Clock



Em seus olhos um brilho

Apenas visto em um sonho

Derrubando a embreagem de carne

Sua mão, eu quero tocar

Vou abrir a porta para o intermediário

Vindo e indo como eu

Boogeyman - Dead Posey

Vinte e um de novembro de 1888, quarta-feira, (Whitechapel) Inglaterra.

Entrar novamente no orfanato foi mais fácil com Caleb nos ajudando mesmo com todos seus protestos, subimos de forma silenciosa até nos deitar com Toby e Manson adormecidos, sorrio, amanhã vamos ter muito o que fazer.

XXX

- Faz anos que eu não como chocolate assim!!! – Toby sorri e morde seu bombom satisfeito. – É maravilhoso.

- Vocês são muito legais. – Mansos comenta deitada no colo de Barbie mordiscando seu doce.

- Não somos tudo isso. – Sorrio e encolho os ombros. – Toby... Eu nem sei como começar, mas eu preciso de uma ajuda... – Ele me encara alarmado. – Nós precisamos saber o que há de estranho aqui.

- Estranho? – Ele me olha receoso. – Por quê?

- Bem... Digamos que a algo muito errado acontecendo... – Encaro Barbie procurando ajuda. – Algo um pouco louco até... E você pode não acreditar se eu contar, mas preciso que você me ajude.

Toby termina seu bombom e suspira amassando o papel prateado, espero ele dizer algo enquanto meu nervosismo aumenta.

- Você disse algo "um pouco louco", eu acho que também tenho um pouco dessa loucura... – Arregalo os olhos. – Eu vejo coisas, mas não como meu irmão via, porém é como se tivesse uma voz sempre me dizendo algo. – Ele me encara com seus olhos castanhos e sinto um pouco de medo. – E ela disse que vocês mentem...

- De fato mentimos. – Me assusto e encaro Barbie que sorri. – Não sou Susie alguma, meu nome é Barbary Guildford e aquela é Lilith Maurêveilles.

- Maurêveilles? – Toby arregala os olhos. – Você é da fábrica de tecido? Meu irmão disse que um garoto o mandou para lá e disse esse nome.

- Foi o meu irmão... – Suspiro. – E é por causa dele que estamos aqui também, eu preciso muito da sua ajuda para achar alguns registros...

- Pra que? – Toby ergue as sobrancelhas.

- É uma longa história, mas digamos que eu procuro alguém que pode ter passado por aqui e preciso dessa confirmação.

Toby continua me encarando com descrença, talvez eu tenha que barganhar algo afinal ninguém faz nada de graça, olho para Barbie, mas ela não parece ter nada a dizer, enterro as mãos nos cabelos e respiro fundo porque com certeza Marcel vai querer me matar.

- Se você me ajudar eu te tiro daqui. – Toby abre a boca chocado. – Eu preciso da sua ajuda. Não só eu e descobri que você pode estar mais envolvido nisso do que imagina, me ajuda que eu te levo para a casa onde eu moro. – Sorrio. – Eu também sou adotada e acho que meu tutor não se incomodaria com você e a Manson.

- Isso é sério? – Ele se inclina e sorri. – De verdade?

- Sim. – Sorrio e sinto meu rosto esquentar. – Pergunte a sua voz...

- Ela diz algo... – Ele se aproxima mais. – Fala sobre o país das Maravilhas... – Arregalo os olhos e me inclino para trás. – Fala sobre você Lilith... – Engulo em seco. – Diz coisas horríveis também... – Toby se afasta e suspira. – Mas ela já me disse tantas coisas horríveis e sem sentido que eu prefiro confiar em uma amiga. – Ele sorri.

- Você nem sabe o quanto isso me deixa feliz. – Suspiro. – Bem e o que você sugere que façamos?

- Acho que devemos comer primeiro, depois eu ajudo vocês. – Toby ri e se levanta puxando Manson pela mão a guiando para baixo.

Encaro Barbie, ela dá de ombros e o segue, certo uma parte do plano já está em ação, agora precisamos achar algo porque eu espero que esse seja meu último dia aqui.

XXX

Encaro o prato de uma sopa rala que não consigo identificar, novamente Toby come o que quer que esteja em meu prato e voltamos com Manson para o sótão, assim que ele se certifica de que a porta está fechada diz:

- Se vocês querem achar informações tem que procurar na sala da diretora, mas pra chegarmos lá temos que passar pela cozinha e o mais importante: sem sermos notados principalmente pela Emily.

- Emily? – Barbie indaga. – Por acaso é uma de cabelo preto e chata?

- Ela mesmo. – Toby solta uma risadinha. – Vocês já a conhecem, como a diretora gosta dela as irmãs nunca a mandam trabalhar nas ruas.

