Três

Tio George me encarava sério. Parecia tenso, preocupado e, num grau leve, irritado. O bigode farto tornava mais intensa aquela aura soturna.

 — Anthony me contou que esteve com os dois detetives ontem a noite. — Eu já deveria imaginar. Apostaria cem conto de réis que a história era de que eu fui lá fora para incomodar e atrapalhar os dois sujeitos.

 — Desculpa, não sabia que não podia conversar com eles. — prendi meus olhos no chão.

 — Não, eu deveria ter te alertado ontem. — ele soltou o ar que deveria segurar no peito desde que chegamos no escritório. Pôs a mão na testa exaurido e prosseguiu: — Esses homens, bem, como posso dizer... Eles não são o que parecem ser.

 — Não são detetives?

 — Não é isso. — ele abriu a boca para dizer algo, mas hesitou. Por fim, prosseguiu: — Só fique longe deles, tá bem? Não são pessoas que é bom ter por perto.

Não conversamos mais sobre isso e não ousei trazer o assunto a tona. Meu tio claramente parecia incomodado com a presença deles. Ambos almoçaram da nossa mesa e meu tio mal tocava na comida enquanto eles se serviam. Eu soube que a viagem de meu tio de volta para o Rio estava planejada para a tarde daquele mesmo dia, mas, pelo visto, ele adiou e suspeito que tenha sido por causa daqueles homens. Ele parecia não querer sair de dentro da casa de jeito nenhum e observava sua patrulha constantemente pela janela.

Era um dia atípico. Não encontrei com Anthony o dia todo. — Não que isso fosse um problema, pelo contrário. Mas desconfiava daquela calmaria tão profunda. Me contaram que ele havia partido para o centro, a pedido de meu tio, procurando compradores para alguns objetos de nossa casa que havia colocado a venda. Nunca tínhamos vendido nada antes, a não ser escravos, o que me fez temer que a crise nos cafeeiros pela chuva daquele dia tenha sido pior do que imaginava.

Finalmente, pela noite, encontrei na janela aqueles dois conversando entre a fogueira novamente e, logo, somente o rapaz de cabelos vermelhos. O outro parecia ter se retirado para rondar a área. De início, hesitei em encontrá-lo. As palavras de meu tio ainda caminhavam pela minha cabeça — como se elas não tivessem nada de mais interessante para fazer, do que me martelar até me der enxaqueca. Mas, de fato, tio George ficaria extremamente decepcionado se soubesse que encontrei com eles novamente. No entanto, Anthony não havia voltado para casa naquela noite para me dedurar. Provavelmente dormia em alguma hospedaria no centro. Sem contar que, relembrar o encontro agradável que nós três tivemos ontem, me encorajou a voltar a me sentar sobre a mesma pedra. Também senti tentado à descobrir o que eles de fato faziam para deixar meu tio tão transtornado.

— É por que somos uma agência secreta. — o rapaz de írises vermelhas me respondeu, olhando de canto. Voltava a mexer no fogo com um pauzinho, como ontem. — Por isso as pessoas desconfiam de nós.

— Se são uma agência secreta, por que está me contando isso?

 Ele desviou os olhos do fogo, voltou a me encarar, sorrindo, com avidez em cada canto dos lábios.

 — Posso te falar um segredo?

 — Porque contaria um segredo para um desconhecido?

 Ele riu, provavelmente de meu tom inocente.

 — Justamente por conta do que é este segredo. — Curvei a cabeça igual um cachorrinho confuso. Ele riu mais. — Eu tenho um dom único que nenhuma outra pessoa na Terra tem. — seu rosto voltou à luz do fogo — Tenho a habilidade de conhecer o caráter de uma pessoa apenas olhando-a nos olhos. Sei se é mentirosa, gananciosa, bondosa, se procura amor ou apenas luxúria, se essa pessoa se importa com os outros ou só consigo mesmo.

— E o que seus olhos disseram sobre mim?

Ele afiou o olhar sobre meu rosto. Finalmente, prosseguiu:

 — Um cara teimoso, estúpido e que guarda bastante rancor das pessoas — virei o rosto, o encarei pelo cantinho dos olhos, com desgosto. — Mas, tem um coração enorme e despretensioso, que se importa com os outros e com um forte senso de justiça. E principalmente, que sabe guardar um segredo. — ele ergueu as sobrancelhas e soltou um sorriso zombeteiro.

Não consegui esconder o orgulho que esticou meus lábios.

