Quatorze
O carmesim do sangue pode ser mais assustador do que se imagina. E naquele verão de 1876, vi o sangue de um amigo manchar meu rosto. O meu e o dele juntavam-se nas minhas mãos. Era quente, espesso e aterrorizante. O que me mantinha de pé naquela floresta era não pensar nisso — embora vez ou outra isso acabasse falhando. Eu estava ofegante e trêmulo. Cansado e com o corpo contundido. Mas eu tinha que continuar correndo, tinha que achá-los. Com isso, escutei um breve som, um burburinho que saiu como um chiado duma brisa, vindo dum horizonte coberto por galhos e folhas. Primeiro parei e suspirei aliviado, depois voltei a correr até a direção ao som. Encontrei Rui e Ária sentados numa pedra, cada um em seu silêncio. A calmaria foi quebrada ao me verem.
— Que diabos... — Rui hesitou em se aproximar. Eu já deveria imaginar que meu estado não era dos melhores mesmo.
— Franz! — Ária exclamou e correu até mim. — O quê aconteceu com você?
— Isso é o de menos. Temos que sair daqui agora. — a puxei pelo braço e voltei a me apressar, tomando o caminho no interior da floresta. Rui hesitou mais um pouco, mas acompanhou.
Tropecei em alguns galhos e caí em dois ou três buracos. Me levantei o quanto antes podia e voltei a me apressar.
— Temos que encontrar os outros. — disse.
— O quê está a acontecer? — escutei Rui a trás — De repente os barbarians que estávamos a lutar sumiram do nada.
— Sumiram? — ficou claro, os professores já notaram o que estava acontecendo. — estamos sendo atacados. — o respondi.
— Atacados? — Ária arregalou os olhos.
— O inspetor Eliade... Por algum motivo ele nos atacou. Ele matou Nestor e quase me matou também. Não sei o que tá acontecendo, mas desconfio que tenha a ver com algum barbarian, um barbarian de verdade, não igual o que lutamos. — olhei de canto para os dois. Pareciam aterrorizados, mais até do que eu, que acabei de ver uma espada sendo cravada no pescoço de um cara. Me perguntei ali se era eu quem era o "esquisito".
Corremos por mais alguns quilômetros pela floresta, mas não encontramos ninguém. Aos poucos minhas feridas já começavam a cobrar seu preço. Com a adrenalina diminuindo, a dor foi surgindo cada vez mais aguda. O cansaço segurou meus pés, e minha cabeça começou a se embriagar numa tontura gradual. Parei um pouco para ofegar e tentar manter o equilíbrio. De nada adiantaria se desmaiasse ali.
Escutei um murmúrio vindo de Ária.
— Seria melhor nos escondermos até os professores lidarem com isso.
— Não. — disse incisivamente — Seria arriscado.
— Mais arriscado do que ficar a trafegar por aí, quase como se estivéssemos a procurar o inimigo? — Rui agora parecia irritado. Confesso que não tinha mais paciência para aturar sua personalidade. — Vamos nos esconder. — ordenou.
— Por que está falando nesse tom, imbecil? Fique a vontade se quiser se esconder, covarde. — ele fechou o rosto. — eu não consegui proteger Nestor, mas consegui proteger vocês e vou proteger os outros.
— Eu vou acabar morrendo também, se for com você. — ele resmungou.
— Muito bem então, como eu já disse, fique aí, se esconda e sobreviva como um covarde. Ou, se quiser, pode vir comigo e morrer como um guerreiro. — lembrei de meu pai. Ele era do tipo que levaria uma bala por seus companheiros. Eu não era como ele, talvez estivesse fazendo aquilo só pela frustração de não ter conseguido salvar Nestor. De qualquer forma, tomei minha decisão. Numa guerra, a vitória só vem através de decisões, não hesitações. Olhei para Ária. Suspirei e abaixei meu tom. — Desculpa, é direito seu se não quiser vir comigo.
— Não — ela disse —, você tem razão. Nós não entramos nessa comuna para nos escondermos do inimigo. “Somos uma família”, não foi o que a senhora Rhodes disse?
Encarei Rui. Ele estalou a língua e concordou com a cabeça. Não sei como não engasgou com todo aquele orgulho que engoliu de uma vez.
