Seis

Comuna, uma comunidade, associação, irmandade ou... Uma família. Ao menos essa foi a definição que Zhuang Jing achou melhor apropriada. Tobias me levou ao último andar para conhecê-la com bastante pressa, sem mesmo deixar que eu me apresentasse para as pessoas da sala ao lado. Áquila havia ficado por lá.

A grande mestre da Comuna. Eles chamavam-na pelo título de Rhodes. Zhuang Jing era uma mulher com uma presença intensa. Sim, pude sentir. Mesmo com seus doces olhos orientais e aquele sorriso singelo e despretensioso como os de uma mãe, a aura intensa estava lá e se camuflava como um crocodilo no lodo. Ela também mantinha os cabelos pretos amarrados e presos em dois palitos vermelhos, o que corroborava com a brandura que queria passar. Me distrai ao analisar seu vestido azul brilhante, todo florido. Já havia lido sobre Marco Polo e os povos do extremo oriente. E pensar que encontraria alguém tão diferente assim, na minha frente. Senti que parecia um desperdício ver aquele vestido impressionante, escondido com timidez de trás de uma capa branca, bordada a verde, tão sem graça.

 — E por que existe essa Comuna? Qual o objetivo de tudo isso? O que vocês fazem de verdade? — preferi por inundá-la com todas as minhas mais angustiantes perguntas naquele momento do que me esquecer disso ao anoitecer .

 Ela olhou para a mala em minhas mãos e apontou.

 — Para que isso serve?

 — Para guardar minhas roupas. Ou sei lá, acho que para proteger elas da viagem também.

 — Esse é o motivo de existir nossa comuna.

 — Como assim?

 — A resposta para suas três perguntas é uma só. — ela deu alguns passos, o ruído da batida nos tacos de madeira deveria deixar isso claro até para o andar de baixo. — Por que você está aqui, Franz Silvertoch?

 — Para falar bem a verdade, porque eu não tinha outra opção. Não podia ficar mais em casa. — não tinha motivos para segurar uma mentira, mas sabia que isso só diminuiria minhas chances de ser contratado.

 — Em outras palavras, foi o seu medo que te trouxe aqui, certo? Você não podia ficar em casa porque sua permanência lá ficou insustentável e por isso, te causou um medo maior que a própria incerteza de uma vida pelas ruas. — Eu demorei para entender, mas quando consegui, acenei com a cabeça. De fato, a vida de um órfão nas ruas era assustadora e, se preferi enfrentar isso do que ficar em casa, então o meu medo daquele lugar era tão maior quanto imaginava. — Todos aqui passaram por algo parecido. Mas como Tobias mesmo te disse, na Comuna de Cartago, nós não nos envergonhamos de nossos medos. Em vez disso, eles nos dão poder — ela estendeu a mão, com a palma para cima, na direção da janela. A mão vestia-se numa luva branca, fina, quase da espessura de sua pele. Foi quando vi uma mancha verde brotar no ar como fumaça. Era fogo. Verde como o capim. Dançava acima da luva sem queimá-la. Senti meu coração bater mais rápido. Ela aproximou a chama até meu rosto. O calor me abrasou e o cheiro de fumaça era real.

 — Que truque é esse? O que tem nessa luva?

 — Não há truque. Essas são as chamas de um dragão. Pode acreditar, ou duvidar se quiser. — ela intensificou o fogo — Desde pequena, eu temia os dragões. Não os via como criaturas sagradas, igual os outros. Senti isso no dia em que vi um rasgando os céus de Xiam em Shaanxi. O meu medo se tornou realidade neste poder. Hoje, me tornei um dragão. — ela apagou o fogo como um sopro. Por fim, agachou-se para ficar na minha altura e sorriu. — Você também poderá fazer o mesmo se passar a desenvolver seu medo. — levantou-se e deu às costas para mim. Caminhou até a janela. Foi quando descobri que aquela capa não era nem um pouco sem graça. Não, devo admitir, era épica, imponente. Como mencionei, suas bordas molduravam um verde-musgo e, ao centro, a face arrepiante de um dragão da mesma cor se estampava.

Tentei continuar o assunto, ainda um pouco embasbacado:

— E como eu desenvolvo o meu medo?

— Gostaria de entrar na Comuna de Cartago, Franz Silvertoch? — ela curvou o pescoço.

— Você nem mesmo respondeu minhas primeiras perguntas. — estreitei as pálpebras de propósito — Por que existe essa Comuna? Qual o objetivo de tudo isso? E o que vocês fazem de verdade? — não salguei muito meu tom. Acho que não tinha mais paciência para aceitar perguntas não respondidas.

