Parte 9
A mudança de paisagem já prevista pela mente de Daisy uniu-se com a vista pelos olhos. E não era somente o exterior do trem que mudava, mas também dentro dele. A diminuição da distância para a região mais pobre da cidade podia ser sentida quando rapidamente o transporte começava a encher.
Eram pessoas com o comportamento parecido, naquele trem cheio e vazio de ânimo. O único passageiro que provocou certo divertimento à Daisy foi um bebê às suas costas, num banco em direção oposta, no colo de uma senhora. O garotinho mexia no cabelo da menina e revelava sua orelha. Aquele incômodo inocente era mais cativante do que aquelas caras fechadas nos celulares e corpos embrulhados por uniformes de trabalho, mochilas e bolsas.
Mas ela foi obrigada a, ao interromper sua diversão na da criança, ceder lugar à uma senhora. Daisy encostou-se na parede do vagão, ainda olhando para o menino, esperando alguma gargalhada que pudesse ter sobrado da brincadeira com o cabelo. O que viu foi ele se fechar em rosto sério, com olhinhos rápidos e atentos à alguma possível presa de sua farra.
Virou-se para a porta do trem, encostada com a testa nela em gesto de tédio, notando mais uma vez o que já parecia ser o mais extremo possível para sua vista. E pensava, encarando as pichações das casas e dos prédio horizontais. Não tinha mais o mínimo trabalho de procurar quais os lugares tinham a tinta preta que moldava os garranchos, pois tal decoração já se padronizou para ela.
"Será que essas pessoas demonstram tanto desânimo por causa do cansaço do trabalho ou também pela vida que têm? Um artigo que li dizia que o trabalho é necessidade para alguns e vício desnecessário para outros, e que nunca se trabalhou tanto e se teve tão pouco tempo como hoje. Os mais pobres sofrem mais com isso. Por isso alguns, como a Madeleine, escolhem morar no serviço, pois é mais conveniente, apesar de afastar-se de casa. Será que ela sentia falta de seu lar? Ela só podia folgar quando eu não estava em casa, à passeio ou coisa assim. Pobrezinha... Espero levar um pouco dela à sua família."
No pensamento que a influenciava ao choro e no ambiente que não a impedia de liberá-lo, Daisy perdeu a noção de que estava encostada na porta, sem qualquer apoio que evitasse uma queda. Mesmo após o trem parar, ela continuou encostada, tornando úmido o rosto com a imagem que tinha de alguns momentos com a irmã postiça.
A porta abriu e só assim ela foi capaz de acordar daquele transe. E também por causa de alguém que segurou em seu pulso, evitando que ela desabasse na plataforma da estação. Após cambalear, tentando se equilibrar e se restaurar do choque, olhou para trás para ver quem a tinha ajudado. Só percebeu olhares atentos à ela, que a seguiram por segundos e logo passaram.
Sem entender a cena, finalmente se deu conta que os saltos não estavam mais em sua mão. E ainda com a porta aberta, olhou no vão do trem com a plataforma para tentar vê-lo ao fundo. Não conseguindo, começou a viajar os olhos aflitos de maneira aleatória no piso emborrachado do vagão. Mas somente quando ergueu a cabeça conseguiu encontrar os calçados, na mão de um garoto.
— Tome cuidado, menina! Quase se estabaca no chão! — ele a falava em repreensão, entregando os saltos e posicionando-se de costas à porta já fechada.
— Obrigada e ... desculpe-me. Meu pensamento tomou conta de mim.
Após o rosto mórbido e entediado não ser mais presente, ele balançou a cabeça e deu às costas à ela, indo até a porta oposta, atrás da que serviu de cenário para aquela cena estranha. E ironicamente, só depois dele se distanciar, nas várias viradas de cabeça que ele dava, Daisy viu somente seu rosto, sem esconde-lo atrás da simples e heroica atitude. Era alto, magro e tinha uma cara amassada, um nariz grande e de ponta curvada pra dentro e as sobrancelhas eram grossas e quase se uniam uma a outra.
