PARTE II

BRING ME A DREAM

Ele sabia que não podia ser boa coisa quando viu o nome de Sehun brilhar na tela do celular, indicando a chamada recebida — mas o que Kyungsoo poderia fazer? Se tivesse a capacidade de evitar todas as inconveniências em 100%, não teria nem nascido, em primeiro lugar.

É pertinho da sua casa, larga de ser chato.

— Na moral, qual a tua definição de pertinho? — O assalariado mais baixo berrou, inconformado. — Isso dá uns setecentos quilômetros só a primeira condução; nunca que eu vou chegar lá ainda hoje!

Setecentos quilômetros não dá nem de uma ponta da Coreia do Sul até a outra, seu infeliz. Para de fazer drama e vai trabalhar!

E desligou, sem dó nenhuma do amigo. Kyungsoo não o culpava, até porque sabia que faria exatamente o mesmo se estivesse no lugar do secretário de Kim Jongin. O jeito era levantar da cama, tomar café e pegar todos os milhares de metrôs que precisava para sair de seu cafofo e aterrissar no antro do capitalismo sul-coreano: Gangnam. Mais especificamente, num dos cafés mais caros de Seul — desses em que os frequentadores mais pobres têm, no mínimo, uma multinacional.

E ainda estava esfriando. Traduzindo: Kyungsoo estava ferrado. Teria que se cobrir de casacos nada fashions para sobreviver, e então rezar para que Kim Jongin não fosse um chato que repara demais no (escasso) senso de moda alheio. "Mas também, que ideia de jerico essa de se encontrar com o empregado desse jeito!", reclamava, aos murmúrios, feito um louco, durante trajeto até Gangnam. "O cara deixou os 'neurônio na barriga da mãe, 'né possível".

Foi no mínimo cômico adentrar o Le Café (ou qualquer que fosse o nome daquele pedaço de estratificação social). Kyungsoo se arrependeu de não estar usando uma grande bandeira comunista como vestido, porque adoraria ver mais daquela expressão assombrada nos ricos indiscretos que o encaravam sem pudor. Encontrou Jongin sentado numa mesa perto à janela, com os fones no ouvido, encarando um ponto qualquer na paisagem externa. O cutucou no ombro e o assistiu xingar pelo susto:

— Meu Deus, que demora — observou o mais alto, seguindo o outro com os olhos enquanto ele se sentava à sua frente.

— Foi mal aí, é que eu tava cruzando o país pra chegar nesse moquifo. Aliás, bom dia pra madame também.

— Bom dia — Jongin sorriu, como se aquilo tivesse sido a única coisa que conseguiu absorver entre todas as outras palavras da fala de Kyungsoo. — Vai querer beber alguma coisa?

— Cê vai descontar do meu salário?

— Hm... Não? — O moreno mais perguntou do que respondeu, já que não tinha pensado sobre aquilo adequadamente. Não sabia nem por quanto tinha alugado o amigo.

— Então eu quero — Kyungsoo emendou na velocidade da luz. — Mas você pede. Até o proletariado desse lugar cheira a burguês.

Jongin assentiu, rindo de como o rapaz sempre parecia ter algo a dizer sobre gente rica — ou sobre qualquer coisa. Era isso: Kyungsoo tinha, constantemente, uma frase engatilhada; fosse crítica, analogia ruim ou piada. Não costumava ficar muito calado, a menos que estivesse dormindo.

O milionário se pegou gostando demais daquele detalhe, porque, desse modo, não haveria silêncio por um bom tempo. Ele geralmente não tinha boas ideias de assunto para conversar com um amigo (até o dia anterior, nem o amigo tinha), e o fato de que seu acompanhante remunerado era quase um papagaio o deixava, no mínimo, reconfortado. Poderia rir das besteiras que Kyungsoo dizia a qualquer momento — ou, pelo menos, até o fim do seu expediente.

— O que fez ontem, depois que eu fui embora? — O mais alto quis saber assim que pediu à garçonete que trouxesse um cappuccino para Kyungsoo.

— Tá me regulando? — Foi a resposta, que veio acompanhada de um olhar enviesado e um arrepio na espinha do assalariado. "Pronto, lá vem o serial killer controlador que vai me estrangular depois da refeição."

— Quê? Só perguntei pra saber, eu hein. Mas tudo bem — suspirou, rendendo-se. Deveria saber que existia uma barreira entre o pessoal e o profissional, a qual não podia cruzar; mesmo assim, não conseguiu evitar pensar naquilo. O que será que Kyungsoo tinha feito? Era uma sexta-feira à noite. Kim Jongin se viu obrigado a atualizar a ficha fictícia de seu pseudo amigo de alguma forma. Talvez uma namorada, concluiu. Talvez ele tenha uma namorada.

Foi impossível não perceber o instante em que sua expressão murchou, mas Kyungsoo não o questionou sobre aquilo.

— Apenas e somente à título de conhecimento, o que é que cê tá ouvindo?

O homem rico ergueu a cabeça devagar, confuso pelo interesse; então, congelou. Como diria que já era a décima vez que ouvia Mr. Sandman, uma música lançada em 1954, e que só fazia aquilo porque não parava de pensar nele? Os olhos grandes, brilhantes e indagadores de Kyungsoo ainda estavam lá, e Jongin não tinha chegado a uma resposta. Quando ia abrir a boca para contar alguma mentira, o mais baixo anteviu:

— É porque eu não falei onde eu fui ontem, né? Por isso que não vai me contar. Ok, então; aposto que é alguma porcaria intelectual que você fica exibindo na internet.

— Não é não! — Jongin protestou rapidamente e, se esquecendo da vergonha de mais cedo, acrescentou: — É Mr. Sandman, não uma porcaria qualquer.

— Você acabou de ultrapassar todos os níveis de intelectualidade possíveis — Kyungsoo debochou. — Cê também escreve no Twitter que conversa sobre átomos?

Mais uma vez, Jongin abriu a boca e não fez som nenhum. Não sabia, exatamente, como levar uma conversa assim com alguém — talvez nunca tivesse alcançado o nível de intimidade necessário para aquilo. Começava a achar que arrumar um amigo de aluguel foi uma péssima ideia, mas antes de desenvolver o arrependimento, pensou que, talvez, fosse mais rentável simplesmente aproveitar o "amigo" que dispunha. Sendo assim, Kim Jongin deu de ombros e confessou:

— Não tenho Twitter. Não sei mexer naquilo.

Ao contrário do que imaginava, Kyungsoo não fez muita cena com a informação. Simplesmente sorriu, balançando a cabeça levemente, como se dissesse "só você mesmo, Kim Jongin", e mudou de assunto. Não fez caras e bocas, nem perguntou em qual século vivia — muito menos perturbou o milionário com tal informação. Jongin fez um apontamento mental rápido: não esquecer de adicionar "bom ouvinte" à lista de qualidades inventadas de Kyungsoo.

Ele estava, cada vez mais, se perdendo no meio da idealização que fizera do rapaz. Tinha certeza de que iria acabar gostando dele mais do que o recomendado, apenas para descobrir, no final, que Kyungsoo não era nem metade do que aparentava. "Talvez ele seja um assassino", concluiu, aleatoriamente, quando viu que não tinha nenhum defeito mais grave que poderia aplicar a Kyungsoo. Já era engraçado, bonito, sensato e compreensivo. Um pouco paranoico e boca suja, mas isso ele podia aguentar. "É, talvez ele seja um assassino mesmo".

— Eu estava pensando... — Jongin começou, abruptamente. Já fazia um tempo que estavam em silêncio, e foi estranho quando abriu a boca. — Você fala muito sobre diferença social, e vive dizendo que não gosta de burguês.

— Correto — Kyungsoo simplesmente concordou, mas como não podia ficar um segundo sem fazer uma pergunta, emendou: — Por quê?

— Também não gosta de mim?

O assalariado suspirou, quase que em alívio:

— Ainda bem que você não veio com papo meritocrata pra cima de mim hoje, porque eu tô pra cometer um crime. No sentido figurado — adicionou rapidamente. — E não é que eu não gosto de você, sacas? Não tenho nada contra, não, cê até que é legal. Mas se eu dissesse que você não tem jeito de burguês, eu tava mentindo.

