03 | ingratidão
há uma pequena ponte
torta
descamada
ligando o que sobrou de nossa breve narrativa.
vestígio de um passado
cisco de axioma
construção precária
de um tempo
onde reconhecia a ti.
eu nunca fui de confiar
vendava meus olhos
para ampliar minha audição
caminhava bem ao lado
para estudar qualquer movimentação
mas com o tempo
confiei em ti
e como recompensa
afundei em minha própria ousadia.
eu construí uma maldita ponte
da planta
a floresta
para podermos nos comunicar
e tudo que você fez
foi envernizar os pilares
como se fosse justificativa
por nunca ter a usado.
eu construí um caminho
para lapidar nossa familiaridade
mas você rasgou
os álbuns de família
e colocou a culpa em mim.
eu era intensa
eu era dependente
eu era carente
pois eu discordo
eu era amiga
você era rival
eu era engenheira
você era dinamite.
eu tinha a consciência limpa
você nem a tinha mais.
eu cedi protagonismo
você me cortou da cena.
sabe, eu li em algum lugar
que não deveria ser assim
que amizade é troca de verdade
de palavras
bom,
você me trocou por fábulas
antônimos
e nunca devolveu o que te emprestei.
acho que erramos a etimologia.
te cedi mais que um livro
mais que um tempo
mais que uma ponte
eu acreditei
doei mais que devia
e no final
você me repassou como presente
para as mãos da decepção.
você nunca balanceou a estrutura
e no fim
fiquei desnivelada
com as maldades
que costumava usar mascaradas de fofocas
todas sobre mim.
mas não se preocupe
mordeu
mas eu as adotei como sapatos
e pisei em todo meu trabalho
para afundar de vez
o que sobrou da nossa falsa conexão.
pisoteei
e transformei ponte em escorrega
para no fim usar de sua ingratidão
para
deslizar
de volta
a mim.
Bia R. D. Ramos.
2019.
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