— Antes que compreenda a resposta dessas suas perguntas, precisa primeiro entender o que faz de nós uma Comuna, uma família. — ela levantou a sobrancelha direita — Acha que eu não percebi seu olhar descrente quando mencionei essa palavra no começo de nossa conversa? Não poderá ficar conosco se não entender o principal. E, se realmente estiver disposto a isso, deverá treinar para desenvolver seu medo.

 — Treinar? Desenvolver meu medo?

 — Só assim terá consciência de quem nós realmente somos. E poderá ver, com seus próprios olhos, os nossos laços.

Desta vez, Tobias intrometeu-se.

 — Você viu o poder da nossa Rhodes. Para fazer o mesmo, precisa treinar seu medo para transformar ele em poder.

 — Vou também conseguir fazer um fogo verde sair de minhas mãos?

 Ela sorriu e Tobias me respondeu.

 — Você ainda não entendeu, o seu próprio medo se tornará um poder único, só seu.

— Deixarei responsável pelo treinamento deste jovem, Tobias. — desta vez ela olhava para o homem. Por fim, me encarou com mais uma pitada de gentileza. — Terá a resposta por inteira a suas perguntas quando estiver pronto para o teste final e, só será aprovado, se desenvolver seu medo.

 Ainda não havia entendido metade do que eles queriam dizer. Aceitei receber as respostas no devido tempo, por mais desesperado que fosse. Para falar a verdade, não tinha muita escolha mesmo, seria isso ou mendigar pelas ruas por esmola. Era jovem, fraco, não sabia fazer nada. No máximo tinha um pouco de conhecimento em política e literatura, nada que me ajudasse a encontrar um trabalho melhor. Pensei em perguntar ali mesmo sobre a remuneração, mas supus que não seria uma boa hora, talvez soasse um pouco invasivo e mercenário já que recebi o emprego sem fazer esforço algum praticamente. Ainda que não estivesse completamente contratado, antes precisaria passar por esse teste final. Mas já havia decidido que depois disso, perguntaria sobre meu salário.

Tobias me acompanhou de volta a sala ao lado. Frisou que era importante eu me apresentar ao outros. – eu já pretendia fazer isso de qualquer forma. O encarei com aborrecimento.

 — A partir de agora pode me chamar de mestre Tobias, ou professor. O que achar melhor. Te ensinarei tudo o que sei sobre desenvolver seu medo. — Concordei com a cabeça. Por fim, descemos o último degrau e voltamos a sala do piso com um dragão desenhado. — Esses são outros alunos que, assim como você, estão treinando passar no teste final para poderem pertencer a nossa comuna.

 Quando os vi há pouco, não havia prestado atenção por causa de todo o visual singular que trajavam, agora via que todos ali pareciam ter a mesma idade que eu, ou deveriam ser um pouco mais velhos. A primeira que pus-me a cumprimentar foi Elizabeth. Olhos verdes bem grandes e cabelos loiros trançados sobre a nuca que lembravam uma coroa de ouro. Era uma garota rechonchuda, só que linda como um crisântemo. Ela não disse nada, sorriu e acenou com a cabeça. Fez um som nasal parecendo positivo e ficou alguns segundos – embaraçosos por sinal – me encarando fundo nos olhos. Tentei fazê-la dizer algo mas foi inútil.

 — Não liga para ela. — a voz vinha de um garoto. Virei o rosto e o vi, um rapaz também da minha idade. O que chamou minha atenção de imediato foi a pequena coroa de penas em seu cabelo escuro como o carvão, que adicionava um toque de cor vibrante ao seu visual.  — Ela não fala nem uma única sílaba desde que o primeiro português pisou aqui. — pele bronzeada, olhos puxados. Um índio. Por um momento o senhor Porã veio-me a cabeça, o vizinho que adorava me contar as histórias da sua tribo e seus deuses. O rapaz estendeu a mão e o respondi, me apresentando.

 — Sou Franz Silvertoch. Descendente e herdeiro direto da casa Silverock de ealdormans da antiga Mércia.

 — É uma história em tanto. — ele riu. — Eu sou Piatã... Só Piatã. — de repente, de suas costas surgiu duas garras que o abraçavam. Contorci meu pescoço para olhar de trás dele e encontrei o motivo. Piatã respondeu-me antes de qualquer questionamento. — Pela cara acho que nunca viu uma preguiça antes, né? Esse aqui é Ùsu. — o bichinho tinha olhos grandes e um sorriso meigo. Abraçava as costas do garoto como um filhote faria. A princípio o encarei com estranheza, mas quando ele curvou a cabeça e ficou lá, me olhando com aquele sorrisinho arteiro no rosto, não pude deixar de lhe retribuir o mesmo. — Pelo jeito ele gostou de você! — Piatã acrescentou.

