Trinta
Vi um brilho ofuscante. Senti as pupilas queimarem. Vi fogo.
Fogo.
O diabólico véu vermelho incinerando tudo... Tudo... Tudo posto em chamas. A madeira do convés, as flâmulas. Das velas a popa, por onde meu olho percorria, o local ardia-se até as cinzas. Tossi com a fumaça. Minhas mãos estavam negras com a fuligem. Não achei ninguém mais ali no navio — se é que foram para algum lugar e o fogo não os consumiu — mas encontrei uma sombra, parecia triste e ofuscada na escuridão, ali próxima às cabines.
— Piatã? — dei um passo para trás, quase não o reconheci.
— Franz? — ficamos em silêncio, nos encarando por um instante — Você deveria ter saído daqui, ter se salvado! — Estava agachado e senti que estava trêmulo. Mas parecia que havia algo de errado com ele.
— O que aconteceu? Onde estão os outros?
— Salieri aconteceu. Todos estão mortos. — ele suspirou — Eu fiz de tudo para salvá-los, mas não pude. Me desculpe Franz.
— Salieri? Onde ele está?
— Fuja daqui Franz? Você irá morrer se ficar aqui. — eram tantas informações, tentei por o mínimo possível no lugar mas pensar direito se tornou uma tarefa difícil.
— Vamos então. — lhe estendi a mão.
— Não, vou ficar aqui.
— O quê?!
— Ninguém mais pode me salvar. Falhei na minha missão de vida, e aquele desgraçado irá continuar vivo. Mas você é Franz Silvertoch, descendente da milenar casa Silverock de ealdormans do antigo Reino da Mércia e pode matar meus inimigos. Então vá!
No instinto, corri com a ordem como um cachorro de caça. Antes de chegar até a saída do navio, tropecei em algo e amassei o braço no chão. Curvei o pescoço para enxergar melhor o que era, a fumaça seguia densa e ofuscava o ambiente, mas vi um corpo. Estava carbonizado da cintura para cima, mas pude reconhecer uma parte esquerda que cobria os olhos e a boca, pude reconhecer o professor Tobias.
Levantei o rosto e notei que Piatã me encarava. “Me desculpe...” li em seus lábios.
A gravidade pesou na minha cabeça. Depois, escutei risadas e uma melodia em violino.
Agora estava num salão de jantar. O professor Tobias gargalhava sem desviar o olhar para frente a mesa redonda que estávamos, contudo, sua mão apertava em meu ombro. Ele aproveitou uma deixa e aproximou os lábios dos meus ouvidos:
— Eu vi. Sua íris ficou amarela de novo. — sussurrou. — Não se preocupe, vou tentar encontrar um jeito de escaparmos disso.
Pisquei o olho e vi o imperador sentado na cadeira de frente a minha. Então me lembrei quando que realmente estava. O imperador havia nos convidado para esse tea time com a justificativa de nos conhecer melhor, conhecer cada uma das comunas melhor. Na realidade, o senhor imperador apenas falou dele mesmo durante toda a refeição, ou melhor, apenas falaria dele mesmo.
Seu rosto me encontrou e apertou os olhos em mim. Eu sabia exatamente o que viria a seguir.
— Sei que muitos vão discordar, mas ainda acho um absurdo crianças tão jovens pondo-se a se arriscar tanto! Para um pai, a dor de perder um filho é indescritível. Eu não queria que outros pais sentissem algo assim. E não queria tirar o futuro de crianças que mal começaram a vida. — um dos ministros ao seu lado pigarreou. Sim, acredito que o imperador tenha entrado num assunto um tanto incômodo.
Eu entendo que o senhor Pedro também era pai. Só que, mais do que se preocupar com a nossa segurança, ele parecia entender esse tipo de sentimento, de colocar um filho em perigo e depois perdê-lo.
— É porque ele já perdeu um filho para um barbarian — o professor Tobias disse. Estávamos no convés, debaixo de um céu azul e lutando contra ventos fervorosos. — O imperador já teve um filho homem.
— Ah sim, eu já ouvi falar dessa história. O primogênito dele, não é?
— Dizem que ele morreu de causas naturais, mas, na realidade, um barbarian o sequestrou e matou em retaliação. Isso abalou muito o imperador.
