XXV - O renascer de todas as coisas
☙ Capítulo XXV | Folhas de Outono ☙
"Um pedido prático de desculpas por ter sido grosseiro", Ernesto havia dito a Zahir - e que, ludicamente, havia passado o recado com precisão a Evelyn.
Ela nunca se esqueceria daquele dia.
Eve baixou o corpo para amarrar os cadarços de seu tênis de corrida, deparando-se com uma pequena flor branca na calçada. Havia muito daquelas flores pelo parque, erguendo-se acima das ervas daninhas; tão delicadas que Evelyn temeu deformá-las. Ela puxou uma delas, levando-a ao nariz. Seu miolo era levemente amarelado, e as pétalas brilhavam sob o sol que descendia aos poucos no horizonte.
Com a flor na mão, Evelyn voltou a sua corrida diária. Desde o começo daquele ano, ela se propôs a fazer uma caminhada aos finais da tarde - como uma forma de espantar pensamentos ruins que às vezes a cercava e manter-se disposta. O hábito melhorou suas noites de sono e a fazer se sentir bem melhor. Estar em meio a natureza também a agradava. Às vezes, ela participava de piqueniques em família com o pequeno Rafiq, Zahir e seu marido - ou quando Nicole e Giovanni a obrigavam a sair de casa aos domingos para fazer-lhes companhia.
Em geral, era um lugar agradável. Entretanto, a última pessoa que Evelyn pensaria em se encontrar naquele lugar era Ernesto. Mesmo a bons metros de distância, a moça o reconheceu de costas; mesmo com roupas tão atípicas - bermuda, camiseta e tênis de corrida. Evelyn tinha a sensação que poderia reconhecê-lo em qualquer circunstância - às vezes, podia sentir sua presença antes mesmo de vê-lo de fato - e aquilo sempre lhe gerava uma euforia indescritível. Parecia que ela conhecia cada detalhe daquele ser; mesmo que fosse apenas a parte física. Eve já havia desistido de tentar compreender a conexão que sentia para com ele; desde o primeiro momento e até mesmo antes de ver seu rosto. Nem tudo havia uma explicação, e ela aceitara o fato antes que causasse um pane em seu cérebro.
Hesitante, Evelyn se aproximou. Ernesto olhava para a lagoa apoiado ao deque de madeira. Os cabelos soltos e molhados desciam quase até os ombros, o que Evelyn achou particularmente charmoso.
- Não sabia que caminhava também - ela disse, sentindo as bochechas queimarem um pouco. Apoiou-se também ao deque, fixando os olhos em um ponto das águas ondulantes. Sentiu o olhar surpreso de Ernesto sobre ela.
- Ah, oi - ele disse baixo, ajeitando a postura. - Eu às vezes faço isso. Mas só às vezes.
Evelyn olhou para ele. O rapaz carregava uma garrafa d'água vazia na mão.
- Desculpe. Estou te atrapalhando? - ela perguntou.
Ernesto balançou a cabeça de imediato.
- Claro que não. - ele disse. - É bom te ver, Evelyn.
A moça sentiu seu estômago dar voltas.
- Hãnnhã - Eve balbuciou, envergonhada. - Eu...legal te ver por aqui. Não sabia que vinha aqui. Espera, eu já disse isso.
Ernesto riu baixinho, e a imagem daqueles dentes e sua boca se abrindo em um sorriso a fazia querer saltar naquela lagoa. Fazê-lo rir a deixava extremamente satisfeita. Para Eve, ele ficava ainda mais bonito sorrindo - e ainda mais bonito com aquela regata branca, os cabelos longos e...
- Meu irmão me convenceu que caminhar me faria bem - ele disse. - E não é que ele estava certo?
- Faço isso pelo mesmo motivo que você - Evelyn evitou olhar para ele e observou o sol, franzindo o cenho de imediato. Péssima ideia. - Além disso, gosto de contemplar a natureza.
- Bom, então parece que temos isso em comum. - Ernesto continuou.
