Quatro
Naquela tarde, encontrei-me com Mirian de baixo da laranjeira. Contei sobre a decisão de levar aos tribunais minha contestação e, diferente do que esperava, sua reação foi uma só: preocupação.
— Você não havia me dito para fazer algo agora, para reaver minhas terras? Por que essa cara? — a questionei.
Ela revirou os olhos como se tivesse que me dizer algo óbvio. Sinceramente, até hoje não entendo as mulheres.
— Eu sei, mas solicitar por uma audiência assim é muito perigoso. Você pode conseguir ou, na pior das hipóteses, perder de vez a chance de recuperar suas terras. — Fugi o rosto para os campos de cafezais que podiam ser bem observados daquela pequena colina. — Sua vida poderia ficar ainda pior, Franz. Não é um pouco precipitado? – ela concluiu.
— O quê você iria sugerir então?
— Sei lá... Mas podia pedir para o Juiz Tavares encontrar uma maneira de refutar o documento sem ser de um modo tão dramático.
Bufei como um touro entediado. Tudo bem, Mirian podia não ter o intelecto mais apurado, ainda assim, na maioria das vezes ela estava certa. Era difícil admitir, mas dessa vez eu começava a concordar com ela. De qualquer forma a aposta já estava feita. Eu iria recuperar as terras e eu estava disposto a pagar essa aposta com o resto da minha vida.
— Me pergunto o que meu pai faria se estivesse aqui.
Ela sorriu.
— Sempre quis conhecê-lo. Do jeito que você fala dele...
— Eu não a levaria para conhecê-lo. — ela dobrou a testa, confusa. — Você nunca me levou para conhecer o seu. — virei o rosto para os cafezais mais uma vez.
Desta vez, a garotinha ficou vermelha como um tomate passado. Mais tarde descobri que culturalmente, uma mulher só apresenta seus pais ao homem quando desejam construir algo mais sério na relação. Óbvio que um garoto de treze anos não fazia ideia disso.
Ao final do dia, logo quando me aproximei da porta de casa, escutei um burburinho incomum. Gritos e gemidos intensos. Não, não eram de cansaço ou iguais aos de minha tia, nas poucas noites que meu tio passava em casa. Eram de dor. Intensa e agonizante. Vi, no sofá, um daqueles homens detetives, o magricelo, mais velho, mordendo uma toalha. Meu tio segurava um ferro em brasas. Ele estancava um rombo enorme na perna do sujeito.
— Ainda bem que chegou, Franz. — iniciou meu tio. — Pegue mais água quente pra mim, por favor. — estendeu-me a bacia.
Assim eu fiz, sem perguntar nada nem hesitar. Depois de alguns minutos com meu tio fazendo-lhe um curativo, finalmente sentimos alívio com o cessar daqueles gritos perturbadores.
— Evite se mexer muito.
— Acha que pode gangrenar? — o homem perguntou ofegante.
— Não garanto, mas duvido muito.
Foi quando tomei coragem para tirar minhas dúvidas.
— Quem fez isso com o senhor? Foi o desertor perigoso?
— O próprio. — respondeu. — Me atacou com a baioneta. Até consegui desviar no começo, mas depois não teve jeito e ele me acertou.
— Ele foi pego?
— Acho que sim, Aquila correu atrás dele. Duvido muito que ele tenha deixado ele escapar. — fez uma pausa para suspirar mais e, por fim, prosseguiu: — Bem, eu agradeço doutor, mas tenho que ir agora. — Num estado daqueles, como médico, seria normal e até razoável meu tio tentar impedi-lo, por isso achei estranho que ele não tenha feito qualquer protesto. E então lembrei-me da desconfiança que sentia por aqueles sujeitos.
Depois que cruzou pela porta, não os vi mais naquele dia. Senti-me um pouco para baixo, gostaria de ter me despedido melhor. Logo esqueci disso depois que vi Anthony entrando em casa com o que parecia o papel da convocação para a audiência na mão, rindo e debochando enquanto passava pela minha frente. Ele não disse nada, além de gargalhar. Mas nem precisava dizer.