O moreno franziu o cenho, ponderando sobre aquilo. Quase não tinha tocado em seu mocha, enquanto Kyungsoo já esvaziava sua xícara de cappuccino.

— Como assim "jeito"?

— Ué — o mais baixo fez soar como óbvio. — Cê cresceu com dinheiro, num cresceu? É visível. Tipo como você fala com os empregados, e dos empregados.

O milionário não disse mais nada, mas a sua expressão entregava o quão boiando estava. Kyungsoo suspirou — de cansaço prévio, dessa vez —, porque, pelo visto, Kim Jongin só pegava no tranco.

— Por exemplo, você não agradece quando alguém te serve. Nem em casa, nem fora de casa; acabei de ver isso. Você nem olha no rosto deles na maior parte do tempo. A Seungwan tava lá, trabalhando que nem condenada pra arrumar os bagulho do seu irmão, e quando ela foi te apresentar pra gente você nem prestou atenção.

— E-Eu prestei atenção sim! — Tentou objetar, mas não foi tão convincente.

— Lógico que não, panaca, todo mundo sabe disso. Eu sei, ela sabe, até o cachorro do Yifan sabe.

— Quem é Yifan?

— Viu só! — Apontou um dedo para o mais alto acusadoramente, pegando o burguês no pulo. — É o guarda-costas do Jongseo. Se tivesse prestado atenção na Seungwan, teria lembrado.

— São muitos nomes! — Defendeu-se. — Não tem como decorar todos.

— Teria, se chamasse eles pelo nome. Os cara tão lá fazendo tudo pra você, cê não tem nem que levantar o dia todo se não quiser.

— Kyungsoo, é o trabalho deles. Não faz sentido agradecer, não é um favor. É um serviço remunerado. Captou a mensagem?

— Aí é que tá — o assalariado se ajeitou na cadeira, aproximando-se de Jongin ao colocar os cotovelos sobre a mesa. — Não é tão simples. Pra você, isso é um detalhe; a grana que eles ganham não faz nem cócegas no seu talão de cheque. Mas é com esse dinheiro que eles vivem, é disso que eles dependem pra viver — repetiu, tentando fazer a ideia penetrar nos neurônios ociosos do mais alto. — Eles ficam mais tempo na sua casa do que na casa deles. Não é tão simples, o mundo não é uma equação matemática. É com gente que você tá lidando, não um bando de máquina pré-programada. Agradece quando te trouxerem alguma coisa, fala bom dia, olha no rosto deles, lembra do nome. Não custa nada ser decente.

Kim Jongin não era o primeiro ricaço que ele via, como dizia sua avó, redicando gentileza. Estavam sempre inventando desculpas para serem os mais antipáticos possíveis, mesmo que exigissem ser tratados com respeito pelos contratados. Mas é claro que quase nunca buscavam respeito — estavam mais interessados em medo. Ou exaltação exacerbada, qualquer coisa que inflasse seus egos e os jogasse num patamar mais alto ainda que o dinheiro. Kyungsoo não precisava ter trabalhado com todos os empresários do mundo para saber que exceção era coisa rara.

Era a primeiríssima vez, todavia, que Kim Jongin ouvia algo daquele gênero de alguém do naipe de Kyungsoo. Quando era mais jovem, o pai ainda insistia para que fosse educado com todos — e, até o presente momento, o milionário acreditava piamente que não tinha nada de errado no modo como tratava seus empregados. Ele achava que estava ok. Talvez Kyungsoo fosse louco, no fim das contas.

— Eu sou decente — foi a única coisa que disse, de maneira mais seca do que o normal. — Está dispensado do seu expediente hoje.

Concluiu que poderia fazer isso, afinal, era o chefe — não era? Mas surpreendeu-se quando Kyungsoo replicou, já se preparando para ir embora:

— Eu não trabalho aos sábados.

(...)

A única opção que restou foi voltar à Mansão de Jongseo. Jongin pagou a conta no café com um bico descontente nos lábios e ligou para que Joohyun o viesse buscar com o tom mais emburrado do mundo. Foi logo se enfiando no próprio quarto, colocando os fones de ouvido e evitando, ao máximo, Mr. Sandman. Deu play em Hit the Road Jack, do Ray Charles, e só percebeu que ainda não tinha ouvido outra coisa lá pela nona vez em que a música recomeçava.

Estava tentado a ir ao Shopping. Queria mesmo entrar numa loja e só sair com o cartão de crédito estourado, quaisquer que fossem as bugigangas que compraria. Não gastava em roupas, na maioria das vezes. Sempre ia para o ramo da decoração, encher a casa de pequenos detalhes minimalistas e nada baratos — era assim que gostava de passar o final de semana. Sabia que precisava economizar, dar uma maneirada, mas Kim Jongin estava tão contrariado que só uma boa dose de capitalismo para fazê-lo relaxar.

Não queria pensar em Kyungsoo-sem-sobrenome. Não queria mesmo lembrar, a cada segundo, de como o rapaz só saiu de casa tão cedo num sábado porque quis — já que disse, com todas as letras, que não trabalhava naquele dia. Não queria relembrar a fala dele do dia anterior, sobre como não se pode comprar um amigo — sobre como ele queria ser amigo de Jongin, não apenas arrumar um emprego.

Àquela altura, contudo, Jongin já duvidava das reais intenções de Kyungsoo.

No momento em que estava quase cedendo aos velhos hábitos de consumo, alguém bateu na porta — era Jongseo o chamando para uma partida de golfe. Golfe. Kim Jongin odiava golfe com todos os átomos da sua composição química, e não nutria sentimento melhor pelo irmão, então era óbvio que inventaria uma desculpa esfarrapada para que não fosse. Mas é claro que Jongseo sempre tinha o que queria, porque o irmão mais velho não conseguia sustentar um não durante muito tempo. Quando se deu conta, já estava usando uma daquelas roupas esquisitas, segurando um taco e encarando o mais novo acertar uma bola num buraco.

Pensou sobre como Kyungsoo agiria naquela situação (ele provavelmente criticaria a burguesia de alguma forma específica, mas não podia inferir qual). Supôs que o baixinho não soubesse como jogar golfe — mas que, diante a expressão altiva de Jongseo ao se gabar da bela jogada, se esforçaria para aprender apenas o suficiente para deixar o riquinho sabendo que não era a última bolacha do pacote. Jongin gostava daquele pensamento — não o de Kyungsoo franzindo as sobrancelhas, concentrado na tarefa, não, que isso, mas o de seu irmão sendo devidamente posto em seu lugar. O Kim mais novo gostaria de saber jogar tão bem a ponto de simplesmente desbancar o sorriso enviesado de Jongseo, mas era péssimo naquilo. Jongin tinha dificuldades em achar algo em que não era péssimo.

Kyungsoo aparentava ser um desses caras bons em tudo. Era engraçado, bonito, e provavelmente tinha milhares de talentos guardados.

Balançou a cabeça quando notou que já estava pensando nele outra vez — e que, quase automaticamente, Mr. Sandman já voltara a ricochetear em seu cérebro. Mr. Sandman, bring me a dream; make him the cutest that I've ever seen.

Kyungsoo também era fofo, Jongin anotou mentalmente — e quis se matar logo em seguida, porque essa era a deixa que a música precisava para nunca mais sair de dentro das suas entranhas. E se distraiu tanto, repetindo o refrão milhões de vezes, que não percebeu quando já era sua vez de jogar.

— Terra para Jongin — Jongseo chamou, provocando-o com seu sorriso largo e esquisito, que estava sempre lá, pairando em seu rosto. — Não trouxe o pinguim com você? Agora que percebi a falta dele.

— Do que você tá falando?

— Do seu guarda-costas — debochou. — Não sei o nome dele.

— É Kyungsoo — Jongin fez questão de informar, deixando claro que aquele detalhe o tinha incomodado. — O nome dele é Kyungsoo, e é melhor que o chame assim.