- E como achamos? – Murmuro. – Não podemos sair procurando cegamente.

- Você tem uma inicial não tem? – Toby murmura, parece incomodado.

- Tenho... – Afasto o cabelo do rosto e respiro fundo. – Obrigada mesmo.

- Tudo bem. – Ele sorri e deixa Manson sentada na sua cama improvisada. – Voltamos logo.

- Tá. – Ela sorri e um sentimento de culpa passa por minha mente, mas o afasto rapidamente. – Até.

XXX

Caminho com Toby ao meu lado, pensei que precisaríamos nos esconder, mas com o movimento das outras crianças não precisamos nos preocupar tanto, vejo uma sombra se formar na parede e Barbie arqueja, me viro assustada e demoro um pouco para assimilar a pessoa ao meu lado.

Caleb revira os olhos e fecha a cara, Toby para também e o encara.

- O que foi? – Caleb sussurra.

- Como você entrou aqui? – Murmuro olhando em volta.

- Segurança não é o forte desse lugar.

Suspiro e balanço a cabeça ao menos é uma ajuda a mais.

- Quem é você? – Toby indaga o olhando de cima a baixo.

- Um aliado. – Caleb ergue as sobrancelhas. – É só o que você precisa saber.

Toby dá de ombros, explicamos o plano para ele escondidos sob uma escada de madeira, Caleb escuta tudo calado e no final consente, ele enfia sua mão no bolso do seu sobretudo e nos entrega mais alguns bombons de Chevonne, sorrio e como agradecida por ter algo no estômago. Enquanto Barbie tagarela com Caleb deslizo minhas mãos sob minha saia sentindo os coldres das armas em cada perna, eu não deveria ter trago algo tão perigoso para um lugar cheio de crianças, mas tenho medo de me encontrar com Abel novamente... Não quero ser uma presa fácil como da outra vez porque agora eu sei que posso perder pessoas preciosas pra mim... Sou tirada de meus pensamentos por uma cotovelada entre as costelas, resmungo e me viro irritada para Caleb que sorri.

- Ela não ouviu nada. – Ele declara cruzando os braços.

- Ouvi o que? – Sussurro massageando o lugar acertado.

- Vamos nos dividir. – Barbie me encara. – Eu e você, Caleb e Toby.

- Não... – Caleb fecha a cara. – Você e esse aí e eu com a Lilith.

- Isso não é hora de bancar o cavalheiro... – Barbie rebate.

- Pode não ser, mas agimos melhor em equipe. – Ergo as sobrancelhas. – E ao menos uma tem que voltar viva.

Toby faz bico e Barbie bufa, reviro os olhos e me levanto.

- Não agimos melhor em equipe. – Caleb me encara com raiva. – Eu vou com o Toby e você com a Barbie, afinal uma tem que voltar viva.

Caleb não retruca nem Barbie faz alguma objeção, Toby encolhe os ombros e se levanta.

- Ao meio dia aqui. – Encaro Barbie que consente e Caleb que continua de cara fechada.

Toby me segue sem falar uma palavra, mas assim que viramos em um corredor ele sussurra:

- Por que fez isso?

- Caleb é meio babaca às vezes. – Sorrio. – Você confiou em nós eu só estou devolvendo.

- Você é muito legal. – Toby ri e sinaliza com a mão. – Vamos para a cozinha que eu te levo para a sala da diretora.

Sigo-o de perto, aqui já não tem tantas crianças quanto lá fora então Toby pede para que eu recolha os pratos das mesas, se fingirmos estar levando-os para cozinha ninguém vai desconfiar. Seguro algumas tigelas sujas entre os dedos e mais alguns pratos sob o braço me sujando toda, Toby arregala os olhos, ergo as sobrancelhas.

- Você é mesmo uma condessa? – Consinto. – É que você parece não se importar em fazer essas coisas.

- Eu não me importo. – Dou um sorriso para ele. – Sabe? Depois que você é jogada no meio de coisas bizarras e que não fazem nenhum sentido trabalhos domésticos parecem uma benção.

Ele ri e cora ao final, Toby é uma gracinha, espero que como Caleb disse ele realmente seja inofensivo do Outro Lado. Ele abre uma porta pesada para que eu passe e entre na cozinha, é estranho uma sala de diretora ficar depois da cozinha... Abaixo a cabeça e sigo Toby até uma bacia no final do corredor escuro que é a cozinha, uma cozinheira solitária mexe uma panela suja com uma colher de pau enquanto derruba algum tempero que faz meu nariz coçar, chego até a bacia suja cheia de uma água escura, engulo em seco e despejo as vasilhas lá dentro. A porta da cozinha novamente se abre e algumas mulheres entram conversando, sinto um puxão no braço e passo por uma portinha de madeira dando de cara com um corredor grande e limpo.