Ele não tinha a beleza de algum herói de contos de fadas, mas combinava com a realidade, com a verdadeira vida que Daisy estava conhecendo.
*
Ao sair do trem e tentar não ser levada com a multidão apressada, ela procurou pelas placas de informações. Guiou-se numa que identificou como a de saída, uma que quase não conseguiu entender por conta das letras desbotadas, no que enfeitava e estranhamente combinava com a estação pequena e simples.
O piso de borracha acabava e começava o de concreto, seguido pela escada que descia, o que a fez colocar novamente os saltos. Mas antes que começasse a descer, perguntou-se algo que deveria ter feito no início da fuga.
"Onde Madeleine mora? Será que as pessoas aqui a conhecem? Bem... pelo que vejo, não é um lugar tão grande e as casas são coladas umas na outras... Todos aqui devem se conhecer, não?"
Ainda com a mente trabalhando, começou a pisar nos degraus, e após alguns passos bem-sucedidos, o que acontece com quem imagina demais e vive de menos aconteceu com ela. Ralou as costas por alguns degraus até conseguir se segurar no corrimão, com o corpo querendo descer e a mão esquerda não deixando. Sentou-se no local da queda e viu não só a segunda vergonha na mesma hora como também a dor forte no pulso, que esforçou-se para que o acidente não fosse pior e acabou torcido.
E quando tentava abstrair as negatividades exteriores e interiores massageando o pulso e mordendo os lábios de cabeça baixa, ouviu a voz do garoto do trem e olhou na direção daquele som rouco.
— O que foi? Por que está aí sentada e... chorando? — Ele tocou em seu ombro, incentivando-a a falar.
— Eu... escorreguei na escada e... e torci o pulso — e Daisy esforçou-se para responder.
Após ela olhar para os passageiros que cruzavam seu olhar, ao mesmo tempo que tentava se esconder dos expressões deles, o menino percebeu e sentou-se ao seu lado.
— Cheguei tarde dessa vez, pelo visto... — e brincou, tentando animá-la. — Eu te mostro onde fica os banheiros. A água gelada vai aliviar a dor. Vem.
Ela foi forçada a aceitar, lançando-lhe um sorrisinho de agradecimento enquanto era ajudada a se levantar. Não só não questionou a ajuda, tendo em vista que ela conseguia andar e ficar de pé tranquilamente, como ficou feliz com a disposição do rapaz.
— Eu me chamo Angelo, e você? — o garoto puxava assunto no caminho para o banheiro que ele alongava propositadamente com os passos lentos.
— Daisy... Você não tem nenhum compromisso? — Ela variava as encaradas para ele e para o chão em rosto tímido. — Eu... eu já vi o banheiro. Não quero te incomodar... mais.
O sorriso que o menino fazia era sua resposta. Ou seja, ela sentiu como se a pergunta fosse ignorada, não tendo trato social para saber que não seria incomodo nenhum guiá-la naquela noite.
Ela entrou no banheiro e afogou por alguns minutos o pulso na cachoeira de água gelada da torneira. Estava tão fria que nem a dor suportava mais ficar ali, o contrário da menina, que não via outra opção e o mantinha por algum tempo.
Após secar-se e sair, Angelo ainda estava ali, e procurava algo na mochila. Achando, a entregou uma pílula branca e redonda.
— Engole isso. Vai passar a dor.
Daisy questionou-se, e também por fora, em olhar confuso. Se ele tinha remédio para curar a dor, por que não a deu, em vez de simplesmente querer aliviá-la na água gelada?
Passados segundos de confusão e de não entender a perda de tempo, engoliu. Sabia que era mesmo para dor, inclusive conhecia a letra desenhada nela. Conhecia remédios, já que o armário do banheiro de sua casa era cheio deles.
— Obrigada. Mas não precisa mais se incomodar comigo. Sério. — Ela ainda não entendia a intenção do menino. — Você deve ter pouco tempo para descansar e... não quero que ocupe-o comigo.