— Me parece meio irreal isso. — dobrei a testa e esfreguei as mãos para me aquecer.

 — É a verdade. Mas se você soubesse tudo de bizarro que existe no nosso mundo... — Ele balançou a cabeça para os lados, como se pensasse em alguma coisa. Mantivemo-nos em silêncio nos minutos seguintes. Por fim, o rapaz estendeu o braço em minha direção. Encontrei um pedaço de papel entre seus dedos, hesitei em pegá-lo. — Por favor. — ele pediu, e assim puxei. — Este é o endereço da agência onde trabalhamos.

 — É uma oferta de emprego?

 — Não, não, eu nem tenho competência para te contratar nem nada. É que você mencionou o medo que sente de viver aqui. Sabe? Pode não parecer, mas medo é uma das coisas que mais fortalece o espírito de um homem. Se parecer difícil conviver com seu medo, pode passar lá. E talvez tenha uma chance de conseguir trabalhar com a gente, se quiser. — ele desviou os olhos para a mata, até se lembrar de algo importante. Levantou o indicador. — Ah, uma coisa! Não conte ao meu colega que te dei isso. Ele me mata se ficar sabendo.

Só de mencionar o diabo, seu companheiro logo apareceu. Fiquei lá mais algumas horas e dessa vez passamos o tempo conversando sobre viagens. Os cantos mais inexplorados do país. O rapaz havia me contado tudo o que já havia cruzado antes a trabalho. Sim, ele viajou por cada parte deste gigantesco império. Visitou desde as densas florestas amazônicas, e, até mesmo, as longínquas praias do nordeste. Contou-me sobre o Prata, o pantanal, a serra catarinense e o Rio. Até que comecei a bocejar e pedi sua licença, com os olhos cansados, mas um leve sorriso de empolgação.

Foi naquela noite que desobedeci as ordens de meu tio pela primeira vez. E não me arrependia nem um pouco disso.

————||————

Escutei um murmúrio que vinha da sala e me levantei naquela manhãzinha congelante. Uma fumaça branca saía de minha respiração e mal sentia meu nariz, por um instante tive a impressão que ele cairia para fora a qualquer momento. Coloquei mais peças de roupa. Enrolei o pescoço num cachecol xadrez branco. Por fim, segui as ordens de minha curiosidade até a sala.

Vi Anthony. O que logo me fez suspirar. Alegria de pobre dura pouco – não que eu seja necessariamente pobre... Mas dá para entender, certo? Ele estava acompanhado de outro homem. Esgueirei-me de trás da porta e permaneci lá, tentando adivinhar sobre o que conversavam. Não demorou para ficar claro. Meu sangue ferveu como se tivesse numa panela de pressão. O frio se foi. Não, não era um simples diálogo entre amigos. Uma venda acontecia. Venda essa bem de frente ao saxo milenar da casa Silvertoch.

— Não pode! — saí de trás da porta, já em berros. — Não pode vender o saxo!

Anthony encarou-me com incredulidade, provavelmente, mais admirado com a petulância do que com raiva. Mas não, ele não ousou encostar em mim enquanto alguém observava. Por isso, virou-se para o jovem ao seu lado e disse com calma, sem perder a compostura: “Sei que está atrasado para o consultório. Por favor, volte mais tarde para acertarmos as últimas questões sobre o pagamento.” E, assim, o homem retirou-se.

Anthony deu dois passos até mim. Esticou a mão – já esperava o que viria – e a direcionou até meu rosto. Ele mordia os lábios com fúria. Senti se aproximando. Agarrei-a antes que atingisse.

— Não vai vender o Saxo! — silabei com dentes prensados. Não estremeci com o que ele poderia fazer comigo, na verdade, a raiva que sentia, de novo vendou meu medo.

Anthony sorriu.

Um sorriso cheio de deboche, desdém e orgulho. E foi nisso aí, que senti medo.

 — E por que cogita a ideia de que não farei isso? — ele colocou os braços na cintura. Me encarou em desafio.

 Engoli seco aquilo que congelava minha garganta.

 — Porque não te pertence. Nem mesmo o chão que está pisando é seu.

— Ah é? E quem garante isso? Você?

— A justiça. — não pensei muito, só disse a primeira coisa que me veio à cabeça. — E você sabe disso. Cada centímetro cúbico destas terras, cada grão de café, pluma de algodão e tijolo nessa casa, é tudo meu e isso está bem documentado em diversos papéis que a justiça atesta.