————||————
O inverno de 1875 foi terrível. Juro que naquelas noites esperava que caísse neve do céu a qualquer momento. Já havia lido sobre os flocos brancos de água que caíam em dias extremamente frios, eles formavam no solo uma cama plumosa e macia como areia. Mas, enquanto me debruçava na janela, o que consegui foi apenas me decepcionar e pegar outro resfriado.
Junto aquela massa fria de ar, a manhã daquele sábado também trazia um cansaço. O que eu não daria para ficar na cama o dia inteiro... Anthony com certeza não permitiria. Meu tio havia partido na noite anterior, já esperava a qualquer momento a vingança de meu primo, tanto pela bronca que fiz tio George lhe dar quanto pelo escândalo que armei quando ele tentou vender o saxo.
Mas nada.
Anthony, assim como todos na fazenda ansiavam a audiência daquela tarde. Ele esperava conseguir as terras de uma vez por todas. De qualquer forma depois ele teria o tempo que quisesse para se divertir comigo, tanto que ele nem mesmo voltou a tentar vender o saxo naqueles dias.
Eu, contudo, já desenhava mentalmente o que faria com ele depois que a justiça fosse feita. Por isso, ainda naquela manhã, aproveitei o quanto podia para abusar de sua paciência. Ousei cuspir algumas indiretas ao filho desempregado que vivia as custas do pai e, até mesmo, não hesitei em pegar o último pedaço de bolo na mesa. Ele parecia se contorcer para não enfiar a faca que retirava a manteiga, na minha garganta.
Depois de almoçarmos, Geraldino ajudou-me a colocar o terno e ordenei ao chofer que me levasse de carruagem ao fórum, sem fazer questão de esperar por Anthony. Houve protestos do criado. “Tudo bem, ele é atlético” — afirmei “Faz bem andar um pouco para manter o físico”. Ainda com minha reclamação, depois de me deixar, o condutor deu meia volta para buscar meu primo.
Eu sei que não deveria tomar atitudes tão imaturas, eu não era assim. Acho que a raiva muda as pessoas. Era difícil me controlar lembrando de tudo o que ele me fez.
Na salinha do fórum, aguardei o início do julgamento, sentando-me de trás de uma das mesas pequenas de carvalho, a frente do juiz. Ao lado, havia outra mesa onde o opositor costumava se sentar. Não foi surpresa observar Anthony tomar o lugar. Normalmente, a pessoa que deveria de fato ocupá-lo, naquele caso, seria meu tio; mas suspeitava dizer que Anthony teria escondido dele todo esse caso e conseguiu tomar a posição de representante.
Eu sabia que desde o começo, poderia ter contado a meu tio sobre aquele documento estapafúrdio, ele provavelmente nem sequer permitiria que aquela sessão do tribunal acontecesse, mas, como um jovem arrogante e idiota, queria ter o prazer de tomar aquelas terras de Anthony na cara dele. – sim, esse foi um dos motivos que quis prosseguir com a audiência. Mas é óbvio que não contaria a Mirian. Certa vez eu li num artigo científico – ou algo do gênero – que "tudo nesse mundo é sobre vingança". De fato, as guerras existem por conta do revanchismo de algumas nações sobre outras, a inveja e a discórdia giram entorno da vingança. É a natureza humana. Tudo o que posso dizer é que ali, sentado naquela cadeira, encarando o rosto desprezível de meu primo, eu me sentia aliviado. Podia enfim deixar fluir esses sentimentos há tanto reprimidos. E sinceramente, que se dane toda essa história de moralismo e ética social.
Além disso, agora também tinha a minha desculpa para suspender a tutoria imposta até os dezoito anos. Era o plano ideal para me ver livre de Anthony de uma vez.
Segui encarando o rosto de meu primo. Ele por sua vez insistia em me entregar um olhar sanguinário, como uma onça voraz que encarava seriamente a presa, no entanto, eu não seria sua refeição, não naquela vez. Depois disso, eu sorri ao encontrar Mirian sentada ao fundo da sala, não me sentiria mais tão sozinho e deslocado em meio a todas aquelas pessoas. Ela, no entanto, não me retribuiu a alegria, já que um rosto para baixo, tenso, não desgrudava de sua face. Fiquei triste por deixá-la assim.
