Prólogo

  A escuridão da noite, assustadoramente confortável para qualquer olhar sonolento, por mais duradoura que seja, sempre acaba sendo transformada e iluminada pela bela e prateada luz que a grande Lua emana. Dentro da imensa floresta Mávros a situação não se difere. Todas as noites, após o Sol se por em um horizonte avermelhado, o ambiente abaixo das grandes copas das árvores se torna sinistro, mas, proporcionalmente belo, com vários filetes de luz branca que escapam por entre as folhas. Inesperadamente, essa específica noite possuía mais algumas características únicas.

  Um jovem de pele tão parda quanto os pelos de um kafé arkoúda*, não possuindo assim uma aparência comum para a sua tribo, principalmente por causa da sua grande cicatriz em forma de linha na maçã direita do seu rosto, e cabelos sujos pela poeira dos carvões que carregara durante os trabalhos diurnos, corria por entre as árvores e plantas do interior da floresta, com um intenso brilho que demonstrava a aflição e medo em seus olhos.

(Kafé arkoúda = urso pardo)

  Perdido entre um conjunto de obstáculos formado por troncos, galhos e outras plantas de menor porte, o jovem podia sentir o vento gélido da noite soprando por todo o seu corpo já próximos da exaustão, necessariamente porque apenas um short de panos remendados era a sua vestimenta atual. Os seus pés descalços latejavam cada vez mais forte sempre que pisava o solo selvagem da floresta, e, por mais que não parasse para conferir, ele passou a sentir como se um rastro de sangue estivesse manchando as suas pegadas. Assim como os seus pés que se feriam em pedras e raízes, seus braços e peito expostos possuíam várias linhas vermelhas das quais escorriam um líquido vermelho rubro.

  Sua mente não era mais capaz de discernir os diversos sons vindos de dentro da mata ao seu redor, pois o barulho de seus passos parecia preencher todo o espaço entorno dele. Mas, para a sua infelicidade, o som pesado que o acompanhava a quase vinte minutos era fácil de se perceber, e isso apenas confirmava para o garoto que ele estava sendo perseguido por algo que jamais antes vira.

  Os grandiosos e exuberantes deuses que tanto glorificara em sua infância pareciam ter lhe abandonado, sem motivos aparentes, naquela situação desesperadora.

"Por favor, me ajudem!"

  Incapaz de gritar em voz audível devido ao fôlego escasso por causa da corrida contínua, o garoto apenas direcionou os seus pensamentos em um pedido de socorro incessante, mesmo sabendo que os deuses eram incapazes de ouvir a sua mente. Mas, no ponto mais profundo de sua consciência assustada, o jovem fugitivo sabia que haviam três mulheres capazes de conhecer até mesmo os seus pensamentos futuros, e apegado a essa frívola esperança, ele continuava o seu clamor mental, torcendo para que as moiras decidissem mudar o seu cruel destino.

  Seus pensamentos se repetiam como as curvas de um infinito labirinto, e, em sua cabeça, algumas cenas da sua vida começaram a surgir tão de repente quanto o ar sumia de seus pulmões doloridos.

  Entre as imagens que o medo da iminente morte criava em sua mente, ele se recordou da época em que corria entre as árvores ao redor de sua casa que ficava no limite do vilarejo de Típhia, um pouco antes da entrada da floresta.

  Naquela época a sua vida era tão nova e inocente quanto os olhares dos filhotes de arniá* que sua família criava. Sua existência na terra era igual ao tempo de três ou quatro primaveras, e ele corria com seus irmãos enquanto estampava um sorriso ingênuo em seu rosto. Sua mente desejou retornar para aquela época. Sua alma desejou poder correr feliz e tranquilo mais uma vez, ao invés de brincar de pega com a morte.

(Arniá = cordeiros)

  "Por que isso está acontecendo?"

  Sua memória feliz foi logo sobrepujada por um cenário oposto. Num piscar de olhos ele se viu amarrado em um tronco cortado e fixado em uma pequena estrutura elevada no centro do pequeno vilarejo, cercado por todas aquelas pessoas que um dia se orgulhou de considerar como sua própria família, mas que, infelizmente, agora lançavam-lhe, ofensas e injúrias, acompanhadas de uma pequena de cascalhos e galhos secos que feriam a sua carne, deixando hematomas e cortes por todo o seu corpo.

