Meeting

Você carrega um fardo muito grande. Um coração pesado. Coisas que perdeu. Mas está se movendo em direção à mudança e à descoberta. existem influências externas impulsionando você.

Erin Morgenstern

Nove de novembro de 1888, sexta-feira, (...) Inglaterra.

Entro na sala, Jaken e Scorpio estão sentados na ponta de uma mesa grande, de um lado a mulher que entrou primeiro, do outro um velho rechonchudo e outro alto, com um olhar bondoso, estalo a língua e fecho a porta as minhas costas.

- Eu disse que ele entraria. – Jaken comenta.

- Pro inferno. – Rosno e passo por Scorpio e me sento ao lado de Jaken.

Valerie ergue as sobrancelhas, devolvo o olhar irritado. Algumas batidas leves são dadas na porta e então Lilith e Allyson entram, o velho rechonchudo solta um suspiro pesado.

- Não acho certo. Uma mulher e duas crianças... – Ele comenta com o outro. – Temos mesmo que proceder com isso?

- Se não me quiserem podem transferir a reunião para o quarto do velho e pegarem tuberculose. – Valerie responde.

- Pois bem... – Encaro-o. – Temo que minha família não queira vir até aqui para uma reunião, estão ocupados com sua morbidez e dinheiro, se realmente quer um representante Maurêveilles temo que eu seja o único, já que Jaken é bastardo, e Lilith uma criança.

- Que língua afiada... – Scorpio ri, mas vendo o olhar irritado do velho ele se cala.

- Valerie é tão apta quanto seu pai. – O outro homem comenta. – Conheço-a desde cedo e confio plenamente nela. – Ela sorri para ele, deve ser o pai do Allyson. – Quanto ao caso Maurêveilles, as crianças têm que aprender desde cedo George, deixe o menino ficar.

- Cain. – Ele me encara. – Cain Maurêveilles e minha irmã Lilith. – Suspiro pesadamente e sorrio, Marcel exigiu boas maneiras. – Obrigado senhor Thompson, fico grato pela confiança.

- Tão diferente de Oscar. – Ele ri e balança a cabeça. – William.

- Poderiam ter nomes melhores. – Valerie ri sarcasticamente.

Allyson suspira pesadamente e se senta ao lado dela, Lilith passa por mim e se senta do lado direito de Jaken, que essa reunião transcorra de maneira menos intragável daqui pra frente...

XXX

Tamborilo os dedos na madeira, papéis, assinaturas, contratos que não valem de nada para escravos, máquinas, ferrugem, mortes nas prensas, isso é tudo um lixo que não passa de reflexo da nossa sociedade.

- Cain. – Ergo o olhar para George. – Assine. – Ele me empurra uma folha amarela.

- Primeiro, é senhor Cain... – Jaken pigarreia. – Segundo, poderia me passar o tinteiro, senhor George?

Ele me encara irritado e me estende um tinteiro, leio o documento por cima e assino-o sem me importar realmente, estendo a folha para Lilith que me olha assustada.

- Está pedindo a assinatura dos representantes da família. – Resmungo. – Não temos o dia todo.

- Mas a menina é um bebê. – George reclama, as bochechas grandes ficando vermelhas de raiva. – Não temos culpa que Oscar morreu, mas isso não é uma brincadeira.

Puxo o ar com força, Jaken balança a cabeça em negativa e cruza as mãos.

- Meu caro, Lilith é tão apta quanto Cain, poderia deixar com que ela assine, por Deus? – Jaken resmunga.

- Primeiro vem com essa de estar doente e desaparecer, agora quer dar ordens seu irresponsável?

- Não quero dar ordens... – Jaken respira pesadamente. – Está no direito dela, deixe-a prosseguir.

- Ele está certo. – Valerie me assusta ao se pronunciar. – Ela está aqui ouvindo seus grunhidos, seu porco velho, tem o direito de assinar, também representa a família podre dela.

- Não viemos de família podre. – Lilith diz baixo. – Mas obrigada senhorita.

Pelo jeito manter as aparências não está sendo difícil só para mim, sorrio e volto a bater os dedos na mesa, o anel negro de Oscar brilha em meu dedo, família podre, finalmente alguém que definiu bem nossa origem.

George continua me encarando irritado, com aqueles olhos pequenos como os de porcos, Valerie sabe fazer boas comparações, vejo Allyson se inclinar para sussurrar algo a ela, os dois sorriem e voltam a se afastar.

- Aqui... – O senhor Thompson murmura. – Diz que uma mulher morreu ao ingerir uma substância desconhecida, nos domínios da fábrica, e seu filho agora está sob os cuidados da empresa... Isso é verdade?

- Está trabalhando aqui. – George diz sem nenhum arrependimento na voz. – Estamos cuidando dele, damos pão e um teto.

- E horas de trabalho... – Allyson murmura. – Isso é horrível.

