Cain e o mundo secreto
Cain olhava a casa azul enquanto segurava um graveto bifurcado entre as mãos como uma bússola, o casal velho do subsolo tinha dito para ele que existia um poço fundo nos arredores da casa e ele queria descobrir aonde esse poço estava para jogar pedras nele porque parecia mais divertido do que ver o circo de ratos imaginários do velho do andar de cima. Aquela casa parecia ter apenas velhos idiotas, seus pais ausentes e seu gêmeo estraga prazeres. Ele afundou seu pé na lama pela décima vez resmungando e decidindo voltar para casa, pois a chuva logo menos ia cair e ele não queria se molhar.
XXX
- Você viu aquela porta? – Abel indagou assim que ele entrou. – Ela dá pra lugar nenhum literalmente! – Cain o ignorou. – Ainda mais, olha isso aqui.
Abel estendia um boneco estranho para Cain, ele usava roupas de lã e tinha cachos do mesmo material, seus olhos de botões brilhantes eram roxos e chamativos, Cain o pegou nas mãos e o revirou, era como um boneco de vodu que ele tinha visto em livros...
- Onde conseguiu isso? – Indagou a Abel.
- No sótão eu fui buscar minhas coisas e ele estava lá. – Ele encolheu os ombros. – Se parece com você, não é?
- Um pouco... – Cain o encarou de novo. – Mas deve ser coisa da sua cabeça.
Revirou os olhos e devolveu o boneco a Abel indo até a cozinha, pegou a comida congelada e esquentou, Abel se aproximou e esperou que o irmão o servisse depois comeu e voltou para o quarto, no final a história toda era só para enrolar Cain pelo almoço, afinal Abel era um preguiçoso. Depois de comer e lavar a louça ele foi para seu quarto, os pais tinham comprado apenas um pedaço da casa que era dividida em diversos apartamentos, mas mesmo assim era maior do que a antiga deixando que Cain tivesse um quarto só pra ele, era estranho dormir sem Abel resmungando a noite, mas libertador também. Ele entrou no quarto e trancou a porta suspirando e se jogando na sua cama, olhou o porta retrato no criado mudo que mostrava uma foto dele e seu melhor amigo que ficara na Califórnia e ao lado dele estava o boneco esquisito, Cain resmungou se virando de costas, seus olhos pesaram, mas ele não dormiu, pequenos passos interrompiam seu sono.
Ele se sentou na cama olhando em volta e viu a porta aberta, mas ele não a tinha trancado? Se levantou e saiu do quarto pronto para brigar com Abel por ter pregado uma peça nele com a história do boneco e dos passos, desceu as escadas ouvindo risadinhas até que chegou na sala de visitas com a mobília cara da sua avó e então ele viu uma porta aberta no meio da sala, só que não era uma porta que dava para outro cômodo, era pequena, mas se abria para um longo caminho iluminado. Estou sonhando... Pensou enquanto caminhava em direção a portinha, se inclinou e engatinhou pelo longo caminho até abrir outra porta que dava para uma sala exatamente igual a sua, se levantou e sentiu cheiro de frango assado, seu estômago roncou e ele seguiu seu olfato até a cozinha que estava bem iluminada e ele conseguia ouvir risadas quando abriu a porta se assustou por ver uma cabeleira ruiva sentada na mesa de jantar sorriu e correu na direção do seu amigo, mas estancou quando Jared se virou para ele porque aquele não era ele.
Era parecido, mas seus olhos não eram mais verdes e sim botões negros, Cain parou olhando receoso para o lado quando Abel se virou para ele revelando os mesmos olhos de botões de Jared e sorrindo disse:
- Fiz seu jantar já que você fez meu almoço meu querido irmão. – Cain ergueu as sobrancelhas enquanto Abel servia uma generosa colher de purê de batatas em um prato de porcelana. – Coma ou vai esfriar.
Cain deu de ombros atribuindo tudo ao seu sonho maluco se sentou e comeu enquanto Jared o observava com aqueles perturbadores olhos de botões, estava assustado, mas também estava faminto.
- Quem é você...? – Cain sussurrou soltando o garfo.
