Weird



"Escolho meus amigos por sua elegância, minhas relações por suas reputações e meus inimigos por sua inteligência."

Oscar Wilde

??/??/????, (?) – Heartsplain – Wonderland.

Charles é retirado do salão e o velho Vorpal volta a se sentar no trono negro, olho para os lados, os que esperavam pra fazer o teste continuam parados enquanto os outros olham nervosos para o velho Lewis e Copas, passo o peso de um pé para o outro isso está estranho.

- Senhores. – Lewis diz aos presentes. – Podem se retirar. – Ele olha para a fileira da esquerda. – Vocês também. – Ele ri e se reclina no trono.

Todos saem sem pestanejar, Copas arruma seu cabelo e sorri satisfeita parece que até mesmo se esqueceu dos condenados, cruzo os braços, Lewis se vira e sorri pra mim e depois se vira para Copas dizendo:

- Minha rainha eu quero ter uma palavrinha com meu velho Jaguadarte se me dá licença... – Ele se levanta a rainha franze as sobrancelhas. – Ah... Antes que eu me esqueça a senhora deveria estar exuberante para a festa oficial hoje à noite, minha dama.

- Claro! – Copas ri e se levanta. – Eu serei a mulher mais bela dessas terras você verá!

- Você já é minha dama. – Vorpal diz calmamente. – Você já é.

Copas ergue sua pesada saia e se retira quase correndo, dou um passo em direção ao trono dela Lewis nega, recuo.

- Gostaria de tomar um ar fresco, vamos? – Ele caminha descendo o pequeno lance de escadas. – Você vem? – Acordo de meu transe e desço as escadas também. – Você está muito avoado hoje... – Olho irritado para ele. – Sei que minha partida o abalou também vou sentir saudades.

Abro a boca, mas não tenho o que dizer então encolho os ombros e suspiro, Vorpal dá uma palmadinha em meu ombro em sinal de amizade, idiota eu só não sei o que falar pro inferno ele e seus sentimentos. Descemos por um longo corredor que já vi muitas vezes nas memórias do Jaguadarte e ele dá para uma porta pesada cheia de corações, assim que notam nossa aproximando os guardas se precipitam para abrir a porta que dá para um pasto verde e amplo, eu também já vim aqui... Vorpal sorri e faz uma curva ao sair sigo-o de perto e em silêncio. Ele entra em um pequeno estábulo pintado de vermelho e abre a portinhola esperando que eu passe depois a fecha, no coche vejo alguns cavalos bonitos e imponentes, o primeiro é vermelho e seus olhos são amarelos como ouro, o alazão ao seu lado riscando o chão impaciente é negro e tem olhos vermelhos, eu tenho uma pista de quem é esse cavalo, caminho até ele que inclina sua cabeça e a balança, sorrio e afago seu pescoço.

- É um bom garoto diferente de você. – Me assusto e encaro Vorpal. – Não me leve a mal, mas seus nervos estão sempre no limite.

- Devo melhorar? – Sussurro ofendido. – O que você quer me dizer afinal?

- Calma lá... – O velho caminha até o cavalo vermelho e estica sua mão em sua direção, o anima refuga e recua relinchando. – Viu...? Nem você me reconhece mais meu caro Arreug. – Vorpal caminha até o cavalo negro e estende sua mão. – E você Emof me reconhece?

Ele balança sua cabeça, mas deixa que o velho toque em seu pelo, Emof... Sorrio e dou uma batidinha em seu lombo. Mais no fundo do coche tem outros dois cavalos, um cinzento com olhos tão brancos que até parece cego e o outro de um tom esverdeado como algo bolorento e seus olhos são completamente negros, volto a olhar o velho que encara os cavalos pensativo.

- Eu que pedi por isso... – Ele acaricia o cavalo. – Para deixar meu posto e sei que você não pretende isso tão cedo, certo? – Confirmo com a cabeça, não tenho muito que falar afinal. – Eu percebi que as coisas aqui começaram a me rejeitar, eu não sei explicar, mas é como se minha hora tivesse chegado...

