A segunda sala
— Espera um pouco, calma. – mesmo sem conseguir lembrar o rosto dela, Fenrir sabia que estava falando sobre alguém muito importante – Como assim: “ela morreu”? – ele enfatizou a última frase, incrédulo do que havia escutado.
— Como assim o quê? Ela morreu! Não me dá mais motivos para ficar lembrando disso! – enquanto caminha ao lado de Fenrir pelo corredor levemente iluminado, Diaz mantinha o olhar baixo, evitando encarar o guarda.
— Você vai ter que me perdoar Diaz, mas eu preciso saber como que uma pessoa como a Leny morreu?! Ela nunca teve problemas de saúde, certo? E até mesmo a Santa gostava um pouco dela! – Fenrir insistia naquele assunto e mesmo que estivesse vendo o olhar melancólico de Diaz, ele realmente estava decidido a descobrir tudo.
— Ela morreu e é só isso porra! – Diaz estava ficando irritado com a insistência dele.
— Eu quero saber como! Ninguém apenas morre!
— Fenrir! – Júpiter, que até então se manteve calada andando mais à frente dos dois, se intrometeu na conversa ao perceber que ele estava passando do limite – Recentemente você recebeu algum trauma físico ou psicológico que te fez perder parte da sua capacidade de raciocínio?
— Eu só fiquei um pouco curioso! – ele mudou o seu jeito de falar como reação ao tom sério da sua superior, mas, ainda continuava insistindo no assunto – Faz muitos anos que eu não vejo aqueles que me tinham como amigo na infância, então é normal a minha preocupação!
— Isso é realmente preocupação? Ou apenas mais uma de suas curiosidades mórbidas? – Júpiter foi incisiva ao falar.
— Como assim mórbidas? – foi Diaz quem fez a pergunta.
— Parece que o seu querido amigo se interessa bastante por corpos mortos. – Júpiter falava enquanto andava sem olhar para trás.
— Anatomia é uma parte importantíssima da biologia! – Fenrir se defendeu como um aluno tark*.
(Tark = Nerd)
— Os prisioneiros ainda estavam vivos dentro dos calabouços! – a voz da mulher soava como uma mistura de seriedade e ironia.
— Mas quase todos morrem durante as torturas!
— Quer saber, só cala a boca Fenrir!
— E o que diabos isso tem a ver com a morte da irmã dele?
— Pelas barbas de Merlin! – Júpiter exclamou enquanto coçava o topo da cabeça, frustrada.
— Merlin? – Diaz mais uma vez se mostrou curioso com o que estava sendo dito.
— Júpiter gosta de histórias estrangeiras! – Fenrir soltou um leve riso enquanto falava – Ao que parece, Merlin é um mago lendário, com poderio semelhante ao de um deus. Mas isso é só mais uma história que os estrangeiros contam para as suas crianças crescerem com objetivos justos e empáticos.
— Já que você parece estar amando falar, então por que você não aproveita o momento e conta para ele como você se tornou meu guarda? – Júpiter tocou em um assunto que até mesmo ela queria evitar, mas, infelizmente, aquela parecia a maneira mais rápida fazê-lo perceber como estava agindo à respeito da morte da garota.
— Você sabe muito bem que esse é um assunto estritamente pessoal! – ele parecia irritado, mas, ainda assim, não impediu que Júpiter continuasse a repreendê-lo.
— Eu não sei muito sobre o passado de vocês dois, mas, não é lógico dizer que a morte de uma irmã também é um assunto muito pessoal?
Após a frase dita por Júpiter, o guarda pareceu finalmente notar o que estava fazendo de errado, e, calou-se, evitando mais perguntas indelicadas.
— Você se lembra, Fenrir? Talvez não, mas, desde pequeno você sempre acabava sendo teimoso, principalmente em situações como essa! – Diaz tentou forçar um riso, na expectativa de amenizar o clima tenso que havia surgido.
— Sério? Então eu realmente estava certa! – Júpiter também riu, com um pouco mais de sinceridade que Diaz – Agora a Europa me deve duas moedas de prata!
— Europa?