Jongseo mostrou os dentes outra vez, e fez um gesto para que Yifan fizesse uma jogada no lugar o irmão mais velho — que, pelo visto, não teria o desprazer de perder naquilo novamente. Arrumou um tom suave para proferir sua próxima heresia:

— Eu acho uma pena, esse rapaz... Kyungsoo — foi enfático e, ainda mais, cínico. — Deve estar com a corda no pescoço mesmo, pra aceitar um serviço assim. Quero dizer, o contrato dele diz acompanhante. Deve ser no mínimo constrangedor.

O moreno franziu a testa, mas não fez o que Jongseo queria. Deixou todas as perguntas guardadas, sem verbalizar qualquer palavra, matando o CEO levemente por dentro. Jongseo queria fazer pouco caso, enfiar caraminholas na cabeça do irmão — como fazia quando eram menores e deixava Jongin acreditando que seus pais o botariam para fora de casa caso terminasse um bimestre com outro boletim vermelho. Não daria mais daquele gostinho ao mais jovem — e foi assim que, decididamente, deixou seu taco no chão e marchou até o carrinho no qual haviam chegado.

Deu partida sem olhar para trás, onde Jongseo xingava e mandava Yifan correr atrás do único transporte que tinham para sair daquela parte isolada do campo. É, teriam que fazer uma bela caminhada mais tarde.

(...)

Kyungsoo não estava mais em uma luta silenciosa — porém, muito acalorada — com o Monstro da Banheira. "Domingo não é dia de trabalho braçal", era o que costumava dizer. "Só neuronal". Por isso é que torrava todo o restante do QI que tinha naquele livro extenso e complicado, que nem da sua área era. Seu dever era terminar algum exemplar de literatura nacional, além de finalmente concluir o trabalho da faculdade, mas lá estava, tentando decifrar física. Percebeu que gostava muito mais de ler aqueles livrinhos fininhos do Stephen Hawking do que, efetivamente, uma apostila indecifrável cheia de coisas que ele definitivamente não viu no Ensino Médio.

A única coisa da qual se lembrava daquela época-nem-tão-distante, na verdade, eram das espinhas e das escapadas que dava quando tinham muitos períodos de química no mesmo dia. Os anos passaram rápido, rápido demais. Mas aquela específica tarde de domingo parecia não terminar nunca — e quando Kim Jongin bateu em sua porta, então? Domingo infinito.

Como cê chegou aqui?! — Quis saber, exaltado. O ricaço até tentou pôr o pé pra dentro do seu apartamento, mas o assalariado bloqueou o caminho, se recusando a abrir a porta completamente até ter uma explicação plausível sobre aquele acontecimento.

A última vez que vira Jongin fora no dia anterior e, pelo que se lembrava, não tinham encerrado a conversa nos melhores termos.

— Eu vim com a Joohyun — explicou o homem. — É a minha motorista. Eu sei o nome dela, viu só? — Exibiu-se uma última vez.

— O que isso tem a ? Outra coisa, não perguntei o meio de transporte que você pegou, eu perguntei como cê descobriu o meu... — o meu endereço, era o que ia dizer antes de lembrar que tinha trazido Kim Jongin ao seu cafofo pessoalmente na manhã de sexta. Amaldiçoou-se. — Ah, deixa quieto.

Deu de ombros e finalmente desprendeu-se da porta, abrindo passagem para o mais alto. Jongin ficou confuso com a mudança repentina, mas entrou mesmo assim, olhando em volta como se fosse a primeira vez que pisava ali. Não notou nenhuma diferença de cara, mas percebeu que na vez anterior não tinham tantos livros espalhados sobre a mesa da sala — que o homem supôs que fosse a de jantar.

— O que é tudo aquilo? — Indagou, curioso, apontando para a bagunça. Kyungsoo fez uma cara.

— Livro — respondeu, simples. — São pra faculdade.

— Você faz faculdade? — Soou surpreso, se aproximando da mesa e esperando encontrar qualquer coisa matemática. Achou que tivesse acertado em suas percepções sobre Kyungsoo quando avistou a apostila de física avançada, mas entrou em outro looping de confusão quando encarou materiais de literatura e gramática sobre a mesma tábua de madeira.

— Cê achou que eu fosse um desocupado? — O mais baixo riu, amenizando o humor ao perceber o olhar encantado de Jongin sobre os livros. — Tô quase terminando Letras.

— Sério? — Então encarou Kyungsoo, interessado. — E por que Letras? Você escreve?

Kyungsoo reparou que Kim Jongin foi a primeira pessoa que perguntou o porquê dele fazer Letras sem tocar no assunto dinheiro. A maioria das pessoas perguntava e então falava sobre como não era uma área tão rentável, ou como medicina era uma ciência linda. O rapaz, no geral, não entendia quem questionava os motivos pelos quais alguém inicia uma faculdade — achava que a resposta era óbvia: porque eu gosto, inferno!

Mas Jongin era diferente, de alguma forma; não era igual a todas as outras pessoas que já fizeram aquilo, mesmo que não tivessem sido muitas. Ele realmente queria saber, conhecer as razões de Kyungsoo. Era fofo. O jeito como o fitava, esperando uma resposta, curiosidade dançando em seus olhos. Foi que o rapaz percebeu que um só poema não seria suficiente para Kim Jongin. Bem aí que percebeu que precisaria de um livro inteiro, porque, pelo visto, gostava um pouquinho dele. No outro sentido da coisa.

— Escrevo — concordou, subitamente nervoso. Levou os braços ao peito para cruzá-los, a realização o atingindo como bala. Gostava de Kim Jongin. Queria berrar um palavrão, porque aquele tinha sido um péssimo (e aleatório) momento para perceber sua paixonite. — Escrevo umas merda — soltou, mas logo se arrependeu.

Não fale mal daquilo que você escreve para pessoas que nunca nem viram um parágrafo seu, especialmente caso se trate de alguém que vá possivelmente mentir sobre a qualidade do seu trabalho só para te contrariar positivamente. Isso as faz querer ler.

— Posso ver? — Jongin deitou o livro que segurava sobre a mesa mais uma vez, e esperou por uma resposta. Kyungsoo imediatamente se lembrou do poema que fizera sobre o sorriso daquele imbecil na sua frente, mas já não tinha como voltar atrás. Com o coração palpitando feito de adolescente, pegou seu caderninho preto, velho e maltrapilho. Não respondeu à pergunta de Jongin, simplesmente o entregou o item mais valioso daquele apartamento todo como se não fosse nada.

O moreno sorriu, derretendo qualquer coisa dentro do peito do assalariado que insistia em deixá-lo nervoso. Deu graças quando percebeu que Jongin começaria pela primeira página, e que talvez nem folheasse seu caderno o suficiente para chegar aos poemas de poesia barata, sem sentido. Quando o milionário começou a aparentar estar realmente lendo o texto que escrevera há alguns meses, Kyungsoo se preocupou. Queria mesmo, do fundo do seu coração, que Jongin fosse só mais um daqueles que passaria os olhos pelas primeiras cinco linhas, elogiaria seu vocabulário e finalmente fecharia o caderno. Uma sensação terrivelmente visceral se acomodou na ponta do seu estômago, revirando sua mente como um vendaval — não queria que Jongin visse tanto dele, assim, de uma vez. Era aterrorizante pensar que tinha posto nas mãos do seu chefe burguês uma chave que dava passagem para toda a sua alma. Tinha que achar uma maneira minimamente educada de arrancar aquele caderno das mãos de Kim Jongin.

— Cê gosta de ler? — Foi o que conseguiu dizer após um pigarro. Jongin pareceu perceber que já estava lendo os textos de Kyungsoo há muito tempo, porque devolveu o caderno rapidamente, corando de vergonha. O mais baixo agradeceu fracamente. Mais uma página virada e ele estaria voando no pescoço do ricaço.

— Sim — Jongin mentiu, sentando-se no sofá e percebendo ser mais confortável do que parecia. — Gostei muito dos seus textos, também. Não imaginava que escrevia tão bem.

