Dezoito
“Alfa, beta, gama e delta”. Ouvíamos a didática do professor Tobias atentamente sentados, lá na sala que tinha o desenho de um dragão no chão. Novamente ele revisava para todos nós novatos, as quatro classes primárias de uma comuna. Ele frisou que conhecer bem os conceitos de cada classe, era o alicerce de todas as operações de uma comuna. Me senti deslocado naquele discurso, afinal, era o único na qual a classe delta ainda não tinha se manifestado na luva. Antes da aula, o professor Tobias pediu-me paciência e reforçou que meu poder não tardaria a manifestar-se — talvez essa minha reação já lhe fosse esperada. Conversamos também sobre o que aconteceu no teste e sobre a dor insuportável que senti antes do exame começar e depois, quando fui atingido pela adaga de Salieri no mesmo local da dor, não ter sentido nada.
— Você não tem medo do escuro. — ele falou — quero dizer, você até pode ter, mas esse não é o seu maior medo. Eu sei porque eu tenho esse medo. E isso que aconteceu com você não tem nada a ver com o escuro.
É esquisito escutar de outra pessoa que ela sabe mais sobre seu medo do que você. Mais esquisito ainda era não entender direito o que sequer se tem medo. Mesmo assim, ainda lembrar daquele quarto tenebroso, me arrepiava. Eu não conseguia pensar em absolutamente nada pior que aquilo. Encarei o cinza da luva e até as manchas de sangue de Nestor. O que ele pensaria? Nestor era medroso o suficiente para não ter dúvidas de qual era o maior medo dele. Era a pessoa ideal para me ajudar nessa situação. De qualquer forma, o professor pediu para eu ficar atento a isso e disse que contaria a senhora Rhodes o que aconteceu.
O professor Tobias enfim concluiu o que nos falava e partiu para outro assunto. Ele me olhou um tanto repreensivo, provavelmente notou minha distração.
— Tendo as classes em mente, vocês saberão escolher a requisição ideal para vocês. Vou partir do começo, pessoal. Como sabem, nós da comuna trabalhamos protegendo as pessoas e salvaguardando o futuro delas contra todas as criaturas vindas desses outros mundos. Geralmente, quando há incidentes com essas criaturas, o governo nos entrega requisições para solucionarmos. Como somos uma comuna cardinal, temos o privilégio de receber mais requisições do governo do que outras comunas. — o professor Tobias voltou a me encarar. Dessa vez era como se ele falasse para mim — E é aí que entra o dinheiro. Sei que ninguém aqui, por mais boa alma que seja, trabalha de graça. A cada requisição, há um valor de pagamento se ela for cumprida com êxito. Ou seja, vocês recebem de acordo com as requisições que cumprirem.
Eu aproveitei o momento e levantei a mão:
— Qual a média de pagamento para essas requisições.
— Depende do grau de importância e do nível da requisição que pegar. Existem pelo menos quatro níveis de requisições. Primeiro as requisições Junior, que são o nível que vocês estão agora, sem muita experiência e de classe de poder delta. Temos as requisições Pleno, com requisições um pouco mais especializadas. Por fim, tem as requisições Sênior e as requisições Master, de níveis mais avançados. Com as requisições Júnior, vocês podem ganhar de 1, até 5 mirréis por requisição. — que desanimador. Fechei o rosto e suspirei. O professor percebeu e se apressou em continuar — No entanto, em requisições Master, eu soube que um agente pode ganhar até 40 milhões de réis. — tenho a impressão de que meu coração parou por alguns segundos. Era verdade aquilo mesmo?! Ou ele estava só exagerando na verdade, como gostava de fazer sempre? O professor Tobias me conhecia tão bem que parecia ler meus pensamentos, sua resposta certeira veio em seguida: — Se duvidam, perguntem para qualquer classe Alfa, que já fez missões Master. É o governo que nos paga, afinal de contas.
Levantei a mão novamente.
— Então é só os classe Alfa que podem fazer essas requisições Master?
— Exatamente. — O professor foi firme — As requisições Master são de um nível de dificuldade altíssimo, elas também são conhecidas como envelopes de tarja preta. Nem mesmo eu estou habilitado para fazê-las. Por isso, nem sequer cogitem tocar nesses envelopes com essa linha preta.
