slut

NARRADOR
27.05.2025 - Seul
Mina acordou com a cabeça latejando e a boca seca, amaldiçoando cada gole de tequila que tinha tomado na noite anterior. Ela jogou o braço por cima do rosto, tentando afastar a claridade que entrava pela janela da república. O silêncio do quarto dividido foi quebrado apenas pelo som do próprio celular vibrando na mesinha.
Uma mensagem de Jeongyeon: "Levanta, Sharon. Precisamos conversar"
Myoui Mina morava na República desde o primeiro semestre da faculdade, mas se atreveu a ir para a casa da família de vez em quando, vezes essas que se tornaram frequentes com o passar do tempo. Não era porque ela gostava de estar em casa, mas sim porque a República universitária era o pior lugar na terra para se morar, com condições extremamente precárias.
Dividir um apartamento pequeno com três adolescentes não era a melhor estadia do mundo.
Mina soltou um gemido arrastado, mas finalmente decidiu se levantar da cama e fazer suas obrigações. Minutos depois já estava na cozinha comum da república, sentada à mesa com um copo de água na frente e sua melhor amiga encarando-a com aquele olhar de quem sabe muito mais do que ela estava disposta a contar.
— Não precisa me olhar assim — Mina resmungou, esfregando as têmporas doloridas.
— Eu nem falei nada ainda — Jeongyeon ergueu uma sobrancelha — Mas se quiser, eu posso começar.
— Não precisa.
— Precisa, sim. — A amiga retrucou, cruzando os braços. — Me explica por que você chegou ontem sendo praticamente carregada pela atendente daquele bar.
Mina travou. A lembrança de Chaeyoung a segurando pelos ombros, a voz baixa sussurrando “deixa eu ser a distração”, voltou com força demais. Seu estômago revirou, e não era apenas a ressaca.
— Eu só… bebi demais. Ela só foi legal, só isso — tentou resumir, ocultando a maior parte de detalhes que conseguisse.
— “Só isso”? — Jeongyeon riu, irônica — Mina, eu te conheço. Você não deixa ninguém chegar perto de você assim. Você odeia quando alguém tenta cuidar de você.
Mina desviou os olhos, o rosto esquentando apesar de todo o esforço para manter a frieza habitual.
— Não sei do que você está falando — ela tentou se defender, encarando uma formiga que andava no chão — Eu estava bêbada, não estava consciente de nada que estava fazendo. Nada mesmo.
— Sabe, sim — Jeongyeon suspirou, suavizando o tom — Olha, não tô dizendo que você tem que se apaixonar por alguém agora, mas também não precisa fugir só porque sente alguma coisa. Não é crime deixar alguém se aproximar.
As palavras ecoaram na mente de Mina, que tentou se distrair tomando um gole de água. Mas a verdade é que, por mais que quisesse negar, a imagem de Chaeyoung não saía de sua cabeça. A forma como ela sorria, como parecia entender seus silêncios, como olhava para ela sem medo do que poderia encontrar.
Enquanto Mina lutava contra aquilo, a quilômetros dali Chaeyoung travava sua própria batalha.
. . .
Na casa da família Son, o clima era tenso. A mãe da coreana, de braços cruzados na sala luxuosa, olhava a filha como se fosse uma estranha.
— Trabalhando em um bar, Chaeyoung? — a mulher cuspia as palavras como veneno — Depois de tudo que fizemos por você, é assim que resolve levar a vida?
— Depois de tudo o que fizeram por mim? — Chaeyoung riu sem humor — Quer dizer, depois de me expulsarem de casa por eu ser quem eu sou?
A mãe estreitou os olhos — Você sempre foi ingrata. Não sabe o quanto nos envergonha.
As palavras cortaram como faca, mas Chaeyoung não se deixou abater. Apertou os punhos, mantendo a voz firme.
— Talvez eu envergonhe vocês. Mas, pela primeira vez na vida, eu não me envergonho de mim.
O silêncio pesado se instalou. A mãe dela não respondeu, apenas virou o rosto, como se a simples visão da filha fosse um incômodo.
Odiava ouvir a filha rebatendo, porque a garota sempre foi do tipo de ouvir calada ou levar as coisas na brincadeira. Chaeyoung estava levando a situação muito a sério, e aquilo assustava a Sra. Son.
Aquilo não era mais um lar, era apenas um teto para não tomar chuva no verão. Son Mirae foi muito séria quando expulsou sua filha caçula de casa e a fez prometer que não voltaria mais. A verdade é que nenhuma das duas fazia questão alguma de se entender e respirar o mesmo ar. Aquilo parecia fora de cogitação.
Chaeyoung respirou fundo e saiu da casa, o coração apertado, mas a cabeça erguida. E enquanto caminhava de volta para o bar, a imagem de Mina lhe veio à mente. Aqueles olhos negros, tão intensos, tão cheios de mistérios.
Era curioso. Enquanto a mãe parecia querer apagar sua existência, havia alguém que, mesmo tentando fugir, a fazia se sentir vista.
E aquilo bastava para Chaeyoung continuar insistindo, mesmo que odiasse ser enxergada.

NOTES
Só mais dois capítulos e vou dizer adeus a essa obra linda 🥺 confesso que estou com saudades mesmo antes de terminar. Eu sempre adorei romances agridoce, slice of life. A vida já é complicada o suficiente, e isso a torna o maior vilão.
Até logo!
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