(A segunda parte foi verdade).

O assalariado riu, guardando seu relicário poético em algum lugar entre a bagunça usual de seu material.

— E por que não?

Jongin precisou pensar.

— Ah, sei lá... não combina com o jeito que você fala.

É claro. Kyungsoo poderia ser um gênio literário, inventor de mil neologismos e dominador de todas as figuras de linguagem, mas ainda falava e se vestia como um periférico. Ele sabia que era o que bastava para Kim Jongin não querer mudar o status de empregado-empregador da relação deles.

Não quis aparentar o efeito que aquela frase teve sobre o seu humor, mas não era tão bom em fingir. Jongin seria cego se não visse a expressão de Kyungsoo mudar de normal para completamente emputecido em questão de microssegundos.

— Você tá bravo? — O milionário teve a pachorra que inquirir, o que só fez Kyungsoo ficar mais estressado. Entretanto, limitou-se a um curto "não", que inevitavelmente o deixou com um bico nos lábios e uma cara de criança emburrada.

Jongin achou melhor fingir que acreditou na resposta, não vendo motivos concretos para que seu amigo de aluguel ficasse tão irritado de uma hora para outra. Por um instante, cogitou a hipótese de se esgueirar na ponta dos pés e fugir dali, apenas no caso de Kyungsoo ser um psicopata com um bônus especial de problemas ao controlar a raiva. Passou tanto tempo preso naquela hipótese aterrorizante, formulando ideias de escape e métodos para pedir socorro, que nem notou quando Kyungsoo o chamou da cozinha.

Era um apartamento realmente pequeno, então com apenas três passos o mais baixo chegou à sala, segurando uma faca de pão numa das mãos e chamando novamente por Jongin. O moreno pulou de susto com a cena e quase deixou escapar um grito estatisticamente nada masculino.

— Ih, o que que foi? — Kyungsoo debochou, soltando uma risada anasalada, porque talvez Jongin tivesse balbuciado algo sobre ser assassinado no meio do seu susto. Ele só queria se esconder num buraco. — Ninguém mata ninguém com uma faca de pão, não, seu mané. Perguntei se você quer bolo. É de laranja.

Vergonha. Vexame. Humilhação. O único meme que o descreveria melhor do que o da menina tapando a boca com a mão.

Assentiu positivamente em resposta, no fim das contas, sem conseguir dizer qualquer coisa. Pelo menos Kyungsoo já não parecia mais tão irritado, apesar de Jongin duvidar que seu estresse repentino simplesmente tivesse evaporado feito água no deserto, tão rápido quanto chegou. O seguiu até a cozinha, onde o bolo de laranja repousava sobre a base de plástico, denunciando a origem da comida.

— Aonde você comprou? — Questionou o milionário, realmente gostando do sabor e da textura.

— No mercadinho do final da rua.

Kyungsoo até se estenderia na fala, contando sobre a senhora Jung e como a mulher adorava empurrar mais comida para dentro do seu carrinho usando a desculpa de que Kyungsoo era magro demais. (O rapaz sabia, lá no fundo, que era só estratégia de marketing. Vale tudo no capitalismo, cara). Não deixaria de elogiar os bolos que ela fazia, também, porque eram a coisa mais gostosa que ele já comeu algum dia na sua vida — e por mais que tentasse, nunca acertava o ponto e suas receitas nunca ficavam como as dela. Continuou em silêncio, apesar disso.

Acabou por se perder numa cisma sobre Kim Jongin, seu sorriso bonito e sua fala de mais cedo. Seria ótimo se simplesmente esquecesse, mas tinha uma sensação pesada no peito, esquisita. Não estava triste, mas também não estava feliz — estava num meio-termo confuso que não o levava a canto algum. Não combina com o jeito que você fala. O que deveria esperar daquela sentença maldita? Ainda mais quando ela tinha sido precedida de um não imaginava que escrevia tão bem. Talvez Jongin simplesmente duvidasse que Kyungsoo algum dia fora alfabetizado.

— Podemos sair para um passeio? — O mais alto deu a ideia depois de mastigar a última mordida da sua segunda fatia de bolo. Kyungsoo não tinha terminado nem a primeira, naquela altura, mas já não fazia questão de comer. Tinha que refletir e ponderar acerca do fato de ser um completo idiota caidinho pelo burguês desmiolado que parecia fazer de tudo para machucar seus sentimentos. Começando por ser tão bonito daquele jeito. Era injusto com o coração fraco do assalariado.

— Tanto faz — Kyungsoo deu de ombros. — Não sei se tô bom pra ser amigo de aluguel hoje. Inclusive, não sei se tô bom pra existir hoje, quem dirá pra ficar conferindo se você não vai gastar mais do que pode em roupa.

— Eu não gasto tanto assim com roupas — o moreno foi rápido. Kyungsoo franziu a testa. — E eu ainda posso gastar bastante, tecnicamente.

— Ah, então me desculpe, Senhor Estou Falindo, Mas Ainda Sou Mais Rico Que Você.

— Eu não estou indo à falência — Jongin tentou se explicar. — A empresa só está...

Muito ruim das perna — Kyungsoo atropelou a fala mansa do mais alto. — Cê não vê jornal, não? Deu na TV. As ações caíram depois que vocês venderam uns apartamentos duvidosos. Tipo, com material bem abaixo da qualidade esperada, levando em conta o preço. Também tiveram uns escândalos com encanamento podre.

Como? — O moreno parecia em choque. — Você tá brincando comigo?

O assalariando suspirou, engolindo o que mastigava da sua fatia de bolo pela metade antes de guardá-la com o restante no forno. Encarou Jongin seriamente, pensando em simplesmente mostrar ao homem uma matéria jornalística sobre o declínio da Kim Group, mas reconsiderando:

— Escuta — iniciou, limpando as mãos num pano de prato e se preparando psicologicamente para usar seu vocabulário de redação dissertativa-argumentativa. — Esses problemas de rendimento vêm da má administração que qualquer um que esteja no comando anda tendo, o que não realmente significa que você é pobre agora. Se é com isso que você tá se preocupando, não esquenta a cabeça. Se você tem algum dinheiro investido em algo rentável, não vai ser isso que vai esvaziar seu cofre.

Espera — Jongin segurou o seu braço quando ele fez que ia sair, rumando para a sala. Kyungsoo sentiu a respiração ficar pesada e o coração amolecer. Maldita seja sua mania de adquirir paixonites com facilidade. — Desde quando isso vem acontecendo?

— Você não sabe nada sobre a sua própria empresa?

Kyungsoo assistiu o rosto de Jongin ficar vermelho enquanto o mais alto soltava seu braço com hesitação, parecendo um filhotinho de vira-lata caído do caminhão da mudança. Quis apertar suas bochechas, mas afastou aquele sentimento de tiazona dos namoradinhos para bem longe, se esforçando para continuar são.

— E-Eu não vejo as notícias — Jongin explicou, então apontou para a cadeira em que Kyungsoo estava há alguns minutos: — Senta aqui de novo, me fala mais. Os detalhes, as teorias, tudo.

Kyungsoo se sentou, como o chefe pediu, mas como não sabia fazer nada que lhe pedissem de maneira direta e linear, engatou uma pergunta:

— Cê não recebe nenhum tipo de relatório? Ou vai em reuniões, ou tem opinião nas decisões da corporação?

— Não — o ricaço quase riu na cara do assalariado. — Eu só recebo uma mensalidade porque o meu pai deixou no testamento e fez sei lá quantos documentos pra isso. Eu não tenho participação nenhuma, fora ter parte nos lucros — suspirou. Quando Kyungsoo achou que tivesse acabado, ele emendou: — E volte a falar como antes, tá me incomodando.

— Isso foi uma ordem? — O outro quis saber, risonho e debochado.

— N-Não, mas se você quiser... olha, vamos ao ponto? — Jongin se atrapalhou, tentando ajustar os tópicos para que Kyungsoo não saísse pela tangente. Era irônico, porque para evitar que isso acontecesse, quem estava saindo pela tangente era ele. — Sobre o Kim Group. Desde quando?