Fiquei mais aliviado. Com uma fortuna dessas, nem precisaria procurar outro emprego que pagasse melhor, bastaria ascender até a classe Alfa e fazer essas requisições milionárias. Compraria um título de nobreza na molezinha e recuperaria minhas terras num estalo. Bem, eu já tinha motivos para virar classe Alfa, por conta do desejo de Nestor no caso, e agora com isso, meu futuro era certo.
— A propósito professor. — novamente voltei a falar — demora muito para atingir a classe Alfa? — Parece que roubei o olhar de todos com isso. Será que foi uma pergunta idiota? Talvez tenha sido pretensiosa demais. Eu quase ri ali mesmo, afinal de contas, era só um pirralho de treze anos que acabou de entrar na comuna.
— É impossível dizer. — o professor suspirou, acho que ele odiou minha interrupção. — Depende de pessoa para pessoa. Cada um tem o seu ritmo.
— O quê significa que nem todos vão atingir a classe Alfa. — desta vez nos voltamos para Rui e seu rosto fechado — Sei que tens agentes que nem sequer passaram da classe delta ou gama. Estou a mentir, professor? — ele já havia dito algo parecido antes. Temia que fosse verdade. O professor concordou com a cabeça.
Bem, levando em conta isso e que a inscrição delta nem sequer havia aparecido na luva para mim nesta altura, tudo me levava a acreditar que não chegaria muito longe no nível dessas classes da comuna. Eu disse para Áquila que faria com que a inscrição alfa fosse gravada na luva. Acho que tenho que parar de falar demais e prometer demais. Eu tentaria, é claro que tentaria atingir a classe alfa, não desistiria ali. Tentaria por Nestor e pelas minhas terras. Embora não estivesse lá muito esperançoso.
— As requisições ficarão aqui em cima do balcão, a direita. Vocês podem abrir o envelope, ler a requisição e decidir se irão ou não fazê-las. Se decidirem fazê-las, devem levá-las até a Joice da terceira sala para ela carimbar e aprovar o início da requisição para vocês, então poderão partir. Algumas requisições possuem prazos, então, se aceitarem, se apressem em concluí-las porque depois dos prazos, não haverá pagamento. Há também requisições que possuem certas exigências para serem cumpridas, elas podem solicitar o trabalho de uma pessoa específica da comuna, ou com um poder específico, podem solicitar o trabalho de mais de uma pessoa para a cumprirem ou de somente uma pessoa, entre outros casos.
A palestra durou mais uns dez ou quinze minutos. O professor Tobias explicou também sobre as metas de requisições que deveríamos cumprir por mês e a bonificação extra que ganharíamos se atingíssemos essa meta. Havia também na comuna uma competição, uma liga anual das requisições. Aparentemente essa liga já estava valendo. Nessa liga, a classificação dos agentes acontecia pela quantidade de requisições que cada um concluía. Como éramos novatos de classe delta e só podíamos cumprir requisições Júnior, estávamos automaticamente na liga Junior, cada um de nós com zero pontos.
— Essa liga serve para criar uma competitividade saudável entre os agentes e manter a quantidade de requisições concluídas aqui na comuna, sempre alta. — o professor Tobias explicou.
A palestra acabou e fomos dispensados. Fiquei mais um pouco ali conversando com o professor, ele fez questão de me esclarecer todos os assuntos em que tratou enquanto me viu distraído. O professor Tobias odiava ter que explicar a mesma coisa duas vezes e ele era um excelente professor por não deixar a perceber isso, se eu não o conhecesse bem não perceberia. Dava para ver dali da janela o céu já ficando escuro. Então escutei a voz de Áquila. Ele havia acabado de subir, já que não estava na reunião.
— O quê acha de fazermos essa requisição, Franz? — o ruivo estava de frente a mesa principal segurando um envelope de requisição. Ele balançava o envelope para me chamar a atenção.
Fugi da conversa com o professor Tobias e fui até ele.
— Nós dois? Pode ser, mas é sobre o quê?
Ele retirou o papel de dentro do envelope e começou a ler.
— Parece que moradores de uma cidadezinha tem avistado um monstro bizarro andando pelas vielas escuras de noites. O valor da requisição é de seis mil réis. — um valor considerável, mas dividindo por dois não sobraria muito.
— E qual cidade que é? É muito longe?