Eu pensei mais um pouco nisso. Pensei o suficiente para ponderar. Se o imperador se preocupava tanto assim com as crianças e até entendia a dor de perder um filho, por que não deixou que os classes alfa trabalhassem nessa missão? Talvez ele realmente achasse que não haveria perigo nenhum na viagem, embora a visão que acabei de ter tenha revelado exatamente o contrário. O alertamos dos perigos, mas ele ignorou e seguiu sua intuição. As vezes o imperador parecia um homem imensamente sábio e outras imensamente tolo.
— Mas e então Franz? — Tobias mudou a expressão. Ele carregava impaciência — Eu sei que não planejei nenhuma armadilha para você hoje. Então sei que seu olho não ficou amarelo por minha causa. Vem bomba por aí, né?
— Dois dias.
— O quê?
— Eu vi dois dias no futuro. — já esperava a surpresa do professor. Meu poder ainda era desconhecido e pouco sabia sobre os seus limites. Até então, todas as vezes que ele havia se manifestado, fora horas antes de um atentado a mim ou a minha vida acontecer. O quão longe no futuro eu poderia ver?
— E como você está?
— Eu não sei, é estranho. Pensar que tudo o que fiz e falei nesses dois dias na verdade nunca chegaram a acontecer me dá um pouco de angústia. — encarei o horizonte e vi nuvens sombrias se aproximando — Só que, também é libertador. Assim podemos evitar o que está por vir.
— Que tipo de tempestade?
— Uma de fogo. — forcei minha memória para não deixar passar nada — Eu não sei como Salieri atacou, eu não vi. Mas muitas coisas estranhas aconteceram na noite anterior.
Estava na hora, sim, estava na hora para mobilização total no navio. E ela não tardou a se iniciar. Depois de comunicar o imperador, todos os compromissos diplomáticos foram cancelados e as comunas entraram em estado de alerta. Cartago, Alexandria, Troia, Atenas e Esparta se agruparam numa sala de reuniões previamente preparada para nos receber. Cada professor responsável se pôs a nossa frente, cinco ao total. Já nós, calouros delta, nos organizamos numa fila horizontal em sentido a eles. Fiquei ao lado de Piatã e do rapaz de Alexandria, Martin. Então, como num espetáculo de teatho, o imperador — o protagonista melhor dizendo —, chegou e trouxe consigo o silêncio de todos nós. Vossa majestade se juntou aos professores. O primeiro a começar a falar, foi o professor Tobias.
— Todos já foram informados do porquê estão aqui. Uma ameaça se aproxima. Salieri está vindo. — ele ficou em silêncio num breve momento. Observei a minha volta e vi rostos tensos, faces amargadas em desespero, olhos fundos de medo. Pensando bem, a maior parte deles provavelmente nunca chegou a enfrentar nenhum grande desafio. Nós de Cartago já tivemos que lutar por nossas vidas quando nem mesmo havíamos sido oficializados como espiões. Eles não passaram por algo assim, pelo contrário, devem ter seguido a agenda de cumprir missões delta de nível grandemente inferior e seguir treinando. Era a primeira guerra deles, meu pai dizia que nossa primeira guerra tende a ficar marcada como uma profunda cicatriz em nossa memória. — Há algo que quero dizer a vocês, como alguém que já enfrentou Salieri pessoalmente — Tobias prosseguiu — Ele não tem escrúpulos em matar as pessoas ou em como matá-las. E ele vai usar a fraqueza de vocês, para os derrotar. Se ele os ver abalados, tristes ou desesperançosos, ele irá se aproveitar disso. Sei que pode parecer insensível de se ouvir, mas vou dizer mesmo assim, pois nossas vidas e as vidas daqueles que protegemos, dependem disso! — ele pausou antes de prosseguir: — Eu quero que engulam a dor e lutem. Se o seu companheiro for morto na sua frente, lutem, se perderem uma perna, um braço ou um olho, lutem. Lutem pelo o que acreditam, pelas pessoas que amam e pela glória que querem alcançar. Hoje vocês saem daqui como humanos, mas voltarão como deuses, e deuses, são eternos. — houve um júbilo de guerra. Olhei para meus companheiros e todos estavam empolgados, exceto por Piatã que segurava preocupação consigo.