— Tem uns meses, eu acho — o mais baixo deu de ombros. — Mas ano passado uma mina processou a empresa. Ela pôs uma casa pra vender numa filial imobiliária, fez contrato bonitinho e o Kim Group arranjou um comprador pra ela. O bagulho era que o dinheiro da compra passou pela empresa primeiro e depois chegou nela, bem abaixo do estipulado no contrato, mesmo se você somasse com a porcentagem que era legalmente da empresa. O comprador tinha pagado certinho. Eles resolveram até bem a situação. Não foi noticiado na época, mas veio à tona recentemente por causa dos problemas que eu te falei.

Estão roubando da empresa, era o que Kyungsoo queria dizer, mas não disse. Ele sabia que alguns funcionários do Kim Group levavam uma vida de luxos bancados por dinheiro de origem misteriosa, tendo em conta o valor dos salários. Sabia que o próprio Jongseo gastava mais do que sua folha de pagamento poderia cobrir, contudo, não diria isso a Kim Jongin. Não tinha uma razão específica, visto que sempre que encontrava a oportunidade de confrontar um burguês com fatos, era isso que fazia. Não queria preocupá-lo, nem alimentar dúvidas sobre o caráter do seu irmão. Todavia, não poderia impedi-lo de tirar as próprias conclusões.

— Jongseo está desviando dinheiro — o mais alto arrematou, sem parecer muito surpreso. — Eu tenho certeza. Está desviando das verbas usadas para a construção de novos imóveis e está roubando de clientes e funcionários em cargos menores.

— Epa! — Kyungsoo ergueu as mãos e uma das sobrancelhas. — Isso aí foi muito específico.

— Eu sempre soube — continuou, sem prestar atenção em Kyungsoo, dando de ombros e suspirando. Precisava tirar aquilo do peito. — Mas eu fingia que não, porque não tinha nenhuma prova. Jongseo sempre roubou a empresa, mesmo que não precisasse. Segundo o testamento do meu pai, eu tenho uma porcentagem fixa nos lucros, então ele nunca me deu menos dinheiro do que o usual para que não desse na cara. Ele sabe que eu sei, então eu sempre tenho o valor que quiser. Eu já me sinto o cúmplice dele. Eu sou cúmplice dele, não sou? Meu Deus, eu não acredito que eu vou pra cadeia junto com o Jongseo!

— Ei, ei, calma! — Kyungsoo tentou fazer Jongin recuperar a compostura, mas o homem parecia prestes a chorar. O assalariado sabia que aquela família teria alguns podres, mas não imaginava que poderiam ser tão profundos quanto aparentavam. Kyungsoo, de alguma forma, tinha a sensação de que o que Jongin o contara tinha sido apenas a ponta do iceberg. — Olha, ninguém vai te prender, beleza? Mas como você sabe que o Jongseo rouba da empresa?

— Ele odiava o nosso pai — fungou. — Por minha causa.

— O quê?

— Eu... — Jongin brecou. Ergueu a cabeça e fitou Kyungsoo, parecendo hesitar. Por fim, simplesmente deu de ombros. — Eu sou um bastardo, Kyungsoo. Minha mãe biológica era amante do meu pai, mas ela morreu no meu parto e ele precisou me assumir. A esposa do meu pai nunca gostou muito de mim; acho que ela já estava grávida quando eu nasci. Eu sou um bastardo e meu pai me tratava como um filho legítimo. Por isso o Jongseo me odeia, por isso odiava o nosso pai.

— Você era o favorito, não era? — A pergunta fez Jongin rir. — Não, pode falar, cê era o favorito que eu sei. Olha pra essa sua cara de filho favorito. Todo mundo gosta de você de algum jeito.

— O assunto é sério, Kyungsoo — o moreno passou as mãos pelo rosto, respirando fundo e contendo as lágrimas.

— Mas eu falando sério.

— Idiota — Jongin reclamou quando o mais baixo cutucou a sua barriga, fazendo cócegas, e quase deu um tapa na mão atrevida do assalariado. Apesar da carranca emburrada, conseguiu sorrir com a infantilidade incrivelmente fora de contexto de Kyungsoo. Estavam falando sobre famílias desestruturadas e, do nada, ele resolvia ser fofo e engraçadinho. — A gente pode sair? Dar uma volta. Sei lá.

— Tá bom — o dono da casa assentiu. — Eu num ia facilitar pra você, não, mas cê fez uma cara fofa, então tô dando uma trégua. É de limão o sorvete que você quer, pivete?

Jongin gargalhou daquela vez, os olhos sumindo momentaneamente e fazendo Kyungsoo se sentir orgulhoso por ter provocado uma cena tão bonita. Levemente, o mais alto assentiu, deixando que fosse arrastado escadaria abaixo até a lojinha de conveniência mais próxima.

(...)

Kyungsoo queria estar irritado. Muito irritado.

Como ousava Kim Jongin, o mais burguês dos safados e o mais safado dos burgueses, simplesmente invadir sua casa e depois insinuar que ele não se parecia com um escritor por falar de um jeito especialmente anárquico? Era o aesthetic de Kyungsoo, seu estilo de vida — não significava que o rapaz era menos inteligente do que a bunda rica do bonitão. Ah, pensando naquilo, o assalariado até que conseguia reavivar um pouco do fogo do ódio que ainda ardia em seu peito — mas no instante em que se lembrava vagamente das feições do rosto de Jongin, aquilo sumia magicamente.

Magicamente, bicho, cê acredita?

— Por que tá fingindo que nada aconteceu?

Kyungsoo precisou piscar para voltar à realidade, achando aquela frase um cadinho tendenciosa. "O cara lê mentes?"

— Quê? — questionou, batendo os dentes de frio como o bom homem sensível a mudanças climáticas que era. A boca estava praticamente anestesiada, quase no fim do picolé de limão, e ele falava no ritmo de uma tartaruga zumbi. — Fingindo o quê?

— Que eu não praticamente surtei na sua cozinha há uns dez minutos, falando do meu irmão ladrão e contando quase toda a minha vida pra você. Eu te disse coisas que nem os meus diários da quinta série sabiam!

Jongin parecia estar realmente preocupado com a situação — suas sobrancelhas levemente franzidas denunciavam aquilo muito bem. Kyungsoo queria morrer — frio, picolé no fim e uma vontade estupidamente imensa de grande de dar um beijinho no nariz do burguês (seria assim que articularia uma sentença se precisasse descrever aquilo em voz alta), estava tudo conspirando para que ele enlouquecesse.

— Queria que eu fizesse o quê? Um comentário? Tipo "ótimo plot, desenvolvimento dez de dez, Oscar Fanfic do Ano"? Acho que se você falou aquilo tudo pra mim, é porque tinha um bagulho te incomodando aí dentro faz tempo. Tinha, num tinha?

Kyungsoo aterrissou seus largos e escuros olhos em Jongin, que os fitou do outro lado dos óculos com incerteza. Encarou as mãos, a embalagem verde-clara rasgada do picolé o encarando de volta, e suspirou.

— Tinha — assumiu, rezando para que não estivesse ficando vermelho. — Eu precisava arrancar o peso do meu peito.

— Viu só? — O mais baixo não se cansava de olhá-lo daquele jeito tão bonito e reconfortante, que o fazia se sentir melhor instantaneamente. Jongin se sentia cuidado. — Achei que eu tivesse dito que era seu amigo. Amigos desabafam um com o outro. Não vamos tocar nesse assunto agora, pode ser? A gente deixa isso esfriar e depois arruma um jeito de consertar tudo.

— E-Espera, consertar? Você quer fazer algo a respeito?

Jongin disse aquilo como se Kyungsoo estivesse louco.

— Óbvio? — O assalariado ergueu uma sobrancelha. — Você me contou que, além de roubar a empresa, o babaca ainda tira uma parte da folha de pagamento dos funcionários de cargo menor. Isso é crime. Quer dizer, o resto também é, mas isso é crime covarde.

