Parte II
Ainda lembro de meu pai. Eu tinha só cinco anos, mas o rosto dele está perfeitamente desenhado na minha cabeça. Sua barba loura cheia, de chegar até o peitoral, os olhos verdes grandes e selvagens e as tranças que prendiam seus cabelos. Lembro do sorriso que distribuía para mim sempre que me treinava com a espada. E lembro de ver sua cabeça numa bandeja de madeira.
Foi por causa das marionetes de Ælfgar, disseram. Na verdade, meu pai, acabou se tornando uma. A mente humana é fraca, por isso, depois que você se torna uma marionete, é impossível se livrar. Seus próprios companheiros tiveram que o matar. E quando vi àqueles três homens encapuzados nos encarando, procurando uma brecha para roubar o cristal, lembrei de meu pai. Talvez, por um momento leve e passageiro, senti pena deles.
Então o sentimento passou e apertei minha mão sobre o cabo da espada. Afinal de contas, eu tinha uma missão.
Os três vultos cansaram de nos encarar e partiram para cima. Seguravam adagas curvadas pequenas. Estavam em silêncio e moviam-se com a agilidade e tenacidade de um guerreiro. Ælfgar, como sempre, não era tolo em tomar a mente de pessoas comuns, certamente controlava algum cavalheiro poderoso.
Quando menos percebi, estava completamente imerso na luta. Movíamos como dançarinas de uma taverna. Era uma dança leve, com passos silenciosos, sem a balbúrdia de uma batalha, o som metálico de espadas se chocando ou o urro de guerreiros. Parecia teatro, drama sob o luar crescente e as estrelas enfeitiçadas daquela noite. Merlin, o Senhor dos Druidas, nos assistia com seus olhos de mármore julgativos. Onde quer que ele estivesse, com certeza nos amaldiçoava por toda aquela algazarra no templo sagrado. Então me dei conta que lutávamos somente contra dois homens.
— Cadê o terceiro?! — gritei impaciente para um de meus homens. Recebi um olhar perplexo, provavelmente não deveria saber. Tentei manter a concentração na batalha enquanto meus olhos procuravam pelo desgraçado que desapareceu. O encontrei. Ele corria para fora do templo como um ladrãozinho de carteira. Também vi que o local onde deveria estar o cristal, estava vazio. — Me desculpem. — dei um chute num dos encapuzados, encontrei um espaço, um espaço pequeno, mas um espaço, então escapei deles. — Segurem as pontas aí para mim, por favor! — berrei para meus homens e corri até a marionete que fugia.
Iniciei a perseguição pelas vielas da cidade. Como conhecia bem cada canto recôndito da vila, não foi um problema e fiz com que a marionete pensasse que tivesse me despistado. Mais do que recuperar o cristal, descobrir onde seria seu destino poderia ser um ponto chave na luta contra Ælfgar. O que me levou até uma casinha soturna com uma porta de madeira podre. Apertei o cabo da espada. Estava pronto para descobrir, nem se tivesse que lutar. Chutei o carvalho. Um grupo de pessoas se mobilizou, me olhavam abismados. Não me atacaram, não, só ficaram ali, me entregando aqueles afiados olhares perplexos. Não demorei para perceber que era o grupo de aventureiros de Carwyn. Sim, como imaginado, lá, no meio de todos eles, meu irmão se encontrava.
— O que significa isso? — perguntei. Não consegui encarar os olhos de meu irmão, então prendi minhas írises em seus pés. — Você é uma marionete daquele bruxo também?
A voz de Carwyn se engrossou, engrossou de um modo que nunca havia visto. Mas senti que ele nem mesmo olhava para mim.
— Eu que deveria perguntar o que significa isso. O que ele faz aqui, Dyfed?
— Perdão, meu senhor. Pensei tê-lo despistado.
— É um erro que não podemos admitir. Não a essa altura do campeonato.
— Você não respondeu minha pergunta! — aumentei o tom. Agora senti seu olhar gelado derramar sobre minha cabeça.
— Você... — ele gaguejou — Você não deveria estar aqui.
