Countdown


E eu sinto muito, mas eu não me sinto mal por você

Porque eu sei se você pudesse mudar isso

Você estaria sendo punido pela mesma merda (...)

Agora eu sei

Não há ninguém em quem eu possa confiar

Eu costumava pensar que havia

Diga-me que estou com a garganta cortada (...)

Não há ninguém além de mim aqui

O assassino no espelho

Killer In The Mirror - Set It Off

??/??/????, (?) – Heartsplain – Wonderland.

Desço o último lance de escadas e encaro o corredor vazio ainda não tenho noção de tempo é como em um sonho distorcido, caminho ouvindo meus passos ecoarem até o final do corredor, por que não tem ninguém aqui? Viro em uma curva vazia, eu não quero brincar de esconde-esconde... Continuo andando até que meus olhos são tapados arquejo e toco as mãos que os cobrem, mas não é Mikayla é um homem... Engulo em seco abaixando as mãos da pessoa que me segura e abro os olhos esperando encarar Ângelo, mas quem eu vejo me faz recuar um passo alarmado: Charles, mas não o velho e sim o rapaz de cabelos brancos, eu mal me lembrava dele...

- Sentiu minha falta? – Ele ri e se inclina para perto de mim, viro o rosto e recuo novamente. – O que houve?

- Nada... – Respiro rápido e evito olhar para ele. – O que houve...? – Repito sua pergunta.

- Você se distanciou de mim... – Vorpal une as duas mãos abaixo do peito. – Pensei que estivéssemos nos dando bem, meu senhor, desculpe-me pelo incidente.

- Incidente...? – Vorpal encosta uma mão sob meu braço.

Arregalo os olhos e tremo algo atinge o fundo da minha mente com cheiro de sangue: um homem de cabelos brancos deitado de bruços, em suas costas um estranho padrão de tatuagens e no meio de sua coluna um círculo tatuado como uma moldura de um espelho esperando por seu reflexo.

Apoio uma mão contra a garganta, eu me lembro dessa memória do Jaguadarte porque foi uma das primeiras que eu tive, Vorpal estava deitado na mesma cama que eu, ele acordou e tentou me matar...

- Sei... – Abaixo o olhar. – Eu prefiro manter uma certa distância...

- Por quê? – Charles arregala os olhos, depois balança a cabeça. – Perdão, meu senhor, perdão... Eu o entendo, eu me mantenho afastado.

Ele suspira e se afasta mais um pouco, mas sem ir embora, passo uma mão pelo meu cabelo e encolho meus ombros, eu quero que ele desapareça ou que volte para sua morte e que de lá jamais saia.

- É por causa da menina? – Encaro-o. – É porque com ela e Copas você se sente em uma família?

- Menina...? – Sussurro.

- NÃO MINTA PRA MIM! – Vorpal rosna e faz menção de vir para cima de mim, recuo, mas ele para. – Eu vejo como você olha para elas, vejo como você está feliz!!! E aonde foram parar nossos planos de dominar tudo? – Ele abaixa a voz. – Eu queria te fazer feliz também...

Desvio o olhar com menina ele quer dizer Alice? Talvez seja por isso que Copas tenha a deixado se enraizar no país das Maravilhas, talvez veja nela a filha que perdeu embora não faça sentido... Se bem que sanidade não faz sentido...

- Senhor... – Encaro-o. – Podemos passar um tempo juntos?

- Por quê? – Sussurro receoso.

- Quero colocar minha cabeça no lugar... – Charles desvia o olhar, noto olheiras enormes abaixo dos seus olhos, ele também parece mais magro. – Eu preciso de você.

- Certo... – Murmuro o encarando. – Mas quero que respeite meu espaço, entendido? – Ele consente e faz uma mesura.

Vorpal se endireita e fica parado me olhando, eu tenho que fazer algo... Começo a caminhar e escuto os seus passos pesados logo atrás de mim como uma sombra, ando pelos corredores sem ter o que falar ou fazer e ele me acompanha igualmente calado. Suspiro e paro cruzando os braços, ele estanca também.