- Sou seu irmão ou melhor seu outro irmão, do Outro Lado sabe? – Ele disse "outro lado" como se realmente fosse um lugar, Cain franziu as sobrancelhas. – Todos têm outra família bobinho.
- Eu não sei... – Cain recuou olhando de esguelha para Jared.
- Por que você não vai brincar lá fora, meu irmão? – Abel se apoiou na mesa sorrindo. – Jared veio aqui especialmente para passar um tempo com você, apresente-o aos vizinhos eu lavo a louça para você.
Cain deu de ombros e se levantou com Jared o acompanhando.
- Então... – Ele começou. – Sonho maluco né? Você veio da Califórnia com esses botões no lugar dos olhos?
- Eu sempre os tive... – Jared franze as sobrancelhas e sorri. – Aqui desse lado todos temos olhos assim.
Cain bufou enquanto desciam as escadas para o andar debaixo com certeza o sonho se dava pelo boneco macabro, bateu na porta e esperou os passos arrastados do outro lado, a senhorinha atlética abriu a porta e sorriu, mas também não era ela porque tinha os olhos de botões, ela acariciou os cabelos de Cain que entrou sem cerimônia lá dentro o velho marido estava sentado com seu gato negro no colo, o gato diferente de todos ainda tinha olhos azuis felinos, Jared olhou em volta e se sentou em uma poltrona.
- Quando eu era jovem tinha cabelos como os seus. – Disse a vizinha velha, Cain prestou mais atenção nela. – Você adoraria me ver no meu tempo de fama menino.
- Você nunca foi famosa. – Chiou o velho. – Só pensa que foi, sua doida.
- Cale a boca! – A mulher rebateu arrumando o decote. – Eu fui uma grande atriz e você não pode provar o contrário.
- Por que não se apresentam para nós? – Jared indagou batendo palmas. – Cain adoraria voltar amanhã para vê-los.
- Pode apostar seu couro. – O velho respondeu sorrindo. – Amanhã volte e terá um show inesquecível.
Cain deu de ombros e se levantou saindo com Jared depois dos velhos alegarem que iriam se preparar para o show, seus olhos estavam pesados, mas ele não queria dormir naquele lugar estranho que era um sonho, Jared sorriu e lhe deu a mão o guiando de volta para a grande casa estava com tanto sono que não reparou no caminho de volta só se lembrou de Jared se inclinando para beijar sua testa e então acordou com o sol entrando pela janela, estava de volta no seu quarto real, Cain se sentou e suspirou. Tinha sido um sonho divertido afinal.
XXX
Naquela tarde Abel explorou a casa, tentou lhe dizer tudo que tinha descoberto e pediu para Cain que fizesse o almoço já que seus pais só voltariam no outro dia.
- Sonhei que você sabia cozinhar. – Cain disse enquanto quebrava um ovo. – E que também lavava a louça, mas era estranho porque você tinha botões no lugar dos olhos...
- Você deveria ter coisa melhor para sonhar... – Abel resmungou. – Mas se ficar com medo do boneco pode deixar no meu quarto.
- Não estou com medo. – Cain revirou os olhos.
Terminou a comida e se serviu com Abel que comeu em silêncio e depois se trancou no seu quarto, talvez Cain não devesse ser tão apático com ele, mas ele não conseguia, às vezes ele queria voltar a ser criança novamente.
Naquela noite ele dormiu rápido, pois queria sonhar novamente e assim como na noite anterior acordou em um mundo igual ao seu, mas com estranhos olhos o observando, Jared sorriu quando ele acordou e o guiou até o subsolo, hoje ele não estava tão falante.