- All. – Thompson o censura. – Já conversamos sobre isso.

- Mas ele está certo. – Lilith guincha, por Deus... Jaken se vira e pigarreia. – Isso está muito errado, você viu as condições lá fora? Viu as crianças?

- E o que tem de mais? – George rebate e arruma seus papéis.

- Algumas são mais novas que eu... – Valerie e Allyson encaram Lilith. – Essa fábrica não está certa e se isso é uma reunião eu quero mudar isso.

- Não pode mudar. – George solta seus papéis e respira fundo. – É a realidade na qual você vive criança estúpida, pra você estar aqui eles têm que trabalhar, e você deveria estar fazendo algo ao invés de ficar aqui esbravejando, você não tem poder pra nada aqui, sua mimada!

Estalo a língua.

- O porco velho passou dos limites... – Ergo as sobrancelhas quando ele me encara. – Peça perdão a minha irmãzinha.

- Você é outro moleque sujo. – Ele me estende um dedo gordo. – Deveria ter aprendido com umas boas surras, Oscar era um frouxo, se eu fosse seu pai...

- "Se", não é. – Jaken me encara irritado, mas nem ele deve estar suportando mais isso. – Eu sou Cain Maurêveilles, não me importo com nada que saia da sua boca e venha em minha direção, mas não ouse ofender minha irmã, porco. – Seu rosto assume outro tom de vermelho. – Pelo que li e deduzi você só olha as coisas aqui, certo, Mr. George? Temo que eu, assim como os Thompson e os Aznavour temos mais poder aqui, certo? – Ele encara a mesa, sorrio. – Eu estou cortando relações com o senhor Mr. George, e se alguém tem algo contra diga agora.

- Já estava na hora. – Valerie comenta e rasga uma folha a sua frente. – Os Aznavour estão de acordo com os Maurêveilles.

George se levanta e aponta para Valerie.

- Sua porca, mulher endiabrada! Demônio!!! – Ele ergue sua mão contra Valerie, mas Allyson é mais rápido e acerta um soco no nariz do velho, Jaken gargalha ao meu lado.

- Não ouse levantar uma mão contra minha Valerie. – Ele resmunga.

- All... – O velho senhor Thompson suspira. – Depois desse ato infantil devo concordar com o senhor Maurêveilles, estou o destituindo dos poderes da fábrica George, pagarei o que está no contrato e peço que se retire o quanto antes.

- Não pode fazer isso, veja William...

O senhor Thompson se levanta e leva George para fora, mesmo com os protestos do outro, assim que ele fecha a porta Jaken volta a rir, Lilith se inclina e me encara assustada, Valerie e Allyson sussurram e riem do outro lado.

- Você é médico não é? – Valerie indaga para Scorpio. – Poderia ir lá fora cuidar do porco.

- Sinceramente, não darei meus cuidados para quem ofende minha pequena dama. – Scorpio se inclina e suspira satisfeito. – Pela primeira vez posso dizer que vi Cain fazer algo bom.

- Pro inferno. – Resmungo.

- Acho que enfim temos "bons Maurêveilles". – Allyson sussurra. – Se fosse o Oscar... – Ele se cala.

- Oscar morreu. – Sorrio. – Agora lembrem-se apenas de Cain e Lilith Maurêveilles.

- Com certeza lembrarei... – Allyson ri e se apoia na mesa. – Bem... Acho que isso vai dar uma baita confusão...

- Eu arco com as consequências. – Volto a tamborilar os dedos na mesa. – Se precisar pagar por algo deixe pela conta dos Maurêveilles, está na hora de alguém fazer alguma coisa.

- Papai nunca se importou com isso mesmo... – Lilith comenta. – All... – Ela espera um minuto, parece estar insegura. – Seu pai disse que uma mulher ingeriu uma substância estranha, poderia me passar o documento que diz isso?

O que ela está tramando? Scorpio me encara e gesticula com a cabeça para Lilith, nego e dou de ombros, eu não sei o que essa maluca está fazendo. Ela mexe nos papéis e depois os apoia na mesa, seu rosto perde a cor.

- O que foi menina? – Valerie resmunga.

- O que é "sol da meia noite"? – Lilith murmura.

- É um produto novo. – Allyson cruza as mãos em frente ao corpo. – Um líquido que estão usando para lamparinas, deixa-as acessas durante a noite, por isso "sol da meia noite", mas é extremamente tóxico. – Ele encara Valerie, como se pedisse para ela continuar.

- O usamos diluído. – Ela respira fundo. – Mas descobrimos que o líquido puro é um veneno poderoso, mata em questão de segundos. – Valerie desvia o olhar e pela primeira vez parece constrangida. – Foi seu pai que apareceu com isso por aqui.

Veneno. Arregalo meus olhos, Lilith disse que Bell tinha um veneno, que matou Ikki...

- O sol da meia noite... – Murmuro.

Parece que ele está clareando muitas coisas por aqui.

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