  Pouco antes de alcançar sua maioridade, ele foi injustamente acusado de causar um pequeno massacre, o qual, supostamente, fizera em busca de um objetivo egoísta e pessoal. Não haviam provas reais do tal crime, e muito menos motivos, já que a sua família fazia parte do grupo de pessoas assassinadas naquele dia fatídico, mas, uma infelicidade lhe havia acontecido: uma tatuagem negra surgiu em sua mão esquerda, criando a imagem de uma lâmina curvada que transpassava da palma até o outro lado da mão. Uma marca colocada pelos deuses em seu corpo, que definia erroneamente a sua identidade como a de alguém ligado a própria morte.

  As pessoas do vilarejo, tomadas por uma tristeza e rancor inexplicável, espancaram o jovem antes de amarrá-lo naquele tronco, e quase o mataram apedrejado ali mesmo, mas, por intermédio do representante da cidade, não o fizeram, apesar de desejarem. Aquele homem não havia os interrompido por pena do garoto, mas, apenas para a sua própria satisfação, já que a sua filha única também havia sido assassinada.

  O sentimento de desespero se cravou na alma do garoto aquele dia no exato momento em que viu o olhar daquele homem. O representante de Típhia era sempre bondoso e alegre, e possuía o sorriso mais belo e sincero da cidade, mas, quando ele olhou para o garoto amarrado, seus olhos brilharam com a cor do ódio, e sua face passou a representar o imenso nojo e desprezo que ele sentia.

  Para que o garoto pudesse viver mais um pouco, sofrendo a devida punição por seus atos homicidas, foi proposto diante de todo o vilarejo que o tornassem o sacrifício vivo daquela estação. Normalmente, o sacrifício era realizado com animais nascidos e criados exclusivamente para o ritual de passagem das estações, mas, não havia sequer uma lei que proibia o uso de uma pessoa no lugar. Muito pelo contrário, o ritual era originalmente feito com pessoas, para ser mais exato, com os prisioneiros capturados durante os períodos de guerra.

  Algumas pessoas chegaram a considerar aquela possibilidade como algo desumano e cruel, mas, após um curto e intimidante discurso, o representante convenceu a todos que não havia uma maneira melhor de fazê-lo sofrer o que era necessário.

  "Eu juro que eu não fiz nada, então por quê? Por que tinha de ser eu?"

  Desde o dia do tronco até o ritual de passagem, que ocorria na última lua cheia da estação, havia se passado cerca de duas semanas, e todos esses dias o jovem passou amarrado no centro do vilarejo, tendo direito apenas a uma refeição pra cada ápice solar.

  Agora o garoto se encontrava dentro daquela assustadora e sombria floresta, após ser solto ali dentro para ser devorado por algum tipo de criatura desconhecida, durante a última noite do inverno.

  Estava frio abaixo das árvores, mas o suor se espalhava por seu corpo sem nenhum sinal de hesitação. Apenas os deuses sabiam o quanto ele estava correndo naquele ponto, pois já se completava quase uma hora que ele estava mantendo aquele ritmo acelerado, apesar de seu corpo não aguentar mais um passo.

  O esgotamento então surgiu e, após dar um passo em falso, ele caiu rolando no chão, batendo as suas costas em uma grande rocha, com o pé enganchado em uma raiz. Sua cabeça agora doía mais do que ele imaginava ser possível, e o seu fôlego quase no fim, o deixava com uma dificuldade imensa para respirar e se levantar. Sua visão, apesar de turva, estava acostumada com o breu da noite, então, enxergar os movimentos das plantas ao seu redor era bem mais fácil do que gostaria.

  – Por favor...

  Sua voz rouca mal podia ser escutada por si mesmo e o desespero em seu peito continuava aumentando à medida em que aqueles movimentos se intensificavam, ao mesmo tempo em que se aproximavam dele cada vez mais. Um grito seco se formou vagarosamente na garganta do garoto, até se tornar algo insuportável de segurar após alguns segundos. Os movimentos na mata já estavam bem próximos dele, quando o som de sua voz finalmente saiu, esgotando o seu último fôlego contido em seus pulmões.

  – POR FAVOR, ME DEIXA EM PAZ!

  Após o grito criado e moldado pelo seu próprio desespero, a respiração dele se descontrolou completamente, seus olhos se escureceram parcialmente, e todo o seus músculos estavam tão pesados quando um rocha média. A exaustão era extremamente assustadora, e o garoto precisou de quase um minuto para se recuperar minimamente.