— Sim. Ela é a pessoa que está nos esperando do lado de fora.
— Nosso único reforço... – Fenrir não estava satisfeito com aquela situação.
Diaz acabou suspirando durante a última frase, mas, mesmo que fosse mais que evidente sua decepção, Júpiter apenas ignorou e prosseguiu falando para si mesma sobre a guarda que os esperava.
— Eu havia me esquecido de muita coisa Diaz. – o guarda agora falava mais amigavelmente – Talvez seja pelo tempo que passei sem pensar em nada do passado, mas, de qualquer forma eu me descontrolei, então me perdoa por isso.
— Fenrir. – Diaz respondeu com o mesmo tom amigável – Não vou mentir que isso me incomodou um tanto a mais do que eu gostaria, mas, se eu não te conhecesse de verdade, você acha mesmo que depois de todo esse tempo eu ainda te consideraria um amigo?
— Então... isso significa que você não está irritado? – Fenrir perguntou, perplexo.
— Sim, mas assim como nos velhos tempos, agora você me deve um pagotó*!
(Pagotó = sorvete)
— Tudo bem. Felizmente, aqui em Kentros é bem barato!
— Então você pode pagar todos que tá me devendo desde que somos crianças!
— Eu não me lembro de nada disso, então, logo não existe dívida. – Fenrir riu como uma criança e a sua risada fez com que Diaz lembrasse de quando ambos corriam pelo orfanato Star, causando o maior estardalhaço por onde passavam.
— Sempre foi assim, certo?
— Você quer dizer exatamente o quê?
— Quando um de nós dois arranja um problema, o outro sempre arruma um jeito de melhorar a situação!
— Igual aquela vez em que você tentou pedir a mão da Joy em namoro! – Fenrir não conseguia segurar o riso enquanto falava – Você passou a maior vergonha na frente da turma toda! – seu riso de criança preencheu o corredor escuro e até Júpiter se virou para vê-lo rindo sendo incentivada a sorrir para aquela cena, mas não disse uma palavra.
— Pior foi você que, para “melhorar” a situação, se declarou para a Rin enquanto todo mundo ria! – Agora Diaz também ria, fazendo com que ambos se tornassem duas crianças por alguns breves segundos.
— Isso não é coisa de se rir! Ela também me rejeitou e pode até não parecer, mas isso perfurou o meu ingênuo coração como um raio. – ele segurou o riso, forçando para soar o sério que conseguisse, o que apenas fez com que Diaz gargalhasse mais.
— Por favor, para de mentir Fenrir, todo mundo sabe que você só fez aquilo porque eu era seu amigo! Até a Santa falou isso durante as aulas!
— Sim, é verdade, mas mesmo que soubesse disso, a Santa ainda colocou nós dois na sala negra.
— Nem fala disso, me deu até um calafrio só de pensar naquele lugar amaldiçoado pelos deuses! – Diaz colocou as mãos sobre os ombros opostos à cada uma, fingindo se encolher de frio.
— Eu queria saber qual espécie de demônio teve a brilhante ideia de construir uma sala sem janela ou iluminação e trancar crianças medrosas lá dentro por horas?!
— Foi um demônio chamado de... Santa!
Ambos fingiram um arrepio e enquanto interpretavam duas crianças com medo, começaram a rir novamente.
— Diaz... Sobre o que você sonhou? – o tom de voz de Fenrir foi abaixando, e no fim, voltou a sua personalidade séria.
— O sorriso da Leny era tão bonito, né? – Diaz também abaixou sua voz que, diferente de Fenrir, apenas soava entristecida.
— Sim. Ela tinha o costume de sorrir em qualquer momento!
— Todas as manhãs, não importando se chovia ou não, a primeira imagem que eu tinha ao acordar era o sorriso dela; mesmo que viesse acompanhado de um longo sermão! – ele tentou forçar uma risada, mas essa também saiu melancólica.
— Sempre que nós éramos punidos juntos, ela sempre puxava minha orelha dizendo que eu devia deixar você resolver seus problemas sozinhos, para que assim você pudesse crescer mais rápido!
— Sério?!