Lá embaixo a casa empoeirada tinha se tornado um lindo teatro com milhares de cadeiras de veludo, ele e Jared se sentaram em uma parte escura e observaram o palco. O alarme soou três vezes e a senhora Mikayla entrou mancando, do outro lado o velho Charles também ficou em pé com muito esforço, os dois se moveram juntos abrindo um zíper as suas costas tirando suas peles flácidas e revelando jovens bonitos, ela realmente tinha cabelos vermelho como fogo enquanto Charles era bonito com uma beleza quase esculpida, mas fria. Cain se inclinou empolgado para ver o número que ambos executariam, mas mesmo com toda empolgação congelou quando Jared segurou sua mão, ele ficou com medo de se virar e encarar o amigo, continuou vendo os malabares dos dois velhos enquanto o outro acariciava sua mão devagar, era bom, mas ele sentia um certo desconforto em pensar nos olhos de botões o observando sem expressão... Ao final do show Mikayla entregou um cartão com uma marca de batom a Cain que era um convite para outro espetáculo: o do velho louco do andar de cima.
Eles subiram e Cain se assustou pela casa amarrotada e pequena do velho ter se transformado em uma tenda e ao invés de um homem raquítico ele encontrou um rapaz de faces encovadas e um olhar feroz, o homem agora também tinha um cabelo comprido amarrado no alto da cabeça, ao entrar ele entregou dois algodões doces a Cain sorrindo e depois desapareceu pelas cortinas vermelho sangue da tenda.
Jared riu e isso soou como sinos, Cain ergueu as sobrancelhas lhe entregando um dos doces, mas ele negou.
- O que houve? – Ele indagou, Jared riu novamente abrindo a boca e apontando para ela. – Você quer que eu te dê? – Ele consentiu.
Cain corou retirando um pedaço do algodão doce e tremendo o colocou sobre os lábios de Jared que sorriu, mas seus olhos de botão continuavam inexpressivos, ele fechou os olhos comendo devagar até que apoiou os dentes sobre os dedos do Cain, mas não o mordeu, sua língua roçou entre seus dedos e Cain puxou a mão bruscamente sua língua tinha a textura de língua de gato, ele jogou o algodão doce de lado e abaixou a cabeça, agora estava assustado e queria voltar para casa porque tinha se cansado desse sonho, ele recuou pisando em algo macio e caindo de costas, viu um rato se apressando para o show de seu mestre, mas não parecia tão divertido agora, ele se levantou e desceu as escadas do lado de fora da casa, voltaria para dentro e dormiria essa era sua decisão.
Quando chegou no térreo se assustou por ver uma garota sentada ao pé de uma árvore, ela tinha um rato nos lábios e os olhos azuis ferozes do gato que ele via sempre o observando da janela.
- Quem é você? – Indagou se aproximando da menina.
- Eu. – Ela soltou o cadáver do rato. – Não preciso de um nome, não sou como vocês humanos. – Ela sorriu. – E quem é você?
- Eu sou o Cain... – Ele sussurrou olhando para trás. – Por que você está no meu sonho? – E então ele reparou que os olhos dela não eram de botões. – Você não deveria estar aqui...
- Isso não é um sonho. – Ela apoiou o rosto nas mãos. – Por que você veio para cá?
- Não sei... – Ele encolheu os ombros. – É tudo tão estranho...
- Ele só quer ser amado e para isso vai tentar te comprar com mentiras, mas você sabe a verdade. – A menina se levantou e correu para o bosque que cercava a casa.
Cain suspirou e rumou em direção a sua casa, estava cansado desse pesadelo. Assim que entrou foi recebido por Abel que sorriu se inclinando para ele.
- Você se divertiu? – Ele abaixou a cabeça. – O Jared andou te chateando? Irei dar um jeito nele. – Abel sorriu e abraçou Cain acariciando sua cabeça. – Você está confuso, mas eu sei que isso vai ficar claro em breve, você só não percebeu porque é diferente.
- Diferente? – Cain ergueu a cabeça o encarando.
- Deixe-me mudar você assim será um de nós. – Abel sorriu mais inclinando a cabeça. – Assim ficaremos juntos para sempre e seremos irmãos unidos.
- Não sei... – Cain recuou fugindo de seu aperto. – Com tantos irmãos por que me escolheu?
- Eu gosto de você e sou seu irmão, Bell é sim... – Ele riu tampando os lábios. – Você é um menino muito bobo Cain.
- Não gosto de você... – Ele o encarou com raiva. – Você só arruína minha vida, é um estorvo... Eu queria que você não existisse.
- Não deseje coisas assim... – Abel estreitou seus olhos de botões. – Elas podem acontecer...