— Mas estou. — suspirei. No final das contas, tudo, tudo começava a ficar claro — Acho que os deuses antigos, talvez o grande Artur tenha me conduzido até aqui. Ælfgar tomou sua alma. — apertei a espada — Agora vou matá-lo.
— Abaixe essa espada — ele disse, se aproximou de mim e tocou os dedos na ponta da lâmina. — A única pessoa que precisamos matar, é a Deusa.
Girei a espada. Cortei de raspão o dedo de meu irmão. De todas as coisas que imaginei que uma marionete de Ælfgar poderia fazer se tivesse posse do cristal, nunca se passou pela minha cabeça que uma delas seria matar a Deusa. Era óbvio, sem Gwent para nos proteger, o vilarejo ficaria vulnerável, não teríamos mais a barreira e o exército de Darach do bruxo poderia marchar sobre a cidade. Meu irmão mantinha-se bem perto, na distância ideal para que eu levantasse a espada e a cravasse em seu pescoço, evitando assim, esse futuro amaldiçoado. Mas sua voz paralisou meus músculos.
— Não acredite numa única coisa que essa... Deusa, tenha te dito. — o olhei de canto.
— E deveria acreditar em quem então? Em você? Que nunca esteve comigo. Gwent ao menos se tornou uma irmã para mim neste tempo todo. — enfim tomei coragem e encarei seus olhos. — Eu sinto muito, não estou com raiva de você. Você não tem culpa por se tornar uma marionete de Ælfgar.
Ele suspirou e escondeu o rosto com uma mão, parecia extenuado.
— Como eu poderia ser uma marionete de Ælfgar se a própria grande Deusa é ele? — congelei, meus olhos também. — Eu não queria te envolver nisso tudo, com certeza você acabaria morrendo. Mas acho que não tenho opção.
— Você está blasfemando! — o interrompi.
— Não, não estou. Afinal de contas, quem almeja tanto assim o nosso poder herdado de Camelot, é essa Deusa dos infernos. Por isso ela criou a barreira, por isso ela nos mantém presos aqui.
— Se ela quer nosso poder, por que não tomou antes?
— Muito simples! — ele virou as costas — Era uma vez uma Deusa que queria muito o poder de um povo milenar, de Camelot. Mas a população de Camelot estava em ruínas, deveriam ter quantos habitantes há mil anos atrás? Umas doze pessoas? Por isso ela os escondeu na floresta e os prendeu numa barreira, igualzinho um cercado para gado, sabe? E espalhou essa história de bruxo malvado, tudo para tirar a vontade deles de querer sair. Assim, ficaríam aqui, aumentaríam sua população e assim, daríam mais poder a ela no futuro. Mas sustentar essa barreira, acabou exigindo muito do poder dela. A Deusa está quase no limite e ainda não atingimos a quantidade que ela quer. — ele pausou, então desviou os olhos para o cristal avermelhado — A Deusa precisa de mais tempo, por isso precisa do cristal.
— Eu não duvido — respirei fundo — Não duvido da lábia de Ælfgar. — Então pus a mão no bolso e retirei o cristal vermelho — Nem do poder dele. Por isso quando me foi confiado essa missão, eu troquei os cristais lá no templo e coloquei um falso no lugar. E também é por isso, que irei devolvê-lo a quem sempre esteve ao meu lado. A Gwent.
Senti os homens de meu irmão apontarem suas espadas para mim. Ele fez o mesmo. Apertou os dentes e balbuciou:
— Me dê esse cristal, Tristan! Você vai nos condenar se devolver para ela.
— Me obrigue.
— Corto seu braço para pegar de volta. — ele apertou os olhos em mim — Gwent nunca esteve ao seu lado por que quis. Esse nem mesmo é o nome dela. Tudo o que ela tem feito é somente vigiar nossa família. Foi assim, desde o início de Cenawlot.
— Por que ela faria isso?
Ele suspirou. E escondeu o rosto com a mão.
— Me dê a droga desse cristal!
— Por que ela faria isso?!