Voltamos a correr pela floresta. O caminho foi ficando mais estreito, por isso tivemos que diminuir a velocidade. Num dado momento, precisávamos escalar uma ladeira de uns três ou quatro metros. Ajudamos Ária a subir primeiro, assim, quando estivesse lá em cima, poderia esticar a mão para nós. Ela encontrou dificuldade, ralou o joelho numa pedra e escorregou a mão umas duas vezes, mas conseguiu. Com ela lá em cima, me ajeitei para subir logo em seguida. Rui juntou as mãos e se preparou para que eu apoiasse o pé. Estiquei a perna para subir em seu apoio, até que escutei um rombo de algo caindo com dureza no chão. Estremeci, abaixei o olho e vi um corpo deitado num lago de carmesim com uma espada fincada a ele. Reconheci os cabelos ruivos de Ária.
Eliade saltou lá de cima e tomou de volta sua espada. Ele nos encarou, e nós a ele. Foi quando pude finalmente notar um vermelho tingir suas írises.
— Corre daqui! — gritei a Rui.
— O quê?! Por quê?!
— Vai ser péssimo se nós dois morrermos. Alguém precisa avisar os outros candidatos o que está acontecendo. — virei o rosto para ele e o vi parado. O que raios ele ainda estava esperado?! — Vai logo!
Rui deu meia volta e foi. Eliade apertou seus olhos inexpressivos sobre mim.
— Quer ser algum tipo de herói?
— Não existem heróis. — retruquei — Na história da humanidade, as grandes nações começaram a existir quando os humanos passaram a trabalhar juntos. — como as histórias que meu pai contava, de Ælfred e da libertação saxã do julgo danês — Você não deve saber disso, já que é um barbarian. — ele dobrou a testa — Mas o companheirismo e o trabalho em grupo, é o que evolui a raça humana. — não que essa conversa importasse de alguma forma, mas o tempo que estava ganhando para Rui, sim.
— Patético. Mas você fala bonito. — ele apertou a mão sobre a espada. — Mas vou te mostrar que isso tudo é inútil, quando se tem um oponente como eu. — ele apontou a espada para mim. — Vai ser um problema se ele escapar, tendo aquele poder. Você pode ficar para depois. — ele se dividiu em centenas de ratos ligeiros, rápidos como uma lebre e me deixou ali. Estava explicado como havia me alcançado tão de pressa antes. Algumas cuiaras me cercavam. Ele queria me prender. Se tentasse escapar, os bichos ameaçavam me morder. Peguei algumas adagas que ainda me restavam e arremessei na cabeça delas. Escapei em poucos minutos.
Corri na direção em que Rui tinha ido, temendo não chegar a tempo ou não encontrá-lo. Alcancei a margem de um rio, onde o vi. Escutei um grito neste mesmo instante. Um braço rolou ali pelo chão. Levantei o olho e vi que no português faltava-lhe o esquerdo. Acelerei até Eliade em reflexo, foi um descuido, nem pensei ao certo por onde o atacar. De qualquer forma não importava, não poderia admitir outra pessoa morrendo na minha frente. Em resposta, ele me acertou de raspão na virilha. Não pude desferir-lhe nenhum golpe, mas consegui escapar de outra investida, contudo, em consequência deixei o saxo cair e não consegui recuperá-lo. De qualquer forma tomei distância e fiquei aliviado ao notar que Rui havia feito o mesmo.
— Você é realmente irritante. Vou devorar seu coração, Franz. — o desgraçado nem piscou, não exibiu uma única reação.
Suspirei, é claro que eu ia morrer ali – principalmente agora, sem o saxo. Eliade apontou sua espada e correu até mim. Então me veio uma última ideia para salvar a vida de Rui. O tempo a partir da arrancada daquele monstro parecia ter parado em minha mente. Se ele me atingisse no estômago, eu poderia encontrar espaço para cravar uma adaga em seu ouvido. Isso daria tempo para Rui fugir. Sinceramente, o que raios eu estava fazendo? Por que estava dando minha vida para salvar alguém como ele? Eu odiava aquele cara e, mesmo depois de morrer, ele provavelmente pouco se lixaria para tudo o que fiz. No final das contas seria visto como mais uma vítima indefesa do barbarian Eliade. De todo modo, já havia assinado meu destino quando tomei minha decisão aquela hora, e numa guerra, a vitória vem através de decisões e não hesitações.