  Sua mente se tornou um pouco mais clara quando o seu coração se acalmou e suas batidas normalizaram. O desespero sufocante ainda habitava com vida e força na sua mente, mas, um alívio gradual, semelhante ao banho de ervas relaxantes, começou a se espalhar por seus pensamentos e logo encontrou caminho para nervos de seu corpo quando o garoto se viu novamente em meio a floresta Mávros que, felizmente, agora se mantinha silenciosa e sombria, assim como deveria ser naturalmente.

  O garoto agora sustentava-se naquela pedra imensa que colidira anteriormente, enquanto forçava o seu pé para retirá-lo da raiz que havia provocado a sua queda. Complementando aquele cenário inédito, a luz suave da grande estrela noturna iluminava tudo ao seu redor, criando algumas sombras vivas entre as árvores  e plantas da floresta.

  Quando finalmente conseguiu soltar-se da raiz, o garoto se levantou apoiando uma de suas mãos na rocha atrás de si, e sentiu uma sensação nostálgica ao ver a paisagem ao seu redor. Ele estava no centro de uma pequena clareira, que formava um semicírculo em volta da rocha na qual batera. Ao se virar, ele percebeu que atrás de si também havia uma árvore realmente grande, mas, não o suficiente para alcançar o topo da floresta. Ela possuía galhos longos e com uma aparência forte, que se ramificavam de um tronco não muito extenso, porém, rígido o suficiente para conseguir sustentar os diversos galhos acima dele. Surgindo de alguns galhos menores, cercadas por folhas verdes vívidas, ele conseguiu ver algumas frutas pequenas e com um formato levemente arredondado.

  – Um pouco irônico, não é mesmo?

  Uma voz masculina, com um timbre firme e levemente amplificado, ecoou por aquela pequena clareira, fazendo com que o garoto se assustasse e realizasse um giro quase completo procurando por quem deveria ser dono daquela voz. Durante o movimento instintivo ele não foi capaz de enxergar ninguém ao seu redor, mas, uma coisa prendeu a sua atenção.

  Em meio às dezenas de sombras que se formavam a partir da luz da lua, centenas de pequenos brilhos com uma forte coloração alaranjada o encaravam atentamente. Com pouquíssimo esforço ele conseguiu distinguir aqueles brilhos como vários pares de olhos, pertencentes a uma quantidade absurda de rainhas da escuridão, conhecidas mais popularmente como kouks*.

  (Kouks: corujas)

  – Malditas aves sombrias, vocês não sabem fazer outra coisa além de assustar as pessoas?

  Um longo pio surgiu de um ponto mais a sua frente como se as suas observadoras tivessem escolhido responder a sua pergunta. Ignorando aquela resposta sinistra ele se virou, e tornou a observar aquele árvore, com curiosidade e nostalgia no olhar. O garoto tinha quase certeza que conhecia aquele lugar, mas, não era capaz de se lembrar de onde. Provavelmente aquele era mais um dos muitos lugares que visitou apenas em seus sonhos.

 – Te peço que, por obséquio, trate as nossas anfitriãs com o devido respeito. Você não reconhece nenhumas delas, porém, felizmente, todas essas belíssimas aves ainda se recordam de você; para ser mais específico, do cheiro tão agradável que surge através do seu medo.

  Aquela voz havia surgido novamente e, dessa vez acompanhada pelos pios de muitas kouks. Mais uma vez o garoto moveu sua cabeça em busca da sua companhia misteriosa, porém, dessa vez acabou encontrando o que parecia ser o dono daquela voz.

  Entre os galhos com mais kouks empoleiradas, uma sombra especifica se destacava dentro da própria sombra da floresta. Aquela figura possuía uma forma humanoide, mesmo que ainda fosse impossível de separar a sua silhueta da escuridão ao seu redor. Ela era formada apenas por breu, e até mesmo a luz da lua se extinguia quando tocava em cada um de seus traços.

 – E... quem seria você?

  O garoto se esforçou para que a sua voz soasse firme o suficiente para esconder seu medo, e forçou o seu corpo a manter uma postura corajosa, apesar do sentimento aterrador que incitava uma ideia em sua mente: aquele breu que o observava por entre as kouks, provavelmente era o dono do som que o perseguiu pela floresta durante um bom tempo.

  – Que falta de cortesia da minha parte! Além de te assustar, fui cruelmente rude e não me apresentei da forma que deveria. Eu sou um de seus amigos seculares; seria até considerável dizer que também sou um de seus únicos aliados. Todavia, para o meu próprio pesar, você ainda não possui nenhuma memória ou conhecimento sobre este fato!

