Charade



Com o sorriso banhados em ouro

Engano tão natural

Mas um lobo em pele de cordeiro é mais do que um aviso

(...) Me diga como você está dormindo fácil

Como você só está pensando em si mesmo

Me mostre como você se justifica

Contando todas as suas mentiras como uma segunda natureza

(...) Com cautela, você persegue sua presa

Com mentalidade criminosa

Você afunda seus dentes nas pessoas que depende

Wolf in Sheep's Clothing - Set It Off

??/??/????, (?) – Heartsplain – Wonderland.

Charles e Lewis se sentam começando a conversar, mas o que me distrai é Áster, ele se aproxima e toca meu braço, sussurrando:

- Preciso que me acompanhe.

Levanto-me e o sigo, as rainhas e os cavaleiros parecem não notar minha ausência, Áster para em frente a uma porta e a abre, passo por ele e congelo, tudo a minha volta fica negro, engulo em seco, ele entra atrás de mim e bate à porta deixando a escuridão nos cercar, mas consigo vê-lo, ele me encara e um calafrio desce por minha espinha quando ele sorri.

- Fim da primeira memória. – Jaguadarte sussurra. – Acompanhe-me senhor Cain que o levarei a segunda. – Seus saltos raspam a escuridão provocando um barulho irritante. A contragosto começo a caminhar. – Um dia se findou. – Ele completa.

- Já? – O alcanço e encaro seu rosto no momento ainda como Áster. – Essa memória foi grande.

- De fato. – Jaguadarte sorri. – Mas te garanto que as outras serão mais rápidas inclusive... – Ele para e abre uma porta no nada. – Chegamos ao nosso destino, obrigado por me acompanhar senhor Cain.

Empino o nariz e passo pela porta do outro lado encontro um quarto vazio, olho pra trás e não há nenhum sinal de porta apenas uma parede vermelha. Volto a olhar o aposento já conhecido e escuto batidas na porta, sem meu consentimento ela se abre e a Joker do dia da escolha do novo cavaleiro entra e fica encostada na porta.

- Senhor. – Babel faz uma mesura. – O senhor Absolem o convoca para uma conversa. – Ela volta a se endireitar e me encara depois suspira. – Posso conversar com o senhor?

Consinto. Babel relaxa os ombros e caminha até uma cadeira no canto do quarto se sentando, encaro a parede atrás de mim mais uma vez e caminho até a cama grande me sentando e olhando para ela que suspira.

- Sei que sou só uma carta inferior... E que não deveria o incomodar senhor, mas desde que o evento da sucessão ocorreu venho notado algumas diferenças no meu antigo companheiro. – Ela suspira de novo.

- Algumas pessoas não sabem lidar com o poder. – Sussurro.

- Não é isso. – Ela balança a cabeça. – É como se não fosse mais ele, é como se... – Babel encolhe seus ombros. – Tivesse algo ali dentro dele me olhando e eu não vejo mais o Lewis em seus olhos.

Ergo as sobrancelhas, algo que não é ele... Babel se levanta me tirando dos meus devaneios.

- Senhor nós não podemos nos atrasar, o senhor Absolem quer conversar com o senhor ele diz que é urgente.

Consinto e me levanto acompanhando Babel, ela caminha a minha frente determinada, Jaguadarte com certeza é maior que ela já eu mal alcanço seu ombro, suspiro e reparo que ela tem um sinal de Espadas abaixo do olho talvez seja leal como Caleb, mas também tem Ouros ela fica do lado que a beneficia... Contraditório.

Babel para em frente a uma porta decorada e a abre, entro e estanco, o local é uma sala minúscula cheia de fumaça, tusso e tento afastar um pouco da névoa azul que se junta ao meu redor.

- De fato. – Alguém exclama, Babel continua seguindo em frente e eu a acompanho. – Irei me empenhar muito nisso, obrigado senhor Oráculo.

Um homem rechonchudo está de costas e um rosto conhecido está sentado sobre uma poltrona azul fumando um cachimbo: Matthew. Ele me encara preguiçosamente e sorri acenando para o homem a sua frente se retirar, o velho se vira e congelo, por um segundo esqueço de respirar porque o homem a minha frente é P.T Barnum. Recuo um passo, ele sorri e faz uma mesura, Babel se inclina e o cumprimenta dizendo:

- Tenha um ótimo dia senhor Dodô.

Dodô? Ele ri e acena com a cabeça seguindo seu caminho, um reflexo... P.T é um reflexo!!! Sinto vontade de chorar. Como fui idiota, é claro que ele não era um humano comum, isso explica o porquê de ele saber quem éramos, conhecer nosso pai e tudo mais. O pior é que agora eu não consigo dizer nada a Lilith que pode estar correndo perigo com reflexo, engulo o nó que se forma em minha garganta e ergo a cabeça, eu vou falar isso a ela quando acordar porque ela é esperta e sabe se virar com esse tipo de gente...

- Vejo que anda pensativo... – Absolem comenta soltando fumaça pelo nariz. - Senhor Jaguadarte... – Ergo o rosto e ele sorri. – Vi algo nas estrelas e elas me mandaram avisá-lo que há algo muito grande e algo muito ruim vindo para você.

- Algo grande e ruim...? – Sussurro.

- Algo grande e algo ruim... – Ele ri. – Mas não se engane, eles virão separados, algo grande e algo ruim...

Grande e ruim...? Engulo em seco, um enigma... Babel me encara, desvio o olhar.

- Seu interior está confuso eu sei... – Absolem desce de sua poltrona e para na minha frente. – Mas logo ele será esclarecido de suas dúvidas.