— Sim, mas, ela sempre terminava o sermão me agradecendo, porque ninguém mais tinha coragem de fazer o que eu fazia.
— A Leny era incrível! – ele sorriu com a memória de sua irmã.
— Diaz... posso saber como ela morreu? – a voz de Fenrir agora transparecia uma verdadeira preocupação.
— Você lembra do dia que eu chamei a Santa por esse apelido, em voz alta no meio da sala? – enquanto em seus olhos começavam a surgir pequenas lágrimas, Diaz tentou evitar o assunto, mesmo sabendo que não tinha outra saída.
— Diaz...
— Aquele dia nós dois estávamos atrasados, como de costume por minha causa, e eu juro para você que eu esqueci que não era permitido chamar ela assim!
— Diaz...
— Mas eu nunca entendi direito isso! Ela trabalhava em uma das associações que passavam os dias cultuando os deuses e, por consequência, fingiam ser pessoas puras e santas.
— Chega...
— Até a Leny me disse que eu não estava errado quando a aula havia terminado, então... Por quê?
— Diaz, já está bom, vamos conversar disso outra hora e....
— Por favor, Fenrir, me responde... – as lágrimas já haviam começado a escorrer pelo rosto dele – Por que a Leny sempre sorria para mim? Ela sempre recebia as piores punições, porque ela assumia os erros que eu cometia sem saber. Por que aquela Santa nunca nos deixou em paz? Nós éramos só crianças que tiveram de crescer sem pais.
— Você sabe muito bem que eu não tenho resposta para tudo...
— Sabe o que é engraçado? A Leny prometeu que viveria uma vida feliz, independente das condições em que nos encontrássemos, mas, ela mentiu! Ela mentiu pra mim, porque quando eu a encontrei morta em nosso quarto, os seus olhos não tinham nenhum brilho e, seu rosto, apenas mostrava desespero!
— Espera, você tá dizendo que ela morreu no orfanato?
— Sim... Um mês após o seu sumiço, houve um evento no orfanato aonde diversos shows enfeitaram o espaço do orfanato por quase uma semana. Esse evento foi incrível! Tinha comida de sobra, bebidas adocicadas que eu nunca tinha provado e muitas pessoas, mais do que minha mente podia decorar. Infelizmente, junto dessas pessoas, haviam aquelas que todos chamam de enkli e que, mais uma vez, provaram que merecem o nome dado a elas. – as lágrimas ainda brotavam dos olhos deles, mas, seu tom de voz, começou a se tornar mais agressivo – No último dia do evento, diversos itens de valor foram roubados, inclusive objetos de família deixados pelos pais de algumas crianças, mas, “felizmente”, ninguém foi machucado, ou era o que os adultos pensaram.
— A Leny, foi assassinada?
— Se as Moiras fossem um pouco mais misericordiosas... – o garoto soltou um suspiro depois de falar.
— Como assim?
— Encontrei ela morta dentro do nosso quarto, junto do demônio em forma de homem que estava em cima dela, usando seu corpo como um objeto de prazer!
— Você a viu sendo...
— Ela já estava morta quando abri a porta, mas mesmo assim aquele homem continuava com a sua depravação, mesmo que o corpo dela já não mostrasse reação alguma!
— Que merda, eu queria ser designado como o torturador desse cara!
— Infelizmente, você não vai ter essa satisfação! – Diaz fechou aos mãos, apertando-as como se quisesse socar alguma coisa.
— Ele já está morto?
— Esse maldito homem possui uma riqueza maior que a do orfanato e agora está andando livre por toda Típhia nesse exato momento, mas, completamente impune de todo mal que cometeu.
— Mas como ele escapou? Você não o viu?
— Eu vi sim, mas infelizmente, eu era só mais uma criança órfã, tanto que quando ele me viu, mal hesitou por alguns segundos e continuou no que fazia, até se sentir satisfeito!
— E você...