  Diversas kouks dialogavam com pios e sons de asas batendo enquanto aquela voz se manifestava na escuridão da noite, acompanhando cada palavra com uma expressão sonora diferente.

  – Que Poseidon me acorrente no fundo do oceano se eu estiver mentindo, mas, acho que nós não nos conhecemos! – A voz dele saiu mais trêmula do que gostaria, mas, ele estava realmente se esforçando para manter a postura.

  – Que Hades também testemunhe sobre o quanto eu acredito em suas palavras. Creio eu que o seu desconhecer seja algo bastante compreensível! Já faz algumas estações desde a última vez que nos vimos.

  Naquela figura que antes apenas se via o breu sólido, surgiram dois brilhos avermelhados no local onde deveria ser os seus olhos. Aquele olhar começou a encarar o garoto semelhantemente às aves em volta, e mesmo a distância entre eles fosse relativamente grande, era possível de se sentir a firmeza e penetração daqueles brilhos escarlates sob a pele do garoto.

  – Pergunte para o grandioso Apollo, e ele te responderá que meus olhos nunca se cruzaram com os teus.

  O garoto tateava a superfície lateral da rocha atrás de si, buscando por um apoio melhor, para que pudesse se preparar novamente para correr, até que finalmente a sua mão encontrou algumas saliências na rocha, e ali ele segurou firme. Infelizmente, ele não era o único que estava prestes a se mover.

  Durante o curto espaço de tempo gasto em um breve piscar de olhos, aquela sombra se moveu de onde estava, parando subitamente na frente ao garoto.

  Agora que aquele ser estava próximo dele, era possível notar a grande diferença de altura entre os dois. O garoto, mesmo possuindo uma altura mediana, não chegava nem perto dos dois metros e meio que aquela sombra ostentava sobre ele.

  Quando aqueles olhos vermelhos vidraram no olhar do garoto, ele passou a sentir como se a própria morte estivesse o observando.

  Aquela sombra se aproximou ainda mais, e a silhueta que deveria representar o seu rosto encarou o garoto bem de perto, quase o tocando. A leve brisa causada pela respiração daquele ser provocava arrepios ao percorrer a pele do rosto do garoto, pois não existia calor naquele toque de ar; apenas o frio de um cadáver o acariciava.

  – É um fato quase consumado que essa carapaça de carne nunca me conheceu, todavia, nós dois temos a informação gravada em nossas de que o seu eu verdadeiro me reconhece independente da aparência que eu possa assumir.

  Apesar de sua voz soar forte, era impossível discernir uma boca se movendo em meio a toda aquela escuridão. Mas, uma boca definitivamente existia naquele breu, já que a cada palavra dita, um hálito frio e seco era sentido pelo garoto em seu rosto.

  – Carapaça? Por acaso, além de assassino, também me tornei um armadíllo* e não fui informado?

(Armadíllo = Tatu)

  O garoto se sentia pressionado por uma intensa aura invisível e, por um mísero segundo, suas pernas vacilaram, fazendo com que ele fosse ao chão novamente.

  – É desesperador saber que a pior situação aconteceu mais uma vez. Você ainda não é capaz de recordar sobre si mesmo, Thanatos?

  – Thanatos? Que o verdadeiro deus da morte te escute e poupe as nossas vidas, mas me desculpe pois, infelizmente, a única coisa de origem divina em meu corpo é essa tatuagem em minha mão.

  – Eu realmente estou me mantendo atento com relação as palavras que me direciona, e chego a concordar que até um certo ponto isso é uma inevitável verdade, mas, para a nossa preciosa alegria, nem tudo é tão simples quanto parece!

  O garoto estava sentado no chão e encarava aquele ser acima de si com um desespero que brilhava fortemente em seu olhar. Sua cabeça estava repleta de pensamentos negativos, onde a maioria mostrava a sua imutável morte diante da luz da lua, porém, novamente, uma surpresa maior acabou mudando um pouco o rumo de seus pensamentos.

  O braço direito daquela sombra se tornou visível como se estivesse saindo de um mar de sombras, e para o alívio do garoto, um braço humano agora se estendia em sua direção, como se quisesse ajudá-lo a se levantar. Pacientemente, a sombra ficou esperando com o braço estendido até que o garoto pegasse a sua mão.

  – Isso é confuso demais! Pensei que você tinha vindo até aqui para me enviar até o reino de Hades.