Eu sei — sussurrou o moreno, levando a mão à boca como se fosse roer as unhas.

— Então, quer manter segredo?

Não, mas... — Jongin não terminou a frase.

— Mas? — A pergunta foi retórica. — Tá com medo de ficar pobre?

O mais alto pareceu pensar por um momento. Olhou para baixo, olhou para Kyungsoo, então deu de ombros:

— Posso viver com isso. Eu só não sei como vai ser.

— A gente cuida disso mais tarde — reiterou, erguendo a mão para acariciar o ombro de Jongin com ternura.

— Kyungsoo?

— Fala.

— Você deixa eu dormir na sua casa hoje? — Jongin pediu com um olhar tendenciosamente fofo e estrategicamente inspirado num filhotinho de cachorro abandonado. Kyungsoo quis dizer não (ele quis mesmo), mas só fez silêncio. Por dentro, estava gritando. — O Sehun disse que só vou poder voltar pra casa amanhã na hora do almoço. Eu não aguento mais aquela mansão e definitivamente não quero me encontrar com...

— Pode, pode, pode — o assalariado nem deixou que o moreno terminasse a sentença e já estava concordando um milhão de vezes. Ver o sorriso no rosto de Jongin alargar a ponto de esconder seus olhos fez tudo valer a pena. — Mas não tem banheira, cê sabe, né?

— Eu sei — o milionário fez um biquinho e cruzou os braços, começando a ficar com ódio do Monstro do Ralo Entupido da Banheira. Kyungsoo entendia aquilo e sentia-se representado pela expressão ranzinza que Jongin deixou desabrochar. — A gente precisa resolver esse bagulho urgentemente.

— Sim! — Gritou, erguendo a mão direita fechada em punho, orgulhoso pelo vocabulário adquirido pelo seu amigo de aluguel. — Morte à burguesia!

Rindo, Jongin anuiu, permitindo-se esquecer momentaneamente de que, tecnicamente, também era um burguês.

(...)

Eles estavam esparramados sobre o sofá, assistindo às baboseiras da televisão. Tinham tomado banho na casa do amigo e vizinho de porta de Kyungsoo, Kang Yeosang, um calouro de História. Jongin nunca tinha passado por algo parecido na vida, mas não reclamou; ficaram alguns minutos extras no apartamento do garoto, conversando e lhe fazendo companhia. Assim que voltaram para a mesma sala bagunçada e repleta de livros de antes, viram-se isentos de opções do que fazer, mas sem a mínima vontade de ir dormir tão cedo. O assalariado bem que queria inventar um passatempo relâmpago para mostrar a Jongin que a vida de proletariado não é algo monótono preenchido apenas pelo barulho da televisão, mas, bem, a sua vida era, então não tinha muita coisa a se fazer.

— Hyung — chamou o mais alto, fazendo Kyungsoo franzir a testa por um instante. Não fora informado de que era mais velho que Jongin, mas fez questão de deixar aquilo mentalmente anotado para futuros contratempos. — Eu posso ler mais das suas coisas?

Naquela altura, Kyungsoo só soube sorrir. Não se preocupou com o poema proibido da última página do seu caderno quando o entregou nas mãos de Kim Jongin. Na verdade, uma grande parte de si queria que ele o lesse, e que entendesse as entrelinhas.

Passou a assistir o olhar concentrado de Jongin passeando por seus rabiscos ao invés da televisão. Não se arrependeu nem um pouco.

(...)

Kyungsoo estava nervoso por motivos nulos, completamente inexistentes. Não deveria estar ansioso para conhecer a Grande Mansão Hiper Decorada de Kim Jongin, mas estava. A tubulação do bairro de luxo já tinha sido consertada, e a prefeitura já tinha enviado suas milhares de notas e avisos e pedidos de desculpas aos ricos que moravam ali, pelo imprevisto e pelo pequeno atraso igualmente inesperado. Só restava ao milionário voltar ao seu cafofo.

Não, não, não dava pra chamar a mansão de Jongin de cafofo, e não era por causa do sentido da palavra. Kyungsoo chamaria, se fosse a mansão dele — porque, de alguma forma, a palavra o trazia uma sensação de lar. Mesmo que morasse num castelo de diamantes, ainda diria cafofo.

Mas aquilo não era um cafofo. Não mesmo.

O esquema para entrar era de outro nível. Nem se Kyungsoo precisasse tirar todos os seus documentos outra vez, ele teria de passar por tanta burocracia. Soava como um castelo, mesmo que essa coisa de estilo clássico tivesse mais a ver com Jongseo. Jongin aparentava gostar de um design mais moderno, quase minimalista, apesar de bem sofisticado. Na realidade, Kyungsoo já nem sabia mais se estava pensando com alguma coerência ou simplesmente embaralhando palavras aleatórias uma do lado da outra. A vista que tinha da construção o deixara completamente embasbacado.

— Meu amigo... — Piscou novamente, como se para ter certeza do que estava acontecendo. Deixou uma das malas de Jongin no chão enquanto Joohyun descia com a outra, esperando por alguém que o guiasse no meio daquele labirinto luxuoso. Pôs as mãos na cintura, perplexo. — Issaqui é de verdade? Eu morri e vim pro céu? Ou melhor, inferno, né, porque não sei se no céu é permitido consumismo. Não tenho certeza ainda.

— Você é engraçado — Joohyun riu do novo colega de trabalho conversando sozinho, soltou a mala que levava e bateu as mãos uma na outra, como se as limpasse. Ele achou que a moça fosse dizer mais alguma coisa, mas ela já parecia satisfeita com aquela constatação.

— Bem-vindo ao meu local de trabalho — Sehun abriu os braços como se fosse o próprio anfitrião, dando um sorriso sacana para o amigo. — E então, como tá indo a jornada?

Sabendo que se referia ao emprego, Kyungsoo deu de ombros:

— Normal, eu acho. Já mudei de cargo umas quinze vezes, mas sigo firme.

Sehun riu, e então os três mergulharam num silêncio sepulcral de maneira súbita, contentando-se em olhar para os lados ou balançar o corpo de um lado para o outro, vez ou outra — esperando. Foi esquisito simplesmente ficar parado como se tivesse criado raízes, então o mais novo contratado dos Kim inquiriu:

— O Jongin morreu dentro daquele carro?

— Ele foi cumprimentar os cachorros primeiro — Joohyun explicou.

— Tem cachorros aqui dentro?

— Pelo menos dez deles — Sehun o contou, então, que Jongin tinha um fraco por bichinhos e geralmente adotava qualquer animal de rua que visse dando mole. Kyungsoo seguiu as instruções sobre como chegar ao santuário canino com afinco e pressa, morrendo de vontade de ver alguns cachorros fazendo cachorrices. Ele não podia com cachorros. Simplesmente não podia.

Encontrou um estreito corredor na lateral na mansão, que se alongava durante metros e dava nos fundos da residência. Quando atingiu o final, não foi difícil encontrar o canil. Era uma grande área ladeada por uma cerca de alambrado que meramente alcançava a sua cintura, feita simplesmente para demarcar o perímetro. Havia um portãozinho fofo e numerosas casinhas de diversos tamanhos diferentes, além de um largo tanque de água para os cãezinhos beberem.

Kyungsoo avistou inúmeros vira-latas, dois poodles, um pinscher, um rottweiler e alguns gatos — por último, mas não menos importante, um Kim Jongin completamente derretido pelos bichinhos.

Duvidava que alguma vez na vida já tivesse visto algo tão encantador.

— Deve dar mó trampo sair pra passear com todo mundo, hein — Kyungsoo comentou, casualmente escorando um dos cotovelos sobre o portão do canil.

— Tem uma escala de passeio — Jongin respondeu, fazendo o seu melhor para encarar Kyungsoo nos olhos enquanto um grande vira-lata o lambia no rosto. Parecia ter sentido saudades. — Mas não sou eu que saio com eles, é o Kihyun, um cara que eu contratei. Eles gostam mais do Kihyun do que de mim, geralmente.

— Eles parecem te amar pra caramba, desse ângulo.

