Capítulo 02

Mãe, o que é que fazes aqui?
— Vim buscar-te.
— Buscar-me? Porquê?
— Porque não quero que continues aqui. Tens um casamento marcado ao qual andas a fugir aos anos. Vais continuar a insistir em desobedecer-me?
— Se vieste a minha casa para discutir é melhor que saias já, se não chamo a polícia.
— Esta não é a tua casa, e vais dizer-lhes o quê? Que a tua mãe te quer raptar?
— Não. Vou dizer que a minha própria mãe continua a tentar arruinar a minha vida mesmo no dia em que faço 25 anos. Ainda por cima estando grávida.
— Grávida? Daquele abutre? Vais já fazer um aborto que eu não apoio isso. Eu pago tudo, não te preocupes.
— Tu ainda pensas que mandas em mim? Eu já saí de casa há 7 anos e tu continuas a tentar mandar em mim? Para tua informação já vens tarde, porque eu e o Miguel já temos um filho com 5 anos.
— O quê? Como é que te atreves a desrespeitar a nossa família desta forma?
— Mamã, acabei os trabalhos de casa. Já posso ver televisão?
— Como assim foste mãe e eu não soube?
— Porque será? És realmente uma boa mãe para mim, para eu te querer contar o que quer que seja sobre a minha vida.
— Estás a dizer que não sou uma boa mãe?
— Sim. Se fosses uma boa mãe, eu não teria fugido de ti assim que pude.
— Eu não te admito que digas algo assim sobre mim.
— E eu não te admito que venhas a minha casa, a achar que chegas aqui e que eu vou fazer o que quer que queiras que faça.
— Eu sou tua mãe!
— Não, não és. Diria que deixaste de o ser há muito tempo, mas nunca foste! Não passas de uma interesseira que só quer saber dos filhos para arranjar casamentos com gente rica!
— Está tudo bem? - pergunto chegando à sala.
— Você é o culpado disto tudo!
— Tu é que és a culpada disto tudo. Olha sai! Sai da minha casa! Ahh!

Vejo a minha menina a queixar-se de dores agarrada à barriga e penso logo no pior que podia acontecer graças aos espectáculo que esta mulher decidiu vir fazer.

— Ouviu a sua filha. Saia daqui!

Ao ver que a filha não estava bem, lá se foi embora depois de eu gritar com ela. Peguei nas nossas coisas e fomos ao hospital, pois ela não se aguentava com as dores. A meio do caminho ela desmaia e quando chegamos peço ajuda aos condutores das ambulâncias. Aí dou conta de que ela está cheia de sangue.

— Doutor, como é que ela está?
— Neste momento está a dormir. Tivemos que lhe dar um sedativo, ela estava  muito perturbada.
— Mas está tudo bem com ela?
— Sim.
— E com o bebé?
— Lamento, mas a sua namorada perdeu o bebé.
— Já não vou ter um mano? Foi a senhora que lá foi a casa não foi papá?
— Não posso dizer que não.
— Pode explicar-me o que é que se passou?
— Sim, claro.

Desde então nunca mais conseguimos que ela engravidá-se, apesar de querermos muito, a vontade não chega. Graças a este aborto, provocado pela mãe dela, nunca pudemos realizar o nosso sonho de ter uma grande família e sabíamos que era impossível de acontecer, mas nunca pensei que pudesse ficar menor.
Tenho dias em que não consigo pensar em mais nada se não em ti, meu amor.

— Tens que abandonar esses pensamento suicidas Miguel.
— Como? Nunca amei ninguém como ela, nunca ninguém me fez tanta falta quanto ela. Acho que nem dos meus pais fiquei assim.
— Dos teus pais é diferente. Eras muito novo quando isso aconteceu, quase que não entendeste o que se passou.
— Percebi sim. Eu vi os meus pais mortos, eu dei conta que não respiravam, eu estava lá, a culpa foi minha!