 — Sério? Então me expulsa daqui, vai. — seus lábios se abriram mais. — Vamos! Ou melhor, me mande catar a merda que você faz no banheiro, como você mesmo disse que me faria fazer.

Fechei o rosto.

 — Meu tio é o meu tutor até que atinja a idade adulta. E é apenas por esse mísero tempo que você vai poder debochar o quanto quiser, me estapear o quanto quiser e me jogar naquele porão todas as vezes que tiver vontade. Então eu te digo, meu primo, aproveite muito bem esses momento e não se engane, porque depois disso, será a minha vez.

Ele riu. Uma raiva afundou meu peito em ver o desgraçado rindo.

 — Está mesmo seguro disso? Acha mesmo que esses papéis inúteis vão te blindar e garantir essas terras? — Ele deu às costas a minha vista ao passo que gargalhava incansavelmente. — Vou te dar uma dica, na primeira gaveta da mesa do escritório, tem uma surpresa bem agradável! Sorte a sua que você já sabe ler, se não, não teria tanta graça. — Anthony desapareceu do cômodo, deixando-me exatamente como ele queria, com uma preocupação evidente presa dentro da alma.

Se eu iria fazer como ele esperava que fizesse? Sim, iria. Fui até o escritório. Meu tio não estava, o que facilitou que procurasse sem preocupação. Abri a primeira gaveta e logo encontrei as cópias dos papéis que comprovavam as terras em meu nome. Nada que eu já não soubesse. Mas, dentro de uma das pastas, vi algo que não estava presente nos documentos originais que me lembrava. “Certidão de tutela para George Silvertoch”. Lembrava-me que as informações de tutela do meu tio estavam inseridas dentro do próprio documento que atestava as terras em meu nome, não num documento separado. Comecei a ler e um frio invadiu não só meu estômago, como meu peito. Teria um infarto se não tivesse parado de ler na metade. A tutela havia sido cedida ao meu tio por tempo indeterminado, em que, segundo o próprio arquivo, alegava: “motivos de indisposição psicológica do tutelado”. Ou seja, o resumo é que eu era louco e por isso, a administração das terras seriam dadas à meu tio por quanto tempo fosse necessário. Paralisei em descrença, dei alguns passos para trás estupefato. Minha cabeça estava tão desorganizada quanto um baralho de cartas jogado ao chão. Depois, corri dali.

Não devo ter pensado muito, só uma ideia me veio a mente no momento. Por isso corri. Atravessei a porta de casa. Tenho certeza que Anthony deve ter me visto e sorriu de satisfação. Não me importei e segui correndo, correndo para fora das terras. Para falar a verdade, eram poucos metros até o centro da cidade, mas quando cheguei já estava cansado, com a garganta mais seca que carvão torrado. Me recompus. Não queria chamar atenção desnecessária, embora a perplexidade ainda estivesse grudada na minha cara, além daquele suor atípico que brilhava meu rosto num dia tão frio.

Para disfarçar, não deixei de cumprimentar alguns conhecidos no caminho. Dona Alzira que varria sua lojinha de roupas no lado de fora, agradeceu o bule e o jogo de xícaras que minha tia havia lhe presenteado no aniversário de casamento e me dispensou com a benção de Nossa Senhora da Ponte, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora dos Anjos e de São Gonçalo. Seu Emanuel me pediu ajuda para que acalmasse Tátila, sua mula agitada, enquanto concertava o arreio. E Seu Joaquim ofereceu-me uma sacola de pano carregada de mandioquinha e pimenta, para presentear meu tio. Sempre que tio George voltava para casa, Seu Joaquim fazia questão de nos oferecer o que quer que estivesse colhendo. Ali também esbarrei com o Padre Francisco. Eu conhecia o padre desde que me conheço por gente. Careca, uma voz mansa como de um doente e também cego de um olho.

 — Santa Terezinha, rapaz! A onde vai com essa pressa toda?

 — Perdão padre, estou precisando falar com o juiz Cláudio.

 — O Tavares? Deve estar no tribunal a essas horas. — respondeu-me.

 — Obrigado Padre. Se me permitir, gostaria de partir.

 — Vá com São Edmundo!

No fim, não adiantou disfarçar, não ia demorar muito até o padre contar para todo mundo sobre minha pressa em falar com o juiz Cláudio. Quando o assunto era contar sobre a vida alheia, o padre era sempre o primeiro a participar.