O mais alto sorriu, gradativamente se levantando e indo em direção ao amigo de aluguel.

— Eles fazem eu me sentir menos sozinho nas piores noites.

Kyungsoo ficou preso naquela frase. Mesmo depois de Jongin passar por ele e rumar para dentro da mansão outra vez, deixando apenas silêncio para trás, o rapaz ainda ficou vários minutos com a cabeça virada para o nada, ponderando sobre o que acabara de ouvir.

Ele é tão sozinho assim?

Olhou em volta de novo. Subitamente compreendeu todo o desejo pelos luxos desnecessários do homem mais alto, levemente mais novo, cujas bochechas coravam com facilidade e que acreditava em assassinos portando facas de pão. Não queria passar a mão na cabeça de burguês nenhum, mas questionou-se se Jongin não simplesmente tentava, em vão, preencher sua solidão com todos aqueles hobbies caros e sem sentido. Kyungsoo não era um completo imbecil, sabia que dinheiro poderia ser bom, mas também não era cego. Dinheiro pode ser bom, só que, eventualmente, se torna mau na maioria das ocasiões.

(Irônico. A descrição também se adequa à raça humana).

(...)

Jongin tinha insistido em mostrar a casa para Kyungsoo por conta própria. Recusou que Sehun o fizesse em seu lugar, já que queria poder guiar seu amigo pela mansão e falar, com a própria boca, sobre cada coisinha que tinha ali. Kyungsoo não ligava muito para quem iria norteá-lo dentro daquele labirinto de corredores, andares e lustres — desde que conseguisse andar sozinho sem ter que gritar por ajuda, já estava de bom tamanho.

— Tá querendo me dizer que essa merdinha aqui custa cinquenta mil? — O assalariado ergueu uma sobrancelha duvidosa para o quadro de arte moderna que repousava numa das paredes do corredor que levava aos quartos. — Não tô desmerecendo o artista nem nada, eu curto arte. Só não curto sair comprando coisa pra decoração que não vai ter nenhuma serventia no futuro. E pagar caro ainda. Sai fora.

— Você tá começando a se parecer com o Sehun — Jongin franziu o cenho e fez um biquinho.

— Ai, desculpa. Também não precisa ofender com força — Kyungsoo riu. Deu de ombros para a pintura. — É ajeitada, até. Vou parar de falar das coisa que você compra, então, beleza? A grana é tua mesmo.

— Isso — o mais alto assentiu de maneira satisfeita. — Isso mesmo.

Kyungsoo até que se saiu bem nos primeiros minutos. Ignorou o espelho com moldura de ouro, o vaso de flores que valia quase o seu rim, a televisão na cozinha e vários outros itens supérfluos. Não era tão difícil.

Mas só enquanto Jongin não tinha lhe mostrado o depósito.

— É brincadeira. É, não é? — O amigo de aluguel riu, debochado. — Você guarda a decoração que não tá mais usando?

O moreno pareceu encabulado na hora de responder:

— E-Eu me apego fácil, ok?

Encararam a imensidão de quadros, móveis, tapetes e outras bugigangas espalhadas pelo porão da mansão de Kim Jongin. Kyungsoo já não sabia mais de onde saía tanto dinheiro para manter aquela vida, mas sabia que a nascente estava longe de secar. Aquilo ali era a epítome do consumismo e da acumulação. Ele realmente esperava que Jongin não estivesse doente.

— Cara, você precisa de ajuda.

— Eu não sou um acumulador compulsivo — defendeu-se o milionário. — Eu só não tenho mais nada pra fazer. E também, eu geralmente vendo os itens mais antigos que estão no depósito, ok?

— Ah, sim — Kyungsoo fingiu que acreditava, balançando a cabeça num sim desconfiado enquanto Jongin fechava a porta do porão. Puseram-se a andar até as escadas. — Dá pra ver quando foi a última vez que o teu espírito do desapego bateu. Se pá ainda tinha dragão na Terra.

— Dragões nunca existiram, Kyungsoo.

O assalariado sorriu.

— Bom saber que você entendeu o conceito.

— Ah, cala a boca!

(...)

O fim da segunda-feira chegou mais rápido do que o milionário poderia prever. Quando se deu conta, Kyungsoo já estava saindo pela porta, se despedindo e rumando para a própria casa no fim do expediente. No fundo, Jongin queria que o rapaz dormisse lá, como fez na primeira noite na casa de Jongseo, mas Kyungsoo não podia. Aquele dia fora uma exceção, uma vez que não teria aula na faculdade graças ao seu amado professor Seongjoon (que adorava ficar doente nas quintas-feiras, quando todas as aulas são com ele. O empregado não tinha nem como reclamar).

Sendo assim, só restara a Kim Jongin sua boa e velha rotina de se esparramar na cama e ouvir a mesma música repetidas vezes, pensando sobre novos detalhes a se inventar sobre a vida de seus contratados. Enquanto abria o Spotify, matutava acerca de um tópico específico: deveria tirar o item "tem uma namorada" da lista de coisas que criou sobre Kyungsoo? Estava claro que o único compromisso do homem naquela sexta-feira à noite tinha sido estudar, mas mesmo assim, o milionário não tinha certeza se ainda queria acreditar que seu pseudo amigo estava solteiro. Acabou concluindo que pensar o contrário seria o melhor. Para todos os efeitos, Kyungsoo era casado e tinha dois filhos.

Não viu quando seu dedo pousou sobre Stagger Lee, mas não se preocupou em trocar a música. Fechou os olhos por um instante, e toda a sua concentração foi drenada pela letra de Harold Logan e Lloyd Prince.

"A noite estava clara, a lua amarela; as folhas caíam", era como a canção começava. O eu lírico logo tratava de introduzir os dois personagens principais da trama: Stagger Lee e Billy, homens que jogavam jogos de azar no escuro. Pelo o que Jongin podia entender, Stagger Lee havia perdido algum dinheiro para Billy, além de seu novíssimo chapéu Stetson — o que não o agradou muito. A letra fluía quase que tranquilamente pela parte da história em que Stagger Lee ia até a própria casa, pegava sua .44, voltava ao bar e atirava em Billy. Como se um assassinato não tivesse acabado de se desenrolar, a canção parecia louvar os motivos rasos de Stagger Lee. Umas notas e um chapéu pela vida de um homem.

Ele sabia do mito, da história — a tradição por trás de Stagger Lee (ou Stagolee, Stack-O-Lee, você pode escolher). A lenda dizia que havia sido um homem real, que cometeu um assassinato no natal de 1895. Testemunhas oculares dizem ter visto Lee Shelton matar Billy Lyons depois de ter seu chapéu roubado — o que, por alguma razão, transformou Lee num ícone de estilo e 'dureza'. O achavam legal.

Centenas de artistas gravaram e regravam, compuseram e recompuseram sobre Stagger Lee. O assassino já tinha se tornado parte do folclore estadunidense, se enraizado na cultura, mesmo que, no fim das contas, pudesse ter sido apenas algo inventado. Como toda a vida de Sehun, Joohyun e Kyungsoo que Jongin teceu com a própria imaginação.

O milionário pausou a música, repentinamente, no meio de todas as suas divagações. Respirou fundo, então a colocou desde o início. "A noite estava clara..." e pausou de novo. Não tinha som nenhum escapando do aparelho, mas na mente de Jongin, uma estrofe se repetia continuamente.

"'Stagger Lee', gritou Billy

Oh, por favor, não tire a minha vida

Eu tenho três filhos pequenos

E uma esposa muito doente"

E se?, era o que Jongin não conseguia arrancar da cabeça. E se tivesse sido real mesmo? E se Billy tivesse três filhos, uma esposa doente? E se Stagger Lee tivesse mesmo matado por um chapéu? Ele não sabia. E talvez nunca quisesse descobrir.

Pelo bem de sua sanidade, Jongin retirou a canção da playlist.

(...)

Você acha que eu sou mal-educado com os empregados?