— Eu juro que tentei impedi-lo! Até hoje eu só consigo sentir uma intensa vontade de matar aquele desgraçado, mas, o chute que ele me deu deixou claro que meus socos mal o incomodavam! Infelizmente, eu bati a cabeça na mina cama e desmaiei logo em seguida, e quando eu acordei ele já havia sumido, deixando apenas uma cama bagunçada e ensanguentada, com o corpo da Leny desnudo e machucado!
— ...
— Pode até parecer que não tem como piorar, mas, mesmo que eu estivesse contando a verdade, alguns “juízes” do orfanato insistiram que eu era o culpado! Agora imagina, Fenrir! – Diaz se esforçava para segurar o choro mas alguns soluços o entregavam – Tenta entender, Fenrir, como foi para um garoto de minha idade, que estava prestes a completar a décima terceira primavera, ter que aguentar o peso dos julgamentos irracionais de adultos hipócritas e ainda continuar dormindo no mesmo quarto de sempre, sendo obrigado a lembrar daquela cena nojenta toda vez que ia dormir; isso quando eu conseguia dormir.
— Me desculpa Diaz, eu nem imaginava algo assim e...
— É claro que não, Fenrir! – Diaz começou a direcionar suas emoções para o guarda – Aonde você estava todo esse tempo? Se você não tivesse sumido sem avisar, talvez...
— É melhor você nem terminar essa frase, Diaz! – Fenrir rebateu com o mesmo tom que ele – Eu sei meu erros melhores do que você, então, por favor, não ouse colocar mais um peso nas minhas costas!
— Se você sabe tanto assim sobre si mesmo, por que você nunca voltou? Nunca mandou uma maldita carta?
— Diaz, nem tudo é tão fácil quanto parece! Depois de tudo que já te aconteceu, você deveria ser capaz de entender isso.
— Eu não sei merda nenhuma! – Diaz quase gritou, mantendo um pouco de controle em sua voz – Se eu soubesse mesmo, você acha que eu estaria aqui? Eu estou sendo acusado sobre algo que eu nem tenho conhecimento. Me diz, Fenrir, se eu tivesse mesmo essa benção proibida, você acha que eu teria deixado que me batesse tanto?! – ele apontou para os hematomas e cicatrizes em seu rosto, mas, se calou, ao perceber que sua pele estava intacta e sem nenhuma vermelhidão – Droga! Eu não sei nem se eu estou ferido ou não!
Diaz havia começado a transbordar todas as emoções que ele reprimiu desde que havia sido acusado pela primeira vez. Suas mãos começaram a tremer devido a raiva que surgiu, e soltando tudo de uma vez só, deu um soco na parede escura, fazendo ressoar o barulho de um curto estalo.
— A Leny uma vez me contou uma coisa que até certo ponto pode ser vista como engraçada. – Fenrir voltou ao seu estado calmo, e sua voz transparecia a empatia que sentia por Diaz – Ela te chamou de mentiroso e disse que você é muito idiota!
— Como assim? – surpreso, Diaz encarou Fenrir, ainda com um olhar irritado.
— Você achou mesmo que ela não ia descobrir? Todo mundo sabia, como ela não ia saber?!
— Do que você tá falando...
— Realmente, você é bastante ingênuo! – Fenrir sorriu de forma irônica – No Star, todas as crianças eram dividas em duplas ou trios, que dividiam o mesmo quarto de forma igual, e todos sabiam disso, fazendo parte ou não do orfanato. Mas, dentro do orfanato existia uma outra lei.
— Cinquenta por cinquenta...
— Isso... Dentro das duplas ou trios, os bens eram divididos em partes iguais, independente do parentesco. Dessa forma, todos possuíam as mesmas coisas, e o tratamento se tornava aceitável para todos.
— Então ela descobriu...
— Uma coisa sempre chamou a atenção de todo mundo, Diaz. Apenas uma criança em todo orfanato ganhava um conjunto inteiro de roupas todo mês. – enquanto falava, o guarda começou a contar os dedos da mão direita, enumerando os seus pensamentos – Apenas essa criança tinha uma parede pintada da cor que ela queria em seu quarto. E você sabem bem quem era essa criança, certo?
— Leny...
— Apesar de muitos sentirem inveja, ninguém nunca disse nada.