- Eu não me importo. – Abel riu surpreendendo Cain.
E depois o abraçou novamente Cain franziu as sobrancelhas estava sonolento novamente e tombou a cabeça sobre o ombro do irmão apagando de vez.
XXX
Quando abriu os olhos Cain estava de volta ao seu quarto cinza e pouco mobiliado, não parecia diferente, mas ele estranhou algo só não sabia dizer o que. Desceu e se assustou com os pais na cozinha.
- Pensei que não voltariam hoje... – Foi a primeira coisa que disse.
- Bom dia querido. – Sua mãe sorriu e passou por ele enfiando uma amora em sua boca. – Pensamos em fazer uma surpresa.
Ele deu de ombros e se sentou, seu pai lia um jornal na sua frente, seus olhos escuros concentrados nas letras impressas no papel, Cain apoiou o rosto nos braços e viu sua mãe realizar um balé para preparar o desjejum e então descobriu o que era o sentimento estranho de quando tinha acordado, se levantou e encarou o pai.
- Pai... – Oscar ergueu as sobrancelhas. – Cadê o Abel?
Oscar sorriu sem dizer nada e continuou com os olhos no jornal ele então se virou para a mãe que colocava pedaços de banana no liquidificador, Abel odiava banana...
- Mãe... – Ela o encarou. – Você viu o Bell...? – Ele murmurou.
- "Bell" querido? – Ela riu. – Por acaso é alguma namoradinha?
- Não... – Cain franziu as sobrancelhas.
Ausência era esse o sentimento que ele estava sentindo, Cain aproveitou que os pais estavam distraídos e subiu as escadas de novo indo até o outro quarto que pertencia a Abel e escancarou a porta: nada. Era um quarto cheio de caixas e sujeira... Cain recuou fechando a porta, o que ele fizera?
XXX
Ele tentou procurar por evidencias do irmão, mas nada parecia existir mais, ele subiu as escadas e foi ver se o velho do andar de cima se lembrava de algo, o homem magro e de aspecto doente apoiou o rosto nas mãos olhando para as nuvens sussurrou:
- Eu me lembro de um garotinho... – Seus olhos perderam o brilho e ele sorriu. – Mas faz muito tempo, ele e o irmão brincavam no bosque quando um caiu no poço.
- Caiu...? – Cain sentiu uma onda de calor invadir seu corpo depois sendo tomado pelo frio.
- Foi há muito tempo... – O velho se afastou do muro que cercava a entrada da sua casa. – Ele era meu irmão.
A porta se fechou com um estralo deixando Cain imerso no medo, então mais irmãos tinham passado por aquela casa, ele respirou fundo e desceu as escadas até o subsolo lá o casal discutia fervorosamente sobre o passado Cain se aproximou da senhora e disse:
- Você se lembra do meu irmão?
- Irmão...? – A velhinha franziu bem seus olhos aumentados pelas lentes dos óculos. – Eu me lembro de você e seu amiguinho, mas não sei se era seu irmão.
Cain a encarou exasperado ele estava ali a menos de um mês não tinha amigos e nem tentara fazer algum nas redondezas, se ela se lembrava de alguém era de Abel só não sabia que ambos eram gêmeos.
- Eu já vi esse olhar antes. – O velho disse se levantando com dificuldade. – Talvez você tenha mais sorte do que o outro.
Charles foi até uma caixinha de madeira e retirou um objeto estranho que se parecia com uma pedra normal, mas tinha um furo no meio ele também pegou uma chave vermelha enrolada em uma fita de cetim e entregou a Cain fechando suas mãos sobre os objetos.
- Só você pode trazer ele de volta.
Cain respirou fundo e consentiu, agradeceu ao velho e voltou para sua casa. Seus pais estavam no jardim, era como se ele fosse um fantasma circulando entre eles que não pareciam notar sua presença nem a falta do outro talvez ele quisesse isso no dia anterior, mas agora não soava como antes... Ele viu um lampejo azul e parou em frente ao muro da sua casa onde um gato negro o encarava acusadoramente, ou melhor, uma gata.