— Bluminal — se fala Blumenau, mas Áquila não sabia ler muito bem. — Acho que fica na Província de Santa Catarina.
— Tudo isso? — uma viagem dessas para só receber esse valor deveria ser crime. Mas imagino que a maioria das requisições Júnior estavam neste nível.
— Vamos partir hoje, assim chegamos mais rápido.
— Eu vou com vocês. — escutei a voz ranhenta de Haaka. Era uma ordem?
— Não sei se seria uma boa dividir o valor em três. — fui direto.
— Podem ficar com a minha parte, eu não quero nada, só quero matar barbarians.
Áquila deu um passo para frente.
— E por que você quer vir com a gente? Não é mais fácil você pegar uma missão para você?
Ele virou o rosto.
— Eu decido o que eu quero fazer e digo que vou com vocês. — depois deu de costas para nós — Vamos, vocês não falaram que já vão partir hoje? — foi impertinente, mas se ele estava disposto a nos ajudar de graça, como poderíamos recusar?
Provavelmente não deveria ter nenhum navio que partiria para Santa Catarina naquela noite. Nenhum de nós pensou nisso. Depois de arrumarmos nossas coisas e quando já estávamos na porta da comuna, o professor Tobias apareceu para a nossa salvação. Pegamos a Rota 201 e fomos até o porto. O professor nos levou até um navio particular novinho.
— Pertence a minha irmã mais velha — disse ele, enquanto subíamos, já na altura da metade do casco do navio — Ela comprou mês passado para ajudar nas missões que precisaria fazer em outros continentes. — além do fato surpreendente de que Tobias tinha uma irmã mais velha que, nesses mais de cinco meses de convivência com ele eu não fazia ideia, como ela teria tanto dinheiro para comprar um barco daquele nível? Tipo, não era um barco comum, tinham velas brancas gigantescas como um navio de comitiva e uma proa e popa longa de rasgar o mar ao meio. Tobias não vivia numa casa luxuosa e nem tinha os modos de que vinha de uma família rica.
— Missões? A propósito, sua irmã trabalha no quê? — não pude conter a curiosidade. Talvez fosse útil para mim.
— Na comuna mesmo. Ela é uma classe Alfa, um dos cinco dragões de Cartago, o dragão rosa. Agora que entrou na comuna, provavelmente irá ouvir falar bastante deles daqui em diante. — estava vendo a riqueza de um classe alfa pessoalmente. O quão poderoso eu precisava ser para ter todo aquele dinheiro?
— E onde ela está agora? – perguntei.
— Numa missão, em outro país.
— Classes Alfa vão para missões até em outros continentes, você disse. Certo?
— Exatamente, em missões absolutamente difíceis e sigilosas. Eu não faço ideia do que ela está fazendo ou quem está enfrentando. — ele olhou para a lua minguante reflexivo — seja como for, ela sempre acaba voltando.
— O senhor sabe navegar, professor? — Áquila chamou nossa atenção, de braços cruzados. Acho que ele estava meio descrente.
— Não, eu não. Esperem aqui, conheço alguém que pode nos ajudar com isso. Vai depender só se ele irá aceitar ou não.
No final das contas, o professor conseguiu convencer seu conhecido a navegar conosco. Partimos de imediato em alto mar, mesmo na escuridão sombria e maçante do atlântico. Conseguimos dormir horas depois, com exceção de Áquila, que ficou enjoado e não parava de vomitar. O dia nasceu e vi um céu límpido com nuvens fugazes. Foi uma viagem tranquila, sem imprevistos ou quaisquer sustos. O mar não estava tão calmo, mas também não era violento. Suas águas foram gentis o suficiente para nos carregar entre elas como se estivéssemos andando no casco de uma tartaruga. A brisa era úmida. Comecei a refletir enquanto meu olho se perdia no horizonte azul. Ponderei sobre minha primeira missão como um agente da comuna. Agora usava no rosto um tapa-olho marrom, de couro, e não mais faixas brancas de enfermo. Não era tão ruim, tinha algum estilo e poderia sair dizendo por aí que eu era um veterano de guerra, afinal de contas, as pessoas sempre me acharam mais velho do que realmente sou. Pensei que se Nestor estivesse vivo, provavelmente iria querer fazer aquela missão comigo. Ele era tão medroso que jamais faria sua primeira missão sozinho. Ri comigo mesmo. Depois meu olho fugiu para a luva vestida na minha mão. Vi a mancha que o sangue dele havia deixado. Senti raiva.