Sehun permitiu-se alguns segundos de reflexão antes de responder à pergunta de seu chefe. Com os olhos semicerrados, encarou o horário na tela do celular: duas e meia da manhã. Suspirou, parcialmente acostumado aos surtos de insônia de Jongin, quando resolvia ligar no meio da noite e fazer alguma pergunta. Sehun não o culpava — sabia que era um homem sozinho, mesmo que nunca tocasse no assunto. Era perceptível.

— Como assim? — Perguntou, por fim, percebendo que não sabia o que dizer. Usaria a estratégia de Kyungsoo e fingiria que não entendeu para ter mais tempo para pensar.

Se eu não trato bem as pessoas. Eu te trato bem? Trato, não trato? Ou não?

— Trata — concordou, encarando o teto e pensando sobre aquilo.

Não era que Jongin fosse sem educação, ou rude. Era apenas óbvio que tinha nascido no meio do dinheiro — não era muito difícil para alguém como Sehun perceber aquilo.

Alguns costumes simples, como levar o prato até a pia depois de comer, não tinham sido introduzidos na sua criação. Havia muitas coisas que Jongin não entendia também — como o esquema de por créditos num celular pré-pago, ou o mero funcionamento de um rodo e um pano de chão úmido. Não que fosse sua obrigação moral ou coisa do tipo, mas para Sehun — para quem tais detalhes vinham muito naturalmente — era, no mínimo, esquisito.

O secretário compreendia que seu chefe não era um carrasco, mesmo que tivesse uma noção diferenciada da vida. Jongin não tinha o costume de se desculpar por eventuais incômodos — nem quando ligava no meio da madrugada. A mãe de Sehun estava sempre fazendo isso; "desculpa qualquer coisa", era o que a mulher dizia quase sempre que se despedia de alguém. O rapaz não sabia qual construção social a levara a adquirir tal costume, a diferença de classes ou o patriarcado, mas se perguntasse ao seu ativista pessoal (lê-se: Kyungsoo), a resposta que receberia seria "provavelmente os dois".

Mas como poderia explicar aquilo tudo? Era complicado, e não havia garantia alguma de que Jongin fosse entender.

— Trata sim — reiterou, finalmente. — Por quê?

Bem... é que o Kyungsoo me disse algumas coisas. Sobre eu não ser o bastante.

— Você é o bastante sim, não se preocupe. O Kyungsoo só quer sempre que tudo esteja do jeito que ele acha que é certo, é um bastardo sem noção. Da próxima vez que ver ele, eu te autorizo a dar um safanão na fuça do delinquente.

Sehun riu, mas seu chefe não pareceu ter captado a mensagem.

— Eu tava brincando — eluciou, por fim, tentando soltar uma risadinha descontraída e falhando miseravelmente. Não era tão bom naquilo. — Mas não liga pro Kyungsoo não, é sério. Ele é complicado. Muito, se for pra ser sincero. Mas é um cara legal. Você pode sempre mandar a real pra ele quando se sentir incomodado, também. Só não esquenta a cabeça demais, ok?

E com uma despedida simples, a ligação foi encerrada.

(...)

Jongin fez exatamente como Sehun sugeriu — pelo menos durante os primeiros trinta minutos que passou se revirando na cama, pensando demais e dormindo de menos. No fundo, no fundo, acreditava que Kyungsoo tinha uma porcentagem de razão sobre tudo o que dissera sábado, no café em Gangnam. Sobre não agradecer, sobre não saber os nomes, nem prestar atenção. Kyungsoo não tinha dito, mas Jongin tinha noção de que sua lista de erros não parava por aí: ainda precisava lidar com toda a negligência que prestou à corrupção do próprio irmão.

Você não tinha provas, sua metade mais auto protetiva argumentava. Mas poderia ter feito alguma coisa, era o que rebatia o lado dominado pela culpa.

Nenhuma preocupação, paranoia ou simples reflexão aparentava querer deixar Jongin dormir naquela noite, então não se surpreendeu quando o sol começou a arder e notou que não tinha pregado o olho. Talvez tivesse chegado a hora, no final das contas. A hora de crescer. Ele não sabia por onde começar, também não sabia o que fazer, mas sabia que precisava tomar alguma providência. Dar um rumo na vida. Dinheiro é coisa séria, seu pai mesmo quem o ensinou, e não pode ser desperdiçado em coisas vazias para sempre.

Roupas vazias, tapetes e vasos e quadros e quantas outras peças decorativas vazias. Tão ao pé da letra, que além de enfeitar a casa de Jongin, o homem também queria que enfeitassem seu coração — ou a sua existência, com alguma razão pertinente para continuar com ela. Mas objetos são objetos; quase sempre carregam o significado que o próprio dono encontrou para aquilo. Jongin não tinha significado nenhum nem para si mesmo, quem dirá para um amontoado de tralha humana, produto capitalista. Riu quando se deu conta do que tinha concluído: estava passando tempo demais com Kyungsoo, pelo visto. Não se arrependia.

O primeiro movimento que fez naquelas horas iniciais de terça-feira foi para ir ao depósito. Revirou tudo o que já tinha comprado, e se assustou com a quantidade de coisas que nem se lembrava de ter pagado para ter. Cortinas, roupa de cama, estantes, prateleiras, restos de papel de parede, louça, prataria, abajures... Parou de revirar quando percebeu que não queria mais pensar em mudanças. Nos últimos dias, era tudo o que vinha acontecendo: primeiro, voltando a falar com o irmão; depois, arranjando um amigo, e agora isso. Ter que tomar partido. Agir. Esse era, de longe, o maior desafio para Jongin.

Planejamento mental:

Um: desapegar da quinquilharia;

Dois: denunciar o Jongseo;

Três:

Ele não tinha um terceiro, definitivamente. Os dois primeiros já eram suficientemente impossíveis.

Entretanto, como a história tende a se repetir, seu secretário precisou prová-lo justamente o contrário. Como um déjà-vu maligno, o carinhosamente enviado do inferno o abordou com uma prancheta e alguns papéis na mão. Não era tão cedo, já que o milionário tinha passado um bom tempo entre devaneios e itens de decoração esquecidos — mesmo assim, era ainda mais cedo do que ele estava acostumado a acordar. Sehun não parecia nem calmo, nem perturbado quando o estendeu o próprio celular, surpreendendo-o ao simplesmente dobrar as folhas de papel e jogá-las no lixo — ele nunca esboçava emoções muito discrepantes quando trabalhava, na verdade. Mas tinha algo de diferente daquela vez.

E Jongin viu que estava terrivelmente certo assim que leu a manchete de um jornal digital.

Magnata Kim Jongin exibe affair no subúrbio.

A matéria não era tão longa, mas tornava-se infinitamente comprometedora pela simples foto dele e de Kyungsoo abraçados feito pombinhos, durante o primeiro dia de trabalho do amigo de aluguel. A vermelhidão escalou suas bochechas na velocidade da luz, e o milionário xingou um palavrão nada bonito quando avistou a logo da Dispatch no canto da imagem.

Não demorou a começar a tremer, mas se esforçou para manter a compostura. Era quase doentio o modo como tantos detalhes foram dados ao decorrer do texto — que Jongin fez questão de ler, mesmo que detestasse a ideia. Os comentários foram a pior parte. Descobriu mais da vida de Kyungsoo naquela matéria do que fez nos dias em que passara com ele (porque, por algum motivo, interessava ao público saber sobre quem ele possivelmente namorava ou não).

Mas não havia nenhum possivelmente ali. Eram afirmações claras de que Jongin era homossexual e namorava Kyungsoo — Park Kyungsoo, era o que dizia a matéria, filho mais novo da Família Park, donos da rede de supermercados mais famosa da Coreia do Sul. Ricos, podres de ricos, com um patrimônio acumulado que ia longe, sem perspectiva de brecagem.

Não acreditando nos próprios olhos, o milionário sentou-se, piscando freneticamente. Outro déjà-vu o atingiu em cheio, acompanhado de um fato excepcionalmente perturbador: Kyungsoo era um mentiroso.

E Jongin já não sabia mais o que fazer com todas as expectativas que guardara para si mesmo.

Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top