Capítulo II - Senhora do Deserto
Quando o a lua brilhava solitária no céu e muitos predadores tinham deixado suas tocas para mais uma caçada Seleva subiu no outeiro mais alto, a poucos quilômetros das minas de Na'ar. Encima daquele outeiro sua visão era privilegiada, ela perscrutou a vasta área.
Pouco tempo depois uma criatura voava sorrateira nos céus oculta pela noite, suas escamas ovais e amarelas reluziam como fogo sólido sob a luz pálida da lua, mas vista do chão parecia uma pequena ave dourada. Suas asas batiam com força majestosa, como uma águia. Sua cabeça, sem chifres nem espinhos, sondava o chão e arredores com seu olhar predatório. Naquela noite o frio se tornou ameno como se vestisse um véu de calor suave e convidativo. Para muitos, tanto na vila quanto na cidade vizinha, aquele era um calor estranhamente amigável, mas para aqueles que podiam perceber além dos sentidos normais, aquela era uma poderosa manifestação de magia.
O cálido ar da noite juntou-se ao calor da manhã trazido pelo primeiro raio de sol enquanto a dragoa mergulhou no mar de areia. Seleva emergiu à superfície e caminhou rumo à vila.
Após o desjejum os cinco já aguardavam sob a sombra de um juazeiro não muito longe da vila quando avistaram Seleva vindo ao longe. Sem a necessidade de uma armadura todos agora vestiam confortáveis túnicas. Thorud estava com sua barba feita em tranças, batia no tórax. Tar-Rúl e Makut fumavam cachimbo disputando quem soprava o maior anel de fumaça enquanto Penína se deliciava com tâmaras compradas na vila.
– Alguma novidade? – pergunta Nívea.
– Tão impaciente logo cedo. – respondeu Seleva com um sorriso. Os outros olharam-na curiosos.
– Eu senti uma grande emanação de madrugada. – falou Penína. – Não sei qual ou que tipo de magia foi usada, mas sei que veio de você.
Seleva assentiu calma como um professor ouvindo o acerto de um aluno, e disse: – Descobri onde era o covil do Malzazy, e receio que não ficará abandonado por muito tempo. Eu não pediria a ajuda de vocês, mas se querem saber que segredos vis ele escondia lá, é uma boa oportunidade.
Eles se entreolharam pensativos, Nívea concordou sem demora. Seleva percebeu o olhar atento de Penína, como se tentasse ler sua intenção. – Não estou pedindo que dêem uma olhada no covil, mas deixar a vila seria o melhor que vocês fariam agora. – falou Seleva.
– Você nos diz que sabe onde é o covil dele. – disse Penína. – E nos diz, com toda sua cordialidade, que nos quer longe daqui, e isso depois do que você fez a noite. Seleva, você sabe que daqui a pouco vai estar cheio de magos da Ordem aqui. Você atraiu todos eles, e nos pede pra sair da vila. O que está tramando?
Thorud se surpreendeu com o raciocínio dela enquanto os outros ficaram curiosos.
– Acho que seremos mais úteis no covil do que aqui. – disse Tar-Rúl – Se ela atraiu atenção dos magos é porque precisa deles aqui.
– Eles certamente farão muitas perguntas pra vocês. – falou Seleva. – E duvido que vocês recusem um serviço do Elih, o que vai deixá-los bem ocupados e longe de tudo.
E Tar-Rúl disse: – Então você não quer que a gente perca a melhor parte da festa. Que certamente vamos perder se ficarmos aqui.
– É por isso que gosto de você anão. – disse Seleva com um sorriso de satisfação. – O que fiz de noite pôde ser sentido a quilômetros de distância. Quem queria saber minha posição, conseguiu. Os magos podem mentir ou esconder seus pensamentos da minha magia, mas não podem esconder suas emoções dos meus sentidos.
– E se o inimigo que te procura não estiver entre eles? – indagou Penína.
– Então será tempo perdido. – falou Seleva. – Mas duvido que nas próximas horas eu não ouça nada revelador vindo deles.
– Nem todos estes magos são amigáveis. – falou Tar-Rúl. – Então tenha cuidado. Você estará sozinha.
– E alguns deles são bem perspicazes. – disse Nívea.
– Você se refere ao seu antigo mentor, Nívea? Não se preocupe. Para eles sou apenas uma maga desaurida. Além disso, como diz aquele ditado humano quando um não quer dois não brigam.
– Quando um num quer, ele apanha. – falou Makut. Seleva riu.
– Yesher deve vir também. – falou Nívea em zombaria. – Cuidado com ele, hein.