— Pois todos sabiam, né?!
— Sim. A gente sabia que você usava sua parte de tudo, para que ela tivesse uma infância melhor, mesmo que isso te custasse um travesseiro durante as noite ou um lanche de verdade.
Diaz parou de andar e ao apoiar suas costas na parede negra, deixou que seu corpo desabasse aos poucos, até que estivesse sentado no chão de pedra. Colocando as mãos abertas em seu rosto, ele respirou fundo diversas vezes, se esforçando para controlar as batidas de seu coração acelerado.
— Talvez... Por isso... Ela sempre sorria... – Diaz mal conseguia segurar o choro, já que algumas lágrimas começaram a escorrer por seu rosto.
— Ela me disse uma vez, Diaz, que você era idiota por agir dessa forma, mesmo sendo o mais novo. Ela me perguntou o que ela podia fazer, já que quem deveria cuidar de você era ela, e não o contrário.
— Eu não deixei nenhuma opção para ela, né?
— Sim. A única coisa que ela podia fazer era sorrir. Você foi bastante egoísta, Diaz! – A voz de Fenrir mudou durante a última frase, passando do tom sério pra um agressivo crescente.
— Eu não era egoísta! Eu só queria que ela fosse feliz! – Diaz não aceitava o argumento do guarda e enquanto suas palavras negavam aquilo, sua cabeça se movimentava, também em estado de negação.
— Ei... Diaz... Você não pensou em como ela se sentiria?
— Eu pensei que ela...
— Você pensou? Tem certeza disso, Diaz? Pois não é o que parece! Você sabia que ela sempre segurava o choro na frente de todo mundo? Pois ela não podia chorar enquanto você fazia aquilo tudo, e assim como as outras crianças, ela também não aceitava essa ideia.
— Eu juro pra você, Fenrir... Eu não esperava que ia ficar tudo assim! Eu só queria cuidar da minha irmã!
— Mas não adiantou, não é mesmo?! – a voz de Fenrir estava mais agressiva, e aquilo assustou a Diaz.
— Como assim?
— Ela está morta, não é? Me diga, você realmente acha que cuidou dela?
— Seu desgraçado! Você pode me chamar de qualquer coisa, mas, não ouse dizer algo sobre a morte dela... – Diaz mudou sua personalidade na medida em que a raiva surgiu em sua mente, mas, essa mesma raiva, foi soprada para longe quando ele ergueu o rosto para encarar Fenrir.
— Que expressão é essa Diaz? Parece até que você viu um stéki*!
(Stéki = assombro / assombração)
— Leny?! – ele mal podia acreditar em seus olhos pois na sua frente estava a sua falecida irmã envelhecida pelo tempo, com a aparência que provavelmente teria se ainda estivesse viva.
A garota para à sua frente possuía longos cabelos negros e a sua pele, levemente parda, recebia um tom um pouco mais escuro por conta da iluminação precária. A sua vestimenta era simples: um longo vestido branco que chegava a cobrir parcialmente os seus pés; o suficiente para que Diaz ainda pudesse ver que ela não estava calçada de suas costumeiras sandálias de couro simples.
O corpo de Leny parecia o de uma mulher adulta, com algumas levíssimas curvas em seus contornos, mas, curiosamente, ela estava mais magra do que deveria estar.
Duvidando de sua própria sanidade, Diaz olhou em volta procurando por Júpiter, mas, infelizmente, não encontrou mais do que a escuridão ao seu redor, sendo obrigado a encarar a sua “irmã” novamente.
— Ei, Diaz, por que você está tentando me ignorar? Você não sentiu minha falta? – por mais que a voz agora se assemelhasse as lembranças na mente de Diaz, o olhar cinza daquela garota não possuía vida e nem sequer piscava naturalmente.
— Você não é ela! Oh, Hades, por que prega essa maldita peça em minha pessoa? É impossível que você seja ela! Ela morreu, droga! – sua voz mostrava seu desespero e por maior que fosse a vontade de chorar, uma nova raiva começou a surgir em seu peito.
— Por que diz essas coisas horríveis para mim, irmão? Se eu não sou a Leny, então quem sou eu?