- Ele está lá, não está? – Ele sussurrou e teve a impressão de que a gata consentiu. – Você sabe como tirá-lo de lá? – A gata estreitou seus olhos. – Sei que eu errei e estou arrependido! – Ela se levantou e desapareceu em direção ao bosque novamente. – Agora sou louco e falo com gatos...
Ele suspirou e entrou em casa devagar, subiu as escadas para a sala de estar e se ajoelhou em frente a portinha, abriu-a e viu que só existia uma parede de tijolos maciça atrás dela, seu coração acelerou e ele caiu sobre as pernas. Se assustou com um barulho metálico e viu a chave vermelha do velho Charles cair do seu bolso pegou-a e a enfiou na fechadura girando uma... Duas... Três vezes, depois abriu-a novamente vendo um caminho sujo e empoeirado se abrir, respirou aliviado e retirou a chave da fechadura passando a fita de cetim sobre o pescoço e engatinhando para dentro do túnel.
XXX
Cain forçou a portinha do outro lado se sentindo amedrontado escutou o trinco chiar com seu peso, mas algo estranho aconteceu: a porta se abriu e ele desabou de cara no chão vendo um par de all star vermelhos na sua frente, ergueu o olhar vendo Jared o encarar, ele se sentou e o outro se abaixou para perto dele. Os cantos da sua boca estavam costurados para que ele sorrisse sem parar Cain arregalou os olhos e desamarrou os fios liberando sua expressão, Jared abaixou a cabeça em agradecimento Cain sorriu e segurou seu rosto com delicadeza.
- Você não é ele, não é...? – O outro Jared negou. – Que bom... – Ele sorriu tocando seus lábios com os dedos. – Eu gosto muito do seu outro eu, o verdadeiro. – Jared sorriu e fechou os olhos, assim ele se parecia muito com o seu Jared, Cain sorriu e se aproximou dele roubando um beijo, depois se afastou. – Obrigado por me dar coragem para falar...
O outro Jared o abraçou e depois se afastou segurando suas mãos ele olhou para trás: o corredor que levava a saída, Cain entendeu e se levantou consentindo, olhou uma última vez para ele e correu para fora, ele não sabia explicar muito bem o porquê, mas sabia que era a última vez que veria aquele outro eu do seu melhor amigo. Ele abriu a porta e não se surpreendeu por ver a menina de vestido preto parada de braços cruzados, ele sorriu e fechou a porta atrás de si.
- Você é um menino muito idiota! Seu miolo mole. – Ela esbravejou apontando pra ele. – Agora veja você tem que ser rápido ou seus pais vão perder um par de gêmeos.
- Como você vem para cá? – Sussurrou ignorando o último comentário dela.
- Não te interessa o que você precisa fazer agora é ir atrás do falso. – Ela se virou de costas. – Você tem que se apressar.
- Meu nome é Cain você sabe disso, pode me chamar pelo nome se quiser.
- Vocês são muito apegados ao seu nome é isso que os fazem idiotas. – Ela o encara e afina as pupilas. – Aposto que você já pensou muitas coisas erradas por causa do seu nome, ele diz muito sobre o que você pensa de você e não sobre o que você é realmente.
- Você é louquinha mesmo. – Cain debochou enfiando as mãos nos bolsos só então sentiu o frio da pedra do velho tirou ela do bolso a gata arregalou os olhos.
- Ooohh... – Ela se aproximou dele pegando a pedra. – Você tem sorte essa pedra é valiosa, vai te ajudar.
- E você? – Ela ergueu as sobrancelhas. – Vai me ajudar?
- Vou ajudar ao outro. – Ela cruzou os braços e sorriu. – Não a você.
- Tá bom. – Cain passou um dedo pelo furo da pedra. – O que eu tenho que fazer agora?
- Você não sabe? – A gata inclinou a cabeça. – Todos que vem para cá têm que passar por um grande desafio: ter que encontrar as almas das crianças perdidas antes de você.
- Antes de mim...? – Cain franziu as sobrancelhas.
- Não foram muitas e eu aconselharia começar de cima. – Ela apontou para o apartamento do velho. – A pedra vai te revelar a verdade.