Evelyn sorriu. Ele realmente parecia diferente. O que havia acontecido em um ano para que ele até seu semblante se tornasse mais expressivo? Ernesto parecia ter se libertado de uma pesada corrente que o prendia sem piedade. Parecia mais saudável, seu rosto com um pouco mais de cor - apesar de permanecer pálido - e o sorriso quase sempre ausente agora aparecia mais.
Eve poderia ficar observando-o ali por horas. Ela mal podia acreditar que ele estava tão próximo dela - e conversando com ela. Só podia ser um sonho. Às vezes; como naquele momento, Evelyn esquecia-se completamente o motivo de não poder olhá-lo tanto. No entanto, Ernesto não parecia estar se importando nenhum pouco com aquilo. Desde que ela admitira, no impulso, que havia se apaixonado por ele, Ernesto mudou seu comportamento bruscamente - como se não quisesse machucá-la. Não se aproximava tanto, mas também não ousava ignorá-la como antes.
Sem conseguir evitar, ela observou de soslaio seus braços alvos e lisos, passando para a mão que segurava a garrafa e a mão vazia. Ele usava usava dois anéis; mas nenhum deles estava no anelar. Eve arregalou levemente os olhos e desviou a atenção para a flor que ainda carregava.
O silêncio tornou-se tão desconfortável para ela que não se importou em dizer a coisa mais idiota que veio em sua mente:
- Os patos sumiram.
- Hmm - Ernesto murmurou. - Eles devem estar do outro lado. Percebi que eles não gostam muito de humanos.
- Eu os entendo. - Evelyn colocou os fios de cabelo atrás da orelha. - Se eu fosse um pato, também não ia gostar de seres gigantes, barulhentos e nojentos passando pelo meu habitat natural.
Evelyn teve vontade de enfiar sua cabeça mais uma vez na lagoa. Mas Ernesto riu baixinho mais uma vez - o que foi muito gentil de sua parte, ao julgar pelo seu argumento idiota.
- Então acho que sou um pequeno pato - ele disse.
Sem conseguir parar suas mãos agitadas, Eve coçou a cabeça.
- Eu ainda não te agradeci pelo café - ela disse. - Semana passada. Eu achei...legal da sua parte. É meu preferido.
- Não sabia de qual gostava, então perguntei à Zahir. - Ernesto contou. - Então, acho que meu pedido de desculpas foi aceito.
- Acho que é eu quem devo a maior parte das desculpas - Eve falou. - Desculpe.
Ernesto levantou a sobrancelha, descrente.
- Vamos combinar uma coisa? - ele sugeriu. - Não me peça mais desculpas. Está tudo bem. Estamos quites?
- Certo - Evelyn assentiu. - Desculpe. Quero dizer, tudo bem. Não vou pedir mais desculpas a não ser que...bem, eu faça algo chato a você. Não que eu, hã, quero ser seu amigo ou algo do tipo. Só estamos conversando.
- Hm. Está bem - Ernesto concordou. - Eu preciso ir. Vai para lá? - ele apontou em direção à trilha do parque.
- Sim. - Evelyn disse. - Minha casa é naquela direção.
- Eu sei. A minha também é - ele disse. - Quer me acompanhar?
Evelyn concentrou-se em não tropeçar nos próprios pés ao acompanhá-lo. Eles saíram do deque, pisando na trilha de concreto conforme alguns corredores passavam por eles. As árvores ao redor tinha suas folhas mais secas e galhos expostos, o que era de se esperar naquela época do ano. As folhas cobriam boa parte da trilha, deixando-a coberta por um tom marrom-alaranjado.
A moça pôde sentir o renascer de todas as coisas. Não só da natureza, mas também de um sentimento que havia tentado enterrar de todas as formas. Mas, como tudo que enterramos e regamos, haverá um dia em que as flores virão à tona. Evelyn se deu conta, então, que aquele mesmo sentimento ainda existia - porém, algo havia mudado. Eles não eram mais os mesmos. Nem Evelyn, nem Ernesto. A impressão que ambos tinham é que estavam se conhecendo pela primeira vez.