Finalmente, o juiz interrompeu o burburinho, para iniciar a audiência. Houve uma reza a Nossa Senhora da Ponte pelo padre Francisco. Juramos pelas Sacras Escrituras dizer a verdade e só então, oficialmente, o início da sessão foi dado. Depois, o juiz Cláudio apresentou o caso a todos os presentes, apresentou nossos nomes e permitiu-me entregar a minha alegação.
— Não há muito o que falar. — iniciei. — Seria uma epifania dizer que se trata de um caso complexo. É nítido que essa certidão de tutoria foi expedida de maneira equivocada, com alegações equivocadas e provas equivocadas. Não é necessário ser um perito da lei para comprovar isso.
O juiz, por fim, dirigiu-se ao meu primo.
— É verdade, senhor Anthony? Afinal de contas, foi o senhor que solicitou que tal documento fosse expedido em nome de seu pai. É verdade as afirmações do jovem Franz?
Ele se levantou da cadeira.
— Decerto que não, meritíssimo. Eu mesmo imaginei que meu primo teria tal reação ao descobrir o documento, dado seu estado de saúde e também a imaturidade da cabeça das crianças.
— Minha idade tudo bem, mas... Meu estado de saúde? — interrompi em deboche e levei uma advertência do Juiz.
— Eu estava pensando no bem dele. Se ele passasse a ser responsável pelas terras de meu falecido tio, acho que todos nós da família tínhamos a consciência e temíamos que ele acabasse perdendo tudo, em resultado de sua falta de capacidade de um raciocínio são. Odiaria ver meu primo sendo enganado ou sofrendo algum golpe de pessoas levando vantagem do estado precário em que está.
Desta vez me foi concedido a palavra e não levei tempo em tomá-la.
— Então me diga, meu primo, como foi que você percebeu que eu estava em um estado tão precário mentalmente? E como você constatou isso? Através de sua própria perspectiva e através do exame de um médico que nunca sequer me consultei na vida?! O que me garante que não seja você a estar tão desequilibrado da cabeça?
O juiz entregou-lhe a vez.
— De fato, são verídicas suas alegações, meu querido primo. Eu não gostaria de ter que fazer você passar por isso, de verdade. — mais do que as palavras, aquele rosto compassivo me enojava. — Mas eu trouxe algumas pessoas para testemunhar sobre você. Acho que é até importante pra você mesmo perceber o que está acontecendo com você.
E assim começou o drama shakespeareano de hipocrisia e melodrama. Primeiro foram os amigos de meu primo que prestaram depoimento, quase todos. Eu já imaginava que ele partiria para isso, mas não temia por aqueles depoimentos. O que valia mesmo era o peso do depoimento e não a quantidade. Até porque, em cada um, poderia alegar ao juiz a inveracidade das afirmações pelo simples fato de todos ali serem amigos de meu primo e estarem compactuando caluniosamente para a história dele. “Eles são apegados a ele” — aleguei, encarando os olhos castanhos de Anthony — “Quando nos visitam, passam horas no quarto dele, fazendo sabe-se lá o quê.”— Eu gostei da indireta, gostei mais ainda de ver o esforço que meu primo fazia para não desmanchar seu rosto piedoso.
O que me preocupou mesmo foram os depoimentos dos meus outros primos. Edward teve o prazer em fazê-lo, com certeza. Com um fingimento exacerbado e mais, com uma vocação em ser capacho de Anthony, dizendo o quanto ele era um primo maravilhoso para mim e que se preocupava. Nem os próprios amigos dele foram tão passionais quando deporam. Depois, foi a vez do gêmeo mais novo, Natanael. Vi desconforto desenhado nos seus olhos, e o que ele disse ali, na frente de todos, obviamente saía de um texto decorado. Não o julguei mal por isso, duvido muito que ele queria estar lá.