- O que você quer fazer? – Indago a ele.

- O que o senhor quiser... – Ele sussurra inclinando a cabeça.

- Não. – Digo firme. – Diga-me o que você quer fazer.

- C-... – Ele abaixa o olhar. – Cavalgar.

- Certo. – Me viro para descer as escadas e sou seguido até o final.

XXX

Cavalgar não é bem uma especialidade minha... O cavalo negro do Jaguadarte é bravo, refuga o tempo inteiro e seu tamanho não me agrada em nada, Charles segue no cavalo vermelho sempre a frente correndo contra o vento, eu caminho puxando as rédeas de Emof que relincha incomodado frequentemente.

- Por que não cavalga? – Vorpal grita fazendo seu cavalo voltar até onde estou. – Você gosta muito de sentir o vento nos cabelos, diz que deve ser como voar... – Ele para ao meu lado, o encaro. – O senhor não voa...

- Não...? – Murmuro franzindo as sobrancelhas.

- Não senhor. – Vorpal desce do cavalo e me encara. – O senhor me disse uma vez que não se lembra de sua infância por isso teme voar, os dragões quando não aprendem a voar na infância ficam para sempre presos em terra.

Não sei voar... Então essas asas não servem para nada. Encaro os olhos vermelhos do cavalo, por que seu dono não se lembra da sua infância? Será que acordar quando os outros vieram para cá foi a primeira memória dele...?

- Como você sabe disso? – Indago o encarando.

- Você me contou. – Vorpal fecha a cara e desvia o olhar. – Sou tão insignificante assim para você?

Ele se vira de costas e encara a planície

- Tem algo de errado acontecendo com esse reino. – Ele comenta sem me encarar. – Eu sei que você também percebeu isso.

- Há muito tempo... – Sussurro me lembrando disso, mas agora Vorpal não usa sua armadura como na primeira vez que eu vi essa memória. – Desde que você chegou isso vem acontecendo.

Vorpal se vira e me encara com ódio, sua espada aparece e ele ergue minha cabeça com ela.

- O que você está insinuando com isso? – Seus olhos faíscam.

- Não é nada... – Abaixo o olhar e sorrio.

Ele suspira e abaixa a espada e vejo-a desaparecer como fumaça quando ele faz isso, Vorpal solta as rédeas do seu cavalo e caminha sem olhar para trás solto as rédeas de Emof e o sigo, eu sei que posso arrancar mais coisas desse idiota... Vorpal se senta no chão e dá uma batidinha ao seu lado, me sento e ele se deita no meu colo, isso é estranho... Afago seus cabelos talvez agradar seja bom.

- Não entendo você... – Vorpal murmura. – Às vezes é tão bondoso e outras, porém... – Ele suspira.

- Você também é assim... – Ele ri. – Às vezes parece me amar, outras, porém... – Inclino minha cabeça e Vorpal se vira me encarando.

- Eu odeio isso... – Ele respira fundo. – Eu queria ser perfeito para você, queria te agradar, mas também queria agradar a rainha... – Vorpal desvia o olhar. – Só que às vezes é como se não fosse eu fazendo as coisas sabe? Como se algo mais forte me dominasse.

Aperto os olhos, ele suspira e se revira como se olhar para mim fosse difícil, suspiro e encaro o vale que se expande a nossa volta, os cavalos pastam tranquilamente e o céu está agradável aqui não parece chover ou esfriar tão diferente de Londres, se isso não fosse um sonho eu gostaria de ficar aqui para sempre... Talvez se eu fosse Alice eu também iria querer reinar aqui...

- Jabberwocky... – Abaixo o olhar. – Se fosse diferente, se fosse só eu e você talvez tivesse sido melhor, certo?

- Não sei... – Murmuro. – Eu sinceramente não sei.

Volto a encarar a planície em silêncio.

XXX

Volto com Charles pelo descampado quando nos aproximamos do castelo vejo uma estrutura estranha montada, caminho com Emof para perto dela e primeiro penso que é um palco... Vorpal vem logo atrás em silêncio e então descubro que isso não é um palco e sim um cadafalso... Ele é pintado de vermelho, mas tem manchas mais escuras no chão, aperto as rédeas do cavalo e recuo um passo.