— Certo. Então até mais... Daisy. — Ele despede-se com o mesmo rosto mórbido e entediado do trem, caminhando, agora rapidamente, até as escadas e sumindo do horizonte.
Ela faz o mesmo, pensativa sobre aquele altruísmo estranho do garoto. Não entendia nada daquilo, e isso combinou quando foi forçada a parar de pensar no assunto, com a nova confusão, que teve início após ela descer as escadas.
"Onde Madeleine mora? Será que o Angelo sabe?"
E ela olhou para os lados, na rua de casas baixas e simples e barulhenta com os carros que passavam pelos buracos no asfalto. Caminhou alguns metros na calçada machucada e de paralelepípedos soltos, olhou ao redor e não conseguiu identificar a casinha que tanto era falada pela empregada. Perguntou a alguns se sabiam onde ela morava, mas os que paravam para dar uma simples informação soavam confusos ou indiferentes com a pergunta.
Sentou-se num banco de pedra, rente a uma cerca que rondava uma vegetação alta e de cor única, em seu verde contrastado somente pelo lixo em sacolas ou soltos. Passou muitos minutos assim, cabisbaixa, encarando o pulso que rapidamente inchava, mas que tinha a dor aliviada e não era mais o maior motivo de tristeza no bem maior para Madeleine, praticado naquela noite fria, malcheirosa e vergonhosa, num lugar que ela nada conhecia, sendo alguém que ela nunca fora.
"O que estou fazendo aqui? Que tolice... Seria mais esperto se eu ligasse para a polícia e falasse-os dela. Acho que não vou conseguir mais forçar minha mente a concordar com essa desculpa de 'bem maior'. Sinto-me como alguma criança que sonha em ficar acordada a noite toda, e que a aproveita como nunca, se empanturrando de salgadinhos, doces, programas da madrugada na TV... Mas que tem a cabeça doída pela luz do sol do dia que amanhece sem ela dormir... que vai à escola com sono e com enxaqueca e que percebe o porquê dos pais serem 'chatos e não o deixarem se divertir'. Acordei pra realidade. Meus pais, quando acordarem de fato, vão notar que eu sumi e vão se preocupar à toa. Fui muito irracional. Isso é mesmo coisa dos hormônios da adolescência."
Viajando no pensamento, percebeu somente uma sombra sentando-se ao seu lado, em visão periférica. Olhou para o lado e viu Angelo, e não se surpreendeu com ele ali. De certa forma, já esperava que o menino não se daria por vencido e apareceria novamente, mesmo que ainda não entendesse porque.
— Olá... De novo — ele fala. — O que faz aqui, desanimada? Tropeçou na calçada e ralou o joelho desta vez?
Ela ri, voltando o rosto para baixo, e responde: — Estou perdida. Não só fisicamente... Ah e... Valeu mesmo pelo remédio. O pulso já não dói.
— Não tem de quê. E sobre estar perdida, eu posso te ajudar. Conheço tudo por aqui.
Daisy encarou-o com olhos marejados, emocionada com aquela simplicidade que era agitada pelos hormônios. Ela falou sobre Madeleine e do porquê estar ali. Nunca conseguiria explicar o que sentia com relação à irmã falsa, mas tentou. Angelo fez-se compreensivo, mesmo soando estranhamente cabisbaixo com o assunto, enquanto caminhavam para o destino, naquela rua fria e que tornava-se deserta e assustadora com as luzes que falhavam nos postes.
"Acho que vou adiar meu lado racional... Ele voltará cedo ou tarde, mas agora quero ir com isso até o fim. Será que é por causa do Angelo? De qualquer forma, já estou aqui mesmo, distante de casa e encrencada... Isso não ficará pior... E Madeleine precisa de mim!"
E ela pensava ao encarar seu guia, novamente parecendo racional para justificar aquela fase, o eufemismo que às vezes soava como um verdadeiro e grandioso bem maior em sua mente.
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