— Eu sei que você quer carregar a vontade de Nestor usando a luva dele. — virei o rosto e vi Áquila. A voz dele estava fanha, acho que tinha acabado de vomitar. — Mas não acha que é meio assustador sair por aí usando uma luva manchada de sangue? — eu ainda não tinha pensado nisso e ponderei bastante naquilo.
Em poucos dias chegamos a província de Santa Catarina. Devo dizer que era bem diferente do Rio, ou mesmo de São Paulo. Pondo o primeiro pé para fora do navio pude notar. Um vento bateu em meu rosto, levou minha cartola. Áquila conseguiu pegá-la a tempo. Uma sensação nova me invadiu, sim, uma sensação de que estava em outro país, um ar, um clima, uma vegetação de outro lugar mesmo. As pessoas também eram diferentes. Na primeira praça da cidade esbarramos com alguns moradores. Eram sujeitos simples e moribundos que viviam de ofícios mecânicos comuns. Eram marceneiros, artesãos, barbeiros, sapateiros, costureiros. Pessoas despretensiosas, ignorantes, mas gentis e calorosas. Não encontrei advogados ou médicos, nem sequer escutei falar de algum que trabalhasse por lá. Depois entramos a fundo na cidade.
Entre os tropeços nas ruas de pedra e os berros dos vendedores de peixe, o professor Tobias tomou a dianteira em nosso caminho. Senti cheiro de graxa, de palha, cocô de cavalo e até de pólvora. Num dos muitos comércios da cidadezinha costeira, nós entramos. O sino na porta tocou. De imediato apreciei um odor de roupa. De fato, haviam dezenas de ternos e camisas sociais por todo o lugar, elas se comportavam em mostruários que escondiam as paredes dos quatro cantos do local. Era escuro, apertado, mas um paraíso para homens. Não tardou a entrarmos e um senhor barrigudo nos saudou com olhos cheio de ganância. Aposto que o gorducho já estava pronto para nos empurrar dezenas de seus produtos pela metade do triplo do preço, como um bom vendedor.
Tobias percebeu e levantou a mão, deixando o peito da luva a mostra, a Túnica de Outono, escura como uma noite sem estrelas.
— Gostaríamos de algo discreto. — de imediato lembrei. Era este o código. Tobias havia mencionado lá na comuna.
O senhor concordou com a cabeça. Suas expressões mudaram como um estalo. Era como se tivesse se tornado outra pessoa. Seu sorriso se desfez e as sobrancelhas caíram.
— Me acompanhem, por gentileza. — ele disse.
Assim fizemos e prosseguimos para o fundo de sua loja. Se estava apertado antes, agora me sentia dentro de um armário. Esbarrávamos entre nós. Áquila pisou no pé de Haaka e os dois brigaram. Arranhei minha perna na parede e até senti uma pontada no braço depois de comprimi-lo com aquele aperto; a lesão daquele dia na floresta deixou lembranças.
Finalmente, o corredor estreito chegou ao seu fim e uma sala mais espaçosa nos deu alívio.
— Venha comigo, por favor — o senhor olhou para Tobias.
— Esperem aqui. — o professor nos orientou e assim, os dois atravessaram uma porta escura nos deixando abraçados a impaciência.
Olhei os cantos da sala. Vi mais roupas, roupas diferentes das que tinham na entrada da loja. Uniformes militares, roupas caipiras, modestas, castas e intensamente vulgares. Sim, uma casa de disfarces. Segundo o Professor Tobias, todas as comunas de espiões tinham contratos com empresas terceirizadas para providenciarem a eles os disfarces durante suas missões. Bons espiões precisavam de bons disfarces, afinal de contas, não podíamos sair por aí dizendo para as pessoas nas nossas missões que descíamos o soco em monstros de outros mundos.
O senhor voltou junto a Tobias, carregando nos ombros nossos uniformes. Vi trapos pretos opacos. Acho que eu não fui o único a dobrar a testa estranhando. Eles nos entregaram e Haaka foi o primeiro a fazer barulho.
— Que diabo de roupa é essa? Vamos nos disfarçar de quê? De monge?
Tobias escondeu o rosto com a mão. Sim, pelo jeito a ideia deveria ser essa mesmo.
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