— Ouçam o plano. — a senhorita Ada de Alexandria tomou a palavra — Em um dia Salieri deve atacar o navio. — ela desviou rapidamente suas orbes verdes a mim — Nossos companheiros de Cartago já identificaram alguns pontos que devem seguir a acontecer. Na primeira metade da noite escura e sem lua que nos deve suceder amanhã, algo irá estremecer o navio. A princípio, a causa deve aparentar ser uma pedra não vista ao mar, mas na verdade, será descoberto próximo a proa, uma criatura horripilante, esguia e bípede, com a face de um cervo e longos chifres que se parecem com raízes de uma árvore gigantesca. — escutei buchichos e os vi ficarem tensos novamente — Infelizmente não temos mais informações do que possa vir acontecer em seguida, mas esperamos que muitas destas criaturas comecem a invadir o navio e, Salieri, se junte a elas. — o burburinho aumentou. A senhorita Ada levantou um dedo e aumentou seu ênfase — A ideia é a seguinte — ela disse, trazendo o silêncio a tona mais uma vez —, vamos guarnecer o navio e nos preparar para a chegada destes monstros. Os mosquetes ficarão prontos e tenho algumas ideias de armadilhas para montarmos. Já decidimos como vocês devem ser distribuídos. Troia ficará na vigilância do navio e Cartago no guarnecimento do convés para em caso de ataque surpresa. Alexandria montará as armadilhas e Esparta irá organizar emboscadas. Enquanto isso, Atenas deve permanecer nos fundos para proteger o imperador e as demais pessoas. — ela levantou a voz mais ainda — É a batalha das nossas vidas, uma batalha pela nossa honra. Não vamos permitir que estes monstros sigam com seu flagelo pesado em nossas costas. Somos comunas e comunas matam barbarians. — ainda me sentia nervoso, mas não tanto quanto antes. Aquelas criaturas me vieram a cabeça. Estremeci quando sua imagem apareceu-me em pensamentos, eles não tinham ideia do que estavam para enfrentar. Sim, era muito maior do que um simples barbarian que se deparavam em missões nível delta. O que vi parecia ser um soldado de elite de Salieri. E isso foi a última coisa que meu rosto encontrou antes de apagar completamente e acordar num navio em chamas.
Para ser sincero, mesmo depois de tudo, depois de ponderar com mais calma em minhas lembranças, muitas coisas ainda não ficaram claras. Por exemplo, por que raios fui um dos únicos a sobreviver sendo que quase todos os outros morreram? Eu estava desmaiado, então como não me mataram? Ou mesmo como eles conseguiram derrotar todos os poderosos classes betas, nossos professores? E talvez, principalmente, como que Salieri sabia onde o navio estava, já que a rota que tomamos foi totalmente diferente da que normalmente se tomaria, justamente para evitar este tipo de situação? Talvez para as três primeiras perguntas realmente não fosse possível uma resposta breve, mas, ao menos para a última, o professor Tobias tinha uma ideia.
— Eu não duvidaria que aquele desgraçado esteja nos espionando aqui e agora dentro do navio. — estávamos em meu quarto, ele na cadeira da escrivaninha e eu sentado na cama. Já faziam minutos que nos encarávamos tensos, um ao outro — Ele sabe dos nossos planos, sabe o que fazemos agora e onde estamos, por isso, sabe como agir.
— Se for o caso, como ele está nos espionando? De que maneira ele poderia fazer isso?
— Só consigo pensar em duas maneiras. A primeira e mais óbvia ele infiltrou uma de suas marionetes aqui no navio antes de zarparmos. Ou então — ele suspirou e vi seus lábios se apertarem — a pior hipótese e prefiro nem pensar nisso... — ele pausou. O que poderia ser pior do que Salieri se infiltrar no navio? — De ele estar trabalhando com um vandal.
— Vandal? Tenho a impressão que já escutei esse nome. — apertei a cabeça e não foi tão difícil me lembrar. Afinal, aquele dia ficou marcado em mim — Foi na floresta, quando estávamos fazendo o teste, não foi? Quando o senhor encontrou com o Salieri.
— Sim, eu o acusei de trabalhar com os vandals.
— E o que são eles?
Tobias se levantou. Foi até a janela e começou a vislumbrar o mar.
— Me diga, Franz, você acredita em fantasmas? — senti uma pontada de agonia. Mas aquilo me soou bizarramente familiar.
— Não. — respondi sem enfeites.
— Fantasmas são reais. — o sol se escondeu debaixo de nuvens carregadas e o quarto ficou escuro. — Lembra que eu falei que nós humanos não somos as únicas criaturas pensantes nesse mundo?