Com isso, encerrava as testemunhas que Anthony havia convocado. Não esperava que tivessem algum efeito negativo, eram depoimentos fracos e claramente tendenciosos, até um surdo perceberia só de olhar as figuras falando. É claro que tinha a exceção dos depoimentos dos meus outros primos, que tinham um pouco mais de peso, mas nada que me faria perder o julgamento, principalmente com um juiz sensato como o senhor Cláudio. Estava confiante, de fato. Eu não precisava de testemunhas, até porque não tinha nenhuma, ninguém ali era meu amigo, só Mirian eu enxergava desta forma. Estava na ponta da língua exatamente o que dizer. Falei sobre o quão falsos os depoimentos eram, as alegações parciais dos amigos de meu primo, a afirmação servil de meu primo Edward e o depoimento que parecia ter saído de uma fala de teatro, de Natanael. Não sei se convenci os presentes, mas tive a impressão de ter convencido o senhor Cláudio. Enfim, segui para meu principal argumento, argumento esse que enterrou os rumos que aquela sessão seguia.
— Eu acredito que ainda não tenha me respondido sobre o falso médico que você mencionou no documento, meu primo. Em todos os anos de minha vida, desde a morte de meu pai, nunca fui atendido por médico algum, até porque é claro que você não me permitia sair de casa por qualquer coisa, nem para uma consulta com o médico se estivesse doente. Era luxo demais para mim, como você mesmo dizia.
Anthony ignorou a última parte e respondeu-me com pressa.
— Imaginei que essa seria uma de suas queixas, meu querido primo. Por isso, fiz questão que o médico que entregou seu laudo viesse a essa sessão. — ele virou o rosto para os presentes — Se importaria em se levantar e prestar seu depoimento a todos nós? — Percebi que sua face se direcionava a um homem ao fundo da sala. Um colete preto e camisa branca vestia. O chapéu penumbrava o rosto na sombra e foi o motivo de não conseguir identificá-lo, até que se aproximasse.
— Tio George? — Lembro que cada pelo de meu corpo se arrepiou com a surpresa. O que ele fazia lá? Ele sabia do julgamento? Será que ele interviria a meu favor? Mas não, não fazia sentido, já que só se manifestou depois de Anthony o convocar. — Tio George — o chamei novamente —, o senhor veio aqui pra me defender das acusações do Anthony... Não é? — Ele não me respondeu. Me olhou de canto e se dirigiu até o centro da sala. Uma aura talvez de pena, ou estafa, prendia-se em suas pupilas negras.
O juiz Cláudio tomou a palavra:
— Diga-me, senhor Silvertoch, por favor. O senhor seria o médico que diagnosticou o rapaz Franz com, o que diz aqui no documento, — ele aproximou o óculos do papel — “distúrbios mentais sérios?”
— Sim. — proferiu sem qualquer enfeite e não disse mais nada. Acho que, principalmente, por ter visto meu rosto espantado segundos antes.
Mas o juiz insistiu:
— E em que se baseia seu diagnóstico?
Ele suspirou fundo, alto o suficiente para todos ali na sala escutarem.
— Desde que perdeu o Pai, Franz tem apresentado comportamentos insólitos. Anormais, para ser mais claro. A princípio pensei que fosse por conta do luto e que isso passaria logo. Mas não passou. É claro, eu não fico muito tempo em casa, mas no pouco tempo em que o visito, pude constatar que é verídico o que Anthony e os outros declararam. Ele geralmente anda pelos cantos, com o cabelo e roupas toda bagunçadas. Certa vez, ouvi-o gritar pela noite: “Saiam de mim, saiam de mim”, ou algo assim. Eu também já tive diversas conversas com ele na qual notei um desequilíbrio mental bem presente, suas frases são desconexas e ele diz ver seu pai andando pela casa.