Mais duas esquinas para frente e cheguei a casinha onde ficava o fórum de justiça. Casinha fazia jus ao local. Se não houvesse placa, facilmente alguém se perderia com as outras moradias idênticas. De qualquer forma, para mim já me era conhecida sua fachada, aqueles muros brancos de pedra-sabão levemente acinzentados pelo tempo, o azul celeste bem forte que contornava a parede em volta das portas e janelas, as vidraças quadriculares, além é claro da varandinha azul e o vaso com girassóis logo atrás – posso supor que esses girassóis estão lá há mais tempo que o próprio fórum.

O juiz Cláudio sentava-se de trás da mesa. Vi a pena em sua mão e alguns documentos que pareciam importantes, fiquei com um certo receio em interrompê-lo. Mas não precisei, já que ele levantou os olhos e parou o que fazia quando me viu.

 — Franz, meu garoto! — nós sorrimos um para o outro e o cumprimentei. Quem o visse pela primeira vez o acharia assustador, com aquele rosto soturno e um bigode farto como de um general. Ao menos pensaria assim se não o conhecesse desde que minha mãe me pariu. Era uma amigo de infância de meu pai.

 — Não queria atrapalhá-lo, senhor Tavares.

 — Que nada garoto, é só mais uma solicitação de divórcio. — ele pôs uma mão ao lado da boca e sussurrou. — É da família Rosa, parece que a Dona Regina pegou o marido no flagra com uma loira peituda.

 — Tava na cara que o Seu Joaquim traía a esposa. Aposto que ele saiu com a cara amassada de novo. — nós gargalhamos.

 — Mas enfim rapaz, o que te trouxe aqui hoje?

Coloquei o papel com o certificado de tutoria em sua mesa, à cima dos outros documentos espalhados. Já deu para perceber do que se tratava.

 — Como isso foi homologado? — perguntei.

Ele analisou o documento, apertou os lábios e negou com a cabeça.

 — Não sei te dizer.

 — Tudo bem, só desejo uma contestação.

 — Não posso fazer isso, assim. — ele pensou em silêncio mais um pouco — Precisaríamos, no mínimo, abrir uma audiência aqui no fórum para analisar melhor o caso.

 — Então agende uma audiência, por favor. Chame Anthony, meus primos, meu tio. Chame a cidade inteira se for necessário. Mas por favor, me dê essa contestação. — Abrir uma audiência para um garoto de treze anos, sem qualquer advogado, parecia um tanto estapafúrdio. Mas talvez, a palavra estapafúrdia fosse sinônimo daquela cidade, então não importava.

O juiz Cláudio me encarou bem, com paciência desenhada nas pupilas e calma nas mãos que punham-se acima do papel.

 — Olha Franz, não me entenda errado, não é que eu acredite na veracidade deste documento. O juiz que o homologou parece ter aceitado as condições por alegações esdrúxulas. Mas interferir na decisão de outro juiz, desta maneira... — os juízes do interior sempre foram de famílias muito poderosas e próximas ao parlamento, então entendia aquele receio.

 — O senhor acabou de mencionar que a decisão dele foi esdrúxula! Não seria justo, e até mesmo ético, como juiz, o senhor corrigir isso?

Ele pausou o que já estava pronto para dizer, pensou, suspirou e, por fim, concordou com a cabeça.

— Tudo bem. Temos um horário livre neste sábado. Vou agendar.

 — Muito obrigado, muito obrigado mesmo vossa excelência!

— Não precisa de tanta formalidade, garoto. — ele sorriu, se levantou. Finalmente, concluiu enquanto bagunçava meus cabelos: — Você amadureceu muito, Franz. Seu pai estaria orgulhoso de toda essa coragem.

 — Digo o mesmo para o senhor. — de fato, Tavares estava arriscando a própria cabeça só de agendar uma contestação para aquela decisão monocrática. Virei-me para voltar, quando me lembrei de mencionar algo importante: — A propósito, gostaria de deixar claro que não desejo apenas contestar essa afirmação ridícula de que tenho problemas mentais, com base nisso, quero também suspender completamente a tutoria por ser menor, levando em conta essa tentativa de roubar minhas terras.

 — Tem certeza? Não sei se consigo tomar uma decisão favorável a esse ponto, pode acarretar numa derrota para você e, no final das contas, deixar seus parentes mais insatisfeitos ainda.

 — Tenho certeza. Fiz uma promessa a Anthony de que ele limparia a fossa lá de casa depois que me tornasse dono das terras. E é justo cumprir o quanto antes.

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