas que já conheci, você ficaria bege. Humhum.

Ainda sentia o coração disparar no peito, a angústia que aquele troglodita me causou permanecia fresca. Mas agora, sem Alexandria por perto e com um dos Dragões de Cartago há poucos metros da minha frente, a chance que eu esperava desde que cheguei ao Theatro estava há um suspiro e três passos! E assim eu fiz.

Antes mesmo de me apresentar a eles, Dom Benedecto tomou a palavra sem pudor algum. Sorriu, levantou as sobrancelhas e agarrou minhas mãos.

— É um prazer conhecê-lo, Franz! Não pensei que se tornaria um rapaz taaão forte!

Estiquei os lábios, num sorriso sem graça:

— Entendi... Eu por acaso conheço o senhor?

— Ah, perdão! — ele balançou a mão — Eu conheço sua família há anos! Mas, para ser sincero, desde que seu pai morreu não tenho muito contato com os Silvertoch. Espero que estejam todos bem. — Ah, com certeza estão, torrando o meu dinheiro e mijando nas minhas terras. Sorri e concordei com a cabeça. Ele sorriu de volta.

— É um prazer encontrar um conhecido de minha família. Agora sim me sentirei em casa. — espero que tenha escondido o sarcasmo devidamente. Depois, virei-me até o senhor Tristan — Creio que não será mais necessário uma apresentação.

— Creio que não. — ele respondeu. — Mas não se importe com isso, eu também já conhecia seu nome.

— Pelo visto não sou só mais um classe delta no fundo de algum lugar por aí, não é?

— Não se sinta tão lisonjeado — por que ele disse isso? — Você é sim, só mais um classe delta no fundo de algum lugar. Eu só procurei saber mais sobre você, depois que bati o olho na lista de aprovados da comuna há três meses e encontrei o seu sobrenome, Silvertoch.

— Me desculpe senhor. O que o senhor espera me falar?

Ele riu, uma gargalhada leve temperada com um pouco de deboche.

— Se nem mesmo você sabe, garoto, por que vive contando por aí sobre seu sobrenome e sua casa patética? Até mesmo chegou a tingir sua luva com esse símbolo. Mas vou adiantá-lo, eu não confio em saxões traiçoeiros. — ele pausou — Só te ajudei a pouco, porque não poderia permitir que Cartago fosse envergonhada por alguém tão fraco e estúpido que compra briga com quem não deveria. — ele suspirou — Agora, se me der licença.

Ao fim, restaram, Piatã e eu, com uma nauseante aura voando entre nossos ombros.

— Ainda não entendi — Piatã se pôs ao meu lado. Senti as garras de sua preguiça encostarem em meu braço. — Por que ele te tratou assim? Arrogância? Dizem que esses classes alfa são assim mesmo.

Neguei com a cabeça e, ao mesmo tempo, Rui surgiu do além para responder a ele:

— Tu és estúpido ou o quê? Que eu saiba, os homens brancos educaram os índios, não educaram? — debochou de Piatã — Você não estava a ouvir quando o classe alfa disse a Franz que não confia em saxões?

— Tá, e o que tem? — Piatã já estava irritado, muito por causa da ofensa.

— Vamos lá indiozinho, isso não é mais difícil do que pescar! É só juntar as partes!

— Olha, eu te juro que eu amasso essa sua cara...

Eu me intrometi.

— Bom, para você é, já que só tem um braço. — provoquei o português. Piatã riu e Rui imediatamente parou com suas gracinhas.

— Junta as partes. — Rui voltou a dizer. — Franz adora se gabar por aí...

— Eu não me gabo. — interrompi.

— Franz adora se gabar por aí — ele silabou, impaciente — que é de uma casa milenar de nobres Mércios. Os antigos nobres Mércios eram saxões, que é uma etnia. Já Tristan, como você mesmo está a saber, vem da linhagem do Rei Artur, ou seja, ele é de etnia celta. Todo mundo sabe que celtas e saxões não se dão bem. É como água e óleo, luz e escuridão, terra e mar, lua e sol, noite e dia. Eles lutam há séculos pela Britânia.

— Aí é que está a questão — iniciei —, essa é uma briga que encontro descrita nos livros de história, sobre centenas de anos. Por que raios essa rivalidade ainda deveria existir? E que merda! Nem na Britânia a gente está. — nenhum deles me respondeu e guardei esta questão na cabeça o restante do dia.  

Logo, encontramos os outros membros da comuna, e, por ventura, o sumido do professor Tobias. Cumprimentamos muitas pessoas no decorrer do dia. Alguns de nós, tomamos nossos lugares no theatro, outros, no entanto, preferiram continuar a andar pelo prédio com alguns professores, numa excursão, para o conhecer melhor, como foi o caso de Piatã e Rui. Eu e o professor Tobias decidimos por nos sentar já. O local em questão, era um espaço privilegiado, entre as primeiras fileiras. E ali aguardamos o inicio da programação. Como restavam ainda alguns minutos, aproveitei para contar ao professor a odisseia que Piatã e eu passamos enquanto ele resolvia se atrasar.

— Esse cara é perigoso! — o professor se referia a Claudius, de Alexandria — Nem era para ele estar aqui na verdade.

— Sim, eu escutei o Senhor Tristan conversando algo assim com ele.

— No último congresso, ele deixou um garoto da Comuna de Atenas inconsciente. O garoto deveria ter a sua idade mais ou menos, ele bateu tanto no coitado que quase morreu. Foi durante os discursos, ninguém viu. Desde então esse maluco foi proibido de sequer se aproximar cem metros do Theatro Imperial para qualquer evento que seja.

— Ele não se importou muito com essa restrição pelo visto. Aqui não tem seguranças por acaso?

