04 | medíocre.
não foi preciso de mais que um cérebro
para que eu chegasse à conclusão
que sou fadada a mediocridade.
ontem à noite
eu o ajudei a descer as escadas
enquanto ele cambaleava com álcool nos pulmões
uma predição tatuada no fígado
e um sorriso galanteador no rosto
eu desci todo o lance
com seus braços em volta
da minha tênue linha de amor próprio
apenas para chegar no final
e ele usar de sua embriaguez
para inebriar outro alguém.
e foi então que ele virou e ratificou minha teoria
de que somos irmãos
e eu ganhei mais um companheiro no mundo
para dividir a minha herança de desilusões
e assistir se desabrochar a fundo
sem nunca me abocanhar.
e foi então que eu percebi
que sou tangível a abstração
marcante, mas incompleta
irmã, mas a ovelha negra.
eu percebi que sou a mais legal da festa
mas que sempre sou a última a ficar
para poder guardar a sujeira do balcão.
eu percebi que sou a mais fofa do recinto
mas que sempre sou a primeira a descamar
para que outro alguém pareça bem mais atraente.
eu percebi que sou sem cor
a amiga que nunca será a amante
a menina bonita que nunca será a escolhida
a garota que escreve versos mas que nunca será poeta
a aluna que tira notas boas mas não arruma emprego fixo
a mais legal
a mais acessível
um montanha a ser escalada
trocada por um atalho em túnel no centro.
não precisou mais que um cérebro
para que eu percebesse
que estou em meio a todos
mas não faria falta se não estivesse.
que tenho centenas de planos na cabeça
que ninguém lastimaria se nunca se ligassem.
que eu tenho tudo
mas no fim
sou quase nada.
sou a colega de classe
a que cuida quando desabam em sal
a que dirige e os deixa em casa
a que assiste o sucesso alheio
presa em um escritório
com um salário mediano
e uma vida minimamente boa.
Bia R.D. Ramos
2019.
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