Uncharted
Então você está se sentindo cansado em um senso de controle
E toma decisões que você acha que são para o seu bem
Você é um estranho aqui, por que você veio?
Por que você veio, me deixou mais forte e me deixou olhar para o sol
Olhe para o sol e mais uma vez eu os ouço dizer claramente
Quem, quem é você mesmo?
E onde você vai?
Eu não tenho nada a provar
Porque eu não tenho nada a perder
Who are you, really? - Mikky Ekko
??/??/????, (?) – Heartsplain – Wonderland.
Corro pela escuridão que forma um chão do mais puro breu, meu peito se aperta e meu coração dispara, abro as portas com toda força e recuo arfando... Nada.
Não saí no palácio tampouco no meu quarto, estou numa planície queimada e vazia, recuo tentando voltar para a escuridão, mas não tem mais uma porta atrás de mim. Paro e respiro fundo, primeiro eu tenho que me acalmar depois entender isso, abro os olhos de novo e encaro o cenário desolado, o que é isso?
Caminho um pouco e olho para os lados, vazio... Não vejo nenhuma construção nem nada, um tremor passa por meu corpo. Quando começo pensar em parar de caminhar vejo uma mancha escura ao longe, pessoas? Uma sensação de pânico toma conta do meu corpo, mas... Ergo as sobrancelhas, será que estou me sentindo como o Jaguadarte? Apresso o passo em direção as pessoas e novamente aquela sensação me atravessa. Consigo vê-las se formando, são muitas pessoas e parecem aumentar de número cada vez mais, passo as mãos por meus braços, acho que estou começando a entender isso.
Aproximo-me mais a ponto de ficar ao lado da multidão, são pessoas normais e isso me surpreende, algumas falam coisas que eu consigo entender, algumas não. Elas não me olham, não notam a minha presença...
Mas eu sou diferente.
A voz que toma a minha mente é a dele... Jaguadarte. Pode estar mais suave e assustada, mas ainda é a dele. Uma garotinha me encara e se esconde atrás das pernas de uma mulher alta, diferente.
- Acalmem-se! – Viro meu rosto em direção ao grito. – Precisamos nos organizar, olhem eu os trouxe pra cá!
Abro caminho entre as pessoas até que enfim chego perto do círculo que se formou ao redor do homem que grita, arregalo os olhos, ele é Vorpal. Ele olha ao redor assustado também, está mais novo.
- Eu sou Charles! – Ele espalma as mãos em frente ao corpo como se temesse um ataque. – Eu os trouxe aqui porque somos diferentes... – Um murmúrio percorre as pessoas. – No outro mundo, aquele dos humanos nós somos dizimados, mas isso também dizimava os humanos, eu entendi isso e por esse motivo os trouxe pra cá.
As pessoas olham pra Charles sem dizer nada nada, ele respira e seus ombros relaxam, mas continua na defensiva.
- Eu os escolhi por serem fortes e acredito que esse número é ideal para esse novo lugar... – Ele olha ao redor. – Podemos começar do zero, erguer um reino só nosso onde não seremos estranhos nem caçados.
Mas esse reino é meu.
O pensamento cruza minha cabeça, ele estava aqui antes... Olho em volta à procura de um rosto conhecido, mas não encontro nada. Será que os três que governam Wonderland são diferentes dos demais?
Forço minha mente para a lenda de Ikki, nela dizia que um homem tinha prendido seu duplo em um vidro... E que ele com os outros que sabiam fazer isso tinham os banidos para outro mundo, mas Jaguadarte já estava aqui antes... Na lenda também dizia que o homem havia voltado pois os outros enlouqueceram e juraram voltar para o mundo dos humanos, mas pelo visto nesse ponto também está errada, Vorpal está aqui.
- Bem eu acredito que vocês me entenderam... – Charles recomeça calmamente. – Primeiro precisamos saber que lugar é esse... Alguém?
Essa é a minha terra.
O pensamento cruza minha mente de novo, será que Jaguadarte quer que eu fale? Talvez ele não queira que eu fale normalmente e está me mostrando as respostas que deveria dar...
- É o nosso mundo! – Uma voz grita. – Só nosso!