— A pergunta deveria ser, os seguranças daqui são corajosos o suficiente para barrar alguém como ele?

De repente, um alvoroço se iniciou no corredor ao lado das cadeiras. Burburinhos e vários olhos curiosos. O imperador chegou e estava indo tomar o seu lugar.

E então, subitamente, meu peito acelerou. O coração ardeu. Grunhi com a dor, o mais baixo que consegui. Roubei a atenção do professor e talvez de uma ou duas pessoas, mas não mais que isso já que o imperador era o centro de todas as outras. Queimava, sim, ardia como a fuligem soprada da chaminé duma locomotiva.  Tobias gritou, pediu uma água. Por fim, virei-me a ele e disse pura e simplesmente:

“Todos aqui vão morrer, em quarenta segundos.” — ofeguei — “A sua esquerda, cartola cinza”

Ele não precisou perguntar mais nada, bastou encontrar com o amarelo cintilante vindo de meu único olho para entender.

Em seguida, suas trevas tomaram conta do Theatro.  

E os quarenta segundos se passaram.

————||————

O primeiro sentido a despertar, foi a visão. Estava turva, lenta, de um bêbado depois de descer cinco garrafas de Rum numa noite. Fumaça, muita fumaça, foi o que parecia ver. Era negra, áspera e palpável. O zumbido no ouvido começava a formar algum som. Eram tosses, gritos e gemidos. Girei o rosto a minha volta, tentei enxergar algo além da nuvem negra. Então vi fogo, muito fogo. No mesmo instante senti algo se apoiar em meu ombro, uma mão. Era o professor Tobias.

— Você acabou de salvar todos nós, Franz.

Levou um tempo para todos se recuperarem. Algumas pessoas estavam inconscientes, outras com ferimentos profundos, mas aparentemente, nenhuma morte. Os professores reuniram os calouros e nos levaram a uma cafeteria ali, bem próxima ao Theatro, para cuidarmos dos ferimentos. Por sorte, o ferimento mais grave que um de nós chegou a sofrer foi uma leve laceração na perna, em Haaka. Nos serviram café e croissant para nos acalmar. Ninguém ousou falar nada até o momento. Tínhamos muitas dúvidas do que acabou de acontecer, mas o principal, parecia que já estava claro: sofremos um atentado.

— Onde está Piatã? — Núbia foi quem questionou, assim que percebeu sua ausência.  

— Ele não estava com você, Tobias? — o professor Hamicota perguntou.

— Não, ele não estava.

— Você não tinha dito que ia atrás dele? — o professor Handel quem questionou agora, só que com um tom mais agressivo.

— Eu disse, mas o professor Hamicota se ofereceu a ir. — Tobias respondeu, nervoso.

— Não, não foi o que eu disse, Tobias. — agora o professor Hamicota também parecia bravo — Eu perguntei se você já não tinha ido atrás do Piatã. Pronto!

— Não foi com esse tom não. Foi tipo: “Você não foi atrás do Piatã ainda? Porque se não foi eu posso ir pra você”

— POR DEUS, TOBIAS! Isso não existe.

— Esquece! — o professor Handel interrompeu — Eu vou lá. — ele pegou o chapéu pendurado no cabide e cruzou a rua.

Desde que a porta se fechou, só escutava-se por lá, o chiado de bebericadas de café e grunhidos de mastigação. Um silêncio provavelmente inquietante para os professores. Os dois se encararam, pareciam prontos para falar alguma coisa, mas não se decidiam quem ia começar.

A decisão uma hora veio, e foi do professor Hamicota.

— Peço minhas sinceras desculpas, Tobias. No final das contas, foi você que salvou a todos nós. Quem sou eu para reclamar de alguma coisa.

Tobias abaixou o rosto.

— Não... O sujeito estava do meu lado. Do meu lado. E só percebi quarenta segundos antes de acontecer, somente porque Franz me alertou.

— Quem será que era o alvo? — Rui questionou.

— Posso supor que tenha sido o imperador. — o professor Hamicota disse — Pelo o que o professor Tobias contou, eles estavam muito próximos na hora da explosão. Graças a Deus ninguém se feriu!

— Explosão? — Haaka se intrometeu  — Que tipo de explosão é capaz de fazer isso?

— Uma dinamite, talvez. — Apolo sugeriu, com serenidade.

— Não, isso não foi dinamite. — Tobias afirmou. — Foi poder puro. Poder como o nosso.

— E quem faria isso? — Nubia perguntou — Nós não temos nenhum nome, não é?

— Eu, pelo menos, não tenho ideia. — respondeu o professor Hamicota.

— Eu tenho. — foi até cômico ver todos de repente virarem o rosto até o professor Tobias — Salieri.

— O quê? — não consegui esconder a surpresa.

— Poucos segundos antes da explosão, questão de cinco segundos eu digo, senti uma presença tão intensa, que nunca havia sentido, ou pelo menos, não havia sentido há muito tempo. Não era como a presença que senti na floresta de Ouro Preto, quando Salieri nos atacou no meio do teste, ou na igreja abandonada, no covil que ele largou, não, era uma presença viva, igual a que eu senti quando era adolescente, na primeira vez que me encontrei com ele. Salieri estava no Theatro a pouco, conosco, muito próximo a nós. Ele estava presente pessoalmente, não com uma marionete como da outra vez. O próprio estava bem ao nosso lado.

— Espera, o maldito tava esse tempo todo bem de baixo do nosso nariz? E a gente nem percebeu?

— Se eu o conheço bem, com aquele senso de humor que ele tem, o desgraçado deve até mesmo ter nos cumprimentado. Então não Franz, ele não só estava de baixo de nosso nariz como nós, provavelmente, apertamos a mão dele em algum momento.

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