Dizendo isso ele segue seu caminho deixando-nos a sós, Babel solta um suspiro e resmunga:

- Eu nunca entendo nada do que ele diz!

Sorrio e ela também ri, engraçado como eles interagem comigo, me fazendo sentir que realmente estou em Wonderland e não que isso é um simples sonho. Sem dizer uma palavra Babel começa a caminhar para fora e a sigo de perto ouvindo o toc-toc de seus saltos ecoarem, ela abre a porta, saio e me assusto com quem está parado do lado de fora, Áster se curva ao meu lado, Babel saí da sala e o encara crispando os lábios.

- Ás de Copas. – Ela meneia a cabeça com um certo desprezo.

- Joker. – Ele se inclina e sorri. – Odeio interrompê-los em seus assuntos. – Seus olhos vermelhos e frios encaram Babel com nojo. – Mas tenho uma mensagem importante, poderia me acompanhar senhor?

Consinto, Babel fecha a cara e se afasta sem olhar para trás, Áster se ajeita e começa a andar para longe dela, ele afasta os cabelos do rosto e sem me encarar começa a falar:

- O senhor Vorpal deseja muito conversar com o senhor, diz que é urgente e é sobre "aquilo".

- "Aquilo"? – Repito.

- Não tenho demais informações... – Ele me olha de relance com o rosto corando. – Perdoe meu comportamento em relação a Joker.

- Não se desculpe. – Áster morde o lábio acho que não me entendeu. – Eu gosto dessa atitude. – Acrescento. Ele arregala os olhos e me encara.

Sorrio ele se vira para frente e não diz mais nenhuma palavra até nosso destino que é outra sala, me pergunto quantos mais falarão comigo nessa memória. Abro a porta, mas Áster não me acompanha, estou em um recinto bem mais ampla que o de Absolem, duas poltronas e uma mesa baixa estão no centro, na parede uma lareira acessa, que horas são? As janelas são grandes, mas as cortinas de um vermelho sangue escondem a vista e em uma das poltronas Charles está sentado, ele sorri me aproximo receoso e me sento ao seu lado.

- Pensei que não viria. – Ele ri. – Há tempos venho tentando me dar bem com você.

- Mas nos conhecemos agora. – O sussurro saí involuntariamente de meus lábios, não sou eu falando novamente.

- É isso que quero dizer, tolo... – Os olhos bicolores de Vorpal se focam nos meus. – Eu... – Ele sorri e se inclina pegando uma taça e uma garrafa. – Esqueça, vamos apenas beber entre amigos.

- Não somos amigos. – Respondo, mais como eu mesmo.

- Mas seremos. – Ele enche uma taça e me estende, receoso seguro-a. – Tenho um segredo e uma proposta a lhe fazer. – Vorpal ergue sua taça e bebe um gole, continuo segurando a minha. – Não está envenenada. – Ele sorri entretido.

- Eu prefiro não beber. – Respondo apoiando a taça na mesa. – Mas me diga o que é esse segredo e por que quer conta-lo a mim?

- Não é um segredo meu. – Ele ri, os cabelos brancos roubam as cores das chamas, engulo em seco. – Sabe meu caro Copas está muito entristecida, vive enfurnada em seu quarto chorando.

- Por qual motivo? – Ergo as sobrancelhas.

- Ela deseja muito algo. – Os olhos dele se estreitam. – E sabe como nossa Rainha é, se ela quer algo tem que tê-lo, mas nesse caso é impossível ela conseguir o que deseja sozinha.

- E o que ela deseja? – Murmuro, sentindo um nó se formar em minha garganta novamente, pois desconfio de algo.

- Copas deseja um filho. – Vorpal arregala os olhos em deleite. – Você sabe Branca a envenenou com a história de sucessão, Copas é impulsiva e manipulável, ela quer ter o mesmo que sua rival então logo ela quer alguém para herdar seu posto.

Encaro o chão, Copas quer uma criança, isso não estava nos livros, isso não estava em nenhuma das minhas teorias e isso é insano. Vorpal ri e se levanta, encaro-o assustado, ele se aproxima e passa os braços sobre meus ombros aproximando nossos rostos.

- E você sabe quem é o rei dela, não sabe? – Ele sussurra erguendo as sobrancelhas. – Ela quer você Jaguadarte, ela quer um herdeiro e você, é como matar dois coelhos com uma cajadada só. – Vorpal apoia seu rosto ao lado do meu. – É algo grandioso, não é? – Ele ri se sentando no braço da minha poltrona. – Vamos Jaguadarte, eu sei que era um segredo, mas é tão bom estragar a surpresa...

Vorpal ri novamente e se aproxima mais jogando seu peso sobre mim, ele apoia uma mão sobre meu coração, viro-me para encará-lo e me assusto com seus olhos arregalados e insanos, engulo em seco. Sua mão sobe por meu pescoço e o aperta, me levanto rápido para me afastar dele, eu quero que essa memória acabe.

- Tenho mais algo para lhe contar! – Ele se levanta também, recuo alarmado.

- Não quero ouvir... – Sussurro.

- Por favor? – Vorpal estende um braço e me segura fazendo com que eu me vire para ele. – Eu gosto de você. – Arregalo os olhos, Vorpal me encara assustado e se ajoelha. – Parece insano, eu sei, mas... – Ele se inclina e abraça minha cintura. – Eu quero servir ao senhor não só como um simples cavaleiro, eu lhe desejo... – Empurro-o.

Vorpal ergue o rosto em uma expressão de súplica, trinco os dentes e corro pra fora da sala escura sentindo meu coração acelerado e as lágrimas escorrendo por meu rosto, empurro a porta e sou engolido pela escuridão novamente. 

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