É meu... Minha cabeça dói como no dia do labirinto, recuo um passo e me escondo na multidão, do outro lado uma pessoa abre caminho, ela afasta todos com empurrões até que chega ao centro, perco o ar, Lilith? Apoio as mãos nas têmporas, não é ela idiota, é só Copas mais nova, encaro-a, os cabelos são compridos assim como os da Lilith eram antes de Abel os cortar, mas são vermelhos... Ela olha para os outros com seus olhos de sangue e ninguém diz nada.
- Esse mundo é meu. – Ela bate o pé e encara Charles. – Entendeu?
- Eu nunca disse que seria meu. – Ele rebate sorrindo de um jeito provocativo.
- Não! – Olho na direção do grito e uma mulher de cabelos brancos aparece. – Ninguém te elegeu dona desse lugar.
- Mas eu fui a primeira a proclamar que era meu, logo ele é meu.
Copas cruza os braços, Charles parece um pouco desconcertado, espero olhando em volta até que a mulher que se parece com Yue aparece e para ao lado da Branca, Vermelha começa:
- Eu estou de acordo com ela, não é porque você disse que é seu que o torna sua propriedade.
Um murmúrio percorre as pessoas a minha volta. Esse lugar é meu e só eu posso mandar nele. Solto o ar e tremo, isso está me matando, fale logo Jaguadarte eu não me importo só fale...
- Mas eu o quero! – Eu a quero... – Eu disse primeiro! – Ela é linda... – Eu sou a Rainha!!! – Será a minha Rainha... – A RAINHA!!!
Arqueio minhas costas e o grito de dor morre na minha garganta, as pessoas se afastam assustadas, meu corpo volta a tremer, isso dói... As asas de dragão se fecham quando me encolho, eu não me lembro que era tão horrível assim... Ergo o rosto e as palavras dele escorrem por meus lábios.
- Esse lugar é meu... – Copas me encara e recua, sorrio.
Charles olha assustado para mim, não sei se essa sensação horrível é minha ou Jaguadarte também se sentia fraco quando fez isso, recuo de novo e me sento, as asas são pesadas e me deixam cansado, olho para as pessoas ao redor e para Copas novamente, ela se aproxima fazendo as pessoas recuarem mais.
- Você é daqui? – Ela indaga se abaixando, consinto, afinal ele estava aqui antes de todos. – Então é o rei? – Dou de ombros, ela sorri. – Então eu serei sua rainha, entendeu? – Encaro Copas nos olhos, ela dá risada e se vira para as pessoas. – Ouviram? Eu sou a Rainha dele, a RAINHA!!! – Ela aponta para as pessoas. – Agora eu mando em vocês.
- Rainha... – Charles sussurra. – Creio que podemos conversar... As senhoritas também e bem... – Os olhos dele se fixam nos meus. – Você.
Apoio as mãos no chão terroso e me levanto, as asas se fecham e a dor em meu corpo parece diminuir um pouco, enquanto Charles caminha as pessoas dão passagem para ele, sigo-o de perto com as três ao meu lado, Charles olha ao redor, mas parece convencido de que não existe nada, por fim ele se senta e pega uma bolsa de couro tirando um pedaço de carne, meu estomago se aperta, fome? Eu pensei que não sentiria fome aqui, mas meu corpo ainda está na terra e acho que eu não vou querer ficar mais uma semana de cama, Charles arremessa o pedaço generoso de carne na minha direção, enterro minhas unhas nele e o mordo, mesmo estando cru é mais apetitoso do que todas as tortas de Chevonne, talvez meus gostos tenham mudado com essa transformação e eu não percebi.
- Aqui não tem nada. – Ergo meus olhos na sua direção, sinto o sangue da carne escorrer por meus dedos. – Você é daqui mesmo? – Consinto, afinal eu sei que ele estava aqui primeiro, depois dessa memória. – Você é algum tipo de guardião? – Empurro o último pedaço de carne na minha boca. – Eu posso te dar mais se quiser... – Charles fala devagar.
- Eu não sou um animal. – Fecho a cara e esfrego minhas mãos na roupa que ainda é a do Jaguadarte que eu conheço.
- Então você fala... – Branca sussurra.