- E para onde vai? – Ele se vira confuso. – Já que aqui não lhe serve mais. – Acrescento.

- Eu pensei em voltar... – Arregalo os olhos. – Ir para o Lado de Lá, sabe? Meu caro eu estou muito cansado daqui, eu me sinto deslocado e também sou o único que envelheceu, não como um humano normal, mas mesmo assim vim ficando cada vez mais velho enquanto você e a Rainha continuam os mesmos, você pode ver isso, e eu... – Ele balança a cabeça e se cala.

- E o que vai fazer quando for... Pro Lado de Lá? – Insisto.

- Não sei... Arranjar um emprego que não envolva cortar cabeças. – Ele ri. – Eu quero voltar ao que era... – Vorpal suspira e se afasta. – Quero achar um propósito, você me entende? – Consinto, ele balança a cabeça e sorri. – Eu sei que não porque você só quer o trono, eu vejo isso nos seus olhos. – Vorpal me encara sem o sorriso habitual. – Eu não quero isso, mas sempre fui seu empecilho, eu sei. – Ele sorri. – Eu sempre gostei de você companheiro embora não seja recíproco.

- E... – Ele me encara. – E como vai se chamar agora? Meu amigo. – Sorrio. Vorpal ri e balança a cabeça.

- Tem certeza que não te trocaram por seu reflexo? – Congelo. – Você está diferente hoje, mas você tocou em um ponto importante... Agora meu nome é Lewis o acho simplório, falta algo...

- C... – Ele me encara curioso. – Carroll... – Murmuro.

- Carroll... – Ele pensa. – Carroll Lewis fica ainda mais estranho Jaguadarte! – Vorpal ri. – Mas eu vou pensar em um bom nome, não se preocupe.

- Não estou preocupado... – Ele se vira sigo seu olhar e vejo um homem de cabelos claros e olhos cinzentos se aproximar, ele veste seu habitual terno cinza e sorri para nós. – Scorpio? – Deixo escapar.

- Scorpio é um belo nome. – Vorpal diz. – Não acha mesmo, Grifo?

- Um belíssimo nome! Cavalheiros. – Ele inclina sua cabeça e segue em direção aos cavalos no final do celeiro.

Não é ele claro, Jared era o mesmo porque ele saiu daqui para meu mundo, mas Scorpio nasceu no meu mundo só é muito parecido com esse. Será que quando crescer também serei parecido com Jaguadarte...? Encaro Vorpal, mas ele jamais será o Abel.

- Bem. – Ele diz sorrindo. – Vou me preparar para a cerimônia, até mais.

Vorpal caminha de volta para o palácio, eu pensei que as memórias seriam bem mais breves e rápidas, mas pelo visto terei que ficar aqui até a boa vontade do Jaguadarte resolver me agraciar, caminho até o fundo do estábulo onde o Grifo está ajoelhado flexionando uma das patas do cavalo esverdeado, sorrio e me abaixo ao seu lado.

- É engraçado o fato da Rainha ter um cavalo verde e não vermelho, não acha? – Ele indaga sem me encarar.

- Deveras. – Não tenho muito o que opinar. – Por que ela não mandou pintarem ele de vermelho? Ou escolheu o cavalo que já era vermelho, como o Arreug?

- Não são vocês que os escolhem e sim o contrário meu caro. – Ele me encara. – Pensei que você soubesse disso.

- Ando meio esquecido ultimamente. – Dou de ombros.

- Pronto perfeitamente bem, Etrom. – O Grifo se levanta e vai até o último cavalo, o cinzento.

- Qual o nome dele? – Indago o seguindo.

- Etsep. – Ele se inclina. – Quer que eu o examine para ver essa falta de memória? Gostaria muito de ver o que o senhor tem dentro do seu cérebro.

- Não obrigado. – Caminho até o cavalo e o encaro. – Sane outra dúvida ele pertence a alguém de Espadas?