— Eu não sei, mas é impossível que você seja real!
— Por quê? Por que me recusa tanto assim, irmão? – a garota tentou sorrir amigavelmente para ele, mas os seus lábios formaram um sorriso macabro no lugar.
— Você nem consegue sorrir como ela! Então para de fingir ser o que você não é!
— Irmão...
— CHEGA! – Diaz se ergueu em um movimento apressado e guiado pela raiva que sentia novamente, direcionou um soco no rosto daquela pessoa, que apenas o atravessou como se acertasse o vento.
— Ei, Diaz, por que você tá deixando isso mais difícil? – aquele ser novamente voltou a usar o corpo e voz de Fenrir, mas mantendo-se com os olhos mortos, agora com uma tonalidade mais escura.
— Eu sabia! Sinceramente, eu me sinto até aliviado sabendo que você não é o stéki dela! – Diaz parecia mais calmo, apesar de sua voz ainda soar bastante agressiva.
— Me responde, Diaz, como você resistiu ao meu truque? – aquele ser não parecia está irritado, apenas curioso.
— Depois que a Leny morreu, durante um ciclo de estações, o verdadeiro stéki dela continuou me visitando à noite, sempre sorrindo alegre. Dia após dia e noite após noite. Mesmo que eu pedisse para ela ir embora, ela continuou comigo por mais tempo do que deveria!
— Eu deveria ter feito uma escolha melhor! Mas, tudo bem, seus amigos também irão te deixar, então eu poderei te procurar novamente! – o ser começou a se desfazer, como se um sonho estivesse chegando ao seu fim, e à medida que ele deixava de ser visível, Júpiter começou a aparecer no fundo, se aproximando de Diaz preocupada.
— Diaz! – talvez por alívio, ou outro sentimento que se encaixasse nessa definição, Diaz não respondeu, mas, correu em direção a ela. – O que aconteceu com você?
— Eu não sei! Eu estava conversando com o Fenrir, e de repente, ele se transformou...
— Na Leny?
— Como você sabe? – Diaz encarou Júpiter quando ela se aproximou o suficiente, e os olhos mortos que enfeitaram o seu rosto foram a resposta para sua pergunta.
— Eu disse que eu voltaria, Diaz! – aquela voz fez com que Diaz sentisse um arrepio.
Aquele ser abraçou Diaz, ainda manifestado no corpo da Júpiter, e, infelizmente, o segurou com força suficiente para que não se soltasse.
— Você sabia irmão, que eu morri por sua causa? – em um segundo, Leny surgiu no lugar de Júpiter.
— Isso é... Não pode ser... – uma voz melancólica saiu da sua boca trêmula, enquanto seus olhos se enchiam de lágrimas novamente.
— Aquele homem... fui eu que o procurei naquele dia...
— Impossível...
— Tudo isso porque você não deixou que eu vivesse a minha vida!
— Me desculpe, Leny! Eu só queria que você fosse feliz no Star! – Diaz agora chorava sem se segurar, abraçando Leny com bastante força.
— Eu sei Diaz, eu sei. Mas isso não muda nenhuma dos fatos!
— Mas, por que você fez isso?
— Ele me prometeu, irmão, que se eu o deixasse fazer aquelas coisas comigo, você teria um futuro garantido fora do orfanato! Mas, ele não cumpriu com a parte dele...
— Me desculpe, Leny... Me desculpe... Mas eu te prometo, que eu vou te vingar e...
— Você não vai Diaz, porque você vai morrer aqui!
A ficha finalmente caiu para Diaz, mas, antes que pudesse se afastar, aquele ser puxou uma faca que estava por dentro de sua roupa e o apunhalou bem no peito, na mesma direção que seu coração estava.
Diferente da lâmina prateada que rasgou sua carne na sala anterior, aquela faca possuía um calor desconfortável, que parecia queimá-lo de dentro para fora.
No momento em que foi perfurado, Diaz pôde sentir seu coração acelerando desesperadamente, enquanto suas veias estouravam devido a pressão que seu sangue começou a produzir. A dor era tão grande, que ele precisou se agarrar em suas últimas forças, para que um grito não saísse de sua boca.