— Então eles são outra raça de monstros, diferente dos barbarians?
— Sim e são imensamente mais assustadores que eles. É claro, quando digo que são fantasmas, não quero dizer que são espíritos ou pessoas mortas, não, na verdade eles são espectros. O outro universo de onde vem, não possui gravidade, por isso seus corpos não suportam estrutura material. — ele viu minha expressão, é claro que eu estava em choque — Os vandals não costumam ser um problema para nós, existem entidades especializadas em detê-los se algum deles causar problemas, assim como nós fazemos com os barbarians. Mas, há quase cinco anos que não há um relato sequer de avistamento de vandals.
— Por isso a surpresa de saber que um deles estaria ajudando Salieri?
— Não, não só por isso. Quando eu tinha a sua idade, já me deparei com um vandal. Foi durante a Grande Crise de 1865. Uma época marcada por uma sangrenta guerra entre as comunas e os barbarians de elite. Foi nessa época também que encontrei com Salieri pela primeira vez. — ele voltou o rosto a mim — Eu estava numa floresta sombria e assustadora, meus companheiros haviam se perdido de mim, estava sozinho. Então, como um relâmpago numa tempestade de janeiro, um vulto negro cruzou as árvores a minha frente. Era uma massa negra, um fantasma. Quanto mais eu o olhava, mais me aterrorizava. Nunca irei me esquecer. Uma criatura alta, magra como uma taquara, olhos vermelhos e chifres endiabrados, parecia a face de um demônio. Naquela época, nunca tinha escutado falar sobre os vandals, pensei ser um barbarian, por isso o ataquei. Meu ataque tão sombrio quanto o seu corpo, o atravessou. Senti que ele iria me matar em seguida, mas não foi o que aconteceu. “Pelo visto você também faz parte da escuridão” — ele me disse, depois sumiu. Mais tarde naquela noite, me contaram sobre os vandals, mas eu ainda não entendia o porquê dele ter me deixado vivo. Então descobri que os vandals e os barbarians desprezam-se profundamente e, que me deixar vivo, seria útil para os vandals, por isso assim fizeram.
— E por que um vandal estaria ajudando um barbarian?
— Eu não faço ideia. Mas a questão continua pendente. Como Salieri conseguiu entrar na floresta de Ouro Preto e manipular mentalmente duas pessoas por lá sem nenhum de nós professores percebermos? Apenas um vandal teria capacidade para isso. Os poderes dos vandals são impossíveis de se medir. Isso faria sentido também para justificar como ele sabe onde o navio está e como realizará o ataque amanhã sem percebermos sua presença mais uma vez. Ou então Salieri se infiltrou no navio, mas isso ainda não justificaria como ele se infiltrou sem percebermos a sua presença. Lembra o que eu já te falei? Poderes gigantescos exercem presenças gigantescas e quanto mais poderoso se é, maior sua presença no local. Salieri é muito poderoso, detectaríamos sua presença facilmente onde ele estivesse.
— Então, talvez as duas hipóteses estejam certas. — concluí — Ele se infiltrou no navio com alguma de suas marionetes, contando com a ajuda de um vandal para ocultar sua presença.
— Não conte para ninguém o que conversamos hoje, Franz. Se Salieri realmente se infiltrou no navio, só há uma maneira de sabermos e vamos descobrir amanhã na primeira parte da noite.
— Como assim?
— Pense por um minuto. Na hipótese de Salieri ter se infiltrado no navio com alguma de suas marionetes, agora que ele já sabe que nós descobrimos sobre o ataque amanhã, o que acha que ele fará? E, caso ele descubra que nós sabemos que ele está infiltrado no navio, o que acha que ele fará? Pense, você já viu ele, sabe como ele agiria.
Sim, aconteceu exatamente como o professor previu.
As comunas seguiram as instruções que foram passadas nos mínimos detalhes. As armadilhas foram montadas, as emboscadas prontas, a guarnição em ordem e a vigia em alerta. Na manhã seguinte uma tempestade de granizo caiu sobre o navio e as nuvens soturnas de chuva permaneceram, trazendo a noite sem lua segundo a qual eu havia relatado que aconteceria. Por fim, a primeira parte da noite se seguiu. Contudo, além dos burburinhos incessantes de meus companheiros e do grito enraivecido do pássaro de Liliana, nada, absolutamente, se sucedeu naquela noite.
Sim, de fato, Salieri já estava ali, entre nós.
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