- Você tem sorte de não ter que subir nele. – Me viro pra trás, Charles sussurra. – Eu não aguento mais.

Ela realmente decapita as pessoas... Engulo em seco e apoio uma mão contra a garganta, se é ele que os decapita por mando da rainha com o que ele as decapita...? Na memória que eu tive quando Abel tentou me matar Vorpal atingia Jaguadarte com a verdadeira espada, mas o velho disse que a espada só seria usada quando necessário...

- A espada...? – Sussurro.

- A negra? – Ele indaga, consinto pelo blefe. – Você sabe que ela só é usada na execução, a Rainha gosta de que a espada da lei fique com ela.

- Espada da lei? – Indago me aproximando dele.

- Sim. – Charles ergue as sobrancelhas. – A rainha a chama de justiça, mas todos sabem que ela é a própria escuridão que ceifa vidas, e dizem que as almas dos que morrem ficam presas nela, eu já vi tantas coisas que começo a acreditar nisso.

- Se ela é da Rainha significa que eu sou o único que não tem uma espada? – Dou risada.

Charles sorri e fecha os olhos suspirando, por um momento ele parece tão leve como algum adolescente descontraído, Vorpal volta a abrir os seus olhos bicolores e a ficar sério.

- Você não precisa delas, não mais.

Ele volta a caminhar me deixando confuso encarando suas costas.

XXX

Entro no palácio depois de deixar os cavalos no estábulo e de Charles desaparecer antes que eu dissesse mais alguma coisa, eu não gosto dessas memórias que mudam de época porque elas me fazem perder a noção de tempo, agora tudo parece mais antigo aqui dentro... Escuto os passos e me viro para trás, Mikayla anda até onde estou ela está diferente mais séria talvez encaro-a e é então que eu percebo o que a insanidade fez com ela: a tornou vazia... Assim como Charles antes de se tornar Vorpal é como se fosse outra pessoa a minha frente, abaixo o olhar.

- Jaguadarte. – Ergo o olhar. – Aonde você estava?

- Cavalgando. – Sussurro. – Algo de errado, minha rainha?

- Não... – Ela suspira. – Só estava me sentindo só, fico feliz que você tenha voltado.

Franzo as sobrancelhas e então algo estranho acontece o chão treme violentamente como um terremoto, não consigo me segurar em nada e desabo no chão, mas Mikayla permanece em pé como se nada tivesse acontecido, ela abaixa o olhar e sorri.

- Não precisa se ajoelhar. – Ela ri em divertimento, fico mais confuso.

- Você não sentiu...? – Murmuro.

- O que a sua rainha não sentiu? – Fico em silêncio depois balanço a cabeça. – Bobinho.

É só uma memória é claro que ela não sentiria. Escuto passos no corredor atrás de mim e escuto uma cantiga familiar, algo de Londres que quase me leva de volta a minha realidade: London Bridge. Olho para trás e vejo uma garotinha saltitando, seu vestido amarelo flutua quando ela ergue as pernas saltando os ladrilhos, Copas ri e bate palmas se abaixando, encaro-a chocado enquanto a garotinha corre em sua direção a abraçando.

- O que minha Alice aprontou? – Ela a pega no colo e se vira, me levanto e a sigo. – O velho Charles que lhe enviou?

- Sim, majestade. – Copas ri em deleite. – Ele mandou lembranças.

A menina me encara e se encolhe em Mikayla a abraçando, me lembro então de Jaguadarte a atacando... Esfrego meus braços e desvio o olhar, Copas para e olha para frente olho na mesma direção que ela e vejo Charles vindo seu olhar é frio e sem alma me sinto mais desconfortável ainda.

- Majestade. – Ele faz uma mesura. – Alice...

Ela sorri acenando para ele que também sorri inclinando a cabeça, depois volta a caminhar, me viro para encará-lo, mas ele segue sem olhar para trás...

Isso definitivamente não me soa bem...

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