— Porque somos descendentes de Artur. Não precisa acreditar se você quiser. — ele pausou — Não quero entrar em detalhes agora, mas nosso pai... Morreu por conta disso. Ele era um obstáculo para ela. Nós dois somos também. Ela não ficou ao seu lado porque é sua amiga, mas porque estava te fazendo de refém para mim, para que eu encontrasse o cristal e trouxesse a ela; afinal, como ela mesmo disse, você é um tesouro. — ele encarou a luz vermelha — Mas com isso, posso por um fim de uma vez por todas nessa maldição. Posso destruir a barreira e nos libertar.
— Vai destruir a barreira?
— Vou e também vou matá-la, Tristan. Então me dê a droga desse cristal!
Um vento frio chacoalhou as janelas de madeira.
— Ele não vai fazer isso. — um timbre agudo surgiu ao fundo da sala e, de repente, este se viu cercado por espadas que cintilavam a luz das tochas. Balbuciei perplexo seu nome. Era Gwent. — Me dê o cristal, Tristan, e vamos sair daqui. — hesitei. Ela apertou seus olhos em mim. Não eram mais olhos pequenos e generosos — Ælfgar tomou as almas deles. — ela disse, eu segui hesitando. — Tristan? — não reagi, nem movi a língua — Entendo, que pena que tenha chegado a isso. No fim, aquele sacerdote tinha mesmo razão. Agora, morram, almas impuras. — A Deusa estalou os dedos. Os corpos deles estilhaçaram-se como cacos de cerâmica, por toda a casa. Vi àqueles cabelos crespos escuros se mancharem de vermelho e as mãos se impregnarem com odor de ferrugem. Olhei para o chão, vi a cabeça de Carwyn. Então tremi.
— Por que você os matou assim? Carwyn estava certo? Você nos enganou esse tempo todo? Por quê? — ela se aproximou, com passos lentos. Me encarou por um instante. Seus olhos insípidos invadiram os meus e penetraram na minha alma me marcando como uma cicatriz. Ela passou a mão sob minha bochecha, manchando-a numa linha vermelha. Aproximou os lábios em meus ouvidos e sussurrou: “Eu gosto de ver a surpresa no rosto das pessoas”. Finalmente, pegou o cristal de minha mão e desapareceu dali como a fumaça cinza de uma tocha.
Fiquei preso em devaneios, sem acreditar. Como tudo foi mudar tão repentinamente? Antes meus olhos não conseguiam encarar Carwyn, agora não desvencilhavam-se dele. Então, desabei em lágrimas.
— Ainda não acabou, Tristan. — escutei uma voz familiar. Era o velho Dyfed. Corri para ajudá-lo. Seu corpo estava cortado pela metade, certamente não tinha muito tempo. — Me escute, Tristan. Você precisa sair daqui agora. Não sei porque Gwent não o matou agora, mas ela não é de deixar pontas soltas.
— Como eu posso sair daqui e abandonar todo mundo?
— Escute Tristan. Ainda podemos salvar o vilarejo. Ela não o tomará ainda, você sabe. E só há um modo de derrotar essa Deusa sem ser com o cristal. Só com o poder máximo do Rei Artur. Só com a Excalibur. Só precisa cravá-la no peito dessa Deusa maldita. — ele fraquejou — Não morra Tristan, se você ficar aqui e lutar, irá morrer. Você precisa nos vingar. Vingue seu irmão. Me vingue Tristan, pela casa de Lancellot Du Lac. — de sua mão, ele me entregou algo. — Com isso, conseguirá sair da barreira. — era o anel dos aventureiros. — profundamente angustiado, o deixei. A casa já ardia em chamas quando saí.
Deixei a barreira e, mesmo longe, nos confins de Cymru, da Britânia, ainda podia ver, além da fumaça negra intoxicante, as folhas da Árvore Da Misericórdia brilharem num cintilar ofuscante como nunca tinha visto antes.
A misericórdia que nunca existiu.
Afinal de contas, essa Deusa que tudo nos deu, tudo me tirou.
(1.871 Palavras)
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