- Perfeitamente. – Ele ri. – Primeiro vem a Peste, montada por um fiel guerreiro. – "Peste?" Etsep... – Em seguida a Guerra pelo Cavaleiro da Rainha. – O cavalo vermelho... Arreug. – Depois a Fome trazida pelas asas negras. – Olho para trás, Emof... – E por fim a Morte montada pela própria Rainha.

Estranhamente eu já ouvi isso em minha estadia no St. Francis, são os quatro cavaleiros do Apocalipse*, acho que os Reflexos ainda têm um pouco de sua cultura humana do Nosso Lado. Caminho em volta dos cavalos, pra que eles servem? Para desfiles, para passeio ou são usados em combates? Poderia perguntar afinal isso não vai alterar muita coisa nessa memória, encaro o Grifo que se levanta e limpa a poeira dos joelhos.

- Todos estão ótimos. – Ele dá um tapinha no lombo de Etrom. – Espero que você e o novo Vorpal se deem bem.

- Eu também espero... – Ele meneia a cabeça e se vira.

Bem, não tenho muito que fazer além de voltar para o palácio e esperar isso acabar.

XXX

Voltei para o palácio e segui até me encontrar com Áster novamente que me guiou até "meu" quarto e desapareceu, aparentemente ele se esqueceu do beijo que lhe dei ou fingiu que se esqueceu, entro no aposento que visitei tantas vezes em sonho e caminho até uma penteadeira bagunçada pego um pente branco provavelmente feito de ossos e o reviro nos dedos, Jaguadarte devia ser vaidoso... Dou alguns passos e paro em frente a um enorme espelho, minhas roupas não se parecem tanto com as dos moradores de Wonderland, mas eles não parecem se importar com isso só que eu quero ter essa sensação de ser ele ao menos uma vez. Vou até o roupeiro e o abro encontrando uma fileira de roupas negras, deslizo minhas mãos pelos tecidos até que encontro algo que me agrada, uma camisa negra lisa e uma calça de mesmo tom. Visto-as e me encaro percebendo que ainda me pareço como um londrino qualquer, abaixo-me e encontro botas negras de cano alto e salto perigosamente fino, eu posso causar um estrago com isso como da vez que rolei de uma escadaria com Christopher, mas me parece digno e assumo os riscos, calço as botas e me levanto encarando meu reflexo... Ainda não estou nem de perto parecendo ele.

- A capa. – Congelo e me viro para a porta, Copas sorri. – Você deve usar a capa em ocasiões especiais.

Ela caminha até onde estou com seu vestido arrastando no chão, completamente vermelho e dourado sem nenhum traço de branco além de sua pele, ela procura a capa no roupeiro e a puxa estendendo-a na minha frente depois a passa por meus ombros. Encaro-a e sinto meu rosto esquentar, seus olhos de rubi se focam nos meus e ela sorri.

- Veja é um presente para você. – Ela se afasta e percebo que agora tenho uma capa negra que se arrasta atrás de mim. Copas tira algo de dentro de sua saia e me estende. – Para celebrar esse grande acontecimento e mudança em nosso reino.

Novamente ela passa algo por meu pescoço e depois se afasta, encaro o cordão de prata que desce por meu pescoço e termina em uma ametista roxa, essa ametista... Arregalo os olhos, é a joia do Jaguadarte a que está agora no lugar do meu coração, encaro-a e ela sorri.

- Eu também tenho uma. – Copas aponta seu colar de rubi em formato de coração. – E se o novato fizer por merecer terá uma também. – Ela me estende sua mão enluvada. – Acompanha-me?

- Sim... – Seguro sua mão e ela sorri, parece esperar algo, ah...

Ajoelho-me e beijo sua mão, onde foi parar meus modos? Talvez Jaguadarte fosse um cavalheiro com ela, me levanto e tomo seu braço caminhando para a celebração de alguém que logo menos destruirá tudo isso. 

XXX

*Os Quatro Cavaleiros são personagens descritos na terceira visão profética do Apóstolo João no livro bíblico de Revelação ou Apocalipse. Os quatro cavaleiros do apocalipse são Peste, Guerra, Fome e Morte. Que para os cristãos vai acontecer antes do fim de todas as coisas. ~


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