Cain resolveu não questionar e subiu as escadas com a gata no seu encalço quando chegou em frente a porta respirou fundo e a abriu olhou para trás, mas a gata não entrou com ele. No interior da casa tudo cheirava a mofo e ratos gordos corriam pelo chão guinchando, Cain desviou de todos eles e segurou a pedra, ia mostrar a verdade... Ele olhou pelo furo e viu uma luz vermelha no final da casa, pareciam as luzes que eram usadas para enfeitar as casas no natal, ele foi até o homem de cabelos negros que agora não estava mais bonito e sim derretido como um boneco de cera, ele estava tão imóvel que Cain realmente acreditou que ele estava morto então esticou a mão a fechando sobre o colar com uma pedra vermelha, mas quando segurou-o entre os dedos teve o pulso agarrado pelo homem que ergueu seu rosto derretido fazendo Cain congelar.
- eLE NÃo É maIS SeU IrMÃo, DeiXe-O... iR...
Cain gritou tentando se soltar do aperto do homem, mas tudo o que conseguiu foi se debater inutilmente, ele então ouviu passos apressados e a Gata com um grito fincou uma madeira afiada no olho esquerdo do homem derretido que tombou para o lado sem soltar nenhum som, os ratos por sua vez guincharam e se transformaram em serragem, Cain apertou o colar no peito e respirou fundo.
- Você me salvou... – Ela bufou se afastando. – Obrigado!
Ele se levantou e a seguiu para fora com a Gata que não dizia mais nada, desceram para o subsolo onde o casal velho morava, Cain abriu a porta olhando o interior da casa que ainda era um teatro, dessa vez a Gata entrou com ele e para sua surpresa segurou seu pulso firmemente.
- Três toques para o show! – Ele ouviu a voz da velha em algum lugar. – As luzes irão se apagar...
Cain arregalou os olhos ouvindo um toque agudo que arrepiou seus pelos, a Gata começou a correr o arrastando, no segundo toque eles já estavam no meio do teatro indo em direção ao palco.
- OLHE PELA PEDRA! – Ela gritou sendo seguida do terceiro toque que fez o teatro cair na mais profunda escuridão.
Cain ergueu a pedra arfando, olhou ao redor e viu um brilho azul vindo na direção dos dois, por trás ele também ouvia passos desajeitados.
- ESTÁ COM ELA! – Gritou para a Gata que corria em direção a Mikayla.
Ele sentiu uma mão puxa-lo pelo colarinho e quase derrubou a pedra conseguindo segurar ela com a ponta dos dedos, caiu no carpete fazendo um som abafado depois sentiu um chute no estômago que o fez se encolher e sentir o gosto ferroso do seu sangue preencher sua boca, ainda não tinha se recuperado do primeiro golpe quando o segundo veio.
- SE LEVANTA!!! – Ele ouviu a Gata na escuridão, arregalou os olhos.
Cain rolou fugindo do chute, mas acertou a nuca em uma cadeira, se levantou cambaleando e buscando apoio para se defender, ouviu o homem se aproximando e usou a única coisa que tinha em mãos: a pedra. Com ela socou as cegas, ouvindo o grito provando que tinha acertado o alvo, ergueu a perna e deu um chute no velho o derrubando sem esperar correu na direção dos outros sons da sala, deu um encontrão com a Gata, sentiu isso pelos babados do vestido, ela agarrou seu pulso no escuro e o impulsionou para frente, Cain olhou pela pedra e só teve tempo de usar a mão que a segurava para agarrar o objeto pequeno que brilhava o arrancou e recuou agora puxando a Gata consigo, ouviu os gritos de ódio da velha enquanto eram seguidos, mas assim que alcançaram a saída nada saiu atrás deles, ele parou arfando e com os olhos lacrimejando de dor e pela repentina claridade.
- Mandou bem e estamos quites agora. – Ele sorriu para a garota que devolveu o sorriso.
- Quantas crianças caíram aqui...? – Ele sussurrou se levantando.