Como no mito de Pigmaleão, uma generosa Deusa do amor despertou sua apaixonante criação - que agora era tão real e tão palpável que Evelyn sentiu sua antiga paixão por aquele ser desconhecido vir à tona. Eve se vira, novamente, se apaixonando por Ernesto Hernández - dessa vez, tão real quanto as batidas de seu intenso coração.
- Gosta de damianas? - Ernesto perguntou de repente. Já estavam próximo à rua, onde o carro do rapaz estava estacionado.
- Hãn? - ela balbuciou, sem compreender a pergunta.
Ernesto apontou para a flor em sua mão.
- A flor.
- Ah - Evelyn ergueu-a. - Tem várias delas por aqui. Não sabia o nome.
- Acho-as engraçadas. Nascem em meio aos asfaltos - ele observou. - Eu gosto disso... Dá um ar menos melancólico e cinzento às ruas urbanas.
Evelyn sorriu timidamente quando pararam na calçada. Trêmula, ela estendeu a flor em sua direção. Estava mesmo dando uma flor a ele?
- Está um pouco murcha. Mas, hum... - Evelyn sentiu o dedo de Ernesto na ponta dos seus quando pegou a flor.
- Obrigado. - Ernesto parecia surpreso. - Nunca ganhei uma flor antes.
- Desculpe - Eve balançou a cabeça. - Quero dizer...De nada.
Ernesto franziu o nariz.
- Posso lhe fazer uma pergunta? - perguntou. - Tirando essa pergunta...
- Claro - Eve respondeu rapidamente.
- Acho que é um pouco inconveniente da minha parte perguntar isso, mas... Bem, isso não sai da minha cabeça - ele disse. - Você disse que se apaixonou por mim. Não me leve a mal, é que não consigo compreender.
- Eu também não - Eve admitiu, sentindo-se surpreendentemente confortável com aquele assunto. - Afinal, eu nem te conheço. Então, acho que não me apaixonei exatamente por você. Não que você não seja...agradável aos olhos.
O rapaz deu uma risadinha.
- Entendo. - ele concordou. - É verdade, não nos conhecemos. Eu diria que nosso encontro foi em um momento bastante conturbado. Talvez, se você soubesse quem eu era de verdade, não se apaixonaria.
- Eu duvido... - Evelyn soltou mais para si mesma, mas Ernesto ouviu. Se eu me apaixonei quando seu pior lado estava visível, eu duvido que eu não me apaixonaria de outra maneira, ela queria dizer.
- Você acha? - o rapaz perguntou.
- Acho que foi inevitável - ela confessou. - Lembro-me que meu maior desejo era te conhecer. Ou ao menos trocar uma palavra amigável com você, mesmo que jamais fosse meu amigo. E, agora...sinto que você é um pouco menos desconhecido. E não é nada daquilo que eu havia imaginado.
- Está decepcionada? - ele perguntou.
- Nenhum pouco - ela tentou reprimir um sorriso inutilmente.
- Pois eu diria que não me conhece o suficiente para afirmar isso - ele disse em tom brincalhão.
- Bem, e nem você me conhece - Eve retrucou.
Eles pararam na calçada. O carro de Ernesto já estava bem ao seu lado; aquela máquina de quatro rodas que Evelyn também sabia de todos os detalhes possíveis - desde a placa aos arranhões.
O rapaz tirou a chave do bolso, segurando a flor na outra mão. Depois, fixou seus olhos no rosto da moça; que já não se importava em estar vermelha como um tomate. Suas emoções estavam expostas por todo seu corpo - desde os olhos ao modo como ela falava. E Ernesto percebia isso.
Como na primeira vez que olhara aqueles olhos castanhos, Evelyn sentiu a adrenalina e o pulsar em seu peito congelar o tempo e o espaço ao redor. Em sua voz de veludo e sorriso tênue, Ernesto declarou:
- Pois eu gostaria de conhecê-la.
Epílogo
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