Ergo as sobrancelhas, vamos lá Jaguadarte isso não é uma festa que eu posso socializar, eu não tenho as respostas só você pode me ajudar... Arregalo os olhos, eu não tenho as respostas... Mordo o lábio.
- Não respondeu minha pergunta. – Encaro Charles. – Você é algum guardião daqui? Quem é você?
- Sou o Jaguadarte. – Sorrio e me aprumo, eu não tenho nenhuma resposta, mas eu vou consegui-las. – E sim eu estava aqui antes de vocês chegarem, só não me lembro de nada antes disso.
- Nada antes...? – Consinto. – Talvez você seja algum guardião realmente e só foi despertado com a nossa aproximação.
- Posso ser. – Mexo os ombros, essas asas pesam. – Eu não me lembro de nada, mas e vocês? De onde vem?
- Do Outro Lado... – Branca sussurra.
- Creio que o Outro Lado seja esse. – Vermelha responde cruzando os braços. – Viemos do Lado de Lá.
- Por quê? – Sussurro.
- Porque éramos perseguidos e mortos do Lado de Lá. – Charles responde calmamente.
- Como os trouxe pra cá? – Ele me encara. – Você disse que tinha trago todos, como fez isso?
- Eu nos prendi em um portal... – Ele esfrega os braços. – Eu tenho poder para fazer isso, transformar o vidro transparente em uma cópia do que vemos, chama-se reflexo e é o que somos, reflexos de pessoas e temos que ficar presos aqui. – Ele remexe na sua bolsa e me atira outro pedaço de carne. – Por um tempo ficamos em um lugar vazio, mas que mudava conforme um de nós morria, não era seguro, por isso usei meu poder maldito mais uma vez e criei uma espada...
- Uma espada? – Ergo as sobrancelhas e enterro meus dentes na carne.
- Sim... – Charles me olha receoso. – Com ela consegui rasgar as paredes daquela dimensão e nos trouxe pra cá, julguei ser seguro.
Escuto um ruído alto e não é só eu que o escuto, as pessoas que estavam afastadas gritam e apontam para algo, viro a cabeça e encaro um animal grande o bastante para ser montado e largo o suficiente para carregar duas pessoas sobre ele, seus pelos são prateados e ele anda preguiçosamente, encaro Charles que olha o animal maravilhado.
- Assim como na Bíblia... – Ele sussurra. – Leviatã e Behemoth.
Eu já ouvi falar sobre isso, as criaturas que aparecem em um livro da bíblia, Leviatã um dragão aquático e Behemoth um ser grande e pesado, mas pacífico... Ambos são guardiões.
- Bem, talvez sejamos. – Sorrio. – Estamos no nosso mundo desolado que vocês invadiram.
- Por uma questão de sobrevivência... – Ele esfrega os braços, deve ser um tique – Você disse que não se lembra de nada, mas é nada mesmo? Nem um pouco?
- Nada. – Balanço minha cabeça. – Além de meu nome.
- Bem, se há vida aqui acho que podemos nos estabelecer...
- Quanto a isso... – Copas se levanta. – Eu disse que quero ser noiva desse ser, logo sou a rainha.
Sinto um pensamento intruso cruzar minha mente, sorrio e o repito:
- Não precisa se casar, eu lhe dou meu reino. – As palavras saem docemente de meus lábios. – Mas em troca quero estar no topo, sempre no topo.
- Você sempre estará no topo. – Copas sorri e segura meu rosto. – Assim como aquele que nos salvou e as duas que tiveram a coragem de se sobrepor ao povo parado e inútil que nos acompanhou. – Ela se vira para os outros. – Pois eu, Mikayla, declaro agora que ergueremos um grandioso reino nesse local morto e faremos dele nossa terra.
Mikayla? Um choque percorre meu corpo. Sei que não é o mesmo nome, mas a pronuncia se assemelha ao nome da minha mãe... Arregalo os olhos, não, ele não pode ter me entregado isso tão fácil porque ele não seria louco a esse nível, ou seria?
Leviatã... Aperto meus olhos, isso é suspeito, porém eu não vou me esquecer dessa pista, agora se ela é verdadeira ou não cabe a minha sorte decidir e aguardar o fim desse jogo.
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