Vi o céu enegrecer do nada. Senti o carma do destino na pele. Ele já havia me acertado? Todo o ambiente começava a ficar soturno. Assim que era a sensação? Mas então meu rosto encontrou com o rosto de Eliade. Ele não estava me atacando, sequer havia me atacado antes, não, ele estava parado no meio do caminho, sem reação alguma. Pelo visto eu não era o único que enxergava aquela escuridão. De repente, escutei sua voz deprimente mais uma vez:
— Então você já chegou — ele estreitou os olhos —, Tobias? — e eu arregalei os meus.
— Franz, desculpe pela demora. — a voz do professor Tobias soprou em meus ouvidos como uma lufada repentina.
— Não peça desculpas por isso. — Eliade se intrometeu, num tom irônico, debochante — Conseguir desativar a barreira do Senhor Ethelwold é de se receber elogios, isso sim.
— Ethelwold? – Tobias parecia surpreso. — Imaginei mesmo que uma barreira dessas não seria construída por qualquer barbarian. Mas porque um vandal te ajudaria? — Não tentei entender a conversa, mas sim me concentrei em procurar qualquer brecha para sair dali. Então Tobias falou comigo — Franz, presta atenção. — nunca o vi tão sério — O demônio que estamos enfrentando é um barbarian de alto nível chamado Salieri. Barbarians assim conseguem manipular as pessoas como marionetes.
Comecei a entender.
— Então o inspetor Eliade...
— Sim, está sendo manipulado esse tempo todo. — ele suspirou. Depois parecia balbuciar a si mesmo, baixinho: — quando eu soube que ele estava envolvido, juro que pensei que todos aqui já estivessem mortos. É muita sorte, ou... — Tobias levantou os olhos e, desta vez, falou com o barbarian — O quê você está planejando?
— O quê? — o monstro sorriu sutilmente — Está estranhando eu ter deixado todos eles vivos até agora? — ele ergueu uma sobrancelha — Vou ser sincero com você Tobias, já que é um antigo amigo. Por mim essa floresta toda já estaria dizimada. — então fechou o rosto — É que esse boneco novo é um saco, não me entrega logo o controle do corpo inútil dele. Me lembre de nunca mais tentar pegar adolescentes com cara de suicidas. — ele estava debochando? Aquele desgraçado estava debochando da gente? Apertei com força meu punho. — Ah, e só uma coisa, Tobias. Não me chame de demônio de novo, odeio essas ladainhas de religião.
— Franz — escutei o professor —, você consegue andar? — assenti com a cabeça. — Então pegue Rui e saiam daqui. Eu vou mostrar para esse idiota o verdadeiro poder do medo do escuro. — Tobias apertou o tom — Ele vai se arrepender de ter cruzado o caminho de meus alunos.
O tal barbarian Salieri falou mais alguma coisa, mas não prestei atenção. Agarrei Rui e o fiz se apoiar em meu ombro. Ele era mais alto que eu, deveria ter quase um metro e noventa, por isso não foi tão fácil quanto havia sido com Nestor. Ao menos ele conseguia movimentar as pernas. Procurei me apressar. Depois de escutar o que Tobias disse sobre aquele monstro, meu medo disparou. Com uma boa distância, já podia olhar para trás de vez em quando e espiar a luta. Tobias estava coberto em um manto de aura negra, ela percorria seu corpo e cortava Eliade como agulhas. Mesmo de longe, dava para perceber que se tratava de um combate de altíssimo nível. Qualquer um de nós ali seríamos um estorvo, uma pedra no caminho do professor. Era uma luta voraz, sanguinária, cheirava a ferro, enxofre e a morte.
— Por acaso estamos num teatro pra você ficar de vadiação assistindo? — a voz irritante de Rui estava na minha orelha — literalmente. Pelo visto, até machucado daquele jeito ele não dava desconto.
— Eu sei. — virei o rosto. Bisbilhotei a luta mais um pouco. Tobias nunca havia me contado direito qual era seu medo. Não é a toa que quando disse para ele que tinha medo do escuro, ele agiu de maneira tão singular. Então eu teria aquele mesmo poder? Ponderei mais um pouco e o rosto enfezado de Rui encontrou com o meu. Seguimos caminho. Ao mesmo tempo, lembrei-me de uma coisa que queria falar ao português: — A propósito, eu queria te pedir desculpas.