- Com seu irmão três. – Ela olhou para cima, o primeiro foi um garotinho pianista que se sentia muito sozinho e queria alguém para brincar. – Cain olhou o objeto que tinha arrancado da velha era um broche de ouro branco... – O segundo foi o irmão do velho, ele brigava muito com o pobrezinho que teve a brilhante ideia de fugir de casa, bem ele conseguiu, só não foi exatamente para Hollywood. – Cain revirou o colar nas mãos, será que era do menino? – Agora temos o seu irmão.
- Que veio parar aqui por minha culpa. – Ele suspirou. – O que foi que eu fiz...? Eu não deveria ter brigado com ele.
- Você fez isso por culpa do nome... – A menina o encarou. – Não é culpa sua, menino. – Ela apoiou sua mão no antebraço dele. – Peça desculpas e acredite que vocês vão sair daqui juntos.
- Mas foi minha culpa... – Cain respirou fundo e entrecortado. – Eu briguei com ele na escola, dei um soco na cara dele... – A Gata suspirou o abraçando. – Ele ficou tão triste comigo, tão magoado... – Ela dava palmadinhas nas costas dele. – E eu só me afastei...
- Peça desculpas primeiro a você depois a ele. – Ela sussurrou se afastando dele e secando suas lágrimas. – Vai melhorar tudo.
Cain a abraçou de novo enquanto fungava, depois que se recompôs eles subiram novamente, ao olhar para a casa Cain arquejou sentindo as lágrimas voltarem quando viu o par de all stars vermelhos amarrados sobre a porta. A Gata segurou seu pulso com força o lembrando de que o verdadeiro ainda estava vivo assim como os dois que eram reais. Ele abriu a porta e sentiu o estômago se embrulhar ao ver que a casa estava toda deteriorada como se estivesse abandonada, Cain respirou fundo e caminhou determinado em direção a sala de jantar pois sabia que ele estaria lá.
Os dois abriram a porta encarando aquele outro Abel agora magro e deformado, não parecia mais uma cópia perfeita e sim um desenho mal feito. Ele ergueu o rosto e franziu as sobrancelhas.
- Por que deixou o parasita vir com você? – Indagou se levantando de sua poltrona, Cain conseguia ouvir o tilintar de seus ossos enquanto ele andava. – Ela não vai te fazer bem, vai te infectar com mentiras.
- O que você fez com o meu irmão?
- Eu sou o seu irmão. – Ele exclamou apoiando a mão sobre o coração.
- Não banque o otário. – Cain resmungou se aproximando dele que recuou um passo. – Meu irmão não é um lixo como você. – Ele apertou a pedra entre os dedos. – Ele é divertido, é gentil, e diferente de você ele jamais seria um monstro!
Ele viu o garoto oscilar depois fechar a cara e ficar maior, Cain mordeu o lábio, mas não recuou porque sabia que precisava vencer o monstro se quisesse sair inteiro e com Abel.
- Por que você foi atrás das joias? – Ele sibilou.
- Porque eu quis. – Cain cruzou os braços. – Não podia? – Ele olhou em volta, Abel não estava mais na sua casa então só poderia estar ali em algum lugar.
- De que adianta se você nunca vai achar seu irmão? – Ele encarou a outro Abel. – Fique comigo que eu te darei amor e um lar de verdade, posso arrumar tudo por você Cain.
- Você realmente não entende, não é? – Disse. – Eu não quero tudo o que eu quiser. Ninguém quer. Não realmente. Que graça teria ter tudo o que se deseja? Em um piscar de olhos e sem o menor sentido? E daí? *
- POR QUE?!
- Porque ele é humano. – A Gata respondeu parando ao lado de Cain. – Humanos gostam disso e nesse ponto devo admitir que eles são diferentes dos gatos.
- PaRASitaaaa... – Abel sibilou se projetando para frente.
A Gata ergueu as mãos o arranhando sobre os olhos de botão que caíram tilintando no chão, o outro Abel segurou a Gata pelos ombros e a empurrou jogando-a em cima de Cain que bateu contra a parede oposta, sua visão escureceu devagar, mas ele não podia desmaiar agora, abriu os olhos e se sentou vendo a Gata novamente indo para cima de Abel sua cabeça latejava e um brilho insistente chamava sua atenção ele virou a cabeça e se encarou em um enorme espelho arregalou os olhos sentindo os dedos formigarem e erguendo a pedra para olhar pelo seu furo através dele o espelho piscava com as mais diversas luzes coloridas, fora um tolo como pode se esquecer que ele e Abel eram naturalmente o reflexo um do outro?