Senti uma faca entrar nas minhas tripas. Por que ele estava fazendo isso? Ele não me defendia sempre de Anthony e das perversidades que ele fazia? Era a única defesa que tinha de meu primo. Qual o motivo então, de querer enterrar as minhas chances de vencer o julgamento? Ele queria as terras, sim, é claro que ele não queria perder toda aquela fonte de renda de uma hora para a outra. Ele precisava que eu ficasse ainda sob tutoria dele para exprimir para si, o que era meu, como um parasita.
— Por que está fazendo isso? — interrompi, com seriedade. — O que eu te fiz? Me diga, o que eu te fiz? Você sabe que é mentira.
Um burburinho se iniciou na sala, Mirian apertou seu coração, aflita, e o juiz intercedeu.
— Silêncio! Franz, por favor, tenha compostura.
— O senhor mesmo sabe que é mentira! — dessa vez, me dirigi ao senhor Cláudio.
— Eu não tomei minha decisão quanto ao julgamento ainda. — ele suspirou — Mas atenha-se aos fatos, um médico muito renomado acabou de prestar um depoimento bem convincente. — de fato, meu tio sem dúvida era um dos homens mais respeitados da cidade. Um depoimento daquele tinha peso de uns 50 depoimentos de outras pessoas comuns. Eu estava perdendo.
— O senhor pretende mesmo julgar o meu caso com base no diagnóstico de um único médico e a opinião de oito pessoas convenientemente próximas ao filho dele?
— Meu primo — Anthony intrometeu-se —, devo lembrá-lo que os depoimentos estão, na verdade, partindo de um médico muito conceituado e que duvido muito que jogaria fora sua credibilidade, e de oito pessoas próximas o suficiente de você para informar sobre suas ações mais recentes.
— Muito bem — concordou o juiz —, senhor Anthony, agradeço por deixar claro isso. — que tipo de juiz era aquele? Se eu analisasse bem seu tom, poderia jurar que estava do lado de meu primo. — Mas, ainda assim, — ele continuou — você levantou uma questão importante. Todos que prestaram depoimento são próximas ao senhor Anthony, que está hoje como seu antagonista, Franz. Não há alguém que você gostaria que também desse algum depoimento? — não, ninguém ali na verdade estaria do meu lado. Meu tio e Anthony eram tão influentes naquele buraco de cidade que nem um paladino da Justiça ousaria contrariá-los. Embora eu não duvide que a maioria ali soubessem o que realmente eles estavam tentando fazer naquele tribunal.
Observei todos os presentes e vi Mirian. Acho que ela entendeu de imediato o que eu queria assim que nossos olhares se cruzaram. Eu não queria ter que chamá-la, sabia que ela odiaria isso. Ela havia me alertado sobre os perigos dessa audiência e eu pouco me lixei. Ainda assim, ela se levantou e foi, sem me encarar. Estava brava, com certeza. Mas era minha última opção. Precisava recompensá-la depois, de algum modo. Pensei em subir o Monte Ipanema e pegar algumas orquídeas para ela.
— Convoco Mirian a depor! — anunciei.
Anthony se irritou ao vê-la cruzar a sessão.
— Meritíssimo, teremos mesmo que escutar o depoimento de um menor de idade? Mulher, ainda por cima?
— Nós escutamos o depoimento de seus irmãos mais novos, e que eu saiba, eles não são adultos ainda. E qual o problema de ela ser mulher? Isso distorce a verdade de alguma forma?
— Mulheres são dramáticas, é natural delas deixar os fatos mais intensos. — concluiu Anthony.
O juiz não o respondeu, em vez disso, dirigiu-se a Mirian.
— Então senhorita, diga por favor, as afirmações que todos prestaram aqui sobre Franz estar passando por desequilíbrios mentais, são verdadeiras?
Eu sorri. Sabia o trovão que estava por vir. Se tem uma coisa que gostava em Mirian em todo esse tempo em que somos amigos, é que quando ela tinha oportunidade, esculachava quem ela achava que merecia. E Anthony provavelmente era uma dessas pessoas.
Ela me olhou, ainda preocupada. Sua resposta demorou, mas veio:
— Sim, são verdadeiras.