— Ei, irmão, por que você é tão fraco? – aquele ser se afastou, deixando que Diaz caísse de joelhos com a mão no peito, segurando a faca ensanguentada que ainda estava cravada em seu corpo.
— Por... Que... Você fez... Isso? – com suas últimas energias, ele mal pôde sussurrar algumas palavras.
— Porque você é fraco! Enquanto você não despertar continuará sendo fraco e todos aqueles que ama ou admira, irão morrer, um atrás do outro.
Diaz conseguia entender as palavras ditas, mas sua cabeça não era mais capaz de discernir suas intenções. A cada segundo que se passava, ele sentia que a dor diminuía, fazendo com que seu desespero apenas aumentasse.
— Se torne mais forte Diaz... Ou você morrerá!
Após a dor sumir completamente, Diaz sentiu como se estivesse sendo arrancado de seu próprio corpo, e, gradualmente, sua vista foi se tornando turva até que perdesse totalmente a visão.
Sons, cheiros ou até mesmo toques. Diaz não era mais capaz de sentir nada disso e apesar de está com os olhos bem abertos, apenas uma escuridão sem que podia ver. A faca que antes estava em seu peito, de repente desapareceu, deixando uma sensação de vazio no ponto em que ele havia sido perfurado.
Em meio ao completo vazio, uma voz pôde ser ouvida surgindo do silêncio, repetindo uma mesma frase enquanto se tornava cada vez mais alta e entendível.
Diaz não ouvia literalmente àquela voz, mas conseguia compreender cada palavra dita. Não sabia de que ponto exatamente ela surgia, mas sentia sua mente preenchida por aquelas palavras.
“Aguente mais um pouco... Está quase na hora de acordar...”
Uma calmaria surgiu em Diaz, e, após alguns minutos ouvindo aquela mesma frase repetidamente, ele sentiu um toque em sua mão, como se alguém o puxasse em uma direção específica que ele não sabia dizer qual era.
Um calor o envolveu, e por alguns segundos, uma chama invisível queimou totalmente seu corpo, o transformando em um amontoado de cinzas.
Mesmo não possuindo um corpo, Diaz ainda se sentia presente e continuava escutando aquela voz.
Um vento frio surgiu, também de um ponto desconhecido, e soprou as suas cinzas para longe, deixando nada para trás, apenas a consciência de Diaz.
“Está quase na hora... Quase na hora...”
Mesmo após perder seu corpo, ele não sentia dor, medo ou raiva. Nenhum sentimento mundano era capaz de atormentá-lo.
“Finalmente... Agora está pronto... Agora você está completo... Ou quase completo...”
Como um gigantesco quebra cabeça, Diaz sentiu como se alguém estivesse o montando, peça por peça, sem pressa alguma. Pareceu levar anos até que seu corpo estivesse completo novamente, e os sentimentos mundanos voltassem a inundar sua mente.
“Agora você pode voltar... Você ainda é fraco, Diaz... Mas... Logo... Você estará completo...”
Como se um interruptor fosse ativado, todos os sentidos dele retornaram ao seu controle normal e a escuridão se dissipou, permitindo que Diaz enxergasse Fenrir e Júpiter, o encarando com um olhar preocupado.
Diaz estava deitado no chão e ao se levantar, viu que não estava mais no longo corredor escuro, mas, dentro de uma pequena sala, com uma iluminação precária.
— Fenrir... Quando foi a última vez que a gente conversou? – Diaz sentia como se sua cabeça fosse explodir, mas, para sua surpresa, sua mente estava completamente normal.
— Alguns minutos atrás... Eu estava te perguntando sobre a Leny, mas, a Júpiter impediu que eu continuasse... – Fenrir olhou incisivamente para a áster, que apenas o ignorou.
— Entendi...
— Diaz. – Júpiter fez com que sua voz soasse séria – Não sei exatamente o que você passou porque a experiência muda de pessoa para pessoa, mas, parabéns! Você conseguiu passar pela segunda sala!
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