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Quando Beatriz entrou no ônibus, ele rapidamente levantou-se para que ela pudesse ocupar o lugar na janela, mas dessa vez olhou para ela e esboçou um sorriso. Ela agradeceu a gentileza com um sorriso ainda maior. Ela notou que ele não colocara os fones, ele pensou que talvez ela puxasse assunto se ele não estivesse usando os fones, pensou que talvez ela não o tenha feito antes para não o incomodar, e por uma razão que ele não conseguia explicar, ele queria ser "incomodado" por ela.

Ela queria "incomodá-lo", só não sabia como fazer isso. Percebendo que ele não colocara os fones, viu naquilo uma oportunidade de iniciar uma conversa, e ela que falava sobre tudo e qualquer coisa, que era sempre tão comunicativa, não fazia ideia do que falar. Beatriz não compreendia o efeito que aquele rapaz causava nela, ela não sabia nada, absolutamente nada, sobre ele, mas havia um mistério, um encantamento que ela não sabia explicar ou descrever.

O ônibus manobrava para sair da parada quando um fusca azul apareceu e, junto dele, um pensamento intrusivo surgiu na cabeça de Beatriz. Ela riu do próprio pensamento, imagine só dar um soquinho no braço do rapaz dizendo "fusca azul" como na brincadeira de criança. Lalo segurou o riso ao seu lado, tivera o mesmo pensamento, e claro, não cedera a ele, mas a imagem o fez rir sozinho. Beatriz olhou de soslaio para o rapaz e pensou "quer saber? Por que não?". Olhou diretamente para ele e deu um soquinho de leve no braço dele, dizendo baixinho "fusca azul" e apontando para o fusquinha parado no posto, enquanto o ônibus voltava para a rodovia. Lalo a olhou surpreso e sorriu envergonhado.

— Desculpa – ela disse baixinho com um sorriso – Não resisti.

—Tudo bem – ele respondeu com um sorriso tímido.

— Meu nome é Beatriz.

— Lalo – disse ele estendendo a mão para cumprimentá-la.

— Seu nome é Lalo? Lalo mesmo? Não é apelido? – Ela disparou a perguntar enquanto estendia a mão para responder ao cumprimento.

— É meu nome mesmo.

— Uau! Que diferente.

— É, estranho. – Lalo comentou timidamente.

— Diferente. E bonito. Não estranho. De onde é? – perguntou ela realmente interessada.

— É um nome de origem latina, minha mãe disse que escutou esse nome em alguma novela e gostou.

— Aposto que era numa novela mexicana.

Lalo apenas sorriu da suposição, mas sim, ela tinha razão. A mãe dele tinha mesmo tirado o nome de uma novela mexicana. Após as primeiras palavras, a conversa ficou fácil e Beatriz que era comunicativa não teve dificuldades em manter a conversa, percebendo que Lalo era mais calado e tímido, ela tratava logo de inserir assuntos quando achava que a conversa esmorecia. Falaram sobre os dias que passaram em Paraty, sobre o trabalho, coisas que gostavam, música. Conversavam baixinho para não incomodar os demais passageiros, e nem acreditaram quando o ônibus chegou ao terminal rodoviário do Tietê, em São Paulo, estavam tão entretidos na conversa que nem perceberam o tempo passar. Assim como não perceberam, até desembarcarem, que chovia e o céu estava nublado e cinza, apesar do forte calor.

Beatriz convidou Lalo para um café na rodoviária, não queria se despedir, parecia que ainda havia tanto para conversar. Ele aceitou o convite e a conversa continuou por quase 2 horas. Às 18 horas, Lalo disse que teria de ir embora, precisava acordar cedo no dia seguinte, mas a vontade era mesmo de ficar por ali. Trocaram números de telefone e seguiram para a estação de metrô.

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