Os meus pais decidiram que hoje seria um ótimo dia para podermos ir visitar os meus avós, que moram um pouco longe de nós. Eu não queria ir, queria ter ficado em casa a estudar, mas os meus pais acham que eu estudo demasiado e que devia de me divertir mais, mas eu estou concentrado no meu futuro e não vou deixar que nada corra mal.
O outono já começou há mês e meio, e com ele vieram as primeiras chuvas da estação, que nunca poderia adivinhar que podiam ser tão mortíferas.
Os meus pais entretidos a discutir política e eu com o meu cubo de Rubik. Quando dou conta, tenho uma enorme aranha a subir a minha perna. Eu sempre gostei de todo o tipo de animais, mas as aranhas são o meu ponto fraco, no entanto eu sofro bastante com pesadelos que incluem aranhas. Assim que dou conta, começo aos berros dentro do carro, assustando os meus pais que olham para mim de imediato. Foi essa a última vez que eles olham para mim. Sei que vou guardar na memória, o olhar deles sobre mim para sempre. Foi esse o último momento deles, pois foi nesse momento em que os matei.
Pelo que soube mais tarde, batemos num camião e a parte da frente do carro ficou por baixo dele. Todos souberam logo que eles deviam de ter morrido, só não sabiam que eu também estava lá. Quando souberam ficaram bastante felizes por eu ter sobrevivido, mas eu estava destroçado, eu soube logo que os meus pais tinham morrido. Assim que acordei, vi os meus pais cobertos de sangue e estavam ambos de olhos abertos, por isso digo, que soube logo que os meus pais tinham morrido.
Já tentaram de tudo para que eu falasse, mas não consigo. O choque parece que provocou um bloqueio total em mim, deixando-me pensar, mas não me deixando responder.
Nessa altura, pensei até que poderia ter ficado mudo, ou algo do género, pois eu abria a boca para falar e não saía nada, por muita força que eu fizesse, mas com o tempo recuperei.
Passei a ser educado pelos meus avós, os tais com quem íamos ter essa tarde, que nunca mais foram tão felizes como me lembro, depois da morte dos meus pais, depois da morte da filha deles.
Eu deixei de querer saber da escola, desisti assim que pude e comecei a trabalhar como fornecedor. Foi assim que conheci a minha amada. Eu estava a fornecer já há algum tempo, e ela tinha começado naquela semana a fazer uns turnos naquela pequena loja, às escondidas dos pais. Assim que a vi, soube logo que era ela que me iria fazer feliz de novo. Aliás, muito mais feliz do que alguma vez tinha sido. Os seus cabelos escuros estavam presos num belo rabo de cavalo, com apenas uma mecha do mesmo solta, de cada lado do seu rosto. Os seus olhos brilhavam a atender os clientes, notava-se que gostava do que fazia. O seu sorriso encantador cativava qualquer um, tonando os seus maus dias em dias bons, nem que fosse apenas por minutos. Ela era uma jovem muito bonita, mas era nova para mim, pelo menos pelo que diziam os seus pais. Ela tinha apenas 16 anos e eu já estava nos 20, já era um adulto. Para além disso ela estava destinada a casar com um homem específico, que ela nem conhecia. Os seus pais tentaram de tudo para nos separar, mas não conseguiram. Eles chegaram a inventar coisas um sobre o outro  e pior, tentaram subordinar-me, dizendo que me davam o dinheiro que eu quisesse para me manter longe dela, mas para mim isso nunca foi uma hipótese. Já a Aurora dizia que devia de ter aceite, para depois fugir-mos para longe com o dinheiro deles. Ela chegou a fugir duas vezes de casa com os seus 17 anos, mas a polícia levava-a de volta para casa. Eles chegaram a mudar de cidade, mas eu sabia e encontrava-os. Até à madrugada dos seus 18 anos. Ela fugiu e nunca mais voltou.

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