2 - Ocean eyes
Ao adentrar a empresa, Demetria sentiu o peso de sua vida se dissipar por alguns instantes. Ali, ela era vista como desejava: uma profissional dedicada e competente. Poucos imaginavam a turbulência que se escondia por trás de sua fachada serena. Após servir-se de um copo d'água, caminhou pelo corredor, cumprimentando os colegas que haviam chegado. Selena ainda não estava. Seus olhos varreram o ambiente até cruzarem com o olhar penetrante de Billie, que a observava por trás da parede de vidro de sua sala. Desviou rapidamente e voltou a focar no computador.
No final da tarde, imersa em papéis e concentrada em suas tarefas, Demetria sobressaltou-se ao sentir as mãos da chefe tocarem seus ombros. Seu corpo tensionou-se imediatamente, e o coração disparou. Virou-se rapidamente, tentando disfarçar o susto.
— Perdão — disse Billie, quase sorrindo, em um raro vislumbre de descontração.
— Tudo bem... — respondeu Demetria com um sorriso tímido. — Precisa de algo? — perguntou, levantando-se.
— Sim, me acompanhe até a minha sala, por gentileza.
Srta. Eilish virou-se e caminhou em direção à sala, com Demetria seguindo-a, sentindo os músculos cada vez mais tensos. Em sua mente, a ansiedade já desenhava cenários catastróficos: seria demitida? O que enfrentaria ao voltar para casa? Seu estômago, vazio e apertado pela ansiedade, roncava de leve.
— Sente-se, fique à vontade — disse Billie, apontando para a poltrona em frente à sua mesa.
Demetria obedeceu, esforçando-se para ocultar o nervosismo. Seus olhos vagaram rapidamente pela figura da chefe, capturando detalhes de seus olhos claros e expressivos.
— Demetria, você deve saber que estamos abrindo uma nova filial em Miami. — Billie começou, com a voz calma. — Meu irmão assumirá a administração por lá, mas eu precisarei estar presente na inauguração, que será neste final de semana. Não me sinto à vontade para ir sozinha e gostaria que você me acompanhasse nesses dois dias.
Surpresa, Demetria hesitou, os lábios abrindo e fechando sem emitir palavras. A honra de ser escolhida e a possibilidade de se afastar de casa por alguns dias eram irresistíveis, mas logo a imagem de seu pai surgiu, trazendo a realidade de suas dificuldades. Antes que pudesse responder, Billie continuou:
— É claro que você será recompensada. Pagarei o dobro do seu salário por esses dois dias e, na próxima semana, você terá duas folgas.
— Eu aceito! — respondeu rapidamente. — Não precisa se preocupar com as folgas, posso trabalhar normalmente.
— Isso veremos depois. Por ora, considere isso um acordo. — Billie sorriu levemente.
Demetria retribuiu o sorriso, sentindo-se genuinamente tocada pela confiança depositada nela. Não estava acostumada a ouvir elogios, especialmente de pessoas que respeitava.
— Que horas partimos? — perguntou, finalmente relaxando um pouco.
— Esteja aqui amanhã às 7h. Voltaremos na segunda-feira pela manhã.
— Certo. Obrigada pela oportunidade, Srta. Eilish. Sinto-me honrada.
— Não precisa agradecer. Você é a pessoa em quem mais confio aqui. — O sorriso discreto da chefe fez Demetria sentir um calor inesperado de gratidão.
Depois de se despedir, Demetria voltou para casa. Cada passo rumo ao lar parecia pesar mais do que o anterior. Encarou o relógio, ajustou os cabelos para esconder as marcas no pescoço e respirou fundo antes de encarar o pai.
— Pai, fui convocada para uma viagem de trabalho amanhã... — começou, a voz trêmula.
— E o que eu tenho a ver com isso? — respondeu ele, aproximando-se de forma intimidadora. Demetria recuou instintivamente.
— Queria saber se posso ir... — respondeu rapidamente, o rosto quente sob o olhar penetrante do pai.
— O que eu ganho com isso? — Ele agarrou seu braço, aproximando-se a ponto de sua respiração quente tocar a pele de Demetria.
— Vou receber a mais por isso... — murmurou, tentando conter o medo.
— Gosto disso. — O sorriso que se seguiu a aterrorizava mais do que qualquer ameaça verbal.
Demetria abaixou a cabeça, odiando-se por sentir tanto medo. Ao levantar o olhar, já era tarde. Sentiu a força do pai no pescoço, que avermelhou instantaneamente. O ar parecia escassear, mas ela sabia que ele não a mataria. Não ainda. Era uma punição — e qualquer motivo era suficiente para puni-la.
Ainda assim, ela teria que viajar.
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