— Pelo o quê?
Abaixei o rosto antes de prosseguir.
— Eu que disse para vocês me acompanharem. No final das contas seria melhor você e Aria terem se escondido. Se não fosse por mim... — derramei as frustrações do meu olhar em cada pedrinha que chutava no caminho — Se não fosse por mim talvez ela até estivesse viva.
— É, você é um idiota mesmo. — não o julguei por ficar irritado. — Idiota por não perceber que ninguém aqui é criança que toma as decisões à ordem dos outros. Se bem que, você até podes ser considerado criança — senti uma agulhada no ego. Para mim treze anos não era ser criança —, mas nós não somos. Ária tomou a decisão dela, assim como eu, e cada um é responsável pelas consequências da sua decisão. — senti alívio com aquilo. — E se há um culpado por tudo o que aconteceu, nem preciso te dizer quem que é, né?
— Tudo bem — fechei o olho e respirei fundo —, e onde nós vamos agora?
— O quê estávamos a fazer?
— Ir atrás dos outros então? — ele assentiu — Só sinto medo de uma coisa. O professor mencionou que havia outro deles os ajudando, e se acabarmos esbarrando com ele? — encarei as nuvens carregadas com inquietação — Talvez seja melhor esperarmos aqui mesmo para ver o que vai acontecer.
Rui estalou a língua.
— Muito bem então. Fique aí, se esconda e sobreviva como um covarde. Ou venha comigo e morra como um guerreiro. — ele me encarou como um cobrador de uma dívida. Sim, eu sentia que tinha uma dívida com ele por aquele braço, por tudo. E o desgraçado ainda usou minhas próprias palavras contra mim, não têm como negar aquela decisão. Por isso me levantei e fui.
Então escutei outro grito.
Corri até a origem. Me deparei com Nubia escondendo com a mão um corte profundo no braço direito. Ao lado dela estavam Piatã e Haniel e, na frente deles, Haaka os encarava, segurando firme nas mãos uma adaga. Seus olhos também brilhavam em carmesim.
— Ele está sendo controlado. — eles ainda não tinham me visto e se assustaram com nosso estado. Compreensível, já que éramos aberrações. Quase senti graça, se não fosse tão trágico — Há um barbarian manipulando não só ele, mas também o inspetor Eliade.
— Então é isso que está acontecendo? — Piatã apertou o olhar.
— Fico aliviado por estarem vivos! — eu disse. — Ária e Nestor estão mortos. — os três ficaram ainda mais assombrados.
Haaka aproveitou a brecha de nossa conversa e atacou. Piatã deu um passo à frente para nos defender. Ele uniu as mãos e logo, relvas, raízes, todo tipo de planta começaram a se mover do chão e a segurar os pés e mãos do oponente.
— Onde está Elizabeth? — perguntei
Piatã virou o rosto para mim.
— Haaka a feriu e ela acabou desmaiando. Deixamos ela para trás, na cidade, e conduzimos Haaka até aqui. — o rapaz indígena dobrou o pescoço até a preguiça abraçada nas suas costas. — vamos lá Ùzu. — o animal virou a cara e me olhou por um instante, sorrindo despretensiosamente. Pelo visto tinham algum truque escondido debaixo da cartola. A preguicinha ficou gigante num estalo de dedos, gigantesca do tipo mais alto que a maior árvore dali. Caí para trás no susto. Ùzu foi rápido no primeiro ataque e jogou sua mão esquerda em Haaka, que foi arremessado centenas de metros de onde estávamos, sendo parado apenas por uma rocha gigante.
— Que diabo foi isso? — exclamei para mim mesmo. — Tem como competir com isso? — Piatã estava todo metido.
Não tinha como a luta estar mais decidida, mas então, veio o contra ataque de Haaka. O jovem se levantou, como se nada tivesse acontecido. Uma resistência absurda! Haaka saltou. Seu ataque foi fixo e certeiro no calcanhar da preguiça. O animal se desequilibrou e caiu no chão sem dificuldade. Piatã mordeu os lábios e grunhiu.