 Como um vento cortante que surge no inverno subitamente, o meu norte entregou uma sinistra presença. Ela começou a se aproximar, aproximar a ponto de ficar bem próximo a mim. Escutei sua respiração, pesada e asmática. A aparência arrepiou as duas extremidades de minha espinha. Quando cheguei na sala pela primeira vez, foi a pessoa que meus olhos se prenderam de imediato e a que mais me perturbou. Vendo-o chegar cada vez mais perto, recuei dois passos. Também tinha a minha idade, provavelmente. Vestia-se em trajes negros como as trevas de uma noite sem lua. Usava uma máscara escura que cobria do pescoço ao topo do nariz.

 — Diga-me, Franz. — sua voz baixa e anêmica me enriçou mais — Acredita em fantasmas?

 Hesitei. Acho que todo mundo percebeu o suor encharcando minha roupa.

 — Não. — pensei em dizer alguma coisa, porém, imaginei que não seria uma boa ideia.

 — Entendo. Então qual a sua explicação para o rosto melancólico que vejo atrás de seu ombro? — silêncio, um longo e amaldiçoado silêncio pairou entre nós. Posso jurar que senti mesmo uma massa fria nas minhas costas e de trás do pescoço. Até olhei para trás e não vi ninguém. Voltei o rosto. O garoto já não estava mais lá.

— Não esquenta com ele. — escutei Piatã. — Haniel é assim mesmo. Mas é um cara legal, mais normal do que parece. — ele colocou a mão em meu ombro. Acredito que para tentar normalizar minha respiração. — O medo dele é de fantasmas e espíritos. Por isso, o poder dele torna isso real e o permite ver e sentir esse tipo de coisa. Mas não quer dizer que exista... Bem — ele coçou a nuca e riu —, eu acredito, mas também não tenho como provar que é real.

 Parei para refletir. No final das contas, a questão não era sobre se existia ou não fantasmas. O caso é que independente disso, o poder dele tornava real esse medo. Era como as chamas verdes daquela chinesa. Meus temores aumentaram e comecei a me questionar. Seria isso desenvolver meu medo? Que tipo de poder se manifestaria em mim? Afinal de contas, toda aquela história podia de fato ser real? Era tão bizarro e assustador ao mesmo tempo que mais parecia que tinha ido dormir e estava sonhando vivendo numa história como as de Mary Shelley.

Tobias encontrou a angústia no meus olhos.

 — Você não precisa temer o seu medo, Franz. Será ele que o fará atingir seus objetivos.

 Lembrei-me então do porquê estava lá. Lembrei-me das pessoas que roubaram o que era meu por direito e de seus cúmplices. Meu tio George, Anthony, o juiz Cláudio, o Padre Francisco e, como nunca deixaria de esquecer, Mirian, a garota que roubou meu coração e depois, meu sonho. Jamais a perdoaria, jamais perdoaria qualquer um deles. Engoliria qualquer coisa que tivesse que vir, até mesmo aquele lugar inquietante, se fosse necessário. Quando menos percebi a libra já estava em minhas mãos. Meu pai enfrentou uma guerra pelos seus princípios, deu sua vida. O que seria meu medo estúpido comparado a isso?

 Tobias deixou-me lá e disse que iria atrás de Áquila para contar-lhe que a tal Rhodes me autorizou a ser candidato a integrante da comuna. Pude conhecer também outros candidatos. Núbia, uma garota de uns dois anos mais velha que eu. Logo de início, quando ela se aproximou, senti um perfume doce de amora. – era o mesmo de Mirian – As mãos que me cumprimentaram eram pretas como grãos de café torrado. Tinha cabelos volumosos e cacheados e os olhos grandes e compenetrados de um gato. Parecia a mais madura e séria da sala e extremamente educada. Apertou com firmeza minha mão e sorriu de um modo discreto e receptivo.

Cumprimentei também Ária. Uma moça magra e baixinha que mais se parecia um palito de dente. Fiquei surpreso ao descobrir que tinha minha idade, principalmente por escutar isso daquela voz fina como de uma criança. Ela usava um longo chapéu azul que escondia seus cabelos ruivos. Mais tarde, disse-me que tinha vergonha deles, assim como das sardas que respingavam na bochecha.

 Segundos depois, passei a ouvir passos subindo a escada. Eram um som oco e periódico. A pessoa que subia certamente tinha postura no andar. “Rui, é seu nome.” – Nubia contou-me enquanto os sapatos dele desgastavam o ultimo degrau. Talvez fosse só uns dois anos mais velho que eu e com certeza era mais alto. Vestia um sobretudo brilhoso e que parecia bem caro.

 — Vejo que ainda estão à chamar mais peças de frango. — havia desprezo naquele sotaque português. Conhecia esse desdém, era do tipo burguês. Me olhava com queixo levantado e as mãos na cintura. — Quem é a figura? — desta vez, se dirigiu a Núbia.