- Como isso fica atrás da cozinha? – Murmuro.

- A outra passagem foi destruída. – Toby olha para os lados e começa a se esgueirar pelo corredor. – Um relógio caiu se partindo ao meio e o chão foi todo quebrado... – Ele para em uma saída e olha para os dois lados. – Eu acho isso estranho sabe?

- Estranho... – Esse corredor me lembra ao da casa Nonsense... Olho as portas de madeira altas e o chão polido, parece que a qualquer momento Cain pode abrir alguma dessas portas ou até mesmo Marcel.

- Temos sorte de ser cedo e a diretora não estar por aqui.

- Quem é ela?

- Pra falar a verdade eu não a conheço... – Toby para em mais uma curva e depois de se certificar que não tem ninguém vai até uma porta e a abre. – Mas eu sei aonde fica a sala dela porque me mandaram aqui quando meu irmão morreu.

Entro atrás dele e arregalo os olhos, a sala dela é uma bagunça, vejo coisas espalhadas e manchas na parede como se comidas tivessem sido arremessadas para todos os lados, balanço a cabeça e procuro pelos registros, Toby se apoia na porta, parece com medo, pego uma cadeira e apoio em frente a uma grande armário de ferro, puxo a primeira gaveta e encaro umas fichas sujas... Deslizo meus dedos pelos papéis empoeirados sentindo meu coração palpitar... A de Abel, não deve estar tão escondido assim...

- Qual é o nome? – Sinto meu coração parar e respiro de novo.

- Abel... – Puxo uma ficha e vejo que é outro nome "Anshel"... – Ele é... Bem é complicado.

- É o seu irmão?

- Sim... Um deles. – Começo a voltar para as folhas do começo. – Eles são gêmeos sabe?

- O outro se chama Cain? – Engulo em seco.

- Sim... – Pego uma ficha amassada e a puxo, arregalo os olhos.

Desço da cadeira e vou até a mesa abrindo a ficha e sentindo a euforia dar lugar a um vazio, dentro da pasta só tem metade de uma folha riscada e rasgada, tento identificar as letras por baixo dos riscos de tinta negra e engulo o grito de pavor que sobe pela minha garganta quando Toby segura meu braço.

- Eu escutei algo, vamos...

Consinto e arrasto a cadeira de volta ao seu lugar correndo atrás de Toby, consigo ouvir vozes vindo pelo corredor, Toby vira em uma curva e para fico ao seu lado respirando rápido.

- Eu vi! – As vozes baixas chegam com precariedade aqui. – Eu juro que vi eles vindo pra cá!

- Não podemos voltar... – Toby murmura. – Vamos ter que ir para a outra saída. Com certeza a Milly nos dedurou.

- Mas tomamos cuidado... – Murmuro olhando para trás e com os ouvidos em alerta.

- Eu sei! – Toby abaixa mais sua voz. – Será que não pegaram os outros?

- Com o Caleb lá? Não. É mais fácil ele colocar esse orfanato abaixo.

Toby solta uma risadinha e segura minha mão me guiando para outra saída, é bom ter alguém me guiando assim... O silêncio que se forma atrás de nós me assusta um pouco, mas depois de algumas curvas Toby para na outra entrada. Realmente tem um relógio caído e um enorme buraco abaixo dele, mas o que me intriga é o fato de que um relógio velho não poderia quebrar um assoalho de madeira dessa forma.

- Eles estão ali! – Meu sangue gela e olho para o final do corredor, Emily aponta para nossa direção.

- Pula! – Toby puxa meu braço e me arrasta em direção ao relógio. – Você tem que saltar pela abertura no chão.

- Mas assim eu vou me quebrar lá embaixo... – Guincho.

- Não vai! – Toby morde o lábio e olha nervoso para Emily que vem correndo. – Confia em mim, eu vou te ajudar...

Engulo em seco e consinto. Toby segura meu braço quando salto na abertura que dá para o outro andar, solto o peso do meu corpo e sinto seus dedos se abrirem e então desabo, mas algo estranho acontece eu não estou caindo...

É como se o tempo tivesse parado! Olho para cima e vejo Toby me encarar com olhos laranjas, poderes do Outro Lado... Meu corpo desce suavemente até que toco o chão, então volto a ouvir os passos no corredor e Toby se abaixa arfando.

- EU VOLTO PRA TE PEGAR! – Me levanto e disparo pelo corredor vazio.

Eu preciso encontrar Barbie e Caleb antes que façam alguma coisa com ele ou com... Estanco: Manson. Ela ainda está no sótão... Faço meia volta e corro para cima, antes enfio a pasta de papel dentro do meu vestido, consigo sentir meu coração acelerado e a adrenalina correndo nas veias, eu preciso chegar lá antes que algo de mal aconteça.  

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