Um silêncio, daqueles de enterro, parecia ter invadido minha alma. Uma calmaria, uma avassaladora calmaria. Não, não era só na minha mente, da sala toda não se ouvia nem um respiro. Por minutos tentei raciocinar o que acabou de acontecer. Mas não deu tempo antes que o juiz continuasse.
— E em que se baseia sua afirmação?
Ela não voltou a me olhar, em vez disso virou o rosto ao juiz.
— Eu não o conhecia antes, quando seu pai ainda era vivo, mas há alguns meses quando nos conhecemos, eu já o via como um garoto bem amargo. Eu senti pena daquela pobre alma e tentei seguir os ensinamentos de Cristo, então me aproximei dele para ajudá-lo. Mas a cada dia que passava, ele ficava cada vez mais perturbado. Meritíssimo, Deus sabe que somos todos pecadores, o Padre Francisco me disse isso e que Deus não me condenaria por desistir de ajudá-lo, afinal, sua condição é irrecuperável.
— Por favor, deixe claro senhorita. Que condição?
— Mental. A mente de Franz fica mais desorientada a cada dia. Há uns dias atrás ele mesmo confessou isso. Ele disse que nesses últimos dois anos tem ficado cada vez mais louco.
O juiz virou o rosto de volta a mim.
— É verdade isso Franz, você confessou isso a ela?
Eu estava mais perdido que uma vaca no deserto. Eu não sei o porquê, mas concordei com ele. O que Mirian estava fazendo? Eu não sentia raiva ou frustração dela enquanto a via voltando para seu assento depois de encharcar a sala com aquela mentira, não, diferente de como encarei meu tio. Ainda tentava entender por que ela fez isso?
— Obrigado pelo depoimento, senhorita Tavares. — o juiz concluiu.
Tavares? Sim, estava explicado. Até pelo rosto de frustração do juiz miserável após aquele deslize crasso. Também sinto que vi um sutil sorriso de satisfação nos lábios de Anthony. Era um comboio, sim, estavam todos juntos nisso, toda a elite da cidade, o juiz e sua filha, a família mais influente e, é claro, não podia faltar o padre, o próximo que prestou depoimento. Não foi muito diferente dos outros.“O diabo pesava nas minhas costas” — segundo ele. E pensar que, por mais que eu não gostasse desse Padre dos infernos, ainda tinha alguma consideração por ele. De todos, conseguiu ser o depoimento mais dramático.
Escutei tudo em silêncio, desde o depoimento de Mirian não ousei mais interferir. Nem faria sentido, afinal. O resultado daquela audiência já tinha sido decidido antes mesmo de limpar os sapatos no carpete de entrada.
Ao fim, antes de o juiz proferir sua decisão óbvia, levantei-me. Não sei se estava nervoso. Não sei se tremia de medo. Não sei se estava consumido por tristeza. Era estranho tentar compreender qual era aquela sensação. Decepção, angústia, talvez um pouco dos dois. Minhas mãos e braços suavam como depois de correr uma maratona. Era um dos dias mais frios do ano. E meu coração, bem, até fico aliviado por ele ter aguentado todo aquele tranco.
— Tudo bem — suspirei —, não é como se eu tivesse chance mesmo de encontrar alguma migalha de justiça em meio a tantos parasitas imundos. — encarei o juiz que tentava fugir seus olhos de mim: — realmente, meu pai ficaria orgulhoso de você — dei as costas e caminhei de cabeça baixa até a saída.
O juiz intercedeu com hesitação.
— Espere Franz! A sessão ainda não acabou!
— Acho que todos nós sabemos onde isso vai dar, meritíssimo. — debochei. — Se não há justiça nessa cidade — me distraí, ao ínterim que observava de soslaio cada um daqueles atores. O juiz, o padre, Anthony, meu tio e até mesmo Mirian, que quase me arrancou uma lágrima. Repeti mais uma vez: — Se não há justiça nesse fosso de merda, então vou trazê-la para cá, nem que tenha que lutar com o capeta pra isso.
E foi assim que cruzei a porta daquele tribunal, daquela cidade miserável, para não vê-los mais.
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