 Tomei a liberdade por apresentar-me sozinho. Estendi-lhe a mão.

 — Sou Franz Silvertoch, descendente da casa Silverock de ealdormans da antiga Mércia. É um prazer conhecê-lo, senhor. — como disse, ele deveria ser só alguns anos mais velho, por isso não me envergonhei de interrompê-lo. Pensei que seria importante causar uma boa primeira impressão, principalmente vendo aquele rosto tão antipático.

 Os olhos de Rui transitaram por mim de baixo para cima, ele não se moveu. Minha mão ficou lá, estendida por longos segundos. — que mais se pareceram eternos. Parada como um galho isolado.

 — Onde você colocou essa mão? — virou o rosto e me deixou.

A sala entrou num silêncio perfurante e me tornei o showman das atenções, tudo o que eu mais queria. Engoli em seco. Bem que Áquila poderia aparecer logo para fazer um escândalo e distrair todo mundo. Nesse silêncio, pude escutar um certo som áspero e serrilhado de ferro raspando. Havia um garoto lá no fundo que eu não tinha visto até então. Ele também era mais velho que eu, provavelmente. Sentava-se em um banquinho. Ele, por sua vez, era o oposto do português. Vestia-se como um bárbaro, suas roupas estavam todas velhas e rasgadas. Mas ele era forte, e como era forte! Sim, confesso, senti uma pontada de inveja. Ele deveria ter um ou dois anos a mais que eu, mas já parecia um homem. Ali, ele segurava uma adaga de uns quarenta centímetros, um pouco menor que meu saxo. Ele amolava-a numa pedra e parecia tão concentrado no que fazia que era como se não tivesse me notado desde que cheguei.

 — Olá. — chamei sua atenção, inseguro —, prazer em conhecê-lo. Acho que ainda não nos cumprimentamos. Sou Franz Silvertoch, descendente da casa...

— Caguei. — ele nem piscou. No final das contas, em vez de remendar meu constrangimento, ele só aumentou.

 Mas não, daquela vez eu não permitiria que eles me fizessem sair com cara de trouxa de novo.

 — É assim que se trata alguém que acabou de conhecer? — minha voz estava trêmula. Acho que todo mundo percebeu. — Sua mãe não te ensinou a ser educado não? — Foi quando ele virou o rosto para mim e me arrependi de não ter ficado na minha. A face dele era, sem exagero, aterrorizante. Uma cicatriz gigantesca se desenhava sobre seu rosto direito, como se este tivesse sido retalhado por um arado, parecia um mapa.

 Fechei os olhos antes de escutar o que ele diria, fosse o que fosse.

 — Deixa de ser panaca, ô panaca. Parece aquele engomadinho do Rui falando. Quem você acha que se importa com seu nome, fio? — Sua voz era grave e ranhenta, como de uma besta rosnando. Não ousei lhe retrucar e o deixei lá fazendo o que fazia antes.

 Tobias retornou junto a uma balbúrdia de Áquila. Como de costume, aquele entusiasmo exagerado do garoto veio junto. Me agarrou pela camisa e ficou dando tapinhas na minha cabeça e nas costas — Não sei como não caí duro no chão com tanta vergonha alheia seguida naquela sala. Comecei a me perguntar o porquê dele gostar tanto de mim, nós mal nos conhecíamos. Ou ele era assim com todo mundo? Depois que o rubor ardente em meu rosto passou; enfim me dei conta que Tobias falava a todos os candidatos.

 — Vi que já conheceram Franz. Ele será um candidato assim como vocês agora. Tratem-no bem, por favor, mesmo que ele seja o calouro por aqui e alguns de vocês já tenham bem mais tempo de treinamento. O conceito principal que une essa comuna, como nossa Rhodes insistentemente comenta, é que somos todos uma família. Se não conseguirem agir como tal, mesmo que seu controle sobre seus medos sejam espetaculares, não poderão ser aceitos. É assim que Cartago funciona.

 Me senti imponente. Era um balde de água fria naqueles dois sujeitos inconvenientes, e foi gostoso de ver que estavam lá, escutando tudo. Mas descobri mais tarde que essas palavras entraram num ouvido e saíram pelo outro para os dois. Tentei não ligar muito para isso. Meu pai falava que nem sempre o homem trabalha no que gosta e com as pessoas que gosta, mas porque precisa trabalhar. E eu achava que estava começando a sentir o sabor de como era a vida no mercado de trabalho e isso me animava, pois deixava-me mais adulto. Eu também tinha sorte por ter um emprego e isso já bastava para que não reclamasse. Parecia um emprego normal e temporário, já que meu objetivo mesmo era encontrar algo que realmente me desse dinheiro. É engraçado como descobri que na verdade aquilo era tudo, menos um emprego normal e temporário.

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