— Como ele descobriu o ponto fraco de Uzù tão fácil? — a preguiça não conseguia se levantar e logo, toda a carga de energia que havia acumulado, se dissipou. Ela encolheu novamente.
— Haaka sabia — escutei a voz de Nubia vinda de trás. — Quando o teste começou, eu e Haaka lutamos com os barbarians de mentira no mesmo local — assim como eu e Nestor —, em menos de dez segundos, ele ganhou a luta.
— O quê?! — pensei alto.
— Parece que só de ver a pessoa, ele sabe qual é sua maior fraqueza. Esse é o poder dele. — agora era compreensível, mas que tipo de medo ele teria então para isso fazer sentido?
— De qualquer forma — escutei Piatã — Não tem como vencer alguém assim. — ele me encarou — Onde estão os professores?!
— Parece que fizeram algum tipo de barreira para impedir que eles nos ajudassem. O objetivo desses barbarians é unicamente nos matar. Mas Tobias conseguiu passar por essa barreira, não sei quanto aos outros.
— Uma barreira? — ouvi o tom sombrio de Haniel pela primeira vez. — um vandal está envolvido nisso?
— Tobias falou a mesma coisa.
— Bem, acho que não faz diferença agora. — ele disse — Há um modo de vencer alguém que pode ver nossas fraquezas. Basta superarmos elas. — um tanto genérico, mas fazia sentido se pensássemos bem.
Concordamos em realizar um ataque simultâneo, um ataque em que cada um cobriria as fraquezas do outro. Esse era o plano. Eu não era forte, não sabia utilizar meus poderes, e agora sem o saxo, só poderia jogar adagas pequenas. No meu caso os únicos ataques que funcionariam seriam de longe. Com seu poder vegetal, Piatã me ofereceria suporte para que Haaka não se aproximasse muito. Núbia me contou que seu poder vinha da sua voz. Qualquer coisa que ela dissesse se materializaria de verdade. Além de achar super impressionante, seria perfeito para nossa estratégia de luta à distância.
E assim se sucedeu.
Nubia apertou sua mão. Sua luva brilhou.
— Névoa – ela disse. E assim, uma densa neblina branca cobriu toda a nossa volta.
Com isso, pudemos tomar a distância necessária para conduzir uma ofensiva. A névoa se dissipou em cinco minutos. Pelo visto esse era o tempo que durava o poder dela. Iniciei lançando uma chuva de adagas contra Haaka. Não queria acertar sua cabeça ou peito, então tomei cuidado com a mira. Piatã agarrou novamente seus pés com as raízes. Haaka se desvencilhou e desviou de meu ataque.
Por algum motivo ele deixou de se mover repentinamente. Aproveitamos para preparar uma nova investida. Antes, porém, consegui notar que saía sangue da sua boca. Quando foi que o acertamos? Olhei mais atentamente. Não era isso, Haaka tinha mordido a própria língua. Ele se esforçou para erguer a boca, parecia lutar contra si mesmo, contra algum tipo de força.
Até que o escutei sussurrar:
“Me matem...”
Barbarian maldito.
Cuspi no chão. Não conseguia acumular no peito a raiva que sentia, o ódio pelo o que fizeram com Nestor, com Ária. Além desse deboche... Brincavam com Eliade e Haaka como se fossem bonecos.
— Não vou te matar, Haaka. — o encarei com fúria. — Nós dois vamos matar juntos esses desgraçados.
— Fique á vontade, — meu coração parou de bater por alguns segundos. Uma fala gelada e mansa irrompeu nas minhas costas. Virei o pescoço. Vi uma face cinza, lisa como uma estátua de mármore. Pulei na direção oposta — Pois bem, vou libertar seu amigo então, para que possa cumprir com o que disse. — ele arregalou os olhos e seu vermelho ardeu em minhas pupilas. Era alto, magro como um galho seco. Tentei falar alguma coisa, mas senti como se minha garganta tivesse prendido as palavras. Encarávamos um ao outro, estáticos. Ninguém ousava se mover, ninguém ousava falar nada. Até que o monstro curvou a coluna e fez uma estranha reverência — Suponho que esse seja o momento em que eu deveria me apresentar. Mas creio que não será necessário. — concluiu Salieri.
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