– Yesher, você diz, o bafo de fossa? – fala Seleva. – Vou lembrar de prender a respiração quando ele abrir a boca. E vocês não baixem a guarda lá no covil, tenham cuidado.
Um clima de descontração e risos pairou sobre eles. Seleva explicou onde era o covil e como chegar até ele. E após isso os cinco voltaram para a vila, precisavam se aprontar antes de partir.
Seleva encarou o sul séria e ansiosa por respostas.
Quando os magos começaram a chegar, Seleva não demorou a encontrá-los. A principio eles espantaram os abutres que devoravam a carcaça do dragão, se concentraram em saber quem e como protegera a vila daquele dragão cinzento, e como este fôra morto. Não suspeitavam que Seleva tivesse qualquer ligação com a poderosa magia sentida na noite anterior, mas quando ela começou a fazer perguntas seu jeito amigável atraiu olhares desconfiados e questionamentos. Pra quem usava disfarces a pouco mais de um século, lidar com alguns magos astutos não era novidade. Esta tarde, porém, suas palavras tiveram que ser precisas, manter a compostura exigiu todo seu auto-controle.
Ao fim do dia, quando eles finalmente partiram, Seleva tinha algumas respostas. Havia sentido a hostilidade no coração de um deles, era aquilo que procurava, era alguém que poderia dar-lhe mais respostas. Mas tinha a incomoda sensação de que seu disfarce não estava seguro, afinal não tinha falado apenas com simples magos, havia alguns veteranos também.
Fatigada, Seleva recolheu-se à sua casa enquanto olhares malignos a observavam.
Quando a noite caiu dois homens observavam a casa encapuzados e envoltos em seus mantos negros, a mesma casa onde Seleva dormia pacificamente. Assim esperavam.
Então, sob a face pálida da lua, suas sombras se alongaram e eles caminharam tão leves e efêmeros quanto elas.
Ambos atravessam a parede entrando no quarto como se não fossem sólidos, sussurros inaudíveis saíram dos seus lábios escuros, por debaixo dos capuzes sombrios. Sacaram seus punhais, as laminas assassinas cintilaram no escuro quando perfuraram o corpo deitado na cama, golpes impiedosos estocaram a vitima indefesa.
Quando pararam, acharam estranho a ausência de sangue, retiraram o lençol e viram frustrados que a vitima eram almofadas. Seleva saiu do armário agindo antes que conseguissem reagir, e com um movimento ágil de sua mão, fez as adagas deles saltarem, como se guiadas pela sua vontade. Desarmou assim, a ambos.
– Estavam me procurando homens?
Eles encaram-na irados, sem perceber que o quarto esquentara de repente. Seleva viu a sede de morte nos olhos que a fitavam como um chacal à espera do ataque sorrateiro. O calor claustrofóbico crescia ainda mais. Até que eles pegaram suas armas ocultas sob os mantos, eles golpearam ao mesmo tempo com cimitarras velozes. Pra surpresa deles Seleva conseguiu esquivar de ambos os golpes e agarrou o pescoço de cada um. As mãos delicadas se fecharam envolta do pescoço deles que tentaram feri-la com suas espadas, desferindo golpes débeis, as forças pareciam abandonar-lhes os músculos.
– Suas armas não podem me ferir então larguem ou esmago a garganta de vocês.
O homem da esquerda a atingiu no rosto, mas a lamina fez apenas um simples arranhão, seja por sua força fraquejante seja porque algo protegia Seleva que, em resposta, apertou ainda mais forte fazendo o homem perder os sentidos. Vendo isso o outro largou a espada em rendição. E ela disse: – Minha espécie não é dada à violência. Mas pra vocês dois abro uma exceção.
Ela manteve firme o aperto segurando o homem inconsciente enquanto afrouxou o da direita, ele tossiu tentando respirar, e se assustou ao sentir as garras onde deveriam ser as unhas de Seleva que disse: – Este lugar está bem quente aqui e posso deixar mais ainda. Você pode morrer sufocado pelo calor, enforcado como seu amigo, queimado ou posso devorá-lo vivo. Ou você pode me contar quem enviou vocês e viver.
Apavorado, ele assentiu com a cabeça e começou a despejar o que ela queria saber.
Como prometido Seleva o deixou vivo, bem longe da vila, enterrado de pé na areia somente com a cabeça pra fora. Saber que um velho inimigo estava por trás de tudo a deixou irada. Mas enquanto planejava os próximos passos sentiu uma pontada amarga no coração, a imagem dos cinco lampejou em sua mente. – Estão em perigo!
___________________________________________________________
Obrigado por ler, fique a vontade para votar e comentar.
Bạn đang đọc truyện trên: AzTruyen.Top