Cain se levantou e tomou uma distância segura fazendo isso arremessou a pedra que segurava no espelho que se partiu em milhares de cacos e se assustou com o berro de dor que vinha da criatura que agora não era nada parecida com Abel, ele olhou para os cacos em busca do irmão, mas não parecia haver nada ali o deixando confuso tentando entender para onde Abel tinha ido quando sentiu uma mão ao redor do pulso, a Gata o puxava passando pelo monstro que se contorcia em agonia.
- MEU IRMÃO...! – Ele gritou para a Gata quando ela o empurrou pela portinha.
- Ele já voltou! – Ela o empurrou com mais força o forçando a entrar no caminho empoeirado. – Vamos logo! Saia e não olhe pra trás!
Cain não questionou a ela o porque de não olhar para trás e engatinhou de volta pelo túnel sentindo pequenas criaturas roçarem nele no escuro. Sair do túnel foi mais fácil do que entrar, assim que passou ele retirou o colar do pescoço e ficou chocado ao encarar um gato preto ao seu lado, ou melhor: uma gata. Ele sorriu e fechou a portinha a trancando com a chave, depois se jogou no chão totalmente sem forças, isso tinha sido a maior loucura de sua vida! A gata preta se deitou sobre seu colo e ele ouviu passos apressados na escada, não se sentou para ver quem era, mas não precisou fazer isso porque Abel se entregou soltando um gritinho e correndo até ele.
- Você tá bem? – Ele perguntou se ajoelhando ao seu lado e olhando seu estado: rasgado, com sangue e cheio de pó. – Cain o que você...?
- Tá tudo bem... – Ele sorriu jogando um braço sobre o colo de Abel. – Senti sua falta... – Cain cobriu o rosto com as mãos sentindo seu rosto esquentar e os soluços cortarem sua respiração.
- Você tá me assustando seu esquisito... – Abel murmurou apertando sua mão o fazendo se sentir mais calmo.
- Me desculpa... – Cain o encarou. – Me desculpa por ser um babaca com você.
- É pra isso que servem os irmãos bobinho. – Abel se inclinou e lhe deu um beijinho na testa. – Não sei o que aconteceu com você, mas acho bom chamar um médico já que você deve estar delirando.
- Eu só preciso de um cochilo. – A gata que observava tudo miou indignada. – Nós precisamos de um cochilo. – Ele acrescentou se levantando e pegando a gata. – Você quer reviver os bons e velhos tempos e dividir o quarto comigo? – Indagou timidamente.
- Claro. – Ele sorriu. – Na verdade estava com saudades de dormir com você, dormir sozinho me assusta. – Abel riu se aproximando dele. – E quem é ela?
- Ela. – Cain sorriu subindo as escadas. – Gatas não precisam de nome.
- Se você diz...
Os dois conseguiram juntar seus colchões no chão e passaram a tarde conversando e relembrando o passado, Cain tinha se esquecido de como era bom ter um irmão e assim os dois continuaram a conversar até seus pais de verdade chegarem a noite com uma pizza e dessa vez se lembravam muito bem de terem filhos gêmeos.
E Cain nunca mais precisou abrir a pequena porta, mas carregava a chave em volta do pescoço para sempre se lembrar de que aquilo definitivamente não tinha sido um sonho.
XXX
* citação retirada do livro "Coraline"
XXX
Yey pessoas, pra quem tava cheia de bloqueios criativos foi um milagre escrever um especial UwU confesso que e tô desde o ano passado querendo um especial de halloween sobre Peter Pan, mas até agora não surgiu uma ideia ;w; mas tudo bem eu gostei pra caramba desse também :3
Eu tentei não focar tanto na história que já conhecemos e que tá no filme, mas mesmo assim ficou um conto grande ;A; eu realmente espero que vocês gostem e é isso -w-
FELIZ HALLOWEEN <3
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