  – O tom irônico de suas palavras me indica que nós demos os primeiros passos com o pé errado. O próprio Hades sabe que minhas intenções primárias não causariam a sua morte.

  – Então... Você não vai me matar?

  – Podemos tentar resolver as nossas pendências pacificamente?

  O garoto estava claramente indeciso e a sua mente começou a se dividir sobre o que era o certo a se fazer naquela situação. Suas emoções entraram em conflito dentro de si como duas gigantescas ondas se chocando uma contra a outra, e nenhuma solução racional surgiu daquela briga interna. Por fim, ele agarrou aquela mão paciente à sua frente, se entregando ao destino do qual não poderia escapar.

  O braço que saía da sombra o ergueu facilmente, colocando o garoto de pé novamente e até servindo de apoio quando ele quase caiu mais uma vez.

  – Certo... Então como eu posso te ajudar?

  – Será deveras interessante se você for capaz de me explicar que árvore é essa.

  O braço apontou para a grande árvore que crescia atrás da rocha.

  – Confesso que ela realmente me parece familiar, mas, infelizmente, eu sequer imagino o nome dela!

  – Creio que pelo menos já escutou, alguma vez, sobre a Macieira da Areia? Seria mais que impressionante se conhecê-la por seu apelido singular: a árvore da Morte!

  – Se não me falha a memória, no meu vilarejo existem alguns livros e desenhos que contam sobre essa árvore, mas eu nunca tinha visto nenhuma pintura que se assemelhasse a essa árvore.

  – Ela é mais do que bela, concorda?

  – É uma árvore magnífica sim. Seus galhos refletindo a sincera  luz da lua parecem ter saído do interior do mais belo sonho.

  – É deveras irônico pois mesmo sem as suas memórias, você sempre acaba escolhendo estas mesmas palavras diante dessa visão!

  – Sempre? Como já te disse antes, juro pela minha alma humana , e não divina, que não te conheço assim como nunca avistei uma criatura como você.

  – Quando enfatizei com teimosia o fato de já nos conhecermos, estava a me referir sobre todas as suas vidas passadas. Talvez seja um pouco ingênuo e forçado da minha parte esperar que você se lembre, todavia, nós sempre nos encontramos neste mesmo lugar, quando se aproxima o seu último dia vivo.

  – Você disse que não me mataria!

  – Mais uma vez você acabou me interpretando erroneamente. Eu não busco por motivos para te matar, porém me vejo obrigado a tal ato, já que você não consegue recordar-se nem mesmo de uma das suas criações favoritas, Thanatos.

  O garoto não parecia tão desesperado quanto alguns momentos antes, mas os seu olhos ainda possuíam o brilho inegável do medo. Ele já estava aceitando aquela ideia terrível que sua mente vinha lhe mostrando. Seus sentidos pareciam desaparecer um pouco mais a cada segundo que se passava, e aos poucos, a floresta foi se tornando mais escura diante de seus olhos.

  Apesar de tudo que estava ouvindo e sentindo, ainda existia um resquício de esperança em sua mente, sendo o principal motivo para que seu corpo obtivesse o mínimo de força possível, como se já estivesse se preparando para um último movimento arriscado.

  – Realmente não existe nenhuma outra saída?

  – Se eu ainda habitasse em suas lembranças, talvez você pudesse sair vivo deste lugar. Por acaso você se lembra de mim, Thanatos?

  – É claro que me lembro de ti meu querido companheiro, eu nunca me esqueceria de você! Eu estava apenas brincando!

  – Se você ainda se lembrasse de tudo, saberia que eu simplesmente não tenho permissão para te deixar sair dessa floresta!

  O corpo do garoto estremeceu dos pés à cabeça. Ele já sabia que seu blefe não o levaria a lugar algum, mas a voz da sombra soou tão fria, que ele não pôde mais conter o seu medo com rédeas mentais que havia criado. Em um movimento desesperado, ele saiu correndo na direção oposta em que ambos estavam, se afastando cada vez mais daquela tal macieira de vidro, e da sombra que estava abaixo dela.

  Ele correu por alguns metros, mas infelizmente foi derrubado novamente quando um calor repentino atravessou a sua coxa esquerda, o fazendo gritar e se contorcer de dor e agonia. Uma flecha construída com a madeira negra das árvores da floresta Mávros e uma ponta de aço vermelho, provavelmente obtido nas minas de lava que ficavam quase do outro do lado do reino, fora atirada em sua perna e, ainda em atravessada em sua carne, criou um buraco do qual escorria bastante sangue de forma ininterrupta.

  Se passaram apenas alguns segundos e o garoto foi novamente erguido, dessa vez pelo pescoço, sendo mantido no ar por aquela mão humana, e foi obrigado a encarar aquele olhar vermelho mais uma vez.

  – Por quê? Eu te peço que explique por que você sempre insiste em agir da maneira mais ingênua possível? Não era extremamente óbvio que você nunca conseguiria fugir de mim? Então, por quê, Thanatos?

  A sombra parecia irritada e desapontada. Mais uma vez ela aproximou o seu rosto coberto por breu do garoto, e encarou o seu olhar amedrontado como se enxergasse seus pensamentos.

  – Para infelicidade de um de nós, eu sou aquilo que também é conhecido como ser humano. E meio que é um costume nosso fazer muita coisa idiota!

  O garoto estava se debatendo, tentando soltar-se daquela fortíssima mão, mas ele se sentia fraco demais para continuar lutando. Ele já havia perdido bastante sangue, o suficiente para que uma pequena poça se formasse no chão abaixo dele, e os resultados dessa perda já começavam a afetar os sentidos do garoto.

 – É do saber de Hades que eu não queria, Thanatos, mas já não existem outras saídas. Enquanto você não for capaz de voltar a ser o belíssimo deus de outrora, eu não poderei descansar verdadeiramente.

  – Te peço sinceras desculpas, pois, infelizmente, não será nesta vida que o seu desejo vai se realizar!

  Enquanto se debatia usando de suas últimas forças, o garoto agarrou a flecha em sua perna e a puxou, rasgando a sua carne com mais agressividade. A dor era extremamente alucinante, mas ele lutou para que não desmaiasse. Com a flecha em sua mão, ele encarou aqueles olhos vermelhos com severa raiva e cravou a ponta afiada no olho esquerdo.

 – Eu me pergunto por quê? Você não consegue mesmo entender que qualquer um dos seus esforços será de completa inutilidade?

  A flecha perfurou aquele olho vermelho com facilidade, e no mesmo instante, um liquido vermelho rubro começou a escorrer pelo corpo da flecha. Infelizmente, aquela mão não o soltou apesar da dor que aquele golpe com certeza criou, mas, pelo contrário, ela começou a apertar o pescoço do garoto com mais força, limitando o ar que chegava aos seus pulmões.

 – Isso tudo não passa de um grande desperdício de tempo! Você apenas está prolongando o seu próprio sofrimento.

  O rosto do garoto começou a ganhar uma tonalidade roxa, e seus olhos se tornaram cada vez mais vermelhos, devido à falta de ar em seus pulmões. Sua visão já estava parcialmente embaçada, e seu corpo agora começava a perder os movimentos.

  O garoto teve direito a uma última visão antes de seu último suspiro. Da escuridão que formava aquele ser, o braço esquerdo surgiu, mas, este era mais monstruoso e se assemelhava bastante com o braço de um arkoúda* adulto.

  (Arkoúda: urso)

  Na mão daquele braço peludo e monstruoso, um grande machado também surgiu, moldado em madeira negra e aço vermelho assim como a flecha que ainda estava cravada em um de seus olhos. Como se o corpo daquela sombra estivesse aumentando, a escuridão se espalhou ao redor dela, e escondeu o machado mais uma vez, que se ergueu atrás da sombra. O garoto apenas conseguia ver a base do cabo negro do machado.

  Aqueles olhos vermelhos encararam-no uma última vez, observando o brilho desesperado de seus olhos, antes da sua morte. Alguns segundos se passaram, e, no momento em que o pio de uma kouk ecoou pela floresta, a mão humana largou o garoto no chão, que teve um último segundo para observar a grande lua no céu que o iluminava ao mesmo tempo em que o abraçava naquele momento final.

  O machado ressurgiu mais uma vez, e em um movimento rápido decepou a cabeça do garoto sem nenhuma dificuldade. Antes que aquela lâmina afiada trouxesse a sua morte e levasse seu último suspiro embora, o garoto conseguiu ouvir a sombra dizendo algumas palavras de despedida.

  – Adeus, meu amigo Thanatos. Não foi nesta vida e talvez não seja na próxima, mas, nós certamente nos reencontraremos.

  – Ó,ti zei proérchetai apó káti pou péthane!

(Tudo